Acessibilidade: O que fazer quando existe mas é inacessível?

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Olá, caros leitores!

Quando escrevi o artigo sobre acessibilidade em instrumentos eletrônicos, recebi diversos e-mails e até comentários aqui incentivando a ideia. Claro que, como sempre acontece, alguém aparece para ser do contra e dizer que as empresas não têm obrigação de fornecer acessibilidade, esquecendo-se de duas coisas:

  1. A própria lei, que regulamenta essa questão;
  2. O fato de estar utilizando recursos de acessibilidade para dizer justamente que eles não deveriam ser obrigatórios.

É claro que pessoas assim não conheceram a época em que um livro a mais em braille ou gravado já representava uma grande conquista. Naquele tempo, precisávamos lutar até mesmo para entrar na escola e, às vezes, éramos rejeitados abertamente com a justificativa de que a instituição “não tinha condições de assumir tal responsabilidade” — educar uma pessoa com deficiência.

É fácil falar contra a acessibilidade hoje em dia quando não se conheceu aquela época e se tem, de mão beijada, o DOSVOX, o NVDA e diversas outras ferramentas gratuitas. Contudo, basta lembrar as dificuldades que ainda enfrentamos com a acessibilidade nas universidades, por exemplo, e esse tipo de argumento se extingue por si só, sem necessidade de outros contra-argumentos.

Entretanto, o que mais me chamou a atenção na repercussão do artigo não foi isso.

Um dia depois de publicar o texto, recebi um e-mail de uma das integrantes de nossa comunidade, Rebeca Serra, falando sobre um problema bastante curioso. Ela tem um amigo, Tiago, que, além da deficiência visual, apresenta uma limitação em uma das mãos em consequência de uma mielite. A doença, além da visão, afetou toda a coordenação motora do lado esquerdo.

Tiago é flautista e, há meses, ele e Rebeca — e agora também eu, depois do contato dela — estamos tentando conseguir para ele uma “flauta acessível”. Com ela, Tiago poderia tocar usando a mão direita enquanto, com a esquerda — cujos movimentos foram afetados pela doença, mas não completamente —, leria as músicas no sistema braille.

Pois bem, o absurdo dos absurdos é o seguinte: essa flauta existe! Sim, existe e é fabricada pela Yamaha.

O modelo é YRS-900 R — o “R” significa right — e pode ser tocado somente com a mão direita. Existe, naturalmente, outra versão, que pode ser tocada apenas com a mão esquerda: YRS-900 L.

Digitei o modelo no Google e encontrei pouquíssimas referências. Uma delas estava, naturalmente, no site da Yamaha no Japão, o que pouco me ajudou. Também não encontramos informações sobre como importar a flauta e, quando entramos em contato com a Yamaha do Brasil, a resposta foi que eles não teriam como importar o referido instrumento.

Eu mesmo nunca havia imaginado que existisse uma “flauta acessível”. Pouco sei sobre acessibilidade em instrumentos não eletrônicos e acredito que muitas pessoas também estejam nessa situação.

Ao conhecer o problema de Tiago e descobrir que existia uma solução, fiquei muito feliz, mas também desapontado. Quando não temos acessibilidade em alguma coisa, seja o que for, lutamos por ela, elaboramos projetos, reivindicamos, contatamos empresas etc.

Contudo, o que se faz quando a acessibilidade existe, mas não sabemos que ela existe? Ou, pior, como aconteceu no caso de Tiago: o que fazer quando existe acessibilidade, mas ela própria se torna inacessível?

A resposta da Yamaha pareceu definitiva. Além de não terem conhecimento do referido instrumento — e realmente não tinham quando entrei em contato —, ainda disseram que não o importavam!

Tenho que dizer que isso foi, para mim, ainda mais surpreendente do que descobrir que algo muito importante não possui acessibilidade.

Conversando com a própria Rebeca, ela me contou que tem diabetes — como muitas outras pessoas cegas que conheço — e disse que, mesmo sendo essa a terceira maior causa de cegueira no Brasil, não existe até hoje um glicosímetro com sintetizador. Também não haveria qualquer laboratório que produzisse insulina e a vendesse com as denominações em braille.

Não questiono a questão da insulina, mas, quanto ao glicosímetro, será mesmo que não existe? Será que não é mais um produto disponível no mercado cuja existência desconhecemos e que não temos como importar?

Convenhamos: não seria tão difícil para uma empresa produzir algo nesse sentido. Pelo contrário, seria muito mais fácil do que fabricar um instrumento eletrônico acessível, um computador ou um celular, coisas que já existem.

Pois então: devemos lutar pela acessibilidade e temos o direito de exigi-la, sim! Mas o que fazer quando ela existe e não sabemos disso ou quando não está ao nosso alcance?

Mais absurdo do que não ter acessibilidade é tê-la, mas não poder alcançá-la!

A divulgação deve acompanhar a criação de qualquer produto acessível, especialmente na internet. A possibilidade de obtê-lo também precisa fazer parte do processo. Em vez de uma resposta definitiva e negativa, por que não pesquisar, trazer e divulgar?

Garanto que Tiago não seria o único beneficiado pela flauta acessível. Muitas outras pessoas que têm os movimentos de apenas uma das mãos poderiam realizar o sonho de começar a tocar um instrumento.

E o que dizer do argumento sobre a quantidade necessária para que a importação valha a pena? Simples: se não divulgarmos e não tentarmos, nunca teremos um resultado.

Eu, somente eu, já conheço três ou quatro pessoas que poderiam ser beneficiadas pelo instrumento! Quantas outras não haverá por aí? Somente poderemos saber quando empresas como a Yamaha pararem de dar respostas negativas e resolverem “arriscar”!

Termino esse artigo na expectativa de que ele sirva para iluminar aquelas mentes que preferem dizer “não” antes mesmo de tentar. Que elas resolvam primeiro fazer uma tentativa e, depois, com um resultado prático em mãos, aceitem ou neguem a proposta.

Ainda falando sobre a Yamaha e o artigo anterior a respeito da acessibilidade, eu havia mencionado a Yamaha e a Roland, mas existem muitas outras fabricantes que também poderiam aderir a essa campanha.

Contudo, a Yamaha foi a única que se dignou a responder, dizendo que encaminharia minha solicitação aos responsáveis. Até agora, não obtive mais nenhum retorno nesse sentido, mas entrarei em contato para saber se algo foi ou será feito e, naturalmente, divulgarei o resultado aqui.

Cumprimentos,

Fernando

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