Henfil: Muita história para tão pouco tempo

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Oi, turma!

Tudo legal?

Pois… Para aqueles que, como eu, gostam de conhecer a história do Brasil e de não permitir que certas coisas sejam esquecidas — como as que aconteceram ao longo de 21 anos e cinco presidentes, se é que sabem do que estou falando —, hoje trago mais um texto de Rosani Martins sobre uma das personalidades mais importantes na luta contra a ditadura.

Henfil foi, naturalmente, um dos maiores cartunistas do Brasil, além de jornalista, escritor e muitas outras coisas que vocês verão abaixo. Lutou contra a ditadura de maneira muito sutil e inteligente, dando bastante trabalho aos “defensores da ordem nacional”…

Em 1972, por exemplo, a cantora Elis Regina fez uma apresentação para o Exército Brasileiro. Henfil, em uma de suas charges, “enterrou-a”, apelidando-a de “regente”, junto a outros artistas que, segundo ele, agradavam ao regime.

Bom, mas chega de comentários. Vamos ao texto, e deixo o restante para vocês:

Henfil: muita história para tão pouco tempo


Henrique de Souza Filho foi um brasileiro que poderia ser definido como uma personificação da identidade brasileira. Inteligente, criativo, ousado e dotado de um bom humor intraduzível, sabia fazer graça até com a desgraça. Antenado e pelo menos vinte anos à frente de seu tempo, tinha uma capacidade surpreendente de antecipar fatos e comportamentos.

Por tudo o que representa para a cultura brasileira, Henfil dispensaria apresentação. Contudo, diante da lamentável tradição de nosso país de esquecer personagens importantes da própria história, é necessário apresentá-lo aos leitores mais jovens.

Henfil foi um dos maiores cartunistas do país. Atuou como jornalista, quadrinista e escritor. As contribuições desse mineiro de Ribeirão das Neves podem ser encontradas em revistas como Alterosa, Realidade, Placar e O Cruzeiro. Entre os jornais para os quais colaborou estão Diário de Minas, Jornal dos Sports, Jornal do Brasil e O Pasquim.

Henfil criou personagens que ficaram famosos. Como não dá para falar de todos nem analisá-los com a atenção que merecem, o melhor é escolher aquele que mais representa o senso crítico e a preocupação de Henfil com a realidade brasileira.

Para isso, ninguém melhor do que a Graúna, uma ave pretinha, magricela, atrevida e que fala tudo o que lhe vem à cabeça. Ela retrata a miséria nordestina, o preconceito e o desejo de mudar essa realidade.

Henfil era um ferrenho opositor do regime militar, que combateu com muita criatividade, sutileza e inteligência. Entre os livros que escreveu, merecem destaque Diário de um Cucaracha, obra em que fala sobre o choque cultural e toda a discriminação que sofreu quando tentou conseguir espaço para trabalhar nos Estados Unidos, e as famosas Cartas à Mãe.

Nessas cartas, o escritor dirige-se realmente à mãe, atira para todos os lados, faz críticas ao regime ditatorial e cobra posicionamentos de personalidades brasileiras.

Henfil também passou pelo cinema ao escrever e dirigir o filme Tanga (Deu no New York Times?), obra em que critica os fatos que a imprensa inventa para que sejam aceitos como verdades pelos espectadores.

Por essa breve apresentação, dá para ter uma ideia de quem foi Henfil e do que ele representa para a história do país. Triste é constatar que esse corajoso brasileiro poderá cair no esquecimento.

Dentro das instituições de ensino superior, por exemplo, Henfil não é lembrado. Por conta disso, cursos como o de Comunicação Social e outros deixam de dar às novas gerações a oportunidade de conhecer o trabalho, o senso crítico e a competência de um personagem muito importante para a história do país.

Por quais motivos será que a obra e o legado desse brasileiro não encontram espaço nos cursos de Comunicação Social?

Desde que ingressam na faculdade, os estudantes dessa área aprendem que devem ser críticos, antenados e criativos. Contudo, ninguém se ocupa em mostrar exemplos tão importantes quanto o de Henfil, capazes de aguçar a sensibilidade e o humor desses futuros profissionais.

Henfil morreu há vinte e um anos, e hoje quase ninguém sabe nada sobre ele. Até a causa que abreviou a vida do cartunista está, pouco a pouco, caindo no esquecimento.

Henfil, assim como os irmãos Herbert de Souza — o sociólogo Betinho — e Chico Mário — músico —, era hemofílico. Os três foram contaminados pelo HIV em transfusões de sangue.

Eles não foram as únicas vítimas da falta de uma política de saúde voltada às questões ligadas ao sangue humano que marca o passado do país. Contudo, são exemplos que, por serem pessoas com visibilidade na mídia, acabaram contribuindo para a mudança dessa realidade.

No cenário atual, os cuidados com o sangue são realizados com muita responsabilidade, mas o descaso de um passado muito recente causou perdas enormes à nossa história.

Henfil, assim como os irmãos, morreu em decorrência de complicações provocadas pela aids. Viveu apenas quarenta e três anos e deixou uma vasta contribuição cultural, contando, de forma muito bem-humorada, a história do contexto em que viveu.

Sempre às voltas com os problemas ocasionados pela hemofilia e agravados pela contaminação, Henfil tirava forças da própria fragilidade para enfrentar o regime militar.

Talvez esteja aí uma possível explicação para o fato de o regime de exceção não ter calado a voz desse brasileiro. Henfil era doente, poderia não resistir a uma “correção” e provavelmente morreria logo. Os ditos defensores da ordem nacional pensavam assim e, enquanto esperavam pela morte natural de Henfil, acabaram permitindo que as críticas continuassem, sem falar naquelas que nem sequer eram entendidas pelo regime.

Quando Henfil morreu, em 1988, o regime militar já havia acabado, e as eleições diretas para presidente da República estavam marcadas para o ano seguinte.

Por ironia do destino, uma das maiores expressões do movimento “Diretas Já”, de 1984, não assistiu ao resultado de uma de suas maiores lutas. Essa só não pode ser considerada a maior luta de Henfil porque sua grande luta foi contra a morte, que sempre o ameaçava.

Henfil costumava dizer: “Viver é uma tarefa urgente”, e isso ele soube fazer. Em uma curta trajetória, deixou um grande legado. Cabe àqueles que sabem de sua importância contar essa história.

Rosani Martins


E, só para terminar, não se esqueçam de dar seus “pitaquinhos” nos comentários…

Abração!

Fernando

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