Tempo de leitura: 9 minutosOlá caros leitores dessa coisa aqui!
Pois é… No dia 28 de junho de 2006 esse blog entrou no ar. Isso significa que, entre algumas idas, várias voltas, certos sumiços estratégicos, mudanças de endereço, servidores quase explodindo, tutoriais, músicas, livros, opiniões, acessibilidade, histórias pessoais, coisas descontraídas e outras muito sérias, essa coisa aqui completou 20 anos!
Vinte anos!
Quando publiquei as primeiras palavras por aqui, fiz um teste divulgando minha página e, pouco depois, escrevi: “Estamos aqui denovo”. Também avisei que faria “um pequeno trabalhinho” e depois voltaria para me apresentar.
Essas primeiras postagens ainda podem ser encontradas aqui: o primeiro teste do blog e o famoso “Estamos aqui denovo”.
Pelo jeito, o pequeno trabalhinho demorou um pouco,aaa.
O mais interessante, porém, não é apenas contar a história do blog, mas observar a história que ele navegou. Afinal, de 2006 até 2026, não mudou somente essa página. Mudaram os computadores, os notebooks, os celulares, a internet e até a maneira como nós conversamos com as máquinas.
Quando um blog ainda era realmente um blog
Em 2006, criar um blog era uma forma relativamente nova de ter o próprio espaço na internet. As redes sociais ainda não tinham engolido tudo, o Orkut estava em plena atividade no Brasil e muita conversa acontecia no MSN, em fóruns, listas de discussão e chats.
A internet ainda era um lugar mais espalhado. Cada pessoa tinha sua página, seu blog, seu fórum ou seu pequeno canto virtual. Para acompanhar as novidades, era necessário visitar os sites — ou utilizar os famosos feeds RSS, coisa que hoje muita gente provavelmente confundiria com alguma sigla de partido político, imposto ou repartição pública.
Este blog começou no Blogspot, mas em janeiro de 2007 já estava de mudança para um WordPress instalado no próprio servidor. Na época, cheguei a publicar um tutorial ensinando como instalar o WordPress, traduzir o painel e configurar o arquivo wp-config.php.
Hoje, muita gente aperta um botão, escolhe um tema, entrega o resto para algum serviço de hospedagem e pronto. Naquela época era necessário baixar os arquivos, descompactar, enviar tudo por FTP, criar banco de dados, editar configurações e, naturalmente, descobrir por que o negócio não funcionava.
E sempre havia um detalhe interessante: bastava fazer uma pequena alteração para surgir um revertério servidorístico de proporções interdimensionais.
Em 2008, por exemplo, contei aqui como uma tentativa de personalizar o VHCS2 terminou com sites, e-mails e configurações indo parar sabe-se lá onde. Depois de horas tentando ressuscitar o servidor, veio a solução clássica da informática:
Reinstalar tudo!
O relato completo desse pequeno berzabum servidorístico ainda está no texto “Voltando à ativa, blog não abandonado!”.
Hoje chamamos isso de “recuperar o ambiente”, “recriar a infraestrutura” ou “restaurar o snapshot”. Na época era mais ou menos: “Raios partam isto, vamos formatar a encrenca e torcer”.
Computadores grandes, pesados e relativamente eternos
Em 2006, o computador principal da maioria das pessoas ainda era o desktop. Gabinete, monitor, teclado, mouse, caixas de som e uma quantidade respeitável de cabos formavam uma espécie de ecossistema próprio em cima e embaixo da mesa.
Os monitores de tubo ainda existiam em grande quantidade, embora os modelos LCD começassem a aparecer. Gravadores de CD e DVD eram importantes, pendrives tinham capacidades que hoje seriam consideradas quase decorativas e um HD com algumas dezenas ou centenas de gigabytes parecia oferecer espaço suficiente para o resto da vida.
Claro que nunca oferecia.
Notebooks já existiam, mas ainda eram caros e bem menos comuns. Quando alguém aparecia com um, aquela máquina despertava uma curiosidade parecida com a que hoje despertaria um robô doméstico entrando pela porta e perguntando onde fica a tomada.
E notebook também era chamado de “computador de brinquedo”, embora o preço não tivesse absolutamente nada de brinquedo.
Em janeiro de 2008, contei aqui que a Rádio Studio-RS havia ficado fora do ar porque meu notebook estragou. E aí estava uma diferença importante daquele tempo: quando uma máquina parava, não era tão simples pegar outra, transferir tudo pela nuvem e continuar de onde havia parado. A história aparece na postagem “Pra quem gosta da Rádio Studio-RS… Estamos de volta!”.
A nuvem, aliás, ainda era principalmente aquilo que aparecia no céu antes da chuva.
Os computadores daquela época eram mais lentos, pesados e consumiam mais energia, mas tinham uma vantagem: quase tudo podia ser trocado. Memória, HD, placa de som, placa de vídeo, drive de CD, fonte e até processador, dependendo da placa-mãe e da disposição do proprietário para criar novos problemas.
Um computador podia sobreviver a vários upgrades. Às vezes chegava ao fim da vida usando peças de quatro ou cinco máquinas diferentes, parecendo uma espécie de Frankenstein eletrônico, mas funcionando.
A internet que fazia barulho
Em 2006, muita gente ainda utilizava conexão discada. Era necessário liberar a linha telefônica, mandar o modem fazer aquela sinfonia de chiados e esperar para ver se a ligação seria estabelecida.
Se alguém tirasse o telefone do gancho, começava a tragédia.
A banda larga já crescia, claro, mas velocidade, estabilidade e preço ainda eram questões muito diferentes das atuais. Isso aparece claramente nos textos antigos da Rádio Studio-RS.
Em 2008 havia uma transmissão em 56 Kbps e instruções para instalar o MP3Pro no Winamp, permitindo que usuários de conexão discada ouvissem a rádio com uma qualidade aceitável. As opções incluíam Winamp, Windows Media Player e RealPlayer — três nomes que certamente despertarão lembranças, arrepios ou ambos em quem viveu aquela época.
Em 2011, a Studio-RS oferecia três possibilidades: 32 Kbps para conexão discada, 64 Kbps como padrão e 128 Kbps para os “malucos por qualidade” que tinham banda larga. Essa modernidade toda foi anunciada na postagem “E a Rádio Studio-RS também tem novidades!”.
Hoje qualquer celular reproduz músicas com qualidade muito superior, enquanto recebe mensagens, atualiza aplicativos, faz backup das fotos e provavelmente envia para alguma empresa informações que ninguém lembra de ter autorizado.
Celular era para telefonar — imaginem só!
Os celulares de 2006 já mandavam mensagens, tiravam fotografias e alguns até acessavam a internet. Mas vamos com calma.
A internet móvel geralmente significava WAP, GPRS ou EDGE, uma tela pequena, teclado numérico e uma conta capaz de provocar uma parada cardíaca caso o usuário se empolgasse demais.
Digitar um texto exigia o teclado T9. Para escrever determinadas letras, era necessário apertar a mesma tecla várias vezes, o que transformava uma mensagem um pouco maior numa atividade física.
Abrir uma página completa podia levar uma eternidade. Assistir a um vídeo pelo celular era quase ficção científica e fazer uma chamada de vídeo parecia coisa de filme futurista — embora algumas operadoras tenham tentado vender a ideia com o 3G.
Na maior parte do tempo, celular servia para telefonar.
Parece uma utilização bastante exótica em 2026, eu sei.
O mundo começou a mudar rapidamente quando o primeiro iPhone foi apresentado em janeiro de 2007 como telefone, iPod e dispositivo de comunicação pela internet reunidos num só aparelho. Depois vieram o Android, as lojas de aplicativos e a transformação do celular em câmera, GPS, banco, rádio, televisão, gravador, carteira, agenda, leitor de livros e, de vez em quando, telefone. A apresentação original do iPhone ainda pode ser encontrada no site da Apple.
A partir daí, a internet deixou de ser um lugar ao qual a pessoa “entrava” quando sentava diante do computador. Ela passou a acompanhar todo mundo no bolso.
A acessibilidade também navegou por aqui
A história deste blog acompanha igualmente a evolução da acessibilidade.
Em novembro de 2006, um dos primeiros textos tratava das imagens de verificação que impediam pessoas cegas de comentar em páginas da internet. Eram os famosos CAPTCHAs, muitas vezes sem alternativa sonora utilizável. O assunto apareceu na postagem “Imagens, sons, ETC, e cegos na área!”.
Em março de 2007, publiquei um texto chamado “Brincando de Windows falante!”, apresentando um leitor de telas gratuito e ainda bastante novo chamado NVDA. Na ocasião, disponibilizei até um instalador preparado com sintetizador de voz para facilitar a vida de quem quisesse experimentar o brinquedo.
O brinquedo cresceu.
Em 2008, ao escrever sobre sistemas e programas de acessibilidade, falei de DOSVOX, NVDA, Virtual Vision, JAWS, Linvox, Ubuntu e das dificuldades para fazer um computador funcionar de maneira realmente independente para uma pessoa cega. O artigo “Acessibilidade: Sistemas e programas disponíveis” acabou se tornando uma verdadeira fotografia da acessibilidade daquela época.
Hoje, computadores e celulares já vêm com leitores de tela, reconhecimento de voz, ampliação, legendas automáticas, descrição de imagens e outros recursos incorporados ao sistema. Isso não significa que todos os programas ficaram acessíveis — seria otimismo demais e talvez até caso para internação —, mas a acessibilidade deixou de depender exclusivamente de programas caros ou instalações complicadas.
Ainda temos aplicativos com botões sem identificação, sites que conseguem piorar depois de uma atualização e CAPTCHAs que parecem ter sido desenhados por algum demônio especializado em usabilidade. Mesmo assim, avançamos muito.
Das páginas pessoais para as plataformas
Durante esses vinte anos, a internet também foi se concentrando.
Primeiro vieram Orkut, MSN, fóruns e blogs. Depois Facebook, Twitter, YouTube, Instagram, WhatsApp, TikTok e outras plataformas passaram a disputar nossa atenção.
O texto publicado numa página pessoal deu lugar à postagem rápida. A fotografia virou story. O vídeo passou de alguns minutos para poucos segundos e, depois, voltou a ter horas, dependendo do algoritmo e da paciência do espectador.
Muitos blogs desapareceram porque seus autores migraram completamente para as redes sociais. Esse aqui quase entrou nessa lista algumas vezes. Em 2011 eu escrevi “Renascendo”, depois de mais de dois anos sem publicar. Em 2023 voltei novamente dizendo que apagar uma história de mais de 15 anos doía no coração.
E dói mesmo.
Uma postagem numa rede social pode desaparecer no meio da linha do tempo em poucas horas. Um blog, quando preservado, torna-se um arquivo. Nele ainda encontro os programas que usávamos, as velocidades da rádio, as dificuldades de acessibilidade, os livros que li, as opiniões que tive e até os problemas que resolvi — ou criei — nos servidores.
É quase uma arqueologia da informática, só que algumas relíquias ainda funcionam.
E então chegamos à inteligência artificial
Em fevereiro de 2023, apresentei o ChatGPT aqui como “uma IA que vale a pena conhecer”. Naquele texto, comparei a tecnologia ao personagem Winston, do livro Origem, de Dan Brown.
Também lamentei que o ChatGPT conversasse apenas por texto e sugeri que um dia ele poderia falar, inclusive para ajudar pessoas com deficiência motora.
Pois bem.
Três anos depois, conversamos com sistemas de IA por voz, mostramos imagens, entregamos documentos, pedimos análises de áudio e vídeo, geramos música com qualidade, spots, usamos óculos com IA pra descrever o ambiente, ler livros em tempo real e muito mais… Em fim, a IA já está em tudo!
Se isso não é uma situação ligeiramente metalinguística, não sei mais o que seria.
A IA atual auxilia em tarefas que, em 2006, exigiriam vários programas e uma quantidade considerável de paciência.
Ao mesmo tempo, ainda inventa coisas, interpreta comandos de maneira estranha e às vezes responde com a segurança de um especialista que estudou profundamente um assunto durante onze segundos.
Portanto, continuamos precisando de gente que saiba utilizar, revisar e, quando necessário, mandar a máquina parar de dizer bobagem.
Tudo ficou mais fácil — e mais descartável
Hoje temos uma quantidade absurda de tecnologia nas mãos. Um celular relativamente comum possui mais capacidade de processamento e armazenamento do que muitos computadores profissionais de vinte anos atrás.
Podemos gravar vídeos em alta resolução, transmitir ao vivo, acessar arquivos de qualquer lugar, conversar com pessoas do outro lado do mundo e perguntar quase qualquer coisa a uma inteligência artificial.
O problema é que, junto com essa facilidade, veio a descartabilidade.
Antes, trocávamos uma peça. Agora, memória e armazenamento frequentemente vêm soldados. Baterias são coladas, aparelhos são difíceis de abrir, peças custam caro e algumas atualizações transformam equipamentos perfeitamente funcionais em objetos “não compatíveis”.
Chamamos isso de obsolescência programada, embora nem todo aparelho que envelhece tenha sido deliberadamente condenado pelo fabricante. Existe também a evolução natural da tecnologia. Mas quando a bateria não pode ser trocada, o sistema deixa de receber atualizações e o conserto custa quase o preço de um aparelho novo, a diferença entre evolução e empurrão comercial fica meio nebulosa.
O resultado aparece no lixo: o mundo gerou 62 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos em 2022, e menos de um quarto recebeu reciclagem adequada, segundo dados das Nações Unidas. A quantidade de lixo eletrônico cresce cinco vezes mais rápido do que a reciclagem documentada.
Felizmente começam a surgir reações. Desde 2025, por exemplo, a União Europeia exige informações sobre durabilidade, bateria e facilidade de reparo em smartphones e tablets, incluindo uma pontuação de reparabilidade. As novas regras procuram aumentar a vida útil dos aparelhos.
Talvez um dia voltemos a ter equipamentos feitos para durar e evoluir, em vez de aparelhos caríssimos que ficam “velhos” antes de terminarmos de pagar as prestações.
Vinte anos depois…
Em 2006, apenas uma parcela relativamente pequena da população mundial utilizava a internet. Em 2025, quase três quartos do planeta já estavam conectados, mais de 80% das pessoas possuíam celular e o 5G cobria mais da metade da população mundial. Os números são da União Internacional de Telecomunicações.
Saímos da conexão discada para a fibra óptica. Do celular com teclado numérico para o smartphone. Do desktop como centro da vida digital para vários dispositivos conectados. Do disquete para o armazenamento em nuvem. Dos chats simples para inteligências artificiais capazes de conversar, ouvir, enxergar e executar tarefas.
E essa coisa aqui navegou por tudo isso.
Mudou de plataforma, de servidor, de endereço, de aparência e de assunto. Ficou algum tempo parada, voltou, quase desapareceu e renasceu mais de uma vez. Falou de informática, rádio, música, livros, política, acessibilidade, saúde, experiências pessoais, coisas engraçadas e outras nem um pouco engraçadas.
Talvez essa seja a maior vantagem de manter um blog durante tanto tempo: ele não registra apenas aquilo que escrevemos. Registra também o mundo no qual escrevemos.
Daqui a outros vinte anos, alguém poderá encontrar este texto e rir da nossa admiração pela inteligência artificial de 2026, do mesmo modo que hoje rimos de uma rádio transmitindo em 32 Kbps ou da dificuldade para acessar a internet pelo celular.
Talvez a IA de 2046 leia tudo isso e diga:
“Que primitivos! Eles ainda precisavam pedir as coisas!”
Ou talvez o blog continue aqui, rodando num servidor velho, mantido por pura teimosia, enquanto alguma máquina tenta explicar por que a atualização mais recente deixou de ser compatível com ele.
De qualquer maneira, enquanto houver histórias, opiniões, tutoriais, músicas, revertérios, assuntos sérios e vontade de escrever, essa coisa aqui continuará navegando.
Um abraço e até a próxima!
Fernando