Categoria: Acessibilidade

  • Viajando na história das gravações

    Tempo de leitura: 13 minutos

    Olá caros amigos, leitores dessa coisa aqui!

    Quem me conhece sabe que gosto de gravadores. Não apenas de apertar o botão vermelho e registrar alguma coisa, mas dos aparelhos em si, das diferenças entre microfones, dos formatos e, principalmente, do que costumo chamar de “fonografias”: fotografias feitas com som.

    Uma fotografia congela aquilo que a câmera viu. Uma gravação congela aquilo que o microfone ouviu: uma voz, uma música, o barulho de uma rua, uma conversa, uma festa, um ensaio ou até aquele ruído misterioso que só aparece às três da madrugada e que, depois de devidamente investigado, era o motor da geladeira. Quase sempre, pelo menos.

    Hoje basta pegar um gravador do tamanho de um maço de cartas, ou mesmo o celular, apertar um botão e pronto. Mas até chegarmos aqui o som precisou passar por fuligem, folhas de estanho, cilindros de cera, discos quebradiços, vinil, fios de aço, fitas magnéticas, cassetes, discos ópticos, cartões de memória e uma verdadeira arquivaíada de extensões de computador.

    Então ajustemos o ganho, verifiquemos se há espaço no cartão e viajemos nessa história.

    1860: quando o som foi gravado, mas não podia ser ouvido

    A primeira parada dessa viagem parece uma daquelas ideias trazidas diretamente de Setealém: gravar um som sem ter como reproduzi-lo.

    Em 1857, o francês Édouard-Léon Scott de Martinville criou o fonoautógrafo. O aparelho usava uma membrana ligada a uma ponta que riscava as vibrações sonoras sobre papel escurecido com fuligem. Sua intenção era fazer o som desenhar a si próprio, permitindo que as ondas fossem estudadas visualmente. Era uma espécie de “osciloscópio movido a manivela”, guardadas todas as diferenças e gambiarras históricas envolvidas.

    O fonoautógrafo registrava, mas não reproduzia. O som virava um traço no papel e ali ficava, mudo. Em 9 de abril de 1860, Scott registrou um trecho da canção francesa Au clair de la lune. A gravação durava poucos segundos e ninguém naquela época podia escutá-la.

    Ela só ganhou voz em 2008, quando pesquisadores digitalizaram os traços e os converteram em áudio por computador. Ou seja: uma voz de 1860 ficou quase 148 anos esperando que inventassem a reprodução adequada para ela. A história e o áudio podem ser conhecidos no artigo “Phonautograms”, da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos.

    Esse episódio também nos obriga a separar duas coisas: a primeira inscrição recuperável de um som e a primeira máquina capaz de gravar e tocar o que havia gravado. Para a segunda, precisamos avançar dezessete anos.

    1877: Edison faz o som voltar

    Em 1877, Thomas Edison criou o fonógrafo. Uma folha de estanho era enrolada ao redor de um cilindro; a voz fazia uma membrana vibrar, uma agulha marcava o estanho e outra agulha percorria novamente aquelas marcas para reproduzir o som.

    Segundo o relato tradicional, Edison recitou Mary had a little lamb. Pela primeira vez, alguém podia falar para uma máquina e, pouco depois, ouvir a própria voz saindo dela. Devia ser uma experiência comparável à de quem ouviu sua voz num gravador pela primeira vez e pensou: “Raios partam isto, eu falo assim?”

    O estanho, porém, não era exatamente o formato mais resistente já inventado. Depois de algumas reproduções, rasgava ou perdia as marcas. O Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos explica o funcionamento do primeiro fonógrafo e mostra por que praticamente não sobraram gravações nessas folhas.

    Mesmo limitado, o fonógrafo resolveu a parte essencial do problema: o som já não precisava morrer no mesmo instante em que era produzido.

    Os cilindros de cera e a primeira guerra dos formatos

    Na década de 1880, pesquisadores do laboratório de Alexander Graham Bell trabalharam no graphophone, que cortava o som em uma camada de cera. Edison retomou suas pesquisas e, em 1887, adotou um cilindro sólido de cera. Era bem mais prático que o estanho e, em certos usos, podia até ser raspado para receber uma nova gravação.

    O áudio ficava gravado ao redor do cilindro num sulco que subia e descia conforme as vibrações. No começo, fazer cópias era um trabalhão. Às vezes, os artistas precisavam repetir a mesma música diante de vários fonógrafos. Depois vieram processos de moldagem que permitiram fabricar cilindros em quantidade.

    Durante algum tempo, parecia perfeitamente normal guardar música em pequenos rolos. Então apareceu Emile Berliner e resolveu achatar o negócio.

    Berliner patenteou o gramofone em 1887 e logo substituiu o cilindro por um disco plano, usando um sulco que se movia lateralmente. O disco era mais fácil de guardar, transportar e, principalmente, duplicar. A partir da década de 1890, cilindros e discos iniciaram a primeira guerra de formatos da história das gravações — ancestral direta de muitas outras brigas tecnológicas que ainda viriam.

    A linha do tempo da Biblioteca do Congresso dos EUA mostra que essa disputa durou cerca de vinte anos. Como sempre acontece nessas guerras, o consumidor provavelmente só queria ouvir música, enquanto as empresas tentavam convencê-lo de que o formato comprado no ano anterior estava prestes a virar peça de museu.

    Dos discos de goma-laca ao vinil

    Os primeiros discos comerciais não eram os LPs de vinil que hoje voltaram às lojas. Durante décadas, predominou o disco de 78 rotações por minuto, geralmente feito de goma-laca: duro, pesado e quebradiço. Se caísse, havia boa possibilidade de a música se transformar num quebra-cabeça sem solução.

    Também cabiam poucos minutos de cada lado. Isso influenciou a própria duração das músicas populares e obrigava obras longas a serem divididas entre vários discos. Um “álbum” era, literalmente, um álbum com diversos discos guardados em páginas, quase como fotografias.

    No início, as gravações eram totalmente acústicas. Os músicos tocavam diante de uma grande corneta, que concentrava o som e movimentava mecanicamente a agulha de corte. Não havia microfone, mesa, cabo XLR, equalizador nem botão de undo. Cantores e instrumentos precisavam ser posicionados pela força sonora: os mais baixos perto da corneta, os mais potentes longe dela. Era a mixagem feita com cadeiras, distância e muita fé.

    Na década de 1920, a gravação elétrica trouxe microfones, amplificação e uma faixa de frequências muito maior. A partir daí, o estúdio começou a se parecer mais com aquilo que reconhecemos hoje.

    Em junho de 1948, a Columbia apresentou o LP de 12 polegadas, feito de vinil, girando a 33 1/3 rotações por minuto e com microssulcos. Cada lado comportava cerca de vinte e poucos minutos. No ano seguinte, a RCA Victor respondeu com o compacto de 45 rotações. A velha guerra de formatos voltava ao serviço: em 1949 havia discos de 78, 45 e 33 1/3 RPM disputando espaço.

    A história desse lançamento pode ser lida em “The First Long-Playing Disc”, da Biblioteca do Congresso dos EUA. Em 1957 surgiram os primeiros LPs estereofônicos comerciais e o vinil consolidou o álbum como obra longa, com lado A, lado B, capa grande e toda uma cerimônia para ouvir.

    Antes da fita, um fio de aço

    Enquanto agulhas percorriam sulcos, outra família de gravação estava nascendo: a magnética.

    Em 1898, o dinamarquês Valdemar Poulsen demonstrou o Telegraphone, que registrava o som magnetizando um fio de aço. A ideia era brilhante, mas a falta de boa amplificação limitou seu sucesso. O Computer History Museum conta a história do aparelho, usado inclusive como uma espécie de ancestral da secretária eletrônica.

    Gravadores de fio ganharam algum espaço nas décadas de 1940 e 1950. Funcionavam, mas um fio muito fino e muito comprido tinha uma habilidade especial para virar um novelo infernal. A fita magnética manteria o princípio e melhoraria bastante a convivência com o usuário.

    As boas e velhas fitas de rolo

    Em 1928, Fritz Pfleumer desenvolveu uma fita com material magnético aplicado sobre papel e, depois, sobre filme. Em 1935, AEG e BASF apresentaram na Alemanha o Magnetophon e uma fita de melhor qualidade. Após a Segunda Guerra Mundial, a tecnologia alemã chegou aos Estados Unidos e foi aperfeiçoada por empresas como a Ampex.

    Em 1948, os gravadores de fita de alta qualidade começaram a transformar o rádio e os estúdios. Bing Crosby teve papel importante nessa adoção: queria gravar seu programa antecipadamente em vez de fazê-lo sempre ao vivo. A fita oferecia boa qualidade e uma vantagem quase revolucionária: podia ser editada.

    “Editar”, naquele caso, significava localizar o trecho, cortar fisicamente a fita com uma lâmina e colar as pontas. Hoje reclamamos quando precisamos dar dois cliques no REAPER. Naquela época, um corte errado não aceitava Ctrl+Z.

    A fita também tornou muito mais viável a gravação em várias pistas. Voz, instrumentos e efeitos podiam ser registrados separadamente, combinados, copiados e processados. O estúdio deixou de ser apenas um local que documentava uma apresentação e virou parte do próprio processo criativo. Há uma boa síntese dessa evolução no texto “Magnetic Tape”, da Engineering and Technology History Wiki.

    A fita cassete — sem acento e com duas chances de enroscar

    Sim: em português, escreve-se cassete, sem acento. A palavra parece pedir um “casséte”, mas o dicionário e a sílaba tônica não autorizaram a instalação desse plugin.

    Em agosto de 1963, a Philips apresentou o Compact Cassette numa feira de eletrônicos em Berlim. A própria Philips guarda o registro do primeiro gravador cassete.

    Dois pequenos carretéis e a fita inteira ficavam protegidos dentro de uma caixa plástica. Não era mais necessário tocar diretamente na fita de rolo nem passá-la manualmente pelo caminho das cabeças. Colocava-se o cassete, apertava-se play ou record e pronto — até o dia em que o aparelho decidia almoçar a fita e obrigava o proprietário a realizar uma cirurgia com caneta Bic.

    No começo, a qualidade era mais adequada à voz e ao ditado do que à música. Melhorias nas fitas, nas cabeças e nos sistemas de redução de ruído, como o Dolby, tornaram o cassete um formato musical respeitável. Ele invadiu casas, carros, rádios-gravadores, secretárias eletrônicas e gravadores portáteis.

    Também democratizou a gravação pessoal. Era possível registrar uma entrevista, uma aula, uma música, um programa de rádio, mandar uma “carta falada” ou montar aquela coletânea caprichada para alguém. Muito antes das playlists compartilhadas, existia a fita gravada com seleção de músicas e, às vezes, locução entre elas.

    O Walkman, lançado pela Sony em 1979 e popularizado a partir de 1980, libertou a reprodução da tomada e do aparelho doméstico. Mas os gravadores portáteis fizeram algo talvez ainda mais interessante: libertaram também a memória sonora. A “fonografia” podia ser feita em qualquer lugar.

    DAT: uma fita pequena com números dentro

    Na década de 1980, o áudio digital já estava chegando ao consumidor pelo CD, mas a gravação doméstica e profissional ainda precisava de um meio regravável. Em 1987, a Sony lançou o DAT, sigla de Digital Audio Tape.

    O DAT usava uma fita magnética pequena, parecida com uma miniatura da cassete, mas guardava dados digitais. Em vez de registrar continuamente o formato da onda como magnetização analógica, armazenava números. O sistema oferecia gravação PCM com qualidade muito alta e encontrou lugar em estúdios, emissoras, gravações de campo e produção profissional.

    A linha histórica de produtos da Sony registra o gravador DAT doméstico DTC-1000ES em 1987. O formato, porém, nunca dominou a sala de casa como a velha cassete. Equipamentos e fitas eram caros, havia preocupações da indústria com cópias digitais e, pouco depois, outras tecnologias começaram a disputar a mesma função.

    Mesmo assim, durante anos, “gravei em DAT” foi quase um carimbo de respeitabilidade sonora.

    Afinal, o que muda quando o áudio vira digital?

    No áudio analógico, a variação física gravada no sulco ou na fita procura acompanhar continuamente a forma da onda sonora. No digital, essa onda é medida muitas vezes por segundo e cada medida recebe um valor numérico.

    A quantidade de medições por segundo é a taxa de amostragem. Um CD usa 44.100 amostras por segundo, ou 44,1 kHz. A quantidade de bits usada para representar cada amostra ajuda a determinar a resolução e a faixa dinâmica. O CD usa 16 bits; gravações profissionais passaram a usar muito 24 bits e, mais recentemente, apareceram gravadores em 32-bit float.

    PCM significa Pulse Code Modulation e é a forma básica de representar essas amostras numericamente. É importante notar que “digital” não significa automaticamente “comprimido”. Um WAV PCM pode guardar o áudio sem compressão; um FLAC comprime sem jogar informação fora; um MP3 reduz muito o arquivo descartando informações consideradas menos perceptíveis ao ouvido.

    Experimentos com gravação digital de áudio surgiram nas décadas de 1960 e 1970. No Japão, sistemas PCM chegaram às primeiras gravações comerciais no começo dos anos 1970. Nos Estados Unidos, a Soundstream concluiu em 1976 um gravador digital de duas pistas, 16 bits e 37,5 kHz, além de desenvolver um dos primeiros sistemas de edição de áudio por computador. A história está detalhada no artigo “Soundstream: The Introduction of Commercial Digital Recording in the United States”.

    Esses primeiros sistemas estavam longe de caber no bolso. Muitas vezes, o áudio PCM era transformado em sinal de vídeo e registrado em grandes gravadores de videotape. Era digital, sim, mas ainda dependia de uma fita e de um equipamento que não seria carregado alegremente para gravar o barulho da chuva na esquina.

    CD, MiniDisc, memória interna e cartão

    O Compact Disc, desenvolvido em conjunto por Philips e Sony, chegou ao mercado japonês no fim de 1982 e à Europa em 1983. O acervo histórico da Philips registra esse lançamento. O CD não foi o primeiro áudio digital, mas foi o formato que apresentou o digital a milhões de pessoas: acesso direto às faixas, ausência de chiado de fita e nenhuma agulha encostada no disco.

    Para gravar, porém, o CD-R ainda demoraria a ficar barato e prático. Em 1992, a Sony lançou o MiniDisc, um pequeno disco magneto-óptico regravável dentro de um cartucho. O primeiro gravador portátil MZ-1 já permitia gravar, apagar, dividir e reorganizar faixas sem cortar fita alguma.

    O MiniDisc não substituiu mundialmente a cassete nem o CD, mas conquistou músicos, jornalistas, rádios e gente apaixonada por gravadores. Ele representou muito bem uma fase de transição: ainda havia um objeto físico removível, mas o conteúdo já era digital e editável.

    Na década de 1990, surgiram também gravadores de voz com circuitos de memória, os chamados IC recorders. No início, eram voltados principalmente a ditado: pouco espaço, áudio comprimido e qualidade modesta. Com o crescimento da memória flash e dos cartões removíveis, os aparelhos ganharam estéreo, WAV PCM, microfones melhores, USB e taxas de 24 bits por 96 kHz.

    A fronteira entre “gravador de voz” e “gravador profissional portátil” começou a desaparecer. Em 2006, o Zoom H4 reuniu microfones estéreo XY, entradas XLR/TRS, gravação em quatro pistas e armazenamento em cartão num aparelho de uma mão. A própria Zoom conta essa história em “The History of Zoom Handy Recorders”.

    Depois vieram aparelhos cada vez menores, com baterias mais duradouras, cartões enormes e qualidade que os grandes sistemas antigos nem sonhavam oferecer naquele tamanho. Um gravador como o Olympus DM-720 já une voz, música, WAV, MP3, WMA, memória interna e microSD e ainda fala os menús… E um aparelho atual como o Zoom H1essential grava em WAV 32-bit float e também fala seus menus.

    Muitos devem lembrar Desse post aqui, onde demonstro num vídeo, na prática, o Olympus DM-720, e em breve, farei um demonstrando o h1essential.

    Essa última parte tem um significado especial para mim. A série Essential da Zoom foi projetada com orientação falada para pessoas cegas ou com baixa visão. Pela primeira vez, não se trata apenas de decorar uma sequência de botões ou depender de alguém para configurar o aparelho: o próprio gravador descreve os menus.

    O 32-bit float também oferece uma margem enorme para recuperar depois, na edição, sons muito baixos ou picos muito altos. Não é magia e não salva microfone ruim, vento, manuseio ou pré-amplificador estourado, mas reduz bastante o velho pesadelo de errar o nível. O manual do H1essential explica as vantagens do formato.

    Quando o gravador entrou no computador

    O computador não apenas recebeu o áudio digital: virou gravador, editor, mesa, processador, arquivo e estúdio inteiro.

    Nos primeiros PCs, som digitalizado era luxo. As máquinas faziam bipes e, com placas como AdLib e Sound Blaster, passaram a sintetizar música e tocar amostras. A Sound Blaster também popularizou o formato VOC, da Creative. Arquivos .voc guardavam fala, efeitos e outros sons de muitos jogos e programas do DOS. O guia de programação da Sound Blaster descreve a estrutura do Creative Voice File.

    Quem viveu aquela fase talvez se lembre de um arquivo dizendo “Sound Blaster” com uma qualidade que hoje faria qualquer editor procurar desesperadamente o botão de redução de ruído. Mas aquilo era o PC finalmente aprendendo a falar de verdade.

    Logo surgiu uma verdadeira fauna de formatos:

    • AU ou SND: muito associado a sistemas Sun e NeXT e aos primeiros tempos do áudio na internet;
    • AIFF: criado pela Apple no fim da década de 1980, muito usado no ambiente Macintosh e na produção profissional;
    • WAV: desenvolvido por Microsoft e IBM sobre o contêiner RIFF e documentado em 1991. Tornou-se o grande formato de áudio do Windows. Normalmente guarda PCM sem perdas, embora o contêiner possa receber outras codificações. A Biblioteca do Congresso dos EUA mantém uma descrição técnica do WAVE;
    • RealAudio e RealMedia, ou RA e RM: símbolos da internet discada. Sacrificavam qualidade para transmitir áudio em conexões lentas. Às vezes a voz parecia estar falando de dentro de uma lata localizada noutra dimensão, mas tocava sem baixar o arquivo inteiro, o que na época era quase bruxaria. A Biblioteca do Congresso dos EUA explica a confusão entre as extensões RA, RM e RAM;
    • MP3: parte do padrão MPEG de áudio, consolidado no começo da década de 1990. Usa compressão perceptual com perdas e consegue arquivos muito menores que o PCM. Um MP3 de 128 kbps pode ter aproximadamente um onze avos do tamanho de um áudio PCM com parâmetros de CD. Foi decisivo para downloads, música portátil, compartilhamento e streaming. A história e a técnica estão na descrição do MP3 mantida pela Biblioteca do Congresso dos EUA;
    • WMA, AAC e outros formatos com perdas: cada um tentou melhorar eficiência, qualidade, integração com aparelhos ou controle de direitos. O AAC acabou muito presente em celulares, vídeo, lojas e serviços de streaming;
    • Ogg Vorbis: alternativa aberta para distribuição e transmissão de áudio comprimido. A Biblioteca do Congresso dos EUA descreve o formato Ogg Vorbis;
    • FLAC: comprime sem perdas. O arquivo fica menor que o WAV, mas, ao ser decodificado, recupera os mesmos dados de áudio. É ótimo para coleção, distribuição em alta qualidade e arquivamento quando a economia de espaço importa;
    • MIDI: merece uma explicação à parte. Na maioria dos casos, MIDI não é uma gravação do som. É uma sequência de instruções: qual nota tocar, quando, com que intensidade e usando qual instrumento. É mais parecido com uma partitura eletrônica do que com uma fita. Por isso o mesmo arquivo podia soar bonito numa placa e como uma orquestra de campainhas quebradas em outra.

    Também é importante distinguir formato de trabalho de formato de entrega. Para gravar, editar, mixar e preservar, WAV PCM ou outro formato sem perdas costuma ser a escolha mais segura. Para publicar, enviar ou transmitir, MP3, AAC, Opus e semelhantes economizam espaço e banda. Converter um MP3 para WAV não devolve o que a compressão já descartou; apenas cria um arquivo maior contendo o mesmo áudio já reduzido. É como ampliar uma fotografia pequena: aumenta o papel, não os detalhes originais.

    Para preservação, a recomendação histórica é evitar compressão com perdas. A União Europeia de Radiodifusão recomenda PCM para arquivos de áudio, e a Biblioteca do Congresso dos EUA usa Broadcast WAVE como formato preferido em diversos trabalhos de preservação.

    Do corte com lâmina ao Ctrl+Z

    À medida que discos rígidos ficaram maiores e processadores mais rápidos, o computador assumiu também a edição multipista. A onda passou a aparecer na tela; trechos podiam ser copiados, movidos, processados e desfeitos sem cortar o suporte original.

    Nasceram e evoluíram as DAWs, sigla para Digital Audio Workstation. Pro Tools, Cubase, Logic, Sound Forge, Cool Edit — depois Adobe Audition — e muitos outros transformaram o estúdio. Hoje, no REAPER, que é o que uso, posso gravar várias pistas, editar, aplicar efeitos, automatizar, mixar e renderizar o resultado num único computador.

    O princípio, porém, continua reconhecível. Há uma entrada, alguma coisa transforma o som em sinal, esse sinal é registrado e depois reproduzido. A grande diferença é que aquilo que já exigiu uma corneta, um cilindro, uma agulha e uma manivela agora pode ser uma interface USB e um arquivo no SSD.

    O suporte muda; a vontade de guardar continua

    Existe uma ironia nessa história: quase todo novo formato foi anunciado como mais durável, prático ou definitivo, e quase todos acabaram ameaçados pela deterioração ou pela falta de aparelhos.

    A cera quebra e mofa. A goma-laca se parte. O vinil risca. A fita perde material magnético, estica ou gruda. O DAT depende de mecanismos delicados. CDs podem degradar. Cartões falham. HDs morrem. Formatos de arquivo ficam sem programas compatíveis. A nuvem também não é um passe livre para Setealém onde os dados vivem eternamente.

    Por isso uma gravação importante precisa de mais de uma cópia, em mais de um lugar, e às vezes precisa migrar de suporte. Preservar áudio não é guardar e esquecer; é verificar, copiar e manter a possibilidade de reprodução.

    Talvez essa seja a ligação mais bonita entre o fonoautógrafo de 1860 e um gravador digital atual. Scott de Martinville desenhou uma voz que seu próprio século não conseguia ouvir. Nós gravamos em cartões e computadores que um século futuro talvez também não consiga abrir sem algum trabalho arqueológico.

    Mas continuamos gravando porque o som carrega uma presença que o texto e a imagem não substituem. Uma voz antiga traz respiração, ritmo, sotaque, hesitação e emoção. O barulho de um lugar reconstrói um ambiente inteiro. Uma música registra não apenas notas, mas uma execução que nunca se repetirá exatamente da mesma forma.

    Cada gravação é uma pequena cápsula do tempo. Algumas vêm num cilindro de cera; outras, numa fita cassete; outras, num WAV de 32-bit float perdido no meio de uma arquivaíada. Todas tentam fazer a mesma coisa: impedir que um instante sonoro desapareça para sempre.

    É por isso que gosto tanto dessas “fonografias”. Elas não mostram como um momento parecia. Elas deixam o momento falar.

    Um abraço e espero que tenham gostado dessa “primeira viagem”, por que em breve virei com outra contando histórias dos “grandes artistas das grandes épocas” de evolução “fonográfica”!…

    Fernando

  • Novo vídeo – Demonstrando gravador Olympus DM-720 com guia de voz!

    Tempo de leitura: < 1 minuto

    Olá caros amigos e leitores!

    No vídeo abaixo, trago um pouco sobre o gravador Olympus DM-720, o “gravador com acessibilidade”. Como em vídeos anteriores falamos sobre guia de voz e diferenças entre guia de voz e leitor de telas achei por bem demonstrar esse gravador, no qual o “guia de voz” (Voice guide) funciona e nos atende muito bem. Pena que, novamente, parece que ele está saindo do mercado, assim como aconteceu com o DM-620, mas você ainda pode comprá-lo Nesse site aqui.

    Esperamos que não saia de linha e que, se sair, a Olympus coloque algo equivalente pra nós DVS. De qualquer forma, fica a dica e o vídeo abaixo demonstrando, espero que gostem! Abração e até uma próxima!

  • Leitor de telas VS Voice Guide – Vídeo explicando as diferenças!

    Tempo de leitura: < 1 minutoOlá caros amigos e leitores!!!

    Pois, lembram Desse post aqui?

    Então, no vídeo eu havia prometido trazer um outro vídeo falando sobre a
    diferença entre um guia de voz (Voice Guide) e um verdadeiro leitor de telas…

    Pois aqui está ele! Eu e o Gabriel Schuck gravamos
    esse vídeo para mostrar para vocês essa diferença e também o por que um leitor
    de telas é muito mais eficiente, mesmo que um voice guide em alguns casos
    também seja uma alternativa. No vídeo em questão eu estou usando um gravador
    Olympus DM-720 (Que tem acessibilidade via voice guide) e ele demonstrando o
    leitor de telas talkback no android. Só torço para que essa informação chegue a
    quem tem que chegar, pois, como bem disse o Gabriel no vídeo, os teclados (E a
    maioria dos equipamentos de áudio) tem sim condições de rodar um leitor de
    telas sem pesar no sistema.

    Bom, vamos ao link de vídeo e espero que gostem:

    https://www.youtube.com/watch?v=T70FEN9caGo

    Abração e espero que gostem! Aguardo vocês nos coments, aqui e lá no vídeo!

    Fernando

  • Acessibilidade em instrumentos musicais: Uma novidade interessante!

    Tempo de leitura: 3 minutosOi turma!!!

    Tudo bem?

    Pois, aqui tudo ótimo! De volta nessa coisa aqui para divulgar algumas coisas importantes:

    Vocês lembram desse post aqui sobre acessibilidade em instrumentos musicais?

    Vai fazer 10 anos que postei isso dia 20/03, e, em 10 anos… Muita coisa poderia ter sido feita, e muito pouco aconteceu. Contudo, desde fim da década de 90 os cegos vem enfrentando um problema cada vez maior: O aumento de instrumentos e equipamentos que, ao invés de ter botões, tem tela touch… Pra quem enxerga “é uma maravilha”, afinal está tudo juntinho, bonitinho e prático. Já pra quem não enxerga é um desastre por que “A gente fica duas vezes cego: Do tato e dos olhos”!

    A questão é que acessibilizar esse tipo de equipamento não só também é possível como fácil, “basta apenas querer”. A prova disso está nos celulares, tanto android quanto IOS, que já fizeram isso desde quase o princípio e inclusive criaram sistemas pra que se possa, com acessibilidade, navegar na tela por gestos e mesmo não sabendo o local de um app, procurar por ele; Mesmo acidentalmente tocando em um ítem, não ativar ele.

    Mas… E os teclados e outros instrumentos/equipamentos? Estão, como sempre, atrasados! Hoje em dia tem processamento e memória para isso de sobra, mas pouco se fez.

    Contudo, no vídeo que trago abaixo demonstro um dos 3 teclados Yamaha que trazem uma novidade que, não é uma solução, mas é, sem dúvida, um primeiro passo: O “Voice Guide”, um sistema de assistência por voz para deficientes visuais com mensagens pré-gravadas que “tocam” quando o conteúdo equivalente da tela é selecionado. Isso torna possível selecionar um estilo ou timbre que não esteja nos bancos de memória com autonomia, por exemplo. Outras características interessantes são as seguintes:
    1) A voz não sai nas caixas de som (No caso de estar em uma apresentação por exemplo, só o usuário e quem estiver muito perto vai ouvir).
    2) Esse teclado tem uma tela touch, o que poderia ser um problemão, mas existe um modo de “reconhecimento da tela” no voice guide (Demonstro no vídeo) que dá pro usuário cego conhecer a tela e localizar o botão que precisa antes de “ativar” ele. O único problema disso são os modos de acessar esse “preview” da tela: Através do pedal esquerdo (Eu p/ex.: uso o pedal esquerdo para controlar ritmos, seja no break ou end), ou com o botão direct access (Justamente o botão que nos facilita muitas das tarefas criando acesso direto para algumas telas). Isso é uma falha grave por que existe uma porção de botões menos importantes que poderiam ser usados para alocar o “controle do voice guide”, ao invés dessas duas opções que são muito usadas e muito importantes.

    De qualquer forma não podemos negar que a Yamaha deu o primeiro passo e espero que futuramente continue dando outros, e, claro, que as outras fabricantes (Principalmente as mais conhecidas como Korg, Roland e Casio), sigam o exemplo ou até melhor.

    O Voice Guide não é um leitor de telas e sim um sistema que através de mensagens gravadas equivalentes ao que aparece no display consegue “falar” o conteúdo na tela. Isso gera alguns problemas principalmente nas telas interativas, como demonstro no vídeo, mas, mais uma vez, repito que é já um “primeiro passo”.

    Seria bom que a Yamaha levasse essa iniciativa (via firmware upgrade) para teclados como o SX600 e os da linha 70/75. Neles um Voice Guide seria bem útil também e imagino que não seja difícil de implementar.

    Acrescento que um “verdadeiro leitor de telas” ao invés de um guia de voz seria sim muito mais interessante e que é perfeitamente possível (Como comentei no início do post sobre os celulares).

    Estou fazendo um outro vídeo (Conteúdo para outro post) mostrando justamente a diferença entre um guia de voz (Com mensagens pré-gravadas) e um verdadeiro leitor de telas e comentando (E mostrando) por que um leitor de telas é algo muito mais eficiente. Mas o passo inicial está dado, só espero que seja o primeiro de muitos e não o único, e parabéns para a Yamaha por ter sido ela a dar.

    Vamos, finalmente, parar de falação. Você pode assistir o vídeo aqui!

    Esse vídeo foi gravado na loja Palácio da Música, em Novo Hamburgo, RS, e nele eu demonstro o guia de voz e algumas “dificuldades” justamente geradas por ele ser um guia de voz e não propriamente um leitor de telas e por não haver certos gestos personalizados para “procurar” elementos na tela (Como há por exemplo as opções de varredura nos celulares Android e IOS).

    De qualquer forma, espero que gostem!

    Abração e até mais!!!

    Fernando

  • Dicas NVDA – Navegando na internet com facilidade!

    Tempo de leitura: 3 minutosOi turma!!!
    Pois… desde 2008, sou um usuário do NVDA, um leitor de telas opensource que veio para facilitar a vida dos deficientes visuais em grande estilo. Explico: Antes dele, ou o usuário tinha que ter uma licença do Virtual Vision, ou mesmo do Jaws, o que tornava a coisa bastante complicada. Explico: O jaws tem um preço de licença bastante proibitivo, e o Virtual Vision, o usuário comum até pode adquiri-lo através do banco Bradesco, mas o que fazer com as universidades e empresas onde o DV vá trabalhar? Se tiver de pagar um valor de mais de 1000 reais por um leitor de telas simplesmente pro deficiente visual poder trabalhar na empresa o que o empregador faz? Contrata qualquer outra pessoa… E isso estava interferindo bastante, não somente (E nem tanto) na inclusão no que se refere aos estudos mas principalmente no mercado de trabalho…

    Para isso foi criado o NVDA, que é opensource e tem uma capacidade tão grande quanto a maioria dos leitores de telas pagos.

    Contudo, uma das maiores dificuldades que vejo no pessoal que está migrando do Jaws ou mesmo Virtual Vision para o NVDA é a adaptação. Pensando nisso, resolvi trazer algumas dicas periodicamente, nessa coisa aqui, pra facilitar a vida dos novatos em NVDA, seja através de Add-ons (Plugins) como teclas de atalho e outras.

    Hoje, pra começar, como a maioria se refere a dificuldades de navegação na internet, trago algumas dicas justamente nesse ponto, bem como uma lista de teclas de atálho.
    1) Links agrupados: Sim, principalmente o pessoal que vem do Jaws, quando tenta navegar com as setas as vezes se dá de frente com 4 ou 5 links numa só linha e não sabe o que fazer e… Bom… “Eu gosto de navegar com as setas, e agora?”… Simples: Você pode usar o “K” e “shift+k” pra navegar link por link ou simplesmente, dentro do navegador mesmo, digitar insert+ctrl+B (Que vai abrir a tela modo de navegação) e desmarcar a caixa “usar apresentação da tela (Quando suportado)”… Pronto, suas setinhas voltaram a funcionar da maneira normal como no bom e velho jaws!
    2)Facilitando a vida com controles do teclado:

    Aqui, trago então várias teclas de atalho que ajudam com diversos elementos no quesito navegação na internet, vamos a elas:

    Subtítulos:

    • Tecla H – Navega entre cada um deles independente do nível (Tamanho).
    • Teclas 1 a 6: Navegam especificamente nos subtítulos de nível 1 a 6.

    Links:

    • Tecla K: Navega de link em link.
    • U: Navega links não visitados
    • V: Navega entre links visitados.

    (Todas essas teclas, usando-se combinadas com a tecla shift, ao invés de avançar de elemento em elemento, retornam).

    Listas:

    • L: Navega de lista em lista.
    • I: Navega item por item nas listas.

    Gráficos:

    • G: Pula de gráfico em gráfico. Havendo descrição curta, já lê automaticamente.
    • NVDA+D: Lê a descrição longa (Longdesc)

    Formulários:

    • F: Navega item por item do formulário.
    • E: navega entre os campos editáveis do formulário.
    • R: navega entre botões de opção.
    • X: navega entre as caixas de verificação (Ou de marcar) (De uma em uma).
    • C: navega entre as caixas de opção (ou listas multi select) de uma em uma.
    • B: navega entre os botões.

    Outros:

    • N : Pula para texto que não é link.
    • M : Pula entre frames.
    • S: Pula entre os separadores (Aqueles traços na tela).
    • D: Pula entre as landmarks (Marcas específicas em regiões do site para prover melhor acessibilidade).
    • A: Pula entre as anotações (Se houver), útil para documentos…
    • T : Pula entre tabelas.

    Específicos:

    • NVDA+F7 : Abre lista de objetos (Conforme mostrado na aula pode-se navegar de diversas formas, entre cabeçalhos, links ou landmarks).
    • NVDA+Control+F – Abre a busca do NVDA para se buscar por conteúdo.
    • NVDA+F3 – Busca novamente o conteúdo anteriormente buscado.
    • NVDA+Shift+F3 – Volta para a busca anterior…

    E então? Espero que essa pequena dica tenha ajudado, e em breve trago mais. Quanto mais popularizarmos o uso de software livre e menos o empregador tiver que gastar com tecnologias específicas, mais empregos haverão para os cegos… Então, vamos todos aprendendo a usar o NVDA!
    Abração e até a próxima!
    Fernando

  • Uma super novidade para quem usa NVDA e NVDA remote!

    Tempo de leitura: < 1 minutoOi turma!!!
    Venho hoje com uma super novidade para os usuários do NVDA:
    Para os que usam o NVDA Remote, agora temos um servidor alternativo bastante bom para os que estão tendo problemas usando o host nvdaremote.com. Criamos esse servidor devido à superlotação do original que, inclusive, as vezes tem grandes problemas com quedas/travamentos. Assim, aliviamos a “carga” do original e temos uma melhor estabilidade…
    Pra configurar, basta no campo host (Depois de seguir os procedimentos padrão do plugin) ao invés de deixar
    nvdaremote.com
    Como está o campo por padrão, colocamos
    nvdaremote.sitiodosvox.com
    E seguimos o resto dos procedimentos de acordo com o padrão…
    Este servidor está em uma vps alternativa menor na FDC, mas ligado diretamente através desse endereço ao nosso servidor padrão na Virtuaserver.
    Então… Turma do NVDA: Testem, aproveitem, usem e, claro, não abusem!aaaa…

    E em breve eu volto com mais novidades nessa coisa aqui!
    Até mais!
    Fernando

  • Acessibilidade: O que fazer quando existe mas é inacessível?

    Tempo de leitura: 4 minutosOlá caros leitores!

    Quando escrevi o artigo sobre acessibilidade em instrumentos eletrônicos, recebi diversos e-mails e mesmo comentários aqui incentivando a ideia. Claro que, como sempre acontece, alguém é do contra, e diz que as empresas não tem a obrigação de fornecer acessibilidade esquecendo mesmo de duas coisas: 1) A própria lei, que regulamenta isso, e: 2) O fato de estar usando da própria acessibilidade pra dizer o que está dizendo. Claro que gente assim não conheceu a época em que um livro a mais em braille ou gravado já era um grande ganho, e que a gente tinha que lutar, até mesmo pra entrar na escola e que as vezes nos repelia dizendo abertamente que “não tinha condições de assumir tal responsabilidade” (Educar um deficiente). Fácil é falar hoje em dia contra a acessibilidade, pra quem não conheceu aquela época e tem, hoje, de mão beijada um dosvox, um NVDA e diversas outras ferramentas de forma gratuita. Contudo basta lembrar as dificuldades que enfrentamos quanto à acessibilidade nas universidades, por exemplo, e esse tipo de argumento já se extingue por si sem precisar de mais contra-argumentos.

    Contudo, o que mais me chamou a atenção quanto à repercussão do artigo não foi nem isso:

    Um dia depois de ter publicado o artigo, recebi um e-mail de uma das integrantes de nossa comunidade, Rebeca Serra, falando sobre um problema bastante curioso: Ela tem um amigo, o Tiago, que além de ter problema visual, tem problema em uma das mãos por consequência de uma mielite, o que, além da visão, acabou afetando toda a coordenação motora do lado esquerdo. Pois: O Tiago é flautista, e a meses ele e a Rebeca, e agora eu, depois do contato dela, estamos tentando conseguir para ele uma “flauta acessível”, na qual ele possa tocar, com a mão direita, enquanto com a esquerda (Que os movimentos foram afetados pela doença mas não completamente), lê as músicas no sistema Braille. Pois bem, o absurdo dos absurdos é o seguinte: A tal flauta existe! Sim, existe e é fabricada pela Yamaha. O modelo é YRS-900 R (O R significa right), e, claro, é uma flauta que pode ser tocada somente com a mão direita. Existe, naturalmente, a outra versão, que pode ser tocada somente com a mão esquerda (YRS-900 L). Pois bem: Eu digitei o modelo no google e achei pouquíssimas referências, e, claro, uma delas era no site da yamaha no Japão, o que pouco me ajudou; Também não achamos nada sobre como fazer a importação da tal flauta e quando entramos em contato com a Yamaha do Brasil, a resposta deles foi que não teriam como importar a referida flauta.

    Pois bem: Eu mesmo nunca imaginei que haveria uma “flauta acessível”, pouco sei sobre acessibilidade nos instrumentos não eletrônicos e creio que muitos também estão nessa situação. Ao saber que havia esse problema do Tiago e, naturalmente, que pro referido problema havia uma solução fiquei muito feliz mas ao mesmo tempo desapontado: Quando a gente não tem acessibilidade em algo, seja o que for, a gente luta por ela, faz projetos, reivindica, contacta empresas, etc. Contudo, o que faz quando tem e não sabe dela? Ou, pior, como foi no caso do tiago: Tem a acessibilidade mas ela se torna inacessível? A resposta da Yamaha para nós foi em caráter definitivo, pelo que pude sentir: Além de eles não terem conhecimento do referido instrumento (E não tinham quando entrei em contato com eles), ainda dizen que não a importam!

    Tenho que dizer que isso pra mim foi mais surpresa que saber que algo, muito importante, ainda não tem acessibilidade. Conversando com a própria Rebeca, a mesma me contou que tem diabete (Como muitos outros cegos que conheço) e me falou que mesmo sendo essa a terceira maior causa de cegueira no Brasil não existe até hoje um glicosímetro com sintetizador, e não há qualquer laboratório que produza insulina e a venda com denominações em Braille. Não questiono a questão da insulina mas quanto ào glicosímetro, será mesmo que não existe? Será que não é mais um produto que há no mercado mas não sabemos da existência dele e não temos como importar? E convenhamos: Não seria assim tão difícil pra uma empresa fazer algo nesse sentido, pelo contrário: É bem mais fácil que produzir um instrumento eletrônico acessível, ou um computador ou celular, coisas que já existem.
    Pois então: Devemos lutar pela acessibilidade e temos o direito de exigi-la sim! Mas o que fazer quando ela existe e não sabemos ou não está a nosso alcance? Mais absurdo que não ter acessibilidade é quando a temos, mas não podemos alcança-la! A divulgação deve fazer parte quando da criação de qualquer produto acessível, especialmente na internet; E a obtenção também: Ao invés de uma resposta definitiva e negativa, por que não buscar, trazer e divulgar? Garanto que não seria só o Tiago o único beneficiado com a Flauta acessível, por exemplo; Muitos outros que só tem uma mão poderiam realizar o sonho de começar a tocar um instrumento, muitos poderiam aproveitar. E o que dizer do argumento sobre a quantidade, pra valer apena a importação? Simples: Se não divulgamos e não tentamos, nunca teremos um resultado. E eu, somente eu, já conheço umas três ou quatro pessoas que poderiam ser beneficiadas com o instrumento! Quantos mais não haverão por aí? Somente poderemos saber quando empresas como a yamaha pararem de dar respostas negativas e resolverem “arriscar”!

    Termino então esse artigo na expectativa de que o mesmo sirva para iluminar aquelas mentes que gostam de primeiro dizer não, fazendo com que elas resolvam primeiro tentar, para depois, tendo um resultado prático na mão, aceitar ou negar algo. Ainda falando da Yamaha e do artigo anterior sobre acessibilidade, eu havia mencionado a Yamaha e a Roland, mas existem muitas outras que poderiam também aderir a essa campanha. Contudo, a Yamaha foi a única que se dignou a me responder dizendo que estavam encaminhando minha solicitação aos responsáveis. Até agora não obtive mais nenhum retorno nesse sentido, mas vou entrar em contato pra saber se algo foi ou será feito e, naturalmente, divulgo o resultado aqui.

    Cumprimentos

    Fernando