Categoria: Rosani Martins

  • Música — Sua voz — Rosani Martins e Fernando Zamboni

    Tempo de leitura: < 1 minuto

    Oi turma!!!

    Tudo bem?

    Espero que sim, porque aqui… tudo também,aaa…

    Acharam mesmo que, depois de um post sério como Doença de Creutzfeldt-Jakob: o que está acontecendo com Lito Sousa e o que são os misteriosos príons, eu não viria com alguma coisa mais light?

    É o que sempre faço nessa coisa aqui, e vocês já sabem,aaa…

    Hoje trago mais um poema de Rosani Martins que resolvi musicar.

    Sua voz fala de uma espécie de presença ausente: alguém que talvez não possa estar inteiramente conosco, mas cuja voz permanece como bálsamo, aconchego, abrigo e lembrança.

    Como diz a própria letra, é ter uma parte de alguém que não se pode ter por completo. E o coração, como se sabe, nunca foi grande respeitador dessas limitações administrativas,aaa…

    Espero que ouçam, curtam e gostem!!!

    Se o player não aparecer por aí, ouça Sua voz diretamente no YouTube.

    Letra — Sua voz

    SUA VOZ

    Sua voz! Bálsamo benigno, aconchego amigo.
    Sua voz! Remédio de minh’alma, a paz que me acalma.
    Sua voz! Abrigo de meus sentimentos, lembrança de doces momentos, não sai dos meus pensamentos.
    Sua voz! Você em meu coração, poema de minha canção, poder que me tira a razão…
    Sua voz! Amor maior que o meu, desejo que não esqueceu: VOCÊ, que não pode ser “meu”…

    A letra é de Rosani Martins, foi musicada por mim e recebeu arranjo criado com o Suno.ai.

    A obra está registrada no site Músicas Registradas, em nome de Rosani Martins e Fernando Zamboni.

    Espero que gostem!

    Abração e até amanhã, quando vamos trocar a poesia por teclas, cordas, martelos, pedais e alguns muitos quilos de madeira e ferro,aaa…

    Vamos falar de pianos!!!

    Fernando

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  • Tonga da Mironga do Cabuletê: O que será que vem a significar isso de fato?

    Tempo de leitura: 5 minutos

    Oi, turma!

    Revisitando meus textos antigos, encontrei esse. Eu estava com minha ex-namorada — e hoje uma grande amiga — ouvindo a Rádio Studio-RS quando essa música tocou. Claro que rimos um pouco, afinal, já conhecíamos a música. Mas aquela coisa ficou na cabeça: “dormimos com ela” e, no dia seguinte, resolvemos pesquisar para descobrir onde ficava esse tal “lugar”…

    E… “achamos”. Ou melhor, sei lá. Decidam vocês, lendo o texto que reproduzo abaixo, com um anexo do ChatGPT no final:


    Como prometemos ontem, eu e o Fernando decidimos explicar ou, pelo menos, tentar explicar o que vem a ser “A Tonga da Mironga do Cabuletê”.

    Como a explicação é realmente muito complexa e, ao que parece, tinha mais a intenção de confundir do que esclarecer, vamos dar uma ideia do que pode ter sido a intenção de duas “feras” da música brasileira que, em 1970, fizeram essa canção.

    “A Tonga da Mironga do Cabuletê” é uma canção composta pelo poeta Vinicius de Moraes e pelo músico Toquinho. Na letra, os autores afirmam, sem que isso seja comprovado, que a expressão seria uma espécie de xingamento em língua nagô. “Tonga”, segundo o Dicionário Aurélio, pode ser uma palavra angolana para terra a ser lavrada ou lavoura. É também um santomensismo depreciativo usado para designar descendentes de portugueses ou serviçais nascidos nas ilhas. “Mironga”, no candomblé e na macumba, significa feitiço, sortilégio ou bruxedo. “Cabuletê”, no mesmo léxico, significa indivíduo reles, desprezível ou vagabundo. Considerando esses vocábulos, a expressão poderia significar algo como: “A filha do feiticeiro feita pelo vagabundo”.

    Apesar de toda essa significação estrangeira, a expressão serve-se de vocábulos presentes na língua brasileira. Na verdade, ela foi uma provocação, em tom de brincadeira, aos censores da ditadura militar, que costumavam procurar, nas entrelinhas das letras, frases de protesto contra o regime vigente. “Tonga da Mironga do Cabuletê” não significa absolutamente nada. Como diria o criativo e bem-humorado apresentador Chacrinha, Toquinho e Vinicius não vieram para explicar, e sim para confundir. E, ao que parece, conseguiram.

    Parabéns a eles. Afinal, driblar a censura durante a ditadura, sobretudo no contexto em que a música foi composta, não era nada fácil. Para se ter uma ideia, os anos de Médici no poder passaram para a história como os chamados “anos de chumbo”. E foi justamente nesse contexto que a canção foi feita. Diante disso, não precisamos dizer mais nada, não acham?

    De qualquer forma, a música foi um dos maiores sucessos da dupla. Também foi gravada pelo cantor Monsueto e, naqueles anos, tornou-se uma expressão de uso bastante popular, à qual não se atribuía nenhum significado particular. Entretanto, constitui-se numa expressão sem sentido, mas com sentido poético dado pelo poema musicado — anônimo.

    Dizem os versos: “Você que ouve e não fala, você que olha e não vê, eu vou lhe dar uma pala, você vai ter que aprender a Tonga da Mironga do Cabuletê”. Em outra parte, a canção diz que o ouvinte deve viver “na Tonga da Mironga do Cabuletê”. E, para encerrar, acaba mandando-o para “a Tonga da Mironga do Cabuletê”. Sabe-se lá para onde eles realmente queriam mandar aqueles que não se levantavam contra o regime militar. E, o que é pior, não deve ser muito fácil buscar essa explicação com o próprio Toquinho, já que Vinicius foi para o “andar de cima”.

    De acordo com nossa pesquisa, Toquinho teria ouvido a expressão pela primeira vez quando estava na casa de Vinicius de Moraes, na Bahia. A então esposa do “Poetinha”, a baiana Gessy Gesse, havia chegado do Mercado Modelo, onde teria ouvido a expressão pela primeira vez.

    Em 2004, a cantora Daniela Mercury regravou a música em seu sétimo álbum de estúdio, Carnaval Eletrônico. Com isso, podemos ter, pelo menos, uma certeza: a música foi um grande sucesso, caiu na boca do povo que, mesmo sem entender, vivia cantando, e jamais foi esquecida. Tanto que uma cantora de outra geração, como Daniela Mercury, decidiu visitar o repertório de Toquinho e Vinicius e trouxe para as novas gerações essa irreverente canção, que usa e abusa da criatividade para protestar contra o regime ditatorial no Brasil.

    Então, quando você se sentir irritado com alguém ou com alguma situação, não pense duas vezes: mande logo para “a Tonga da Mironga do Cabuletê” e, de preferência, nem se preocupe com o real sentido da expressão. O importante mesmo é desabafar. E, com certeza, foi isso que os compositores fizeram.

    Fernando Zamboni e Rosani Martins

    18 de abril de 2010


    Uma atualização interessante: quando decidi “rever” esse texto para republicá-lo, lembrei-me de perguntar ao ChatGPT 3.5 o que ele tinha a me dizer sobre isso. As respostas foram as seguintes — um pouquinho diferentes das que encontramos em 2010, quando o texto foi escrito.

    Era o GPT-3.5; portanto, deem um desconto ao coitado,aaa…

    Fernando: Você pode me explicar de novo o que significa, ou poderia significar, o termo “Tonga da Mironga do Cabuletê”?

    ChatGPT 3.5:

    “Tonga da Mironga do Cabuletê” é uma expressão que foi popularizada por Vinicius de Moraes em uma de suas canções. O termo “tonga” pode ser uma referência a um tipo de embarcação, mas no contexto da canção, a expressão parece ter um sentido figurado, possivelmente relacionado a algo que é confuso, sem sentido ou misterioso. “Mironga” é um termo da cultura afro-brasileira que pode se referir a um objeto mágico ou ritualístico, ou simplesmente algo que é difícil de entender ou explicar. Já “Cabuletê” é um termo que pode estar relacionado a uma dança de roda ou a um local onde essa dança era praticada. Em conjunto, a expressão “Tonga da Mironga do Cabuletê” pode sugerir algo misterioso, mágico ou difícil de entender, com uma conotação musical e cultural afro-brasileira.

    Fernando: A frase em si poderia ser traduzida de alguma forma?

    ChatGPT 3.5:

    A expressão “Tonga da Mironga do Cabuletê” é uma construção poética e não tem uma tradução direta em outro idioma. Como mencionado anteriormente, a expressão tem um significado figurado e evoca elementos da cultura afro-brasileira e da música popular brasileira. Uma tradução possível seria uma interpretação livre que capturasse o sentido misterioso e poético da expressão em português, mas seria difícil preservar todas as nuances culturais e musicais presentes na expressão original.

    Fernando: Tente traduzir e vamos ver que frase se forma.

    ChatGPT 3.5:

    Entendo, no entanto, como se trata de uma construção poética, a tradução literal não seria adequada para capturar o verdadeiro significado da expressão. De qualquer forma, uma possível tradução livre para a expressão “Tonga da Mironga do Cabuletê” seria algo como “O mistério do encantamento do Cabuletê”, embora essa tradução não capture totalmente todas as nuances culturais e musicais presentes na expressão original em português.

    Fernando: E que raio significa “Cabuletê”?

    ChatGPT 3.5:

    A palavra “Cabuletê” é de origem incerta e não tem uma definição precisa. É um termo que aparece em algumas expressões e manifestações culturais afro-brasileiras, como a capoeira e a música popular, e pode estar relacionado a uma dança de roda ou a um local onde essa dança era praticada. Em todo caso, a palavra “Cabuletê” é um termo específico da cultura afro-brasileira e não é de uso comum na língua portuguesa em geral. Na canção “Tonga da Mironga do Cabuletê”, de Vinicius de Moraes, o termo parece ser utilizado para evocar um ambiente misterioso e encantado, mas a sua tradução exata ou significado preciso permanecem um tanto desconhecidos.

    Bom, de qualquer forma, foi pela vontade de voltar a alimentar a seção de humor dessa coisa aqui que resolvi publicar o texto novamente. Espero que tenham gostado da “versão nova”, até porque a antiga estava no blog da Rosani, que não existe mais. E não tem como republicar um conteúdo sem “revisitá-lo” primeiro e, claro, dar uma atualizadinha…


    Upgrade de 13 de agosto de 2026

    Hoje, dia 13 de agosto de 2026, fizemos um novo upgrade nesse post. Então resolvi perguntar ao GPT-5.6 Sol, em modo Work, o que ele diria sobre o assunto. Para não aumentar demais o tamanho dessa Tonga, pedi uma resposta curta:

    GPT-5.6 Sol:

    Hoje eu seria mais cauteloso do que meu antepassado digital. A expressão foi apresentada por Vinicius de Moraes e Toquinho como um xingamento em nagô e usada na canção como uma provocação à ditadura, permitindo mandar os censores para um lugar pouco recomendável sem que eles percebessem. O relato mais conhecido, associado a Gessy Gesse, atribui à frase um significado obsceno — algo como “o pelo do ânus da mãe”. A análise separada de “tonga”, “mironga” e “cabuletê” produz outros sentidos, mas não oferece uma tradução indiscutível para a expressão completa. Portanto, não: o mais provável é que Cabuletê não fosse uma dança de roda nem um reino encantado. Aquilo foi o GPT-3.5 visitando a Tonga sem GPS,aaa.

    Abração e até o próximo post!

    Fernando

  • Henfil: Muita história para tão pouco tempo

    Tempo de leitura: 4 minutos

    Oi, turma!

    Tudo legal?

    Pois… Para aqueles que, como eu, gostam de conhecer a história do Brasil e de não permitir que certas coisas sejam esquecidas — como as que aconteceram ao longo de 21 anos e cinco presidentes, se é que sabem do que estou falando —, hoje trago mais um texto de Rosani Martins sobre uma das personalidades mais importantes na luta contra a ditadura.

    Henfil foi, naturalmente, um dos maiores cartunistas do Brasil, além de jornalista, escritor e muitas outras coisas que vocês verão abaixo. Lutou contra a ditadura de maneira muito sutil e inteligente, dando bastante trabalho aos “defensores da ordem nacional”…

    Em 1972, por exemplo, a cantora Elis Regina fez uma apresentação para o Exército Brasileiro. Henfil, em uma de suas charges, “enterrou-a”, apelidando-a de “regente”, junto a outros artistas que, segundo ele, agradavam ao regime.

    Bom, mas chega de comentários. Vamos ao texto, e deixo o restante para vocês:

    Henfil: muita história para tão pouco tempo


    Henrique de Souza Filho foi um brasileiro que poderia ser definido como uma personificação da identidade brasileira. Inteligente, criativo, ousado e dotado de um bom humor intraduzível, sabia fazer graça até com a desgraça. Antenado e pelo menos vinte anos à frente de seu tempo, tinha uma capacidade surpreendente de antecipar fatos e comportamentos.

    Por tudo o que representa para a cultura brasileira, Henfil dispensaria apresentação. Contudo, diante da lamentável tradição de nosso país de esquecer personagens importantes da própria história, é necessário apresentá-lo aos leitores mais jovens.

    Henfil foi um dos maiores cartunistas do país. Atuou como jornalista, quadrinista e escritor. As contribuições desse mineiro de Ribeirão das Neves podem ser encontradas em revistas como Alterosa, Realidade, Placar e O Cruzeiro. Entre os jornais para os quais colaborou estão Diário de Minas, Jornal dos Sports, Jornal do Brasil e O Pasquim.

    Henfil criou personagens que ficaram famosos. Como não dá para falar de todos nem analisá-los com a atenção que merecem, o melhor é escolher aquele que mais representa o senso crítico e a preocupação de Henfil com a realidade brasileira.

    Para isso, ninguém melhor do que a Graúna, uma ave pretinha, magricela, atrevida e que fala tudo o que lhe vem à cabeça. Ela retrata a miséria nordestina, o preconceito e o desejo de mudar essa realidade.

    Henfil era um ferrenho opositor do regime militar, que combateu com muita criatividade, sutileza e inteligência. Entre os livros que escreveu, merecem destaque Diário de um Cucaracha, obra em que fala sobre o choque cultural e toda a discriminação que sofreu quando tentou conseguir espaço para trabalhar nos Estados Unidos, e as famosas Cartas à Mãe.

    Nessas cartas, o escritor dirige-se realmente à mãe, atira para todos os lados, faz críticas ao regime ditatorial e cobra posicionamentos de personalidades brasileiras.

    Henfil também passou pelo cinema ao escrever e dirigir o filme Tanga (Deu no New York Times?), obra em que critica os fatos que a imprensa inventa para que sejam aceitos como verdades pelos espectadores.

    Por essa breve apresentação, dá para ter uma ideia de quem foi Henfil e do que ele representa para a história do país. Triste é constatar que esse corajoso brasileiro poderá cair no esquecimento.

    Dentro das instituições de ensino superior, por exemplo, Henfil não é lembrado. Por conta disso, cursos como o de Comunicação Social e outros deixam de dar às novas gerações a oportunidade de conhecer o trabalho, o senso crítico e a competência de um personagem muito importante para a história do país.

    Por quais motivos será que a obra e o legado desse brasileiro não encontram espaço nos cursos de Comunicação Social?

    Desde que ingressam na faculdade, os estudantes dessa área aprendem que devem ser críticos, antenados e criativos. Contudo, ninguém se ocupa em mostrar exemplos tão importantes quanto o de Henfil, capazes de aguçar a sensibilidade e o humor desses futuros profissionais.

    Henfil morreu há vinte e um anos, e hoje quase ninguém sabe nada sobre ele. Até a causa que abreviou a vida do cartunista está, pouco a pouco, caindo no esquecimento.

    Henfil, assim como os irmãos Herbert de Souza — o sociólogo Betinho — e Chico Mário — músico —, era hemofílico. Os três foram contaminados pelo HIV em transfusões de sangue.

    Eles não foram as únicas vítimas da falta de uma política de saúde voltada às questões ligadas ao sangue humano que marca o passado do país. Contudo, são exemplos que, por serem pessoas com visibilidade na mídia, acabaram contribuindo para a mudança dessa realidade.

    No cenário atual, os cuidados com o sangue são realizados com muita responsabilidade, mas o descaso de um passado muito recente causou perdas enormes à nossa história.

    Henfil, assim como os irmãos, morreu em decorrência de complicações provocadas pela aids. Viveu apenas quarenta e três anos e deixou uma vasta contribuição cultural, contando, de forma muito bem-humorada, a história do contexto em que viveu.

    Sempre às voltas com os problemas ocasionados pela hemofilia e agravados pela contaminação, Henfil tirava forças da própria fragilidade para enfrentar o regime militar.

    Talvez esteja aí uma possível explicação para o fato de o regime de exceção não ter calado a voz desse brasileiro. Henfil era doente, poderia não resistir a uma “correção” e provavelmente morreria logo. Os ditos defensores da ordem nacional pensavam assim e, enquanto esperavam pela morte natural de Henfil, acabaram permitindo que as críticas continuassem, sem falar naquelas que nem sequer eram entendidas pelo regime.

    Quando Henfil morreu, em 1988, o regime militar já havia acabado, e as eleições diretas para presidente da República estavam marcadas para o ano seguinte.

    Por ironia do destino, uma das maiores expressões do movimento “Diretas Já”, de 1984, não assistiu ao resultado de uma de suas maiores lutas. Essa só não pode ser considerada a maior luta de Henfil porque sua grande luta foi contra a morte, que sempre o ameaçava.

    Henfil costumava dizer: “Viver é uma tarefa urgente”, e isso ele soube fazer. Em uma curta trajetória, deixou um grande legado. Cabe àqueles que sabem de sua importância contar essa história.

    Rosani Martins


    E, só para terminar, não se esqueçam de dar seus “pitaquinhos” nos comentários…

    Abração!

    Fernando

  • DIÁRIO DE PIERRE: A HISTÓRIA DE UM CAMPONÊS

    Tempo de leitura: 6 minutos

    Oi, turma!

    Tudo legal?

    Pois… Por aqui, tudo.

    Creio que, às vezes, ainda mais na situação atual — violência, desemprego, miséria e corrupção entre aqueles que deveriam governar em benefício do povo e, em vez disso, governam em benefício próprio ou das classes mais altas —, a gente se pergunta:

    — Onde estão os “grandes revolucionários”? Onde estão aqueles que realmente são capazes de “mudar o mundo”?

    Pois o texto que trago hoje mostra um pouco disso, além de contar, de forma incrivelmente cativante, parte da história da Revolução Francesa.

    De minha parte, deixo para dizer o que penso sobre tudo isso quando surgirem os comentários. Contudo, já posso dar uma palhinha:

    — Eu, ao contrário, nunca desistiria…

    Vamos ao texto, então:

    Diário de Pierre: a história de um camponês

    Rosani Martins

    Lembro-me como se fosse hoje. Tantos anos já se passaram, e as lembranças não se apagam. Em pensar que fiz parte de um sonho que, em minha visão, não chegou à realidade, embora não possa negar que os feitos daquela revolução acabaram transformando a História.

    Naquele contexto, eu era um simples camponês que, como todo o chamado Terceiro Estado, era explorado pelo clero e pela nobreza francesa — o Primeiro e o Segundo Estados, respectivamente. Éramos nós, camponeses, e a ascendente burguesia que trabalhávamos e pagávamos impostos, o que garantia a riqueza e a mordomia dos outros dois grupos.

    A França, sob os efeitos da chamada Revolução Industrial, ainda era um país que adotava velhas práticas feudais e dependia do setor agrário. Politicamente, o absolutismo francês tentava sobreviver ao avanço das ideias liberais e ao bombardeio dos chamados filósofos iluministas.

    O cenário era de insatisfação, e nós, do Terceiro Estado, maioria da população francesa, queríamos sair da condição de explorados e contribuir para que a França acompanhasse as novas transformações.

    A burguesia, detentora de capitais, queria ainda mais: desejava dinheiro e poder político, o que tornava o rei absoluto um terrível obstáculo. As ideias iluministas foram os ingredientes da revolução, e a consciência da condição de explorados movia o povo e a burguesia.

    Assim, o povo, do qual faço parte, foi o corpo da revolução, o braço forte que partiu para a luta, enquanto a burguesia foi a cabeça, ou seja, a mentora da Revolução Francesa.

    A burguesia sugeriu que todos pagassem impostos, o que, é óbvio, não foi aceito pelos grupos dominantes. Com isso, iniciou-se o choque de classes que culminou com a “Tomada da Bastilha”, em 14 de julho de 1789. O local onde os presos políticos eram punidos transformou-se em centro da resistência.

    Eu contava apenas dezenove anos e entendia pouco de política e de poder, mas sabia o que era ser explorado e viver sem o mínimo de dignidade. Por isso, lutei, peguei em armas e acho que até matei.

    Eu tinha um sonho: queria ajudar os camponeses, a classe da qual fazia parte, embora ainda não soubesse disso com a clareza e a consciência que tenho hoje.

    A primeira grande conquista do movimento foi a monarquia constitucional, que limitava os poderes do rei. Depois veio a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, que pode ser entendida como a concretização do lema: “Igualdade, Fraternidade e Liberdade”.

    A burguesia tomou terras do clero e da nobreza e começou a apoderar-se da política e da economia francesa. O rei traiu o movimento, buscando ajuda externa para resistir, e pagou com a vida, sendo decapitado.

    A partir daí, a resistência francesa teve de endurecer cada vez mais, radicalizando o movimento. Uma ameaça de invasão externa fez com que os jacobinos tomassem o poder, e lá estava eu novamente, ao lado de Danton, Robespierre e tantos outros, lutando por uma França mais justa e igualitária.

    O período jacobino foi a fase mais radical do conflito. O povo estava no poder e se valia daquilo que mais conhecia para não ser derrotado, isto é, da força.

    O saldo de mortos foi mesmo assustador, e eu, em meio a tudo aquilo, comecei a me desiludir e a questionar todo o processo. Não queria que meu nome figurasse na História entre os chamados “cortadores de cabeças” — era assim que os jacobinos eram chamados.

    Abandonei a resistência e fugi do exército na calada de uma noite fria. Poucos dias depois, ofereci minha força de trabalho a uma ainda tímida indústria têxtil para sobreviver e esquecer tudo o que vivera até ali.

    Não demorou muito para que os girondinos tomassem o poder por meio de um golpe, retirando o povo do jogo político. A burguesia chegava aonde queria e não poderia permitir que o povo tivesse mais força do que ela.

    As conquistas do período jacobino foram todas revogadas pelos girondinos — a alta burguesia. Foi então que cheguei à conclusão de que a burguesia usou o povo para chegar ao poder e se livrou dele na primeira oportunidade que teve.

    Foi duro perceber que, para nós, não houve revolução, e sim participação. Bastou a burguesia chegar ao poder para voltarmos à nossa velha condição de explorados, sustentando uma nova e poderosa classe social. Essa foi a única coisa que realmente mudou.

    Não posso negar que, com a ascensão de Napoleão ao poder, houve progressos e conquistas. Afinal, ele investiu na indústria, criou o Código de Leis, fundou a escola técnica francesa para qualificar profissionais e revolucionou a educação.

    Eu mesmo fui beneficiado. Estudei bastante para tentar compreender melhor todo aquele processo do qual participei e que, muitas vezes, fugia à minha capacidade de compreensão.

    Todavia, para mim, a grande obra de Napoleão foi despertar nos franceses o senso de nação, o que colocava a França acima de tudo e unia os grupos em torno da ideia: “Somos todos franceses”.

    Infelizmente, Napoleão não se contentou com o poder que exercia sobre a França e passou a impor uma política agressiva que o fez anexar praticamente toda a Europa à chamada Confederação do Reno.

    A exceção foi a Inglaterra, que resistiu às investidas do imperador francês e conseguiu sobreviver ao Bloqueio Continental imposto por ele aos países anexados. Alguns países europeus não obedeceram às ordens de Napoleão e continuaram consumindo produtos britânicos.

    A Era Napoleônica terminou na Batalha de Waterloo, na qual o líder francês foi finalmente derrotado após seu retorno durante o chamado Governo dos Cem Dias.

    Após o Congresso de Viena, a França retomou velhas práticas absolutistas, e a burguesia foi a grande derrotada, tendo de assistir a todas as suas conquistas caírem por terra.

    De 1815 até hoje, ela não conseguiu recuperar seu poder político e agora convoca a nação francesa para uma nova revolução. Novamente, quer usar o povo para voltar ao poder e, o que é pior, acho que está conseguindo.

    Porém, não precisam mais contar comigo, pois sei que, quando chegarem aonde querem e alcançarem o que pretendem, novamente afastarão o povo do cenário e o recolocarão em sua condição de explorado.

    Não me arrependo do que fiz. Lutei pelo que achava justo. Hoje sei que fui usado, mas cheguei a pensar que havia contribuído para melhorar a vida dos pobres e explorados.

    Acho até que, do meu jeito, ainda consigo ser feliz, apesar das frustrações. Sou casado com Françoise, uma mulher maravilhosa, e tenho dois filhos, Maurice e Michelle, além de três netos: Isabelle, Mellissa e Edgard.

    Penso que nenhum deles tem do que se envergonhar de mim. Hoje, quando completo sessenta anos de idade, lembrei-me de tudo isso.

    A única conclusão a que consigo chegar é que posso até não ter ajudado os menos favorecidos a sair dessa condição, mas não posso negar que participei de um dos mais importantes processos históricos.

    Paris, 14 de julho de 1830.


    E então? Ele não sabia, obviamente, que, alguns anos depois, a burguesia também seria mandada, como eu digo, “pro invéérno”. Mesmo assim, as coisas já começavam a se complicar, e ele havia deixado claro que “não queria ter nada a ver com isso”…

    É uma pena que isso também tenha acontecido com muitos na atualidade. Mas sempre podem aparecer outros…

    A questão é: onde estão nosso senso crítico e nosso poder de indignação? Esses, sim, nunca podem “ir pro invvvéérno”, como eu digo…

    Abaixo coloco um comentário da autora sobre a intenção que teve ao criar esse texto. Vamos a ele:


    O Diário de Pierre é um texto pensado e construído para despertar a reflexão dos leitores sobre um grande acontecimento histórico que marca o final do século XVIII.

    Pierre é um personagem fictício, mas faz reflexões muito importantes acerca desse marco. A ideia é tornar o estudo do tema que o texto pretende analisar mais interessante e menos formal do que ocorre nos tão criticados livros didáticos.

    Pierre assume sua posição e incita os leitores a se posicionarem sobre aquilo que estão lendo. A linha adotada é a de estudar História de forma crítica e questionadora.

    Não há como transformar a realidade sem ter, em si mesmo, a capacidade de indignação. Portanto, ao construir o personagem em questão, a grande proposta desse texto é permitir ao leitor pensar sobre o tema tratado em dimensões que vão além do texto narrativo e, em certa medida, romanceado que conta a vida de Pierre.


    Pois… Agora fico por aqui e deixo os comentários por conta de vocês. Em breve, também apareço para dar mais um “pitaquinho” sobre tudo isso…

    Abração e até mais!

    Fernando