Pois… Por aqui, tudo.
Creio que, às vezes, ainda mais na situação atual — violência, desemprego, miséria e corrupção entre aqueles que deveriam governar em benefício do povo e, em vez disso, governam em benefício próprio ou das classes mais altas —, a gente se pergunta:
Pois o texto que trago hoje mostra um pouco disso, além de contar, de forma incrivelmente cativante, parte da história da Revolução Francesa.
De minha parte, deixo para dizer o que penso sobre tudo isso quando surgirem os comentários. Contudo, já posso dar uma palhinha:
Lembro-me como se fosse hoje. Tantos anos já se passaram, e as lembranças não se apagam. Em pensar que fiz parte de um sonho que, em minha visão, não chegou à realidade, embora não possa negar que os feitos daquela revolução acabaram transformando a História.
Naquele contexto, eu era um simples camponês que, como todo o chamado Terceiro Estado, era explorado pelo clero e pela nobreza francesa — o Primeiro e o Segundo Estados, respectivamente. Éramos nós, camponeses, e a ascendente burguesia que trabalhávamos e pagávamos impostos, o que garantia a riqueza e a mordomia dos outros dois grupos.
A França, sob os efeitos da chamada Revolução Industrial, ainda era um país que adotava velhas práticas feudais e dependia do setor agrário. Politicamente, o absolutismo francês tentava sobreviver ao avanço das ideias liberais e ao bombardeio dos chamados filósofos iluministas.
O cenário era de insatisfação, e nós, do Terceiro Estado, maioria da população francesa, queríamos sair da condição de explorados e contribuir para que a França acompanhasse as novas transformações.
A burguesia, detentora de capitais, queria ainda mais: desejava dinheiro e poder político, o que tornava o rei absoluto um terrível obstáculo. As ideias iluministas foram os ingredientes da revolução, e a consciência da condição de explorados movia o povo e a burguesia.
Assim, o povo, do qual faço parte, foi o corpo da revolução, o braço forte que partiu para a luta, enquanto a burguesia foi a cabeça, ou seja, a mentora da Revolução Francesa.
A burguesia sugeriu que todos pagassem impostos, o que, é óbvio, não foi aceito pelos grupos dominantes. Com isso, iniciou-se o choque de classes que culminou com a “Tomada da Bastilha”, em 14 de julho de 1789. O local onde os presos políticos eram punidos transformou-se em centro da resistência.
Eu contava apenas dezenove anos e entendia pouco de política e de poder, mas sabia o que era ser explorado e viver sem o mínimo de dignidade. Por isso, lutei, peguei em armas e acho que até matei.
Eu tinha um sonho: queria ajudar os camponeses, a classe da qual fazia parte, embora ainda não soubesse disso com a clareza e a consciência que tenho hoje.
A primeira grande conquista do movimento foi a monarquia constitucional, que limitava os poderes do rei. Depois veio a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, que pode ser entendida como a concretização do lema: “Igualdade, Fraternidade e Liberdade”.
A burguesia tomou terras do clero e da nobreza e começou a apoderar-se da política e da economia francesa. O rei traiu o movimento, buscando ajuda externa para resistir, e pagou com a vida, sendo decapitado.
A partir daí, a resistência francesa teve de endurecer cada vez mais, radicalizando o movimento. Uma ameaça de invasão externa fez com que os jacobinos tomassem o poder, e lá estava eu novamente, ao lado de Danton, Robespierre e tantos outros, lutando por uma França mais justa e igualitária.
O período jacobino foi a fase mais radical do conflito. O povo estava no poder e se valia daquilo que mais conhecia para não ser derrotado, isto é, da força.
O saldo de mortos foi mesmo assustador, e eu, em meio a tudo aquilo, comecei a me desiludir e a questionar todo o processo. Não queria que meu nome figurasse na História entre os chamados “cortadores de cabeças” — era assim que os jacobinos eram chamados.
Abandonei a resistência e fugi do exército na calada de uma noite fria. Poucos dias depois, ofereci minha força de trabalho a uma ainda tímida indústria têxtil para sobreviver e esquecer tudo o que vivera até ali.
Não demorou muito para que os girondinos tomassem o poder por meio de um golpe, retirando o povo do jogo político. A burguesia chegava aonde queria e não poderia permitir que o povo tivesse mais força do que ela.
As conquistas do período jacobino foram todas revogadas pelos girondinos — a alta burguesia. Foi então que cheguei à conclusão de que a burguesia usou o povo para chegar ao poder e se livrou dele na primeira oportunidade que teve.
Foi duro perceber que, para nós, não houve revolução, e sim participação. Bastou a burguesia chegar ao poder para voltarmos à nossa velha condição de explorados, sustentando uma nova e poderosa classe social. Essa foi a única coisa que realmente mudou.
Não posso negar que, com a ascensão de Napoleão ao poder, houve progressos e conquistas. Afinal, ele investiu na indústria, criou o Código de Leis, fundou a escola técnica francesa para qualificar profissionais e revolucionou a educação.
Eu mesmo fui beneficiado. Estudei bastante para tentar compreender melhor todo aquele processo do qual participei e que, muitas vezes, fugia à minha capacidade de compreensão.
Todavia, para mim, a grande obra de Napoleão foi despertar nos franceses o senso de nação, o que colocava a França acima de tudo e unia os grupos em torno da ideia: “Somos todos franceses”.
Infelizmente, Napoleão não se contentou com o poder que exercia sobre a França e passou a impor uma política agressiva que o fez anexar praticamente toda a Europa à chamada Confederação do Reno.
A exceção foi a Inglaterra, que resistiu às investidas do imperador francês e conseguiu sobreviver ao Bloqueio Continental imposto por ele aos países anexados. Alguns países europeus não obedeceram às ordens de Napoleão e continuaram consumindo produtos britânicos.
A Era Napoleônica terminou na Batalha de Waterloo, na qual o líder francês foi finalmente derrotado após seu retorno durante o chamado Governo dos Cem Dias.
Após o Congresso de Viena, a França retomou velhas práticas absolutistas, e a burguesia foi a grande derrotada, tendo de assistir a todas as suas conquistas caírem por terra.
De 1815 até hoje, ela não conseguiu recuperar seu poder político e agora convoca a nação francesa para uma nova revolução. Novamente, quer usar o povo para voltar ao poder e, o que é pior, acho que está conseguindo.
Porém, não precisam mais contar comigo, pois sei que, quando chegarem aonde querem e alcançarem o que pretendem, novamente afastarão o povo do cenário e o recolocarão em sua condição de explorado.
Não me arrependo do que fiz. Lutei pelo que achava justo. Hoje sei que fui usado, mas cheguei a pensar que havia contribuído para melhorar a vida dos pobres e explorados.
Acho até que, do meu jeito, ainda consigo ser feliz, apesar das frustrações. Sou casado com Françoise, uma mulher maravilhosa, e tenho dois filhos, Maurice e Michelle, além de três netos: Isabelle, Mellissa e Edgard.
Penso que nenhum deles tem do que se envergonhar de mim. Hoje, quando completo sessenta anos de idade, lembrei-me de tudo isso.
A única conclusão a que consigo chegar é que posso até não ter ajudado os menos favorecidos a sair dessa condição, mas não posso negar que participei de um dos mais importantes processos históricos.
Paris, 14 de julho de 1830.
E então? Ele não sabia, obviamente, que, alguns anos depois, a burguesia também seria mandada, como eu digo, “pro invéérno”. Mesmo assim, as coisas já começavam a se complicar, e ele havia deixado claro que “não queria ter nada a ver com isso”…
É uma pena que isso também tenha acontecido com muitos na atualidade. Mas sempre podem aparecer outros…
A questão é: onde estão nosso senso crítico e nosso poder de indignação? Esses, sim, nunca podem “ir pro invvvéérno”, como eu digo…
Abaixo coloco um comentário da autora sobre a intenção que teve ao criar esse texto. Vamos a ele:
Pois… Agora fico por aqui e deixo os comentários por conta de vocês. Em breve, também apareço para dar mais um “pitaquinho” sobre tudo isso…