“Contrabandista” faz parte de Contos Gauchescos, livro de João Simões Lopes Neto publicado originalmente em 1912.
A história apresenta Jango Jorge, velho gaúcho que passou boa parte da vida cruzando a fronteira e fazendo contrabando. O conto aproveita a trajetória do personagem para falar também de um tempo em que a fronteira entre o Rio Grande do Sul e os países vizinhos era cenário de comércio clandestino, disputas, perseguições e toda espécie de aventura.
Jango Jorge conhece caminhos, atalhos, campos e passos de rios como poucos. É praticamente um homem moldado pela fronteira.
Mas a história que começa contando as façanhas desse velho contrabandista vai mudando de tom quando chega o casamento de sua filha.
Às vésperas da festa, Jango Jorge sai para buscar o enxoval da noiva.
E é aí que Simões Lopes Neto vai preparando um daqueles finais que ficam na cabeça depois que o conto termina. Não vou contar tudo aqui, porque quem nunca leu merece chegar ao final sem que este humilde blogueiro cometa o crime de contrabandear o spoiler pela fronteira, aaa.
Para quem quiser ler a obra original, o conto está disponível gratuitamente na Wikisource:
E foi justamente desse conto que nasceu a música que trago hoje.
Não tentei simplesmente transformar o texto de Simões Lopes Neto em versos. A ideia foi pegar a história, o ambiente da fronteira, o personagem e principalmente o peso daquela narrativa e levá-los para uma música.
A letra é minha. O arranjo e a interpretação foram criados com o auxílio do Suno.ai.
O vídeo introdutório foi criado pelo Gemini, e no Reaper eu fiz a “colagem”, digamos assim…
Então chega de conversa e vamos ao que interessa:
Se o vídeo não aparecer no seu navegador ou leitor, você também pode assistir diretamente no YouTube:
Hoje a conversa é curta, mas já vem com trilha sonora: duas músicas criadas inteiramente por inteligência artificial no fim de 2025, ainda com o modelo 5 do Suno.
Em Chão de saudade, temos um gaúcho solitário sofrendo porque sua prenda foi embora. Já O sol te espera virou um sertanejo universitário ao vivo — e foi somente nessa segunda música que o Suno resolveu colocar até uma plateia participando da brincadeira,aaa.
Eu não escrevi as letras, não compus as melodias e muito menos gravei os instrumentos. Minha participação foi fornecer as ideias, escolher os resultados e, evidentemente, gastar os créditos. Afinal, a inteligência artificial ainda não aprendeu a pagar a própria assinatura.
As duas músicas surgiram no fim de 2025. A primeira nasceu de um pedido extremamente simples. A segunda passou por uma espécie de “parceria”, digamos assim, entre o Gemini e o Suno.
Para criar Chão de saudade, o pedido foi mais ou menos este:
Crie uma música sobre um gaúcho que está com saudades porque sua prenda foi embora.
E foi praticamente isso. Não teve roteiro de novela, biografia completa do gaúcho, mapa do galpão nem explicação sobre o motivo da partida da prenda. A inteligência artificial recebeu a ideia e devolveu a história musical de um gaúcho solitário, acompanhado pela saudade.
Já O sol te espera foi criada em uma “parceria” entre o Gemini e o Suno. E o mais engraçado é que a danada ficou muito boa,aaa.
O resultado foi um sertanejo universitário ao vivo, com direito a plateia e tudo. A inteligência artificial providenciou cantor, banda, palco e público sem que ninguém precisasse enfrentar fila, procurar estacionamento ou reclamar que o ingresso estava caro.
Antes de me “apropriar” da música — afinal, foram os meus créditos que pagaram a conta —, mandei o resultado para quatro ou cinco pessoas. A ideia era verificar se alguém encontrava algum furo na letra, alguma expressão fora do lugar ou alguma coisa estranha que tivesse passado despercebida.
Eu mesmo não havia encontrado nenhum problema, mas achei melhor convocar uma pequena comissão de auditoria musical humana. Depois disso, a música ganhou o direito de aparecer, primeiro no Youtube, e depois por aqui.
Por quê? Porque foram os meus créditos que “pagaram” pela criação,aaa.
Eu particularmente não gosto de publicar uma letra que não seja minha ou de algum amigo, como acontece, por exemplo, com as letras que fiz em parceria com a Rosani. Mas sempre existe uma ligeira exceção, digamos assim. Neste caso, a ideia, a escolha dos resultados, a revisão, os créditos e a decisão de publicar passaram por mim, enquanto as máquinas fizeram o trabalho musical.
Agora chega de explicar música, porque música foi feita para ser ouvida. Vale a pena conferir as duas e descobrir qual delas fica mais tempo tocando na cabeça.
Nos dois últimos textos dessa coisa aqui, a Pulse Client Experts, antiga SX Negócios, apareceu de passagem porque fez parte da minha história profissional e, principalmente, do nada agradável capítulo final dela.
Trabalhei lá de maio de 2021 a 10 de dezembro de 2025, na área de comunicação, produzindo e editando spots, tratando áudios, organizando bibliotecas e preparando conteúdos para rádio indoor. No dia 10 de dezembro, fui chamado para ir à empresa sob outro pretexto e, chegando lá, descobri que a pauta verdadeira era a minha demissão. Faltavam seis dias para o meu aniversário. Um delicado presente corporativo, embrulhado em papel de setealem e com um belo laço de invvvéérno,aaa.
Mas este texto não é apenas um “fui demitido e fiquei brabo”. Depois de pesquisar notícias, documentos financeiros, estudos sobre call centers, normas do Ministério do Trabalho, avaliações de funcionários e manifestações sindicais, dá para enxergar um quadro bem maior.
Também é importante deixar uma coisa clara desde o início: isto não é uma sentença judicial, uma denúncia criminal nem uma tentativa de transformar o blog em tribunal. Aqui há três categorias de informação, e misturá-las seria uma bela alzapuertada:
fatos documentados em fontes públicas;
relatos de trabalhadores e entidades sindicais, devidamente identificados como relatos ou denúncias;
a minha experiência pessoal, que eu mesmo posso contar, mas que não deve ser fingida de estatística universal.
Feita a calibragem do detector de bobagem, vamos ao que encontrei.
O que é a Pulse e qual é o tamanho dessa coisa?
A Pulse Client Experts atua em teleatendimento e negócios para clientes do Santander. A própria página de recrutamento informa que a empresa integra o grupo Santander, atende milhares de pessoas diariamente e possui mais de 9 mil funcionários distribuídos entre Novo Hamburgo, Rio de Janeiro, Sorocaba e Piracicaba.
Segundo a empresa, em março de 2020 eram 1,2 mil pessoas. Portanto, houve uma expansão enorme em poucos anos. Isso já produz um primeiro paradoxo: uma empresa pode contratar bastante, manter milhares de empregados e, ao mesmo tempo, realizar muitas demissões.
É aí que entra a diferença entre redução líquida do quadro e rotatividade. Se cem pessoas saem e outras cem entram, a empresa continua com o mesmo tamanho, mas duzentas relações de trabalho mudaram. Para quem olha apenas o total, parece estabilidade; para quem está levando a caixa de papelão imaginária até a porta, a estabilidade passou longe, digamos assim…
Durante esta apuração, não encontrei um comunicado público da Pulse informando quantas pessoas foram demitidas em dezembro de 2025 nem explicando uma dispensa coletiva específica naquele mês. Encontrei alegações de demissões em massa em ações trabalhistas, mas uma petição contém a versão de quem ajuizou a ação; não equivale a uma decisão que reconheceu o fato.
Portanto, seria irresponsável inventar um número ou afirmar como certeza que houve uma demissão coletiva formal na Pulse. O que existe, porém, é um contexto muito concreto de enxugamento no conglomerado ao qual ela pertence.
O Santander cortou quase 6 mil postos em 2025
O relatório oficial do quarto trimestre de 2025 do Santander Brasil, apresentado ao mercado e arquivado na SEC, a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos, informa que o grupo terminou 2024 com 55.646 empregados e encerrou 2025 com 49.661.
Isso representa 5.985 postos a menos em doze meses, uma redução de aproximadamente 10,8%. Somente entre setembro e dezembro de 2025, o número caiu em 2.086 pessoas. No mesmo ano, o total de lojas passou de 1.239 para 916, uma diminuição de 323 unidades.
O período do corte mais forte coincide com a minha demissão, ocorrida em 10 de dezembro. Coincidir, entretanto, não é provar. Esses números abrangem o grupo Santander Brasil e não mostram separadamente quantos desligamentos aconteceram na Pulse, em qual área ou por qual motivo.
O mesmo relatório afirma que as despesas gerais caíram 2% no ano, as despesas com pessoal recuaram 7,9% no quarto trimestre em relação ao mesmo período anterior e que o banco utilizava tecnologia para otimizar processos e aumentar a produtividade.
Traduzindo do economês corporativo para o português de quem paga boletos: havia uma estratégia declarada de eficiência, controle de custos, digitalização e produtividade acompanhada por uma redução bastante grande do quadro do grupo.
Isso ajuda a explicar o cenário no qual ocorreram muitas demissões. Não demonstra, sozinho, por que cada pessoa foi escolhida. A planilha conhece o total; raramente ela conta a história de quem virou uma linha a menos.
E a inteligência artificial, entrou nessa história?
Provavelmente entrou no cenário geral, mas não há prova pública de que tenha determinado a minha demissão ou uma leva específica da Pulse.
A própria empresa publicou em 2026 que chatbots, assistentes virtuais e sistemas automatizados agilizam tarefas repetitivas, reduzem processos de horas para minutos e permitem que as equipes se concentrem em atividades consideradas mais estratégicas.
A OCDE chama atenção para um efeito particularmente importante no atendimento: quando o chatbot resolve os contatos simples, os seres humanos ficam com os casos mais complexos, demorados e emocionalmente desgastantes.
Ou seja, a automação pode produzir dois efeitos ao mesmo tempo:
reduzir a quantidade de trabalho humano necessária em determinadas tarefas;
aumentar a dificuldade média do trabalho que sobra para as pessoas.
É o famoso progresso tecnológico: o robô fica com o “qual é o saldo?” e o trabalhador recebe o cliente irritado, o sistema travado, cinco indicadores para cumprir e um cronômetro observando tudo. A máquina ganhou inteligência artificial; o humano ganhou mais uma meta,aaa.
Mesmo assim, é preciso evitar a explicação preguiçosa de que “foi tudo a IA”. A Pulse continua anunciando vagas e declara possuir mais de 9 mil funcionários. A tecnologia é uma peça do quebra-cabeças, ao lado da reorganização do grupo, da redução de custos, da mudança dos canais de atendimento e da rotatividade tradicional do setor.
Por que existe tanta pressão em call centers?
Call centers são operações de escala. Elas acompanham tempo médio de atendimento, fila, vendas, satisfação do cliente, aderência ao horário, pausas, qualidade, resolução no primeiro contato e mais uma coleção de siglas capaz de fazer qualquer sopa de letrinhas pedir demissão.
Indicadores não são necessariamente ruins. Sem algum controle, uma central com milhares de atendimentos viraria um bug geral com fone de ouvido. O problema começa quando o indicador deixa de ajudar na organização do trabalho e passa a funcionar como instrumento de medo, competição ou punição.
Esse risco não é uma invenção de ex-funcionário ressentido. O Anexo II da NR-17, norma oficial dedicada ao teleatendimento, determina que:
o quadro de operadores deve ser suficiente para evitar sobrecarga habitual;
as metas precisam ser compatíveis com as condições e o tempo disponíveis;
os mecanismos que mostram produtividade, tempo de ligação ou filas não podem ser usados para acelerar o trabalho;
a empresa deve considerar os efeitos dos sistemas de avaliação sobre a saúde;
é proibido empregar métodos que provoquem assédio moral, medo ou constrangimento;
é proibido expor publicamente as avaliações de desempenho;
o trabalhador deve poder satisfazer necessidades fisiológicas sem prejuízo na avaliação ou na remuneração.
A norma é tão específica porque o problema também é específico e conhecido há muito tempo.
Uma pesquisa publicada em 2025 na revista Saúde em Debate, baseada em teleoperadores de duas empresas, relacionou a intensificação do trabalho, o baixo reconhecimento, a pouca autonomia e a pressão organizacional ao sofrimento psíquico, ao desgaste mental, aos afastamentos e à grande rotatividade do setor.
Outra pesquisa brasileira, publicada em 2024 na Revista Brasileira de Saúde Ocupacional, descreve o trabalho em call centers como repetitivo, intenso e marcado por lacunas na proteção à saúde percebidas pelos próprios operadores.
Portanto, quando vários funcionários relatam pressão por metas, o assunto merece ser levado a sério. Isso não significa que toda cobrança seja assédio, que todo líder aja mal ou que todas as equipes tenham a mesma experiência. Significa que a própria forma de organizar esse trabalho cria riscos que precisam ser controlados.
O que dizem as avaliações de funcionários?
As plataformas públicas não contam exatamente a mesma história. Na consulta feita em 30 de agosto de 2026, o Glassdoor mostrava nota geral de 4,2 em 5, com 81% dos avaliadores dizendo que recomendariam a empresa a amigos; no Indeed, a nota geral estava em 2,9 em 5. Registrar o número alto não é bater palma: é não fazer como certos feedbacks que escolhem apenas o pedaço conveniente e depois aparecem fantasiados de análise completa.
Sim, há quem elogie benefícios, colegas, treinamento ou alguma oportunidade. Feita essa ressalva em uma frase — e sem transformar este texto em catálogo de endomarketing —, o que interessa à apuração é a repetição, nas avaliações negativas e intermediárias, de temas como metas agressivas, cobrança constante, favoritismo, falta de preparo de algumas lideranças e avaliações consideradas injustas. No Indeed também apareciam relatos de sobrecarga, mudanças pouco transparentes nas regras de remuneração variável e cobrança por notas de clientes que nem sempre dependiam do atendente.
Esses depoimentos são anônimos e não foram individualmente auditados. Por isso, não servem para provar um episódio específico. Mas a repetição dos mesmos temas em cidades, anos e funções diferentes funciona como indício de um padrão percebido por parte dos trabalhadores, especialmente quando o conteúdo coincide com riscos já descritos pela literatura científica sobre call centers.
Há quem tenha vivido uma experiência melhor, mas isso não neutraliza a de quem encontrou gestão desorganizada, recebeu cobranças confusas ou saiu adoecido. Uma nota média não interna ninguém no hospital, mas também não apaga quem foi parar lá.
Quando o feedback vira uma seleção de conveniências
Minha função não era a de operador de teleatendimento, e não estou dizendo que todos os itens da NR-17 se aplicavam diretamente ao meu posto na comunicação. Porém, eu trabalhava dentro da mesma estrutura e conheci de perto a cultura de indicadores, avaliações e mudanças.
Um dos feedbacks usados contra o meu trabalho dizia, entre outras coisas, que eu já não produzia BGs novos como antes.
O problema é que, em 17 de novembro de 2025, menos de um mês antes da demissão, eu havia criado um samba de alerta sobre o metanol, musicalizado a letra no Suno e transformado aquele material em BG para um spot novo durante uma crise que ainda estava acontecendo.
Não era um arquivo antigo recauchutado depois que o assunto esfriou. Era produção nova para uma demanda nova. Talvez o áudio tenha vindo de setealem por telepatia e pousado sozinho no computador, porque, segundo o tal feedback, BG novo eu já não fazia,aaa.
Além disso, há o fato, já mencionado no post anterior, de que, desde abril, eu pagava do meu próprio bolso a assinatura do Suno.ai para poder produzir BGs novos com frequência. Jamais reivindiquei que a empresa assumisse essa conta, até porque sabia que isso dependeria de uma análise tão burocrática quanto contraproducente: teria de passar pela chefe, pelo financeiro e por mais algumas repartições do universo corporativo. Talvez, dois meses depois, eu conseguisse que a assinatura fosse paga pela empresa — ou simplesmente recebesse um “não”, junto com a continuação dos feedbacks estúpidos. Isso sem falar na planilha, sobre a qual também já contei naquele texto.
Isso não prova que todo o feedback fosse falso nem permite adivinhar o que se passava na cabeça de quem o escreveu. Prova algo mais simples: pelo menos uma generalização importante podia ser contestada por uma entrega concreta, recente e datada.
Esse é um problema comum em avaliações mal construídas. Em vez de reunir exemplos, datas, resultados, contexto, recursos disponíveis e a versão do trabalhador, escolhem-se impressões que confirmam uma conclusão pronta. Aí o feedback deixa de orientar e passa a decorar uma decisão já tomada.
Também há trabalho invisível: organizar acervo, corrigir áudio, pesquisar, testar, resolver problema técnico, comprar ferramenta com dinheiro próprio ou fazer algo que não chega aos olhos de quem avalia. Se a chefia só mede o que vê e o trabalhador nem sempre comunica tudo o que faz, o resultado pode ser uma fotografia cortada. A responsabilidade pela comunicação é dos dois lados; usar a fotografia incompleta como se fosse o filme inteiro é outra história.
Há ainda um ponto que não quero esconder dentro de uma nota de rodapé: sou uma pessoa com deficiência visual. Na mesma época em que fui dispensado, pelo que acompanhei diretamente, vários outros trabalhadores PCDs também foram desligados — alguns pouco antes, outros pouco depois de mim. Não tenho acesso ao número total e não posso afirmar, sem documentos, que houve uma operação formal de cortes dirigida a pessoas com deficiência. Posso afirmar o que vi: meu caso não foi o único entre os PCDs naquele período.
Isso torna o discurso de inclusão, no mínimo, merecedor de uma pergunta adicional. Contratar PCD para fotografia, campanha e relatório é fácil; inclusão de verdade também se mede na permanência, nas condições para trabalhar, nas oportunidades de desenvolvimento e na forma de desligar. Crachá diverso com porta giratória continua sendo porta giratória,aaa.
Depois de sair, eu mesmo voltei a me candidatar a vagas da Pulse por meio do InfoJobs/PandaPé. Em mais de uma candidatura, a negativa chegou em questão de minutos. Era um intervalo curto demais para parecer uma leitura humana cuidadosa de um currículo que, além de tudo, registrava mais de quatro anos de experiência dentro da própria empresa. Meu currículo completo pode ser consultado aqui.
A documentação pública do PandaPé informa que o sistema oferece triagem automática de currículos com critérios e filtros definidos pela empresa, usa inteligência artificial no recrutamento e permite respostas automáticas aos candidatos. Portanto, a velocidade da recusa é compatível com uma eliminação automatizada. Isso não me permite saber qual regra me derrubou: condição de ex-funcionário, respostas de triagem, palavras-chave, alguma configuração do recrutador ou outro critério. Também não prova que a deficiência tenha sido usada no filtro.
Mas vamos combinar: se um sistema descarta em minutos alguém que já trabalhou ali por quatro anos e meio, sem que uma pessoa aparentemente examine o contexto, existe no mínimo um processo automático mal programado, mal configurado ou mal utilizado. Inteligência artificial que não consegue reconhecer a experiência adquirida na própria casa está mais para portaria eletrônica com soluço,aaa.
Por isso, quando digo que a Pulse já não me parece a boa empresa para trabalhar que foi dois anos e pouco antes, não estou reescrevendo todo o passado. Estou dizendo justamente que a experiência mudou. Empresa nenhuma recebe certificado vitalício de “ótimo lugar” só porque um dia foi melhor. Cultura organizacional não é título de nobreza: precisa ser renovada na prática, todos os dias.
Antes de encerrar esta parte pessoal, deixo uma música inédita que nasceu dessa história: Carga desnecessária. O título é sutil como uma demissão seis dias antes do aniversário.
Carga desnecessária — música inédita.
A dedetização de 2024: aqui não estamos falando de impressão
Em 7 de janeiro de 2024, quando a empresa ainda usava o nome SX Negócios, funcionários de Novo Hamburgo passaram mal após uma dedetização realizada durante a madrugada.
Na reportagem publicada naquele mesmo dia pelo ABC+, trabalhadores disseram que pessoas teriam sido orientadas a retornar ao local dedetizado porque o espaço alternativo não possuía estrutura adequada. Foram relatados náusea, tontura, dor de cabeça, irritação nos olhos e na garganta; uma funcionária teria desmaiado.
A empresa apresentou uma versão parcialmente diferente. Em nota ao jornal, afirmou que os trabalhadores haviam sido realocados para outro prédio, mas reconheceu que três pessoas sentiram mal-estar, foram encaminhadas ao hospital e depois receberam alta.
Um ano mais tarde, ao noticiar uma tutela de urgência concedida pela 4ª Vara do Trabalho de Novo Hamburgo em ação do Sintratel-RS, a CTB-RS informou que 18 empregados receberam atendimento médico, pelo menos três foram afastados e houve diagnósticos de intoxicação por inseticida.
Segundo a notícia sindical, a decisão determinou que a empresa respeitasse integralmente os protocolos de isolamento e limpeza, transferisse ou dispensasse os trabalhadores quando ainda houvesse cheiro ou resíduos e pagasse multa de R$ 5 mil por nova violação.
A diferença entre os três encaminhamentos ao hospital reconhecidos no dia e os 18 atendimentos médicos informados posteriormente pode refletir casos identificados ou documentados depois. O ponto central é que o episódio existiu, houve atendimento hospitalar reconhecido pela própria empresa e a Justiça considerou necessário impor medidas preventivas.
Dedetização serve para mandar barata ao invvvéérno, não funcionário ao hospital. Quando o protocolo falha a esse ponto, não estamos diante de “mimimi”, falta de resiliência ou pouca vontade de vestir a camiseta. Estamos diante de saúde ocupacional.
O Ministério Público do Trabalho também recebeu denúncias
Em 23 de setembro de 2025, representantes do SindBancários Porto Alegre, do sindicato de Novo Hamburgo e da Fetrafi-RS participaram de uma audiência no Ministério Público do Trabalho de Novo Hamburgo.
Segundo as entidades, trabalhadores formalmente contratados pela Pulse exerceriam funções tipicamente bancárias, porém submetidos a contratos, jornadas e benefícios diferentes dos empregados diretos do Santander. Também foram apresentados relatos de desvio de função, assédio e descumprimentos trabalhistas.
As informações foram juntadas a um inquérito que, conforme as notícias publicadas na época, já apurava o modelo de contratação dentro do conglomerado.
Aqui a escolha dos verbos é fundamental: os sindicatos denunciaram, o MPT apurava e, até o fechamento desta pesquisa, não localizei uma conclusão pública definitiva desse inquérito. Portanto, não vou escrever que a fraude foi judicialmente comprovada quando a fonte disponível fala em investigação.
Mas a investigação ajuda a compreender outro elemento econômico: empresas diferentes dentro do mesmo grupo podem executar atividades conectadas sob convenções coletivas, salários e benefícios distintos. As entidades sindicais sustentam que esse arranjo reduz custos e fragmenta a categoria. O Santander e a Pulse defendem publicamente seus modelos empresariais e apresentam a estrutura como parte de uma operação moderna, inclusiva e voltada à experiência do cliente.
Então, afinal, por que tantas demissões e tanta pressão?
Não existe uma causa única, mas a pesquisa permite montar uma explicação bem mais sólida do que “o funcionário não pulsou o suficiente”.
O setor tem alta rotatividade. Grandes call centers contratam e desligam continuamente. Muitas saídas podem coexistir com um quadro total estável ou crescente.
O grupo Santander passou por forte enxugamento. Foram quase 6 mil postos a menos em 2025, com mais de 2 mil reduções somente no último trimestre.
A estratégia oficial privilegia eficiência, produtividade e tecnologia. Isso pressiona custos, estruturas e funções que podem ser automatizadas, centralizadas ou consideradas menos essenciais.
O modelo de call center transforma trabalho em indicadores. Metas ajudam a administrar a escala, mas podem virar cobrança excessiva quando desconsideram falhas de sistema, complexidade dos casos, saúde e fatores fora do controle do trabalhador.
A automação resolve parte das tarefas simples. Isso pode reduzir certos postos e deixar para as pessoas os atendimentos mais complicados, sem que as métricas sejam necessariamente recalibradas.
A pressão desce pela hierarquia. Diretoria cobra gerência, gerência cobra coordenação, coordenação cobra liderança e, no fim da cascata, o trabalhador recebe o aguaceiro inteiro e ainda precisa marcar no sistema que o clima está ótimo.
Feedbacks podem servir tanto para desenvolver quanto para justificar. Quando são vagos, seletivos ou apresentados apenas perto do desligamento, deixam de oferecer oportunidade real de correção.
Essa combinação não demonstra que cada demissão seja ilegal ou injusta. Empresas podem reorganizar áreas e dispensar funcionários sem justa causa, desde que cumpram a legislação. O que ela mostra é que o discurso individual de “baixa performance” pode esconder decisões estruturais de custo, tecnologia e reorganização — ou, no mínimo, conviver com elas.
O que podemos afirmar — e o que não podemos
Podemos afirmar, com documentos públicos, que:
a Pulse integra o grupo Santander e declara possuir mais de 9 mil funcionários;
o conglomerado Santander Brasil reduziu seu quadro em 5.985 postos ao longo de 2025;
2.086 dessas reduções ocorreram no último trimestre daquele ano;
a empresa reconheceu que três trabalhadores foram encaminhados ao hospital após a dedetização de 7 de janeiro de 2024;
uma tutela de urgência posterior estabeleceu medidas de prevenção e multa para nova violação, segundo a CTB-RS;
entidades sindicais apresentaram ao MPT denúncias envolvendo o modelo de contratação, funções, assédio e condições de trabalho;
as plataformas de avaliações apresentam notas bem diferentes, mas a pressão por metas aparece repetidamente entre as críticas;
o PandaPé declara oferecer triagem automática de currículos, filtros configuráveis, inteligência artificial e respostas automáticas aos candidatos;
a ciência e a própria NR-17 reconhecem riscos psicossociais específicos no teleatendimento.
Não podemos afirmar, sem documentos adicionais, que:
a minha demissão foi causada diretamente pela redução geral do Santander;
a inteligência artificial decidiu ou motivou o meu desligamento;
houve uma quantidade específica de demissões coletivas na Pulse em dezembro de 2025;
os PCDs foram desligados por causa da deficiência ou que a deficiência determinou a negativa automática às minhas candidaturas;
qual regra específica do processo seletivo recusou as minhas candidaturas em poucos minutos;
todas as denúncias sindicais já foram confirmadas por decisão definitiva;
toda liderança, equipe ou unidade da empresa funciona da mesma forma.
Essa distinção não enfraquece o texto. Pelo contrário: quando retiramos os exageros, o que sobra continua bastante sério.
Conclusão
Minha demissão não aconteceu no vácuo. Ela ocorreu durante o trimestre em que o grupo Santander registrou a maior redução de pessoal de 2025, dentro de um setor conhecido pela rotatividade, pela medição permanente e pela pressão por resultados.
Ao mesmo tempo, não preciso inventar uma reunião secreta, um algoritmo maligno ou uma ordem vinda de setealem para dizer que o processo foi ruim. Posso falar do que vivi: fui atraído ao prédio sob outro motivo, recebi uma demissão inesperada a seis dias do aniversário, acompanhei outros PCDs sendo desligados no mesmo período e vi meu trabalho ser resumido por feedbacks que, pelo menos em pontos importantes, não combinavam com entregas recentes e verificáveis. Depois, ao tentar voltar por vagas anunciadas, recebi negativas em minutos por um sistema que publicamente oferece triagem e respostas automatizadas.
Também posso olhar além de mim. O episódio da dedetização mostra o que acontece quando a continuidade da operação pesa mais do que a prudência. Os estudos e a NR-17 mostram que pressão, controle e metas mal administradas adoecem. E as críticas recorrentes nas avaliações públicas não deveriam ser descartadas como simples falta de “fit cultural”, essa expressão elegante que às vezes significa “o ser humano não coube na planilha”.
Talvez a grande pergunta não seja por que uma empresa demite. Empresas demitem desde que algum alzapuertas descobriu que gente podia virar custo numa coluna de Excel.
A pergunta mais importante é outra: como uma organização que diz colocar a experiência do colaborador no começo da experiência do cliente lida, na prática, com quem produz, adoece, questiona, recebe feedback e sai?
Porque slogan é fácil. Difícil é fazer a frase continuar verdadeira quando a meta aperta, o sistema trava, o veneno ainda está no ar ou o nome do funcionário aparece na lista de corte.
Este texto permanece aberto a esclarecimentos documentados da Pulse Client Experts e do Santander, que serão acrescentados caso sejam enviados.
Como sempre, depois de uma postagem séria, temos algo mais leve.
No caso, música!
Porque ninguém é de ferro e até o velho Fandango provavelmente acharia um exagero passar duas postagens seguidas sem uma milonga, um sapateio ou pelo menos um mate correndo de mão em mão,aaa.
E esta música, em especial, fiz em homenagem a um dos personagens mais “gaúchos de verdade” de O Tempo e o Vento, a monumental trilogia de Erico Verissimo.
Seu nome era José Menezes, mas ninguém o chamava assim. Para os habitantes do Angico, de Santa Fé e, depois, para gerações de leitores, ele era simplesmente Fandango: capataz, tropeiro, contador de causos, conhecedor de cavalos, desconfiado profissional de novidades e proprietário de quase um século inteiro de lembranças.
Aviso: daqui para a frente há spoilers em quantidade suficiente para cercar o Sobrado. Como eu gosto de spoiler, vamos sem medo,aaa.
O Tempo e o Vento: duzentos anos de história soprando sobre uma família
Publicada entre 1949 e 1962, a trilogia O Tempo e o Vento é formada por O Continente, O Retrato e O Arquipélago. A narrativa atravessa cerca de duzentos anos, de 1745 a 1945, acompanhando várias gerações da família Terra Cambará e a transformação da cidade fictícia de Santa Fé.
É uma história familiar, mas também um enorme painel da formação do Rio Grande do Sul e do Brasil: Missões Jesuíticas, disputas de fronteira, Guerra dos Farrapos, Guerra do Paraguai, Revolução Federalista, chegada de imigrantes, urbanização, República, revoluções, ascensão de Getúlio Vargas e fim do Estado Novo.
E, no meio dessa carrada de guerra, política, coronéis, espadas, cavalos e sujeitos muito convencidos da própria importância, estão as mulheres que sustentam a continuidade da família. Ana Terra, Bibiana, Maria Valéria, Flora e Sílvia enxergam, esperam, resistem e recolhem os pedaços deixados pelos homens cada vez que algum alzapuertas resolve que o melhor modo de defender uma ideia é começar outro tiroteio.
O Continente
O Continente vai das Missões, em 1745, ao cerco do Sobrado, em 1895. A linhagem começa com Pedro Missioneiro, filho de uma indígena, criado por jesuítas, que se envolve com Ana Terra e é morto pelos irmãos dela porque, naquele mundo brutal, “a honra se lavava com sangue”!!! Depois que um grupo de bandidos castelhanos ataca a estância e destrói boa parte da família, Ana sobrevive e segue com o filho, também chamado Pedro, para o povoado que se tornará Santa Fé.
Décadas mais tarde, Bibiana Terra conhece o fanfarrão, valente, mulherengo e inesquecível Capitão Rodrigo Cambará. Eles se casam, têm filhos e juntam definitivamente os nomes Terra e Cambará — combinação que, dali em diante, produzirá amores, mortes, brigas políticas e uma respeitável quantidade de revertérios.
A história passa por Bolívar, Luzia, Licurgo e muitas outras figuras, enquanto Santa Fé cresce e a família se envolve nas guerras do século XIX. A parte termina durante a Revolução Federalista, com o Sobrado cercado pelas forças adversárias dos Amaral. Dentro da casa, faltam comida, água e tranquilidade; fora dela, sobram balas. A resistência da família transforma o casarão em personagem e símbolo de toda a saga.
O Retrato
Em O Retrato, entramos no século XX e encontramos outro Rodrigo Cambará: não o capitão, mas o bisneto dele, formado em Medicina e recém-chegado de Porto Alegre.
O Dr. Rodrigo volta a Santa Fé elegante, culto, apaixonado por novidades e convencido de que pode modernizar a cidade. Traz ideias, roupas, livros, música, hábitos urbanos e uma confiança que quase não cabe no Sobrado. Ao longo da história, porém, o jovem idealista vai sendo corroído pelas próprias contradições, pelos casos amorosos, pela ambição e pela política.
O retrato pintado em sua juventude continua belo, firme e quase principesco na parede, enquanto o homem retratado envelhece e se afasta do que desejava ser. É aí que o título deixa de ser apenas o nome de um quadro e vira também um belo puxão de orelha literário.
É nesse encontro entre o mundo antigo e a modernidade que Fandango ganha ainda mais força. De um lado, o doutor falando de automóveis, eletricidade, telefone e aeroplanos; do outro, o velho capataz tentando descobrir por que alguém perderia tempo inventando uma máquina voadora quando ninguém ainda havia inventado uma porteira que se abrisse sozinha. E, convenhamos, dependendo da porteira, o homem tinha lá sua razão,aaa.
O Arquipélago
O Arquipélago amplia a história para a política nacional e acompanha a dispersão dos Terra Cambará. Rodrigo se aproxima do poder e de Getúlio Vargas; seus filhos tomam caminhos diferentes: Eduardo adere ao comunismo, Jango permanece ligado à terra e Floriano tenta compreender a família por meio da literatura. Isso pra não falar nas filhas: Alicinha, que morre ainda criança de meningite tuberculosa, e Bibiana, que, aos 17 anos, manda às favas o código do Sobrado e adota os costumes de Copacabana, afastando-se das tradições da família.
Em 1945, depois da queda do Estado Novo, Rodrigo volta do Rio de Janeiro para Santa Fé com a saúde arruinada. Floriano também regressa e começa o acerto de contas com o pai, com o passado familiar e consigo mesmo.
No grande spoiler final, Floriano decide escrever a história dos Terra Cambará. O livro que ele começa é justamente aquele que nós acabamos de ler. Assim, a trilogia termina voltando ao começo, como se o tempo desse a volta na coxilha e encontrasse novamente o vento.
Fandango: um homem de quase cem anos e muitos séculos de memória
Fandango aparece como capataz da estância do Angico, pertencente aos Cambará. Seu nome verdadeiro é José Menezes, e o apelido vem de sua paixão por dançar. No uso tradicional gaúcho, fandango também é o baile, a festa com música e dança — e, onde houvesse uma dessas, lá estava o velho, pronto para sapatear e, se sobrasse tempo, contar mais um causo.
Ele havia sido tropeiro, carreteiro e soldado. Conhecia caminhos, rios, passos, campos, animais, mudanças do tempo e gente espalhada por todo o Rio Grande. Não aprendera esse mundo nos livros: aprendera atravessando-o.
Fandango ajuda a criar Licurgo no Angico e lhe ensina as lidas do campo, os costumes, os provérbios e a sabedoria oral do pampa. Mais tarde, já perto dos cem anos, continua achando que ninguém sabe cuidar da estância tão bem quanto ele. A aposentadoria lhe parecia uma invenção tão suspeita quanto o aeroplano.
Também carregava perdas suficientes para derrubar muito vivente: perdera um filho na Guerra do Paraguai e um neto na Revolução Federalista. Mesmo assim, mantinha a disposição, o humor e o gosto de estar entre as pessoas. Era uma espécie de arquivo vivo do Angico — só que um arquivo que tomava chimarrão, implicava com as novidades e não precisava de cópia de segurança,aaa.
Quando o Dr. Rodrigo retorna formado, Fandango viaja do Angico para Santa Fé a fim de vê-lo. O contraste é perfeito: o jovem médico representa o futuro que chega cheio de planos; o velho capataz representa um passado que se recusa a desaparecer e ainda examina o doutor como quem confere se a doma ficou bem-feita.
Mas Fandango não está na história apenas para servir de figura engraçada ou defender que antigamente tudo era melhor. Ele representa a memória popular, a experiência transmitida pela conversa, a ligação do homem com a terra e uma visão de mundo que começa a perder espaço diante da cidade, das máquinas e das novas relações sociais.
Sua morte acontece ao amanhecer. Apoiado numa cerca, observando o nascer do sol, ele simplesmente cai, sem grito e sem agonia. Toríbio resume a cena dizendo que não foi uma morte: foi uma vela apagada pelo vento.
Fandango é enterrado no alto da coxilha do Coqueiro Torto, como havia pedido. Gente de toda a região acompanha o cortejo, e os cavaleiros tiram os chapéus quando o corpo passa. É o funeral de um trabalhador, mas tem a grandeza de uma despedida de guerreiro.
Por isso o chamei de sentinela da querência. Mesmo depois de partir, ele permanece no alto da coxilha, guardando o Angico, as histórias e um modo de viver que o tempo transforma, mas não consegue apagar completamente.
A música mistura milonga e chamamé para homenagear Fandango e, por meio dele, todo esse universo criado por Erico Verissimo.
A letra passa pelo Angico, pelo trabalho de capataz, pelos bailes, pelas histórias contadas ao redor do fogo, pela desconfiança diante do progresso e pela permanência dos valores que o personagem carregava.
O refrão tenta condensar justamente essa figura: homem do campo, moldado pela terra, pelo cavalo, pela honra e pela experiência. Um sujeito que viu o Rio Grande mudar ao longo de quase cem anos e, mesmo assim, continuou olhando para uma invenção nova com aquela cara de quem perguntava: “Mas precisava mesmo desse invvvéérno?”.
A música O Sentinela da Querência também está registrada no site Músicas Registradas.
Letra — O Sentinela da Querência
Verso 1
A Milonga me convida, num tranco que é de mansidão,
Pra contar uma verdade que Erico botou no chão.
Lá nas páginas do livro, O Continente se abriu,
E a estória do meu Rio Grande, o gaúcho quem pariu.
Verso 2
Fandango era o apelido, José Menezes o nome,
Capataz de bom manejo, não sentia sede ou fome
De pelear por seu rincão, com a honra no coração,
Um centauro de bombacha, de legado e tradição.
Refrão
Sou a estampa do meu pago, a fibra do meu torrão,
Onde o tempo é vento e causa, e o mundo, pura lição.
Gaúcho que é gaúcho sabe: a prenda é um mimo bom,
Mas a honra e o cavalo são a base, o alicerce, o som.
Verso 3
Diz a lenda que seu nome não veio de um bebedor,
Mas do jeito que dançava, sem igual, levantador!
Com a espora tinindo forte, no salão ou no galpão,
Botava a china pra um valsado e sapateava o chão.
Verso 4
O Fandango que ele dança é a lida do capataz,
Marca forte no entrevero, nos invernos, na paz.
É o manejo da manada, o grito que estronda o céu,
A alma antiga do pampa, que o tempo não remoeu.
Verso 5
Chegou de longe pra ver o Doutor Cambará,
Mas praguejou o progresso, que mandou ele embarcar
Numa aranha sem sentido, sem a honra do bridão.
Com mais de um século nas costas, ainda honrava o cavalão.
Refrão
Sou a estampa do meu pago, a fibra do meu torrão,
Onde o tempo é vento e causa, e o mundo, pura lição.
Gaúcho que é gaúcho sabe: a prenda é um mimo bom,
Mas a honra e o cavalo são a base, o alicerce, o som.
Ponte
Meus valores são de estância, meu respeito é de fundamento,
O Continente me guarda, no Tempo e no Vento.
Final
Pode o mundo dar rodeio, mudar a feição do pago,
Mas a essência do gaúcho não se perde por um trago.
No sapateio do Fandango, fica o rastro do passado.
E, para os que acharam que hoje não teria post musical…
Acharam errado,aaa…
Essa coisa aqui pode até chiar, desafinar, sofrer algum revertério ou receber uma visita não autorizada diretamente de setealém… Mas ficar sem música é mais difícil,aaa.
Hoje trago Jogo do osso, uma música cuja letra escrevi a partir do conto de mesmo nome de João Simões Lopes Neto. Depois, transformei a letra em música usando o Suno.ai.
E essa não será uma visita isolada ao universo de Simões Lopes Neto. Esse post abre uma série de músicas inspiradas em seus contos e lendas. Ainda vamos percorrer outros pagos, encontrar mais personagens, histórias, assombrações, paixões, tragédias e provavelmente algum alzapuertas disposto a tomar a pior decisão possível no pior momento disponível,aaa.
Como futuramente teremos um artigo inteiro dedicado ao escritor, hoje apresentarei apenas um resumo de sua história. Também explicarei o conto, mostrarei como funcionava o jogo do osso e, finalmente, deixarei a música para vocês ouvirem.
João Simões Lopes Neto nasceu em 9 de março de 1865, na Estância da Graça, às margens do arroio Pelotas, no Rio Grande do Sul.
A convivência com a vida campeira, o gado, os peões, as histórias contadas nos galpões e a linguagem do pampa deixou marcas profundas na obra que ele produziria mais tarde.
Simões Lopes Neto foi escritor, jornalista, dramaturgo, folclorista e também empresário. Aliás, ideias empresariais não lhe faltaram: envolveu-se com vidraria, destilaria, café, cigarros, produtos feitos com resíduos de tabaco e até um projeto de mineração de prata.
Ou seja: se aparecesse um alzapuertas dizendo que havia descoberto uma mina atrás de algum cerro, era capaz de Simões já estar procurando uma pá,aaa.
Nem todos esses empreendimentos deram certo — alguns foram com os arreios completos para o invvvéérno —, mas sua produção literária resistiu ao tempo.
Entre seus livros mais conhecidos estão Cancioneiro Guasca, de 1910; Contos Gauchescos, de 1912; Lendas do Sul, de 1913; e Casos do Romualdo.
Em Contos Gauchescos, as histórias são apresentadas principalmente pela voz de Blau Nunes, um velho gaúcho que narra os acontecimentos como quem está proseando com alguém ao lado do fogo, misturando lembranças, costumes, expressões regionais e observações sobre a natureza humana.
Simões Lopes Neto morreu em Pelotas, no dia 14 de junho de 1916, aos 51 anos. O grande reconhecimento de sua obra veio principalmente depois de sua morte, quando seus textos passaram a receber novas edições, estudos e maior circulação.
Mas deixemos o restante para o futuro artigo dedicado a ele, porque, se eu contar tudo agora, depois terei que buscar assunto em setealém,aaa.
Atenção: daqui em diante há spoilers do conto. Como ele foi publicado em 1912, não venham dizer que não tiveram tempo para ler,aaa.
A história acontece durante uma festa no campo. Uma chuvarada atrapalha as carreiras de cavalo e faz com que parte do pessoal se abrigue perto da venda e do galpão. Quando o tempo melhora, alguns homens resolvem jogar o osso, também chamado de taba.
Entre os jogadores estão Osoro e Chico Ruivo.
Osoro é apresentado como um homem milongueiro, contador de histórias, frequentador dos ranchos e bastante interessado na companhia das mulheres. Chico Ruivo é domador e vive com Lalica, sua companheira.
Durante a partida, Chico começa a perder uma aposta depois da outra. Vão-se o dinheiro, o cavalo, as botas, o rebenque e praticamente tudo o que ele poderia colocar em jogo.
Qualquer pessoa com dois neurônios ainda conversando teria percebido que era hora de levantar, tomar um mate e ir cuidar da vida.
Mas Chico Ruivo resolve consultar justamente o neurônio alzapuertas, aquele que pensa que sabe o que está fazendo,aaa.
Quando já não tem quase mais nada para apostar, ele aceita colocar Lalica na parada, como se uma mulher fosse um cavalo, um rebenque ou qualquer objeto que pudesse mudar de dono durante um jogo.
Do outro lado, Osoro coloca seu cavalo ruano.
Na primeira rodada, os dois conseguem suerte, e a disputa continua. Na rodada seguinte, Chico tira culo e perde. Osoro consegue novamente suerte e vence a parada.
Quando Lalica descobre que foi apostada pelo próprio companheiro, reage com desprezo. Ela não aceita ser tratada como objeto e deixa claro o que pensa de Chico. Em seguida, entra na dança com Osoro e demonstra que pretende partir com ele.
Chico, tomado pela raiva, pelo ciúme e pela humilhação, saca o facão e atinge Osoro e Lalica com o mesmo golpe, matando os dois. Depois, foge montado justamente no cavalo de Osoro.
O conto termina com uma observação amarga e quase absurda do coimeiro, preocupado porque, no meio da tragédia, ninguém havia pago a parte que lhe cabia pela realização do jogo.
Assim, o conto não fala somente de uma aposta. Ele mostra até onde podem chegar o orgulho ferido, o ciúme, a violência, a ideia de posse sobre uma mulher e a incapacidade de aceitar as consequências das próprias decisões.
O osso cai no chão, mas quem realmente despenca são as criaturas envolvidas.
O jogo do osso, também conhecido como jogo da taba, utiliza um osso do garrão do boi, chamado anatomicamente de astrágalo.
No conto, Blau Nunes explica a preparação da cancha e as regras básicas:
Escolhia-se um terreno plano, que não fosse duro demais, para o osso não saltar; mole demais, para não afundar; nem arenoso, para não ficar enterrado.
A cancha tinha aproximadamente uma braça de largura e três de comprimento.
No centro era colocada uma linha, feita com uma corda presa em duas estacas ou simplesmente riscada no chão.
Os jogadores ficavam nas extremidades opostas da cancha e arremessavam a taba em direção à linha central.
Se o osso caísse com o lado arredondado para baixo, o resultado era chamado de culo, e o jogador perdia a parada.
Se caísse com o lado chato para baixo, o resultado era chamado de suerte, e o jogador ganhava.
Em algumas variações tradicionais do jogo existem outras posições e pontuações, incluindo a chamada suerte clavada. Entretanto, no conto, Simões Lopes Neto concentra a explicação nas duas possibilidades decisivas: culo perde e suerte ganha.
Perto da linha ficava o coimeiro, responsável por guardar as apostas, entregar o valor ao vencedor e retirar o chamado barato, uma comissão destinada ao dono do estabelecimento.
As apostas podiam começar com dinheiro, mas frequentemente aumentavam. Entravam na parada arreios, cavalos, ponchos, esporas e outros bens pessoais.
Era, portanto, um jogo simples nas regras, mas capaz de produzir uma bela desordem quando algum vivente apostava mais do que podia perder. Em outras palavras, a taba era pequena, mas o revertério podia ser do tamanho do pampa,aaa.
Atualmente existem práticas tradicionalistas e competições com regras organizadas, nas quais o jogo aparece como manifestação cultural. Isso é diferente do ambiente de apostas pesadas, tensão e violência retratado no conto.
Foi a partir dessa mistura de jogo, orgulho, desejo, violência e destino que escrevi a letra de Jogo do osso.
A música não pretende substituir a leitura do conto nem narrar cada detalhe como se fosse um audiolivro cantado. É uma criação inspirada na história, procurando transportar para a canção o ambiente da cancha, o lançamento da taba e a tensão crescente entre Chico Ruivo, Osoro e Lalica.
A letra é minha, e a produção musical foi realizada com o auxílio do Suno.ai.
Agora chega de prosa, porque o osso já está na mão, a cancha está pronta e alguém precisa fazer esse troço voar,aaa.
Se o tocador embutido resolver cavalgar para setealém, a música também pode ser ouvida diretamente no YouTube:
Esta é a primeira música de uma série inspirada nos contos e nas lendas de João Simões Lopes Neto.
Seu universo oferece material de sobra: personagens marcantes, histórias de amor, assombrações, guerras, injustiças, crenças populares e acontecimentos que parecem ter vindo diretamente dos invvvvvééérnos — embora, em muitos casos, os seres humanos consigam ser bem mais assustadores do que qualquer fantasma ou ser sobrenatural,aaa…
As próximas músicas não precisam seguir a ordem dos livros nem uma sequência cronológica. A ideia é visitar as histórias que forem pedindo música, respeitando o espírito dos textos, mas deixando que cada canção encontre seu próprio caminho.
E, como já avisei, em breve também teremos um artigo inteiro sobre a vida e a obra de Simões Lopes Neto. Hoje foi apenas uma apresentação; o vivente ainda voltará muitas vezes para essa coisa aqui.
Espero que gostem da música e dessa primeira viagem pelos contos e lendas de João Simões Lopes Neto.
Um abraço e até amanhã, quando vamos falar sobre doenças que não parecem doenças…
Problemas reais, que causam sofrimento real, mas que muita gente — e muito alzapuertas de plantão — ainda insiste em tratar como frescura, falta de higiene ou invenção.