Categoria: Dicas de informática

  • De Alan Turing às IAs generativas: a história da inteligência artificial, da velha Cybelle às máquinas que conversam com a gente

    Tempo de leitura: 19 minutos

    Olá amigos e leitores dessa coisa aqui!!!

    Em dois artigos recentes, já passamos pela inteligência artificial por caminhos diferentes.

    Em Por que a “bolha” da IA ainda não estourou?, falei sobre o exagero publicitário, as montanhas de dinheiro, as promessas de máquinas que resolveriam tudo antes do almoço e a diferença entre uma possível bolha financeira e uma tecnologia que veio para ficar.

    Ontem publiquei Da máquina a vapor ao colega de silício: os empregos que a IA vai transformar, os que vai criar e os que não vai conseguir eliminar. Ali, a pergunta era o que acontecerá com o trabalho: quais tarefas serão automatizadas, quais profissões mudarão, quais poderão crescer e por que o maior problema não é apenas o número final de empregos, mas a travessia de quem precisará se adaptar.

    Nos dois textos apareceu uma ideia importante: a inteligência artificial não nasceu quando alguém abriu o ChatGPT e pediu:

    — Faça um texto sobre a história da inteligência artificial, mas escreva como se fosse Fernando Zamboni depois de três cafés.

    Aliás, não tentem. Dependendo do café, nem eu consigo escrever como eu mesmo.

    Mas ficou faltando contar a aventura inteira. De onde saiu essa ideia de fazer uma máquina “pensar”? Quem foram os sujeitos que imaginaram isso quando os computadores ainda ocupavam salas inteiras? Por que a inteligência artificial já morreu e ressuscitou várias vezes? Como chegamos da ELIZA e da nossa velha Cybelle, que nos deixava empolgados nos anos 2000, a um tal de ChatGPT que eu quase não conheço,aaa, ao Gemini, ao Claude, ao Copilot, ao Grok, ao DeepSeek e a uma quantidade de concorrentes que parece aumentar toda vez que alguém reinicia o roteador?

    Pois acomodem-se. Vamos voltar a uma época em que ninguém falava em prompts, modelos de linguagem ou placas de vídeo custando o valor de um automóvel. E, claro, precisamos começar com nosso velho e bom Alan Turing.

    Antes da inteligência artificial ter nome

    O desejo de construir seres artificiais é muito mais antigo que o computador. A mitologia grega já falava de Talos, um gigante de bronze que protegia a ilha de Creta. Ao longo dos séculos apareceram autômatos mecânicos, bonecos que escreviam, tocavam instrumentos ou movimentavam peças de xadrez.

    Alguns eram mecanismos engenhosos. Outros continham um ser humano escondido dentro da máquina, o que sempre ajuda bastante uma tecnologia a parecer inteligente.

    No século XIX, Charles Babbage projetou sua Máquina Analítica e Ada Lovelace percebeu algo que muita gente ainda não havia entendido: uma máquina capaz de manipular símbolos poderia fazer mais do que contas. Em teoria, poderia lidar com música, textos e outros tipos de informação, desde que tudo fosse representado por regras e números.

    A máquina de Babbage nunca foi concluída em sua época, mas a ideia estava lançada. Ainda faltava explicar o que era computável, construir computadores eletrônicos e aparecer um matemático britânico com uma cabeça extraordinária e uma vida tragicamente curta.

    Alan Turing: o homem que perguntou se as máquinas poderiam pensar

    Alan Mathison Turing nasceu em Londres, em 23 de junho de 1912. Desde cedo demonstrou enorme talento para matemática e ciência, embora nem sempre se encaixasse no modelo educacional britânico da época. Em outras palavras, era brilhante demais para certos formulários e esquisito demais para certas salas, uma combinação que o mundo costuma compreender só depois que a pessoa já fez alguma coisa extraordinária.

    Em 1936, Turing publicou um trabalho sobre números computáveis e descreveu uma máquina matemática abstrata, hoje conhecida como Máquina de Turing. Não era um computador de metal sobre uma mesa. Era um modelo teórico extremamente simples, capaz de ler símbolos, seguir instruções e mostrar quais problemas poderiam ser resolvidos por um procedimento mecânico.

    A ideia da máquina universal foi ainda mais importante: em vez de construir uma máquina diferente para cada tarefa, seria possível criar uma única máquina capaz de executar qualquer programa que pudesse ser descrito formalmente. O computador moderno mora, em boa parte, dentro dessa ideia.

    A guerra, a Enigma e a máquina Bombe

    Durante a Segunda Guerra Mundial, Turing trabalhou em Bletchley Park, o centro britânico de decifração de códigos. Ele e uma enorme equipe de matemáticos, linguistas, operadores e engenheiros ajudaram a quebrar mensagens protegidas pela máquina Enigma, usada pelas forças alemãs.

    É importante não transformar essa história no mito de um gênio solitário que ganhou a guerra com uma chave de fenda. Criptógrafos poloneses já haviam realizado avanços fundamentais antes do conflito, e Gordon Welchman, Harold Keen e muita gente contribuíram para o desenvolvimento e a operação da Bombe britânica. Turing teve um papel central, mas aquilo foi uma realização coletiva.

    A Bombe testava rapidamente configurações possíveis da Enigma e ajudava os analistas a encontrar as chaves do dia. Informações obtidas desse trabalho permitiram localizar submarinos, proteger comboios e antecipar operações militares. Historiadores atribuem à decifração uma redução significativa na duração da guerra e a preservação de incontáveis vidas.

    Terminada a guerra, Turing continuou trabalhando com computadores. Participou do projeto do ACE, uma das primeiras propostas detalhadas de computador eletrônico com programa armazenado, trabalhou em Manchester e ainda se aventurou pela biologia matemática, estudando como padrões como listras e manchas poderiam surgir nos seres vivos.

    O sujeito não tinha muita consideração pelos limites entre as áreas. Se o problema era interessante, ele entrava.

    O jogo da imitação

    Em 1950, Turing publicou o artigo Computing Machinery and Intelligence. Em vez de ficar preso à pergunta filosófica “as máquinas podem pensar?”, ele propôs um experimento prático, chamado jogo da imitação.

    Uma pessoa manteria conversas por texto com interlocutores que não poderia ver. Um deles seria humano; o outro, máquina. Se o avaliador não conseguisse distinguir com segurança um do outro pelas respostas, teríamos um critério operacional para falar em comportamento inteligente.

    Esse experimento ficou conhecido como Teste de Turing. Ele não mede consciência, alma, sentimentos ou vontade própria. Mede a capacidade de uma máquina sustentar uma conversa que pareça humana. Ainda assim, a pergunta lançada por Turing continua rondando cada chatbot moderno.

    Quando uma pessoa conversa por meia hora com uma IA, agradece, briga, faz piada e depois pergunta se ela “realmente entendeu”, está repetindo, com uma interface mais bonita e uma conta mensal, a inquietação de 1950.

    O crime era existir

    A história de Turing também precisa ser contada fora da computação.

    Em 1952, ele foi processado no Reino Unido por manter uma relação consensual com outro homem. A homossexualidade masculina era tratada como crime. Turing foi condenado por “indecência grave” e, para evitar a prisão, aceitou um tratamento hormonal que hoje é reconhecido como uma forma de castração química e abuso médico. Também perdeu sua autorização de segurança e foi afastado de trabalhos governamentais.

    Vale repetir devagar: o país que se beneficiou de sua inteligência para combater o nazismo decidiu puni-lo por ser gay.

    Em 7 de junho de 1954, Alan Turing morreu aos 41 anos por envenenamento com cianeto. A conclusão oficial foi suicídio, embora detalhes das circunstâncias ainda sejam discutidos por historiadores. O famoso relato da maçã envenenada nunca foi comprovado: a fruta encontrada perto dele nem sequer foi analisada.

    O governo britânico apresentou um pedido formal de desculpas em 2009. Turing recebeu perdão real póstumo em 2013. Em 2017, a chamada Lei de Turing estendeu o perdão a milhares de homens condenados por antigas leis que criminalizavam relações consensuais entre pessoas do mesmo sexo.

    Desde 2021, Turing aparece na nota britânica de 50 libras. É uma homenagem importante, embora tenha chegado umas sete décadas atrasada. A sociedade tem dessas: primeiro destrói a pessoa, depois imprime seu rosto no dinheiro.

    Neurônios de papel e as primeiras máquinas que aprendiam

    Enquanto Turing pensava em computação e inteligência, outros pesquisadores tentavam representar o cérebro com matemática.

    Em 1943, Warren McCulloch e Walter Pitts publicaram um modelo simplificado de neurônio artificial. Cada unidade receberia sinais, faria uma soma e produziria uma saída se determinado limite fosse alcançado. Aquilo estava muito longe de um cérebro real, mas plantou uma semente importante: talvez comportamentos complexos pudessem surgir de muitas unidades simples conectadas.

    Em 1949, Donald Hebb popularizou a ideia de que conexões entre neurônios poderiam se fortalecer quando fossem ativadas em conjunto. Em linguagem quase de boteco científico: neurônios que trabalham juntos tendem a ficar mais amigos.

    Em 1957, Frank Rosenblatt criou o perceptron, um modelo que conseguia ajustar seus próprios pesos para aprender classificações simples. Em 1958, uma implementação foi demonstrada em um computador IBM 704. A imprensa se empolgou e começou a prever máquinas que caminhariam, falariam e teriam consciência.

    A humanidade mal havia ensinado um computador a diferenciar cartões marcados de um lado ou de outro e já estava reservando apartamento para o robô consciente e cheio de opiniões — ou, para usar o termo técnico, senciente. Certas tradições do jornalismo tecnológico nasceram cedo.

    Dartmouth, 1956: alguém finalmente batiza o bicho

    No verão de 1956, um pequeno grupo de pesquisadores se reuniu no Dartmouth College, nos Estados Unidos, para um projeto de oito semanas. Entre eles estavam John McCarthy, Marvin Minsky, Claude Shannon, Nathaniel Rochester, Allen Newell e Herbert Simon.

    Na proposta escrita em 1955, McCarthy e seus colegas partiram de uma aposta ousada: todo aspecto da aprendizagem e da inteligência poderia, em princípio, ser descrito com tanta precisão que uma máquina conseguiria simulá-lo.

    Foi ali que o termo “inteligência artificial” ganhou nome e identidade como campo de pesquisa.

    O encontro não construiu uma mente artificial durante as férias. Aliás, nem todos ficaram as oito semanas e boa parte das ideias demoraria décadas para amadurecer. Mas Dartmouth reuniu pesquisadores que passaram a tratar linguagem, raciocínio, aprendizagem e percepção como problemas que poderiam ser atacados por computadores.

    Dar nome a uma área ajuda. Também ajuda a conseguir verba, criar laboratórios e prometer aos financiadores que o problema estará resolvido em poucos anos. Essa última parte causaria alguns revertérios.

    A primeira primavera da IA

    Os anos 1950 e 1960 foram cheios de entusiasmo.

    Allen Newell, Herbert Simon e Cliff Shaw criaram o Logic Theorist, capaz de demonstrar teoremas matemáticos. Arthur Samuel desenvolveu um programa de damas que melhorava jogando e ajudou a popularizar a expressão machine learning. Pesquisadores criaram programas para resolver problemas, reconhecer formas e manipular linguagem.

    Em 1966 começou o projeto Shakey, no Stanford Research Institute. Era um robô sobre rodas com câmera, sensores e capacidade de planejar ações simples. Para entrar numa sala, precisava perceber o ambiente, formar uma representação e decidir como chegar até lá.

    Hoje um aspirador robô esbarra no pé da mesa, pede socorro por Wi-Fi e nós reclamamos. Na década de 1960, fazer uma máquina perceber que havia uma sala já era motivo para abrir o champanhe.

    Havia duas grandes famílias de ideias. A IA simbólica tentava representar conhecimento com símbolos, regras e lógica. As redes neurais tentavam aprender padrões ajustando conexões numéricas. Durante muito tempo, a abordagem simbólica dominou porque os computadores eram fracos, havia poucos dados e as redes disponíveis tinham limitações sérias.

    ELIZA: a bisavó do ChatGPT já fazia gente se abrir

    Em 1966, Joseph Weizenbaum, do MIT, apresentou a ELIZA. Um de seus roteiros mais famosos, chamado DOCTOR, imitava um psicoterapeuta de orientação rogeriana.

    A técnica era simples. A ELIZA procurava palavras ou estruturas nas frases e devolvia respostas transformadas em perguntas.

    Se alguém escrevesse:

    — Minha mãe não me entende.

    Ela poderia responder:

    — Conte mais sobre sua mãe.

    Se a pessoa dissesse:

    — Estou triste.

    Ela talvez perguntasse:

    — Por que você está triste?

    Não havia compreensão profunda. Era reconhecimento de padrões, substituição de palavras e um roteiro muito bem escolhido. Um terapeuta que devolve perguntas parece plausível mesmo quando o programa não sabe o que uma mãe, uma tristeza ou uma terça-feira representam.

    O mais curioso foi a reação humana. Pessoas começaram a atribuir compreensão e sentimentos ao programa. Algumas queriam conversar com privacidade. O próprio Weizenbaum ficou alarmado ao perceber a facilidade com que projetamos humanidade numa máquina.

    Esse fenômeno passou a ser chamado de efeito ELIZA. Ele continua vivíssimo. Basta uma IA responder “entendo como isso deve ser difícil” e já há quem imagine uma pequena alma digital chorando dentro do servidor.

    Em 1972 surgiu o PARRY, criado por Kenneth Colby para simular uma pessoa com paranoia. Num experimento famoso, psiquiatras tiveram dificuldade para distinguir transcrições de pacientes reais das respostas do programa. ELIZA e PARRY chegaram até a “conversar” entre si. Foi provavelmente uma das primeiras reuniões em que ninguém entendeu ninguém, tradição depois aperfeiçoada por muitos grupos de mensagens.

    Os sistemas especialistas e o primeiro invvvééérno

    O entusiasmo inicial bateu num problema desagradável: o mundo real.

    Programas que funcionavam em demonstrações cuidadosamente preparadas se perdiam fora delas. Computadores tinham pouca memória e processamento. Os pesquisadores subestimaram a quantidade de conhecimento cotidiano necessária para entender uma frase, reconhecer um objeto ou atravessar uma sala sem transformar a parede em parte do trajeto.

    Promessas não cumpridas levaram governos e empresas a reduzir investimentos. A área entrou no que ficou conhecido como inverno da inteligência artificial.

    Depois veio uma nova primavera. Nos anos 1970 e 1980, ganharam força os sistemas especialistas. Em vez de tentar construir uma inteligência geral, eles concentravam regras de especialistas humanos num domínio específico.

    O DENDRAL analisava estruturas químicas. O MYCIN ajudava a identificar infecções bacterianas e sugerir antibióticos. Empresas adotaram sistemas para diagnóstico, configuração de equipamentos e decisões de negócio.

    O coração deles era uma grande coleção de regras:

    — Se acontecer A e o exame mostrar B, então considere C.

    Funcionavam razoavelmente bem dentro do território previsto. O problema era manter milhares de regras, resolver contradições e lidar com situações que ninguém havia programado. Eles sabiam muito sobre um pedacinho do mundo e absolutamente nada sobre o resto.

    No fim dos anos 1980, o mercado de máquinas especializadas para IA desabou, os custos ficaram difíceis de justificar e chegou outro inverno. Pela segunda vez, muita gente anunciou que a inteligência artificial era uma promessa fracassada.

    Ela não havia morrido. Só estava no porão, usando casaco, esperando dados e computadores melhores.

    Deep Blue, Watson e as máquinas que venciam campeões

    Em 1997, o supercomputador Deep Blue, da IBM, derrotou o campeão mundial Garry Kasparov numa série de seis partidas de xadrez.

    O evento virou símbolo de uma máquina superando o intelecto humano. Mas o Deep Blue não era uma inteligência geral e provavelmente não tinha opinião sobre cavalos, peões ou o lanche do intervalo. Ele combinava enorme capacidade de busca, avaliação de posições e conhecimento enxadrístico preparado por especialistas.

    Era extraordinário no xadrez e inútil para preparar um café.

    Em 2011, outro sistema da IBM, o Watson, venceu os campeões Ken Jennings e Brad Rutter no programa de perguntas Jeopardy!. O desafio envolvia compreender pistas cheias de ambiguidades, trocadilhos e referências culturais, procurar respostas e estimar a confiança de cada alternativa.

    Deep Blue e Watson mostraram duas coisas. Primeiro, problemas considerados sinais de inteligência humana podiam cair diante de máquinas especializadas. Segundo, vencer uma pessoa numa tarefa não transforma automaticamente o programa numa pessoa de silício.

    A IA já estava em todo lugar, só não fazia propaganda

    Nos anos 1990 e 2000, a expressão inteligência artificial às vezes saiu de moda, mas as técnicas continuaram avançando com nomes mais discretos: mineração de dados, reconhecimento de padrões, aprendizado estatístico, processamento de linguagem e sistemas de recomendação.

    A IA filtrava spam, detectava fraudes bancárias, reconhecia voz, sugeria produtos, corrigia textos, calculava rotas, organizava resultados de busca e escolhia o que aparecia nas redes sociais. Nos videogames, comandava inimigos que sabiam exatamente onde o jogador estava, mas fingiam procurar para não estragar a brincadeira.

    Para pessoas cegas, várias dessas tecnologias tiveram impacto direto. Reconhecimento óptico de caracteres transformou imagens de texto em conteúdo legível pelo leitor de telas. Sistemas de voz melhoraram a transcrição e o controle de dispositivos. Mais tarde, modelos de visão começaram a descrever fotografias, ambientes e interfaces.

    Nem tudo nasceu com os modelos generativos. A IA passou décadas entrando pela porta dos fundos enquanto a gente achava que ela ainda morava nos filmes.

    A velha Cybelle e a geração dos chatbots de internet movida a manivela

    Quem navegou na internet no início dos anos 2000 talvez lembre de uma época em que conversar com um programa parecia uma pequena visita ao futuro.

    Antes da Cybelle, houve a A.L.I.C.E., criada por Richard Wallace em 1995. Seu conhecimento era organizado com AIML, uma linguagem de marcação que relacionava padrões de perguntas a respostas. A comunidade podia acrescentar novas regras, temas e personalidades.

    Em 2000 apareceu a Cybelle, ligada ao portal francês AgentLand. Ela tinha uma personagem virtual, conversava em idiomas como francês, inglês e português e funcionava como uma espécie de guia para o mundo dos agentes virtuais. Ao perguntar sobre outro chatbot, ela podia responder e abrir informações relacionadas no próprio portal.

    Para os padrões atuais, as conversas eram limitadas. A gente fazia uma pergunta, recebia uma resposta surpreendentemente boa, pensava “agora vai” e, duas frases depois, descobria que a criatura havia atravessado um portal para Setealém e se perdido nele.

    Mas era fascinante.

    A Cybelle conseguia sustentar certos assuntos, tinha aparência e personalidade, falava nosso idioma e criava a sensação de que havia alguém do outro lado. Na internet discada, com páginas carregando aos pedaços, aquilo parecia saído de um laboratório secreto.

    Na mesma geração tivemos outros personagens memoráveis:

    • Jabberwacky e Cleverbot: projetos de Rollo Carpenter que aprenderam com conversas de usuários e ficaram conhecidos pelas respostas imprevisíveis.
    • SmarterChild: lançado em 2001, conversava em serviços de mensagem instantânea e também fornecia notícias, previsão do tempo e outras informações.
    • Robô Ed: criado em 2004 pelo Conpet, programa da Petrobras, conversava em português sobre energia, combustíveis, meio ambiente e assuntos variados.
    • Akinator: lançado em 2007, fazia perguntas e tentava adivinhar a pessoa ou personagem em que o usuário estava pensando. Parecia bruxaria até a gente lembrar que uma boa árvore de decisões e uma base de dados enorme também fazem milagres.

    Esses chatbots não geravam livremente cada frase como os grandes modelos de linguagem atuais. Trabalhavam principalmente com regras, padrões, respostas cadastradas e bancos de dados. Se a conversa ficasse dentro das trilhas previstas, podiam impressionar. Se saísse um pouco, começavam a responder algo digno de duas torradeiras apaixonadas discutindo filosofia.

    Mesmo assim, eles ensinaram algo valioso: as pessoas gostavam de conversar com computadores. Faltava a tecnologia conseguir acompanhar a conversa sem tropeçar a cada esquina.

    As redes neurais voltam do porão

    As redes neurais nunca desapareceram completamente. Pesquisadores como Geoffrey Hinton, Yann LeCun, Yoshua Bengio e muitos outros continuaram desenvolvendo métodos de aprendizagem mesmo quando a área não estava na moda.

    A partir dos anos 2000, três coisas começaram a se encontrar:

    • quantidades gigantescas de dados produzidos pela internet;
    • computadores muito mais rápidos, especialmente placas gráficas capazes de fazer cálculos em paralelo;
    • melhores técnicas para treinar redes com muitas camadas.

    Em 2012, uma rede chamada AlexNet, criada por Alex Krizhevsky, Ilya Sutskever e Geoffrey Hinton, venceu com grande vantagem uma competição de reconhecimento de imagens baseada no conjunto ImageNet. O sistema aprendeu a distinguir mil categorias observando mais de um milhão de imagens.

    Esse resultado ajudou a transformar o deep learning, ou aprendizagem profunda, na principal força da nova primavera da IA. Em vez de programar manualmente cada regra para reconhecer um gato, os pesquisadores alimentavam o sistema com muitos exemplos para que ele aprendesse características úteis.

    Naturalmente, ninguém precisou perguntar aos gatos se autorizavam o uso de suas imagens. A internet sempre funcionou assim: primeiro reúne tudo, depois aparece um termo de uso com 84 páginas.

    AlphaGo e a jogada que parecia erro

    Durante muito tempo, o jogo Go foi considerado um desafio muito mais difícil que o xadrez para computadores. O número de posições possíveis é gigantesco, e jogadores humanos dependem bastante de intuição e reconhecimento de padrões.

    Em março de 2016, o AlphaGo, da DeepMind, derrotou o campeão Lee Sedol por quatro partidas a uma. O sistema combinava redes neurais, busca e aprendizagem por reforço.

    Na segunda partida, o AlphaGo fez a famosa jogada 37. Comentaristas acharam que fosse um erro. Jogadores humanos raramente escolheriam aquela posição. Muitas jogadas depois, ficou claro que ela havia sido decisiva.

    O episódio mudou a percepção sobre máquinas que aprendem. O sistema não estava apenas examinando mais jogadas que uma pessoa. Havia descoberto estratégias que surpreendiam especialistas e acabariam influenciando o próprio modo humano de jogar.

    2017: a atenção muda tudo

    Em 2017, oito pesquisadores do Google publicaram o artigo Attention Is All You Need. O trabalho apresentou a arquitetura Transformer.

    Modelos anteriores processavam sequências de palavras com mais dificuldade e dependiam bastante de mecanismos recorrentes. O Transformer usava atenção para relacionar diferentes partes de um texto e decidir quais elementos eram mais relevantes em cada contexto.

    Se aparece a frase “o cachorro perseguiu o gato porque ele correu”, o sistema precisa estimar a quem “ele” se refere. A atenção ajuda a relacionar palavras distantes e a representar dependências desse tipo.

    A grande vantagem era também computacional: o treinamento podia ser muito mais paralelizado. Com dados, placas de vídeo, dinheiro e uma conta de luz capaz de assustar uma pequena cidade, tornou-se possível treinar modelos cada vez maiores.

    O Transformer virou a base de grande parte dos modelos modernos de linguagem e também se espalhou por imagem, áudio, vídeo, programação e outras áreas.

    Como contei no artigo sobre a bolha, 2017 foi uma daquelas datas que parecem discretas no calendário, mas depois descobrimos que alguém mexeu numa peça e alterou o tabuleiro inteiro.

    GPT: um sistema treinado para continuar texto

    GPT significa Generative Pre-trained Transformer, ou Transformer Generativo Pré-treinado.

    A primeira versão da OpenAI apareceu em 2018. O GPT-2 veio em 2019 e chamou atenção pela capacidade de produzir textos coerentes. Em 2020, o GPT-3 mostrou que aumentar muito a quantidade de dados, parâmetros e computação permitia realizar diversas tarefas a partir de instruções e exemplos escritos no próprio pedido.

    A ideia central parece simples: dado um trecho de texto, prever qual é o próximo pedaço mais provável. Depois prever outro. E outro.

    Mas “qual é o próximo pedaço?” exige aprender uma quantidade enorme de relações. Para continuar corretamente um texto, o modelo precisa captar gramática, estilos, fatos, associações, formatos, padrões de raciocínio e estruturas de programação presentes nos dados.

    Ele não consulta necessariamente uma enciclopédia interna com gavetas organizadas. Aprendeu uma representação estatística distribuída por bilhões de números. É por isso que pode explicar um assunto muito bem e, logo depois, inventar o título de um livro, o nome do autor e até a editora com a tranquilidade de quem esteve no lançamento.

    ChatGPT: quando a IA ganhou uma caixa de conversa

    Em 30 de novembro de 2022, a OpenAI lançou o ChatGPT como uma versão de pesquisa baseada inicialmente na família GPT-3.5.

    Modelos de linguagem já existiam. O que mudou foi a embalagem, e não digo isso de maneira depreciativa. A interface de conversa tornou uma tecnologia complexa acessível a qualquer pessoa capaz de escrever uma pergunta.

    O sistema também havia sido ajustado para seguir instruções e treinado com avaliações humanas. Em vez de apenas completar qualquer texto, tentava responder ao pedido do usuário, manter o contexto da conversa e recusar certas solicitações perigosas.

    De repente, milhões de pessoas puderam pedir explicações, traduções, resumos, códigos, poemas, receitas, cartas, roteiros e trabalhos escolares às duas da manhã. Algumas usaram a ferramenta como assistente. Outras descobriram um método extremamente moderno de entregar dever de casa com referências bibliográficas vindas diretamente de Setealém.

    Em 2023, o GPT-4 ampliou a qualidade e passou a trabalhar também com imagens. Nos anos seguintes, os sistemas ganharam voz, geração e edição de imagens, análise de arquivos, navegação, memória, ferramentas, vídeo e capacidade de executar tarefas em várias etapas.

    Quando esse texto foi escrito, em agosto de 2026, a documentação da OpenAI já listava a família GPT-5.6 entre seus modelos mais avançados. Esse número provavelmente envelhecerá antes de algum leitor terminar a seção, porque a indústria adotou a estratégia de lançar modelos como quem atualiza previsão de chuva.

    E então chegamos a esse cara chamado ChatGPT, que eu quase não conheço, quase nunca uso e certamente não teve participação nenhuma nesse artigo — principalmente nas pesquisas,aaa.

    Gemini, Claude e os outros malucos concorrentes

    O sucesso do ChatGPT abriu uma corrida. Empresas que já pesquisavam IA havia anos perceberam que precisavam colocar seus modelos diante do público, de preferência ontem.

    O Google lançou o Bard em 2023, apresentou a família de modelos Gemini no fim daquele ano e, em fevereiro de 2024, aposentou o nome Bard na interface. Tudo passou a se chamar Gemini, porque uma confusão de nomes por empresa já é o mínimo exigido pelo setor.

    A Anthropic lançou o Claude publicamente em 2023, com forte ênfase em segurança, documentos longos, escrita e programação. A empresa foi fundada por antigos integrantes da OpenAI e desenvolveu uma abordagem chamada IA constitucional, na qual princípios escritos ajudam a orientar o comportamento do modelo.

    A Microsoft espalhou o nome Copilot pelo Windows, pelo navegador, pelo Microsoft 365 e pelas ferramentas de programação. Em muitos desses produtos, combinou modelos da OpenAI com busca, dados empresariais e integração aos aplicativos. Em certo momento parecia que até a Calculadora ganharia um Copilot para conferir se dois mais dois ainda eram quatro.

    A Meta apresentou a família Llama em 2023 e ajudou a fortalecer o ecossistema de modelos com pesos disponíveis para pesquisa, adaptação e execução em infraestrutura própria. Isso permitiu que empresas e comunidades criassem variantes sem depender apenas de uma interface fechada.

    A xAI lançou o Grok, integrado ao Twitter e apresentado desde o início como um assistente com humor e personalidade mais rebelde. A chinesa DeepSeek ganhou projeção mundial com modelos de código e raciocínio, além de versões com pesos abertos. A Perplexity combinou modelos de linguagem com pesquisa e referências. Outras empresas, universidades e comunidades lançaram modelos próprios.

    E a lista continua. Há IAs que escrevem, desenham, compõem, dublam, programam, pesquisam, criam vídeos e operam ferramentas. Algumas trabalham no computador do usuário. Outras vivem em centros de dados com uma quantidade de placas que faria meu velho computador olhar para os próprios discos e pedir aposentadoria.

    A concorrência foi boa para acelerar recursos, reduzir custos e criar alternativas. Também intensificou a disputa por dados, energia, chips, profissionais e atenção. Na corrida para anunciar a máquina mais inteligente da semana, nem sempre sobra tempo para perguntar se ela é confiável, sustentável ou necessária.

    Mas como uma IA dessas conversa?

    De forma muito simplificada, um grande modelo de linguagem passa por algumas etapas.

    Primeiro, textos são divididos em unidades chamadas tokens. Um token pode ser uma palavra, parte de uma palavra, pontuação ou outro fragmento.

    Durante o treinamento, o modelo recebe sequências e tenta prever o próximo token. Quando erra, seus parâmetros são ajustados. Esse processo se repete uma quantidade absurda de vezes.

    Depois, há etapas de ajuste para seguir instruções, conversar e se comportar de maneira mais útil. Avaliadores humanos ou outros sistemas comparam respostas, apontam preferências e ajudam a ensinar quais saídas são melhores.

    Na hora da conversa, o modelo não copia simplesmente uma frase pronta. Calcula probabilidades e gera uma resposta nova com base no pedido, no contexto e nos padrões aprendidos. Recursos adicionais podem permitir que consulte a internet, pesquise arquivos, use calculadora, execute código ou controle programas.

    Isso explica tanto a versatilidade quanto os defeitos.

    Como foi treinado para produzir continuações plausíveis, o modelo pode gerar algo que parece correto sem ser verdadeiro. Esse problema recebeu o nome elegante de alucinação. Eu prefiro dizer que a criatura viajou para Setealém e voltou com uma fonte que nunca existiu.

    Ferramentas de busca, bancos de dados e verificações reduzem o problema, mas não eliminam a necessidade de conferir informações importantes. Uma IA pode ser ótima para ajudar a pensar e péssima como oráculo infalível. Aliás, qualquer tecnologia que se apresente como oráculo infalível merece que alguém desligue da tomada por precaução.

    Isso é inteligência de verdade?

    Depende do significado dado à palavra inteligência.

    Uma calculadora supera qualquer pessoa em contas extensas. O Deep Blue joga xadrez melhor que quase todos os seres humanos. Um modelo moderno traduz, resume, programa, reconhece imagens e conversa sobre milhares de assuntos. Em capacidade funcional, há inteligência evidente.

    Mas isso não significa que a máquina tenha consciência, desejos, experiência subjetiva ou compreensão humana do mundo. Os sistemas atuais podem simular emoção e personalidade sem sentir o que descrevem. Também podem raciocinar em certas tarefas e cometer erros ridículos em outras.

    A chamada inteligência artificial geral, ou AGI, seria um sistema capaz de aprender e agir com flexibilidade comparável ou superior à humana numa ampla variedade de situações. Há empresas que dizem estar caminhando nessa direção. Não existe consenso sobre a definição, o teste ou a distância que nos separa dela.

    Turing provavelmente reconheceria a ironia. Setenta e seis anos depois de seu artigo, as máquinas sustentam conversas surpreendentes, mas continuamos discutindo o que significa “pensar”. O Teste de Turing ficou mais fácil de imaginar e mais difícil de interpretar.

    Uma tecnologia feita por seres humanos continua carregando seres humanos

    A história da IA não é apenas uma sequência de máquinas mais potentes. Também é uma história de escolhas.

    Modelos aprendem com dados produzidos por pessoas e podem reproduzir preconceitos presentes nesses dados. Sistemas de reconhecimento podem errar mais com certos grupos. Algoritmos de recomendação influenciam o que vemos, compramos e acreditamos. Ferramentas generativas levantam discussões sobre direitos autorais, trabalho, privacidade, desinformação e concentração de poder.

    Ao mesmo tempo, a IA ajuda a analisar proteínas, detectar doenças, tornar conteúdos acessíveis, traduzir idiomas, prever estruturas, acelerar pesquisas e automatizar tarefas cansativas.

    Para uma pessoa cega, poder enviar uma imagem e perguntar o que há nela não é uma demonstração abstrata. Pode significar mais autonomia. Para alguém que perdeu a voz, síntese e clonagem responsável de fala podem devolver uma forma de comunicação. Para quem trabalha com programação, uma IA pode encontrar um erro em minutos ou criar outros três com admirável eficiência.

    A tecnologia não chega separada da sociedade. Ela amplia capacidades, interesses, injustiças e possibilidades que já estavam aqui. Não é anjo nem demônio. É uma ferramenta extremamente poderosa operada por empresas, governos e pessoas que continuam perfeitamente capazes de fazer besteira sem ajuda artificial.

    Da Cybelle ao presente: o futuro foi chegando aos pedaços

    Olhando para trás, parece que tudo conduzia inevitavelmente ao ChatGPT. Não conduzia.

    A história teve caminhos abandonados, previsões erradas, invernos, modas, falta de verba e descobertas que serviam para outra coisa. A ELIZA não virou diretamente o GPT. Os sistemas especialistas não evoluíram em linha reta para o Gemini. A Cybelle não ficou treinando escondida num Pentium até acordar multimodal.

    Cada geração resolveu uma parte do problema:

    • Turing ajudou a definir computação e perguntou como reconhecer inteligência;
    • McCulloch, Pitts, Hebb e Rosenblatt exploraram máquinas inspiradas em neurônios;
    • Dartmouth deu nome e comunidade ao campo;
    • a IA simbólica mostrou o poder e os limites das regras;
    • ELIZA e os chatbots antigos mostraram como uma conversa cria sensação de presença;
    • os sistemas especialistas provaram o valor da inteligência aplicada a domínios estreitos;
    • Deep Blue, Watson e AlphaGo derrubaram desafios considerados exclusivamente humanos;
    • dados, placas gráficas e aprendizagem profunda permitiram reconhecer padrões em escala;
    • o Transformer tornou possível treinar grandes modelos de linguagem com eficiência;
    • as IAS generativas colocaram tudo diante do público numa caixa de texto simples.

    Esse percurso também ajuda a entender por que o artigo de ontem não tratou o futuro do trabalho como uma simples disputa entre gente e robôs. Cada onda da IA eliminou tarefas, criou especialidades e mudou o valor de outras. A tecnologia não reorganiza a sociedade sozinha: empresas, governos e trabalhadores ainda decidem quem recebe os ganhos e quem paga o custo da travessia.

    E, como concluí no artigo sobre a bolha, empresas, avaliações financeiras e promessas podem estourar sem levar a tecnologia junto. A IA já atravessou mais de um invvvééérno. Mudou de nome, perdeu verba, voltou com outra arquitetura e continuou se infiltrando no cotidiano.

    Hoje conversamos com máquinas que escrevem, ouvem, falam, veem imagens, produzem música, criam vídeos e usam ferramentas. Elas impressionam, erram, ajudam, atrapalham e às vezes respondem uma coisa tão esquisita que a Cybelle, onde quer que seus arquivos estejam, deve sentir orgulho.

    Talvez a pergunta mais útil já não seja “a inteligência artificial vai existir?”. Ela existe faz tempo.

    As perguntas agora são outras: quem controla, quem se beneficia, quem paga o custo, como verificamos o que ela produz e que tipo de sociedade queremos construir com isso.

    Alan Turing perguntou se uma máquina poderia pensar. Nós ainda não terminamos de responder. Mas já descobrimos que ela pode conversar, jogar, reconhecer, criar, calcular, descrever e inventar uma bibliografia inteira quando não sabe a resposta.

    O futuro chegou. Só veio parcelado, passou duas vezes pelo invvvééérno e, em algum ponto do caminho, fez uma conexão em Setealém.

    Um abraço e até o próximo post!

    Fernando

    Fontes e leituras complementares

  • Da máquina a vapor ao colega de silício: os empregos que a IA vai transformar, os que vai criar e os que não vai conseguir eliminar

    Tempo de leitura: 14 minutos

    Olá, caros leitores e amigos!

    Sempre que aparece uma tecnologia nova, alguém anuncia o fim dos empregos.

    Foi assim quando as máquinas começaram a entrar nas fábricas durante a Revolução Industrial. Foi assim com os teares mecânicos, com o motor a vapor, com os tratores, com a eletricidade, com as linhas de montagem, com os computadores, com os caixas eletrônicos, com a internet e até com aquelas planilhas eletrônicas que, segundo algumas previsões, mandariam todos os contadores para casa.

    Agora chegou a vez da inteligência artificial.

    — Pronto. Acabou. A máquina escreve, desenha, programa, traduz, compõe música, atende clientes e ainda não pede férias. Dentro de alguns anos estaremos todos sentados na calçada, disputando com um robô a última vaga de vendedor de pipoca.

    Calma.

    A IA realmente vai eliminar algumas funções, reduzir outras e modificar uma quantidade enorme de profissões. Negar isso seria tão sensato quanto um fabricante de lampiões, em 1900, declarar que aquela história de eletricidade era apenas uma modinha.

    Mas existe outra metade da história: tecnologias também criam necessidades, mercados, tarefas e profissões. Algumas delas ainda nem têm um nome definitivo; outras já existem, mas ganharão funções novas; e há trabalhos que dificilmente desaparecerão porque dependem de presença física, confiança, responsabilidade, improviso, empatia ou conhecimento humano especializado.

    Então, em vez de repetir pela milésima vez quais empregos a IA vai engolir no café da manhã, hoje vamos olhar para o outro lado: quais empregos devem crescer, quais estão nascendo e quais continuarão por aqui, ainda que com uma IA sentada ao lado dando palpite.

    O medo não nasceu com o ChatGPT

    No começo do século XIX, trabalhadores ingleses destruíram máquinas usadas na indústria têxtil. Eles ficaram conhecidos como luditas e, com o tempo, seu nome virou sinônimo de gente que rejeita qualquer novidade tecnológica.

    A história real era menos caricata. Aqueles trabalhadores não eram sujeitos apavorados com uma engrenagem porque acreditavam que havia um demônio morando dentro dela. Eles protestavam contra a perda de renda, a piora das condições de trabalho e a substituição de profissionais qualificados por mão de obra mais barata operando máquinas.

    Ou seja: a preocupação deles fazia sentido.

    A Revolução Industrial acabou criando fábricas, ferrovias, oficinas, indústrias inteiras e profissões como mecânicos de máquinas, operadores, engenheiros, eletricistas e técnicos de manutenção. No total, surgiram atividades que antes seriam inimagináveis. Mas isso não devolveu automaticamente o emprego, o salário ou a dignidade de cada artesão que perdeu seu sustento durante a transição.

    Essa distinção é essencial. Uma tecnologia pode criar mais empregos na economia ao longo de vinte anos e, ao mesmo tempo, destruir a vida profissional de muita gente na próxima terça-feira.

    O economista David Autor lembra que a automação não apenas substitui trabalho humano: ela também complementa trabalhadores, aumenta a produção e cria novas demandas. Daron Acemoglu e Pascual Restrepo descrevem duas forças agindo ao mesmo tempo: o chamado efeito de deslocamento, quando a máquina assume tarefas antes feitas por pessoas, e o efeito de reintegração, quando a tecnologia cria tarefas novas nas quais o trabalho humano volta a ser necessário.

    O problema é que essas duas forças não chegam juntas, não beneficiam necessariamente as mesmas pessoas e raramente vêm acompanhadas de um bilhete dizendo: “Prezado trabalhador substituído, sua nova profissão fica na sala ao lado e paga o dobro”. Seria simpático, mas o capitalismo ainda não instalou esse addon.

    A IA substitui profissões ou tarefas?

    Uma profissão não é uma tarefa única. O trabalho de um jornalista pode envolver pesquisar, entrevistar, verificar fatos, organizar informações, escrever, revisar, negociar uma pauta e responder legalmente pelo que publicou. Um programador não passa o dia apenas digitando código: ele entende problemas, conversa com usuários, escolhe soluções, integra sistemas, testa, corrige, documenta e, em dias especialmente felizes, tenta descobrir por que algo que funcionava ontem decidiu morrer hoje.

    A inteligência artificial pode assumir algumas dessas tarefas sem conseguir executar a profissão inteira com segurança e autonomia.

    Esse é um dos principais resultados do índice publicado pela Organização Internacional do Trabalho em 2025. Segundo a OIT, um em cada quatro trabalhadores do mundo está em alguma ocupação exposta à IA generativa, mas apenas 3,3% do emprego global aparece na categoria de exposição mais alta. Mesmo nos trabalhos mais expostos, a transformação é considerada mais provável do que a substituição completa.

    Em maio de 2026, ao apresentar um projeto brasileiro para estudar o impacto da IA nas ocupações da Classificação Brasileira de Ocupações, o Ministério do Trabalho e Emprego reforçou a mesma cautela: exposição não significa impacto, e analisar tarefas é mais útil do que simplesmente carimbar uma profissão inteira como condenada.

    É claro que, se uma empresa automatizar 70% das tarefas de um setor, talvez ela precise de menos pessoas para entregar o mesmo volume de trabalho. Portanto, “a profissão não desaparecerá” não significa “nenhuma vaga será perdida”. Significa que o conteúdo do trabalho, o número de profissionais necessários e as habilidades exigidas podem mudar de maneiras diferentes.

    Os números do apocalipse — e os números que geralmente esquecem de contar

    O relatório Future of Jobs 2025, do Fórum Econômico Mundial, estimou que as grandes transformações econômicas, demográficas, ambientais e tecnológicas devem criar 170 milhões de empregos e deslocar 92 milhões até 2030. O saldo projetado é positivo em 78 milhões de postos.

    Antes que alguém saia anunciando “a IA criará 170 milhões de empregos”, convém apertar o freio do entusiasmo. O número reúne várias tendências, não apenas inteligência artificial, e resulta de projeções feitas a partir de uma pesquisa com mais de mil grandes empregadores. É um indicador importante, não uma mensagem trazida do futuro por um viajante temporal com carteira assinada.

    Quando o relatório separa IA e processamento de informações, a expectativa é de aproximadamente 11 milhões de funções criadas e 9 milhões deslocadas. O mesmo estudo prevê que 39% das habilidades consideradas fundamentais pelos trabalhadores mudarão até 2030.

    Entre as ocupações com tendência de queda aparecem caixas e vendedores de bilhetes, digitadores, assistentes administrativos, secretários executivos, trabalhadores de impressão e algumas funções contábeis e de auditoria mais rotineiras. Entre as que crescem estão especialistas em big data, inteligência artificial e aprendizado de máquina, engenheiros de tecnologia financeira, desenvolvedores de software, profissionais de segurança, especialistas em veículos elétricos e engenheiros ambientais e de energia renovável.

    Ou seja: não teremos simplesmente menos trabalho. Teremos uma grande mudança na distribuição do trabalho — e uma bela confusão até descobrirmos onde colocar todo mundo.

    As profissões que estão surgindo ou ganhando uma cara nova

    1. Engenheiros e especialistas em inteligência artificial

    Alguém precisa criar, adaptar, treinar, integrar e manter os sistemas de IA. Aqui entram engenheiros de aprendizado de máquina, cientistas de dados, pesquisadores, arquitetos de soluções, especialistas em processamento de linguagem, engenheiros de dados e profissionais de infraestrutura.

    Também crescerão funções ligadas ao MLOps, nome pouco amigável para o conjunto de práticas usado para colocar modelos em produção, monitorá-los, atualizá-los e impedir que aquela demonstração maravilhosa funcione apenas no notebook do desenvolvedor.

    2. Engenheiro de prompts e designer de conversação

    A engenharia de prompts nasceu com a expansão dos grandes modelos de linguagem. O engenheiro de prompts cria instruções, fornece contexto, define exemplos, estabelece limites, testa respostas e desenvolve métodos para que uma IA execute uma tarefa de maneira consistente.

    Não é simplesmente escrever “faça um texto bonito” e esperar o salário cair na conta. Em aplicações profissionais, um prompt pode fazer parte de um sistema complexo, usar dados externos, chamar ferramentas, seguir regras de segurança e precisar funcionar diante de milhares de perguntas que seu criador jamais imaginou.

    A profissão existe, mas merece uma dose de realidade. Um estudo de 2025 analisou 20.662 anúncios de emprego no LinkedIn e encontrou 72 vagas com o título de engenheiro de prompts: menos de 0,5% da amostra. Ao mesmo tempo, o estudo identificou um perfil próprio, combinando conhecimento de IA, criação de prompts, comunicação e resolução criativa de problemas.

    A tendência mais provável é dupla: haverá especialistas dedicados à engenharia de prompts, principalmente em produtos complexos, mas a habilidade se espalhará por muitas outras profissões. Programadores, professores, advogados, profissionais de marketing, analistas, revisores e pesquisadores terão de aprender a conversar com sistemas de IA, testar suas respostas e transformar instruções soltas em processos confiáveis.

    Talvez o cargo “engenheiro de prompts” não se multiplique tanto quanto se anunciava em 2023, mas a engenharia de prompts já está se tornando uma competência profissional. É parecido com saber usar a internet: poucas pessoas têm o cargo de “usador profissional de navegador”, mas tente trabalhar sem isso hoje.

    3. Treinadores de IA, curadores de dados e especialistas de domínio

    Modelos precisam de dados selecionados, organizados, classificados e avaliados. Isso cria espaço para anotadores de dados, curadores, linguistas computacionais, treinadores de modelos e especialistas capazes de ensinar à máquina as particularidades de uma área.

    Um sistema médico precisa da participação de profissionais da saúde. Um sistema jurídico precisa de juristas. Uma IA que trabalha com música, acessibilidade, finanças ou agricultura precisa de gente que conheça profundamente esses assuntos.

    Aqui existe um alerta: parte do trabalho de anotação já é terceirizada por valores baixos e em condições precárias. Criar uma profissão nova não garante que ela seja boa. O futuro do trabalho também depende de remuneração, direitos, transparência e reconhecimento da mão humana escondida atrás da suposta mágica automática.

    4. Avaliadores, testadores e red teamers de IA

    Antes de colocar uma IA para recomendar um tratamento, analisar um currículo, aprovar crédito ou conversar com milhares de clientes, alguém precisa descobrir como ela falha.

    É aí que entram avaliadores de modelos, especialistas em qualidade, testadores de segurança e integrantes de equipes de red teaming. Essas pessoas provocam o sistema, procuram vieses, inventam situações extremas, tentam contornar proteções e medem se a ferramenta faz aquilo que promete.

    O perfil de gestão de riscos para IA generativa publicado pelo NIST recomenda testes antes da implantação, auditorias, avaliações de impacto, exercícios estruturados de feedback humano e red teaming. Quanto mais empresas dependerem de IA, maior será a necessidade de profissionais pagos para desconfiar dela. Finalmente uma carreira promissora para quem olha para um sistema novo e pensa: “Muito bonito. Agora me deixe tentar quebrar isso”.

    5. Auditores, gestores de risco e profissionais de governança de IA

    Quem responde quando um algoritmo discrimina um candidato, inventa uma informação médica, vaza dados ou toma uma decisão impossível de explicar?

    Empresas e governos precisarão de especialistas em governança, auditoria algorítmica, privacidade, direitos autorais, ética, documentação, conformidade e avaliação de impacto. Parte dessas funções será ocupada por profissionais novos; outra parte surgirá da especialização de advogados, auditores, administradores, especialistas em segurança e encarregados de proteção de dados.

    Regras como a legislação europeia de inteligência artificial exigem gestão de riscos, documentação, transparência e supervisão humana em sistemas considerados de alto risco. Mesmo onde a lei ainda estiver sendo construída, empresa nenhuma deveria esperar o primeiro processo judicial para descobrir que “a IA decidiu sozinha” não é uma defesa muito brilhante.

    6. Especialistas em cibersegurança, identidade e verificação de conteúdo

    A mesma IA que ajuda a defender uma rede também pode produzir golpes convincentes, imitar vozes, fabricar vídeos, criar mensagens personalizadas e automatizar ataques.

    Isso aumenta a procura por analistas de segurança, investigadores digitais, especialistas em detecção de fraude, peritos em conteúdo sintético e profissionais dedicados à procedência de arquivos: quem criou, quando alterou e se aquele áudio do diretor pedindo uma transferência bancária é verdadeiro ou foi fabricado cinco minutos antes.

    7. Técnicos de automação, robótica e manutenção

    Software não aperta o próprio parafuso, troca seu rolamento nem sobe numa torre eólica para fazer manutenção. Quanto mais sensores, robôs, veículos elétricos e equipamentos inteligentes forem instalados, mais gente será necessária para integrar, operar, consertar e atualizar tudo isso.

    Projeções de emprego dos Estados Unidos para 2024 a 2034 colocam técnicos de turbinas eólicas e instaladores de energia solar entre as ocupações de crescimento mais rápido. Mecânicos de máquinas industriais também aparecem com crescimento bem superior à média. Os números são americanos e não devem ser copiados diretamente para o Brasil, mas ajudam a mostrar uma regra simples: toda automação cria uma fila de equipamentos que, mais cedo ou mais tarde, darão defeito.

    8. Especialistas em acessibilidade de sistemas de IA

    Uma IA pode gerar descrições de imagens, transcrever áudio, simplificar textos e ampliar a autonomia de pessoas com deficiência. Também pode criar botões sem rótulo, interfaces impossíveis de navegar com teclado, descrições absurdas e decisões enviesadas porque ninguém incluiu pessoas com deficiência nos testes.

    Por isso, crescerá a necessidade de consultores de acessibilidade, testadores com deficiência, especialistas em tecnologia assistiva, designers inclusivos e auditores capazes de verificar tanto a interface quanto o comportamento do sistema.

    Acessibilidade não pode ser um enfeite colocado na última sexta-feira antes do lançamento. Em sistemas que aprendem, mudam e geram conteúdo novo, ela precisa ser testada continuamente.

    Editor e revisor: o profissional que ficará atrás da IA com uma vassoura

    Se existe uma profissão que tende a aparecer em quase todas as áreas da inteligência artificial, é a de editor, revisor, avaliador ou especialista responsável pela validação final.

    A IA produz texto rapidamente, mas pode inventar fatos, misturar fontes, errar datas, perder o tom, repetir ideias e escrever com aquela segurança maravilhosa de quem está completamente errado. Pode traduzir uma frase correta do ponto de vista gramatical e destruir seu sentido cultural. Pode criar um roteiro com três personagens que mudam de nome, um programa que funciona no exemplo e abre uma cratera de segurança no uso real, ou uma imagem com uma placa escrita em dialeto marciano.

    Quanto mais conteúdo for produzido, mais conteúdo precisará ser conferido.

    Isso abre espaço para vários tipos de revisão:

    • editores e revisores de textos, livros, notícias, publicidade e material didático;
    • checadores de fatos, fontes, citações e dados;
    • tradutores especializados em pós-edição de tradução automática;
    • leitores críticos, editores de roteiro e especialistas em continuidade;
    • revisores técnicos de conteúdos médicos, jurídicos, científicos e financeiros;
    • revisores de código, segurança, testes e documentação;
    • diretores e editores de áudio, imagem e vídeo gerados ou modificados por IA;
    • avaliadores de acessibilidade, linguagem inclusiva, vieses e adequação cultural.

    Na tradução, isso já é formalizado há anos. A norma ISO 18587 estabelece requisitos para a pós-edição humana completa de traduções produzidas por máquina e para as competências do profissional que realiza esse trabalho.

    A revisão, porém, não pode virar o emprego do sujeito que recebe quinhentos textos por hora e clica em “aprovado” até seus olhos pedirem demissão. Validar uma saída de IA exige tempo, conhecimento da área, acesso às fontes e autoridade para rejeitar o material. Quando há risco médico, jurídico, financeiro ou de segurança, o revisor não é um corretor cosmético: é parte do sistema de proteção.

    E existe uma ironia deliciosa aqui. Durante anos anunciaram que a IA acabaria com revisores, tradutores e editores. Agora estamos descobrindo que, para usar a IA em escala sem transformar a internet num enorme depósito de bobagens bem formatadas, precisaremos justamente de revisores, tradutores e editores.

    Programadores vão acabar?

    Não. Mas o trabalho deles já está mudando.

    A IA escreve funções, sugere correções, explica código e monta estruturas iniciais com uma velocidade impressionante. Isso reduz o valor de algumas tarefas mecânicas, principalmente a produção de código repetitivo e previsível.

    Ao mesmo tempo, alguém ainda precisa entender o problema, definir a arquitetura, escolher tecnologias, proteger os dados, integrar serviços, testar situações reais, conversar com o cliente, manter o sistema e assumir a responsabilidade quando tudo quebra às três da manhã.

    Aliás, quanto mais fácil fica produzir código, mais software é criado — e mais software precisa de integração, testes, segurança, manutenção e correção. O Bureau of Labor Statistics dos Estados Unidos projeta crescimento de 15,8% para desenvolvedores de software entre 2024 e 2034, muito acima dos 3,1% previstos para o conjunto das ocupações.

    O programador que apenas transforma uma especificação pronta em código previsível ficará mais exposto. O profissional que entende sistemas, usuários, segurança, negócio e depuração continuará valioso. Digitar código deixa de ser o centro; saber o que deve ser construído, verificar se funciona e perceber quando a IA está fazendo uma bela porcaria passam a valer ainda mais.

    Os empregos que não vão desaparecer tão cedo

    Nenhuma profissão recebe garantia de eternidade em cartório. Ainda assim, alguns trabalhos são especialmente resistentes à automação completa.

    Saúde, cuidado e apoio emocional

    Médicos usarão IA para analisar exames e organizar informações. Enfermeiros terão sistemas de monitoramento. Psicólogos poderão usar ferramentas auxiliares. Cuidadores receberão apoio para acompanhar medicamentos e rotinas.

    Mas diagnóstico não é apenas reconhecer um padrão, cuidado não é apenas executar uma lista e sofrimento humano não se resolve com uma resposta estatisticamente provável. Presença, toque, confiança, contexto, ética e responsabilidade continuam humanos.

    Nas projeções americanas até 2034, profissionais de enfermagem avançada, assistentes de fisioterapia, técnicos de saúde, conselheiros de saúde mental e cuidadores domiciliares aparecem entre as ocupações de maior crescimento. Somente cuidadores domiciliares e pessoais devem ganhar cerca de 740 mil postos naquele país.

    Professores, educadores e mentores

    A IA pode explicar um conteúdo de dez maneiras, preparar exercícios e adaptar materiais. Excelente. Isso libera o professor de parte do trabalho repetitivo.

    Mas ensinar também é perceber que o aluno não entendeu embora tenha dito que sim, mediar conflitos, estimular curiosidade, criar disciplina, adaptar-se ao ambiente, descobrir talentos e impedir que trinta crianças transformem a sala numa filial experimental do caos.

    O professor não desaparecerá. O professor que usa IA provavelmente terá ferramentas melhores; aquele que apenas repete conteúdo pronto precisará rever seu papel.

    Eletricistas, encanadores, mecânicos, técnicos e trabalhadores de campo

    Robôs funcionam muito bem em ambientes controlados. Uma casa antiga com fios passados por alguém que aparentemente odiava a humanidade não é um ambiente controlado.

    Profissões que exigem deslocamento, destreza, diagnóstico físico e adaptação a situações imprevisíveis são difíceis e caras de automatizar. Eletricistas, encanadores, mecânicos, instaladores, técnicos de refrigeração, profissionais de manutenção, trabalhadores da construção e diversos ofícios continuarão necessários.

    E serão ainda mais necessários para instalar e consertar a infraestrutura do maravilhoso futuro automatizado.

    Emergência, resgate e decisões sob pressão

    Bombeiros, socorristas, equipes de defesa civil e outros profissionais de emergência podem usar drones, sensores e sistemas preditivos. Mas ambientes caóticos exigem improviso, coragem, coordenação e decisões morais que não podem ser simplesmente terceirizadas a um modelo.

    Liderança, negociação e relações humanas

    Gerentes terão relatórios automáticos. Vendedores receberão sugestões. Recrutadores usarão sistemas de triagem. Advogados pesquisarão com IA. Ainda assim, confiança, negociação, persuasão, gestão de conflitos e responsabilidade institucional dependem de relações entre pessoas.

    Isso não preserva todas as vagas nem todas as tarefas. Preserva a necessidade de alguém compreender interesses contraditórios, tomar decisões e responder por elas.

    Artistas, autores e criadores

    A IA já cria músicas, imagens, vídeos e textos. Isso aumentará a quantidade de conteúdo e pressionará parte do mercado, principalmente na produção rápida, barata e genérica.

    Mas arte não é apenas o arquivo final. Também é a história de quem criou, a intenção, a interpretação, a experiência compartilhada e a ligação do público com uma pessoa. Um cantor não é somente uma máquina de emitir notas certas; um escritor não é apenas um distribuidor de frases; e ninguém vai a um show apenas para conferir se todas as frequências sonoras previstas estão presentes.

    Criadores usarão IA, rejeitarão IA, misturarão técnicas e inventarão novos formatos. O mercado mudará bastante. A vontade humana de contar histórias e de ouvir as histórias de outras pessoas, porém, parece ter sobrevivido a todas as tecnologias anteriores.

    O que continuará valendo no currículo

    Se ferramentas específicas mudam a cada poucos meses, não adianta decorar o nome de cada botão e imaginar que o aprendizado terminou.

    As habilidades mais resistentes são justamente as que ajudam a trabalhar com a tecnologia sem obedecê-la cegamente:

    • conhecimento profundo de uma área;
    • pensamento crítico e capacidade de verificar informações;
    • comunicação clara, inclusive para formular boas instruções;
    • criatividade e resolução de problemas novos;
    • ética, responsabilidade e compreensão de riscos;
    • empatia, negociação e trabalho em equipe;
    • capacidade de aprender continuamente;
    • uso prático da IA como ferramenta, e não como oráculo eletrônico.

    Uma pesquisa da PwC baseada em quase um bilhão de anúncios de emprego encontrou mudanças de competências 66% mais rápidas nas ocupações mais expostas à IA. Também identificou um prêmio salarial médio de 56% para trabalhadores com habilidades em IA, categoria que inclui engenharia de prompts.

    Isso não significa que todo mundo precise abandonar sua profissão e virar cientista de dados até sexta-feira. Significa que um contador, professor, jornalista, músico, advogado, profissional de saúde, programador ou técnico que entenda como usar e fiscalizar essas ferramentas poderá ampliar sua capacidade de trabalho.

    O verdadeiro problema não é a falta de trabalho, mas a travessia

    Dizer que haverá saldo positivo de empregos não resolve a transição.

    Uma vaga nova em segurança de IA não ajuda imediatamente a secretária dispensada por um sistema automático. Um posto de técnico em energia eólica pode estar a mil quilômetros do trabalhador que perdeu seu emprego numa gráfica. E uma profissão nova pode exigir formação que custa dinheiro, tempo e acesso que muita gente não possui.

    Por isso, o futuro do trabalho não depende apenas do que a tecnologia consegue fazer. Depende das escolhas de empresas e governos: treinamento, educação acessível, proteção social, direitos trabalhistas, inclusão de pessoas com deficiência, distribuição dos ganhos de produtividade e criação de caminhos reais para a requalificação.

    Se a IA aumentar enormemente a produtividade e todos os benefícios ficarem com meia dúzia de empresas, teremos avanço tecnológico e retrocesso social ao mesmo tempo. A máquina não decide essa distribuição sozinha. Quem decide são as pessoas.

    Então, a IA vai roubar nosso emprego?

    Alguns, sim. Outros serão divididos, reduzidos, ampliados ou completamente redesenhados. Muitas pessoas passarão a trabalhar com IA sem mudar o nome de sua profissão. Outras terão cargos que hoje parecem inventados por um roteirista de ficção científica.

    A frase “a IA não substituirá você; uma pessoa usando IA substituirá” ficou popular, mas simplifica demais. Às vezes um profissional usando IA realmente fará o trabalho que antes exigia três. Em outras ocasiões, a empresa usará a tecnologia apenas para produzir mais com a mesma equipe. Também haverá casos em que a automação falhará, custará caro e será discretamente abandonada depois de uma apresentação cheia de gráficos coloridos e erros desastrosos…

    A resposta honesta é menos cinematográfica: a IA não acabará com o trabalho, mas mudará quem faz cada tarefa, como ela é feita, quanto vale e quem fica com o ganho.

    E, no meio dessa mudança, surgirão engenheiros de prompts, treinadores de modelos, auditores de algoritmos, especialistas em segurança, técnicos de robótica, consultores de acessibilidade e uma multidão de editores e revisores encarregados de conferir se a maravilhosa inteligência artificial não colocou Napoleão na Segunda Guerra Mundial, receitou cola para gastrite ou criou um sistema de login que aceita a senha “123”.

    No fim, a tecnologia continuará fazendo o que sempre fez: eliminar algumas tarefas, criar outras, remodelar mais algumas e obrigar a humanidade a reorganizar a bagunça.

    E organizar bagunça, convenhamos, ainda é uma área com excelente futuro profissional, aaaa…

    Um abraço e até o próximo post!

    Fernando

    Referências

  • Do HTML feito na unha ao império do WordPress: a história dos CMS, dos que morreram e dos que se recusam a morrer

    Tempo de leitura: 16 minutos

    Olá, caros leitores dessa coisa chamada blog!

    No artigo anterior, falamos sobre a história dos blogs. Mas não dá para falar dos blogs sem esbarrar numa parte fundamental dessa história: os CMS. Como apareceram? O que são? O que fazem? E por que alguns morreram enquanto outros parecem se recusar terminantemente a aceitar o próprio atestado de óbito?

    Hoje qualquer sujeito instala um WordPress, escolhe um tema, escreve alguma coisa, aperta o botão “Publicar” e pronto: o texto aparece na página inicial, na categoria correspondente, no arquivo do mês, no feed, na pesquisa interna e em mais alguns lugares que ele nem sabia que existiam.

    Se alguma coisa der errado, naturalmente, também poderá aparecer uma mensagem sobre um “erro crítico”, um plugin começará a brigar com outro e o administrador passará a tarde tentando descobrir por que uma atualização aparentemente inocente fez o menu desaparecer. Certas tradições da informática precisam ser preservadas.

    Mesmo assim, criar e manter um site hoje é infinitamente mais fácil do que era nos primeiros anos da web. Antes dos sistemas de gerenciamento de conteúdo, os famosos CMS, um site com algumas dezenas ou centenas de páginas podia se transformar numa pequena fábrica de sofrimento.

    Mas quando apareceram esses sistemas? Por que alguns dominaram a internet e depois praticamente desapareceram? Como WordPress e Drupal atravessaram mais de duas décadas, sobreviveram a modas, redes sociais, construtores visuais e incontáveis anúncios de suas mortes?

    Para descobrir, precisamos voltar ao tempo em que uma página era realmente uma página: um arquivo HTML solitário, cuidadosamente feito na unha e enviado ao servidor por FTP.

    Quando cada página era um arquivo

    Nos primeiros anos da World Wide Web, um site era normalmente uma coleção de arquivos HTML. Havia um arquivo para a página inicial, outro para a apresentação da empresa, outro para os produtos, outro para os contatos e assim por diante.

    Para criar uma página, alguém precisava escrever ou gerar o HTML, colocar textos, títulos, imagens e links nos lugares corretos e depois enviar o arquivo ao servidor. Programas como FrontPage, Dreamweaver e tantos outros facilitaram parte do trabalho, permitindo montar páginas visualmente, mas a estrutura continuava baseada em arquivos individuais.

    Em um site com cinco páginas, isso não era necessariamente um problema. Em um site com quinhentas, começava a desgraceira.

    Imagine que o menu aparecesse em todas as páginas e fosse necessário acrescentar uma nova opção. Sem templates, includes ou algum tipo de automação, seria preciso abrir os quinhentos arquivos, alterar o menu em cada um deles e mandar tudo novamente ao servidor. Se na página número 387 alguém esquecesse de fechar uma tag, surgiria um exemplar exclusivo do site, possivelmente com metade do conteúdo em negrito e uma tabela tentando fugir pela lateral do monitor.

    E eram tabelas mesmo. Antes que o CSS amadurecesse, era comum construir o leiaute usando tabelas dentro de tabelas, que por sua vez moravam dentro de outras tabelas. O desenvolvedor abria uma tag no começo da tarde e, quando chegava a noite, já não sabia se deveria fechá-la naquela página, na seguinte ou pedir ajuda ao padre Quevedo.

    Algumas técnicas diminuíam o sofrimento. Os Server Side Includes permitiam manter cabeçalhos, menus e rodapés em arquivos separados. Linguagens como Perl, PHP e ASP começaram a gerar páginas dinamicamente. Bancos de dados armazenavam notícias, produtos e usuários. Mas essas soluções geralmente precisavam ser construídas especialmente para cada site.

    Funcionavam, desde que alguém soubesse programar, conhecesse o servidor e se lembrasse de como aquela invenção havia sido montada seis meses antes.

    O site deixou de ser um folheto

    No começo dos anos 1990, muitas páginas eram pouco mais que folhetos eletrônicos. Uma empresa colocava seu endereço, uma descrição dos serviços, talvez uma fotografia de baixa resolução e considerava o trabalho encerrado.

    Isso mudou quando jornais, revistas, portais, lojas e grandes organizações começaram a publicar milhares de itens e atualizar seus sites várias vezes por dia. Não dava para chamar um programador sempre que um jornalista precisasse trocar uma palavra num título.

    Era preciso separar algumas coisas que até então costumavam viver misturadas:

    • o conteúdo, como textos, imagens e documentos;
    • a apresentação, definida pelo leiaute;
    • a navegação e a organização das páginas;
    • os usuários e suas permissões;
    • e a parte técnica responsável por montar e entregar tudo ao visitante.

    Nascia assim a ideia do sistema de gerenciamento de conteúdo, ou Content Management System. Em vez de editar diretamente a página pronta, o autor colocaria o conteúdo numa interface administrativa. O sistema armazenaria as informações, aplicaria um modelo visual e produziria a página para o público.

    A ideia parece óbvia hoje, mas resolveu um problema fundamental: quem conhecia o assunto finalmente podia cuidar do conteúdo sem precisar conhecer todos os revertérios técnicos do site… aaa.

    Os primeiros CMS eram brinquedos de gente grande

    Em meados dos anos 1990 apareceram os primeiros grandes sistemas voltados ao gerenciamento de conteúdo na web. FileNet, Interwoven, Documentum, FutureTense e outros nomes entraram nesse mercado. A Vignette, fundada em 1995, tornou-se especialmente importante.

    A CNET havia desenvolvido internamente um sistema chamado PRISM para administrar seu enorme portal. A tecnologia foi transferida à Vignette e ajudou a originar produtos como StoryBuilder e StoryServer, lançados a partir de 1996.

    Esses sistemas permitiam que grandes equipes criassem, revisassem, aprovassem e publicassem conteúdo seguindo fluxos de trabalho. Um jornalista escrevia, um editor revisava, outra pessoa aprovava e o sistema colocava tudo no ar no momento programado.

    Era uma maravilha, desde que a organização tivesse muito dinheiro, servidores robustos, equipe técnica e talvez um departamento inteiro para administrar o departamento que administrava o CMS.

    O conceito estava estabelecido, mas ainda faltava alguma coisa que uma pessoa comum pudesse instalar numa hospedagem compartilhada sem precisar vender a casa.

    A combinação que mudou tudo: PHP, MySQL e código aberto

    No final dos anos 1990, PHP e MySQL tornaram muito mais simples e barato criar sites dinâmicos. Ao mesmo tempo, o código aberto permitiu que programas fossem distribuídos, estudados e modificados por comunidades inteiras.

    A combinação era perfeita para a hospedagem compartilhada: um servidor rodava Apache, PHP e MySQL e podia hospedar dezenas ou centenas de sites. O usuário baixava um pacote, criava um banco de dados, enviava os arquivos e seguia um instalador.

    Na teoria, pelo menos. Na prática, muitas instalações começavam com um arquivo chamado config.php, permissões 777 e alguma mensagem de erro cuja solução estava enterrada na página 14 de um fórum.

    Foi nessa época que uma primeira geração de CMS, portais e publicadores começou a chegar às mãos do público.

    TYPO3: o veterano que continua trabalhando

    O TYPO3 começou a ser criado pelo dinamarquês Kasper Skårhøj em 1997 e foi apresentado publicamente em 1998. Sua proposta já era separar conteúdo e apresentação e oferecer uma plataforma poderosa para sites corporativos.

    Ele nunca teve a simplicidade como principal argumento. O TYPO3 foi construído para projetos complexos, com vários idiomas, equipes de editores, estruturas extensas e necessidades empresariais. Em compensação, conquistou uma presença forte principalmente na Europa.

    Mais de um quarto de século depois, continua recebendo versões novas. Não domina a web e muita gente fora de seu nicho nunca o utilizou, mas está bem vivo. É um daqueles veteranos que não aparece muito nas redes sociais porque está ocupado trabalhando, digamos assim!

    PHP-Nuke: quando todos os portais pareciam parentes

    No final dos anos 1990 apareceu também o PHP-Nuke, criado por Francisco Burzi. O projeto começou com um sistema chamado NUKE, escrito em Perl, e depois foi refeito em PHP.

    Para a época, aquilo era impressionante. Em poucos minutos era possível instalar um portal com notícias, categorias, cadastro de usuários, enquetes, downloads, links, comentários, blocos laterais e, em muitas versões, fórum. Quase tudo podia ser administrado pelo navegador.

    O sucesso foi tão grande que durante algum tempo uma parte considerável dos portais parecia ter saído da mesma fábrica. Mudavam as cores, o logotipo e o assunto; o restante continuava com os familiares blocos nas laterais e uma quantidade de informações capaz de fazer qualquer leitor de telas pedir férias.

    O PHP-Nuke também gerou uma enorme família de derivados. PostNuke, XOOPS, e107 e outros projetos aproveitaram ideias ou código daquela geração.

    Mas o próprio sucesso trouxe problemas. A arquitetura envelheceu, vulnerabilidades foram encontradas repetidamente, módulos de terceiros variavam muito em qualidade e o desenvolvimento acabou se fragmentando. Concorrentes mais modernos surgiram e o antigo rei dos portais foi perdendo espaço.

    Ainda existem descendentes, cópias e instalações esquecidas em algum canto da internet, porque software antigo raramente morre por completo. Às vezes ele apenas fica vinte anos sem atualização num servidor que ninguém tem coragem de reiniciar.

    Drupal: de um alojamento estudantil para grandes organizações

    A história do Drupal começou por volta de 1999, quando o estudante belga Dries Buytaert criou um pequeno sistema de mensagens para que ele e seus colegas de alojamento pudessem se comunicar.

    Quando o grupo se separou, Dries colocou o sistema na internet. Ele pretendia registrar o domínio dorp.org — “dorp” significa “vila” em holandês —, mas digitou drop.org. Gostou do erro e ficou com ele. Mais tarde, o nome do software virou Drupal, derivado da pronúncia inglesa da palavra holandesa “druppel”, que significa gota.

    Em janeiro de 2001, o código foi liberado como projeto de código aberto.

    Desde cedo, o Drupal não se comportou apenas como um publicador de notícias ou blogs. Ele também funcionava como uma estrutura para construir comunidades e aplicações. Usuários, permissões, comentários, taxonomias, módulos e tipos de conteúdo podiam ser combinados de maneiras bastante sofisticadas.

    Essa flexibilidade se tornaria sua maior força — e também uma das razões pelas quais muita gente abria a administração, olhava para aquilo durante alguns minutos e decidia instalar outra coisa.

    O Drupal não queria apenas preparar um café. Ele queria fornecer as ferramentas para construir a cafeteria, administrar os funcionários, cadastrar os grãos, controlar quem podia mexer no açúcar e publicar tudo em três idiomas.

    Plone: segurança, Python e uma vida longe dos holofotes

    O Plone teve sua primeira versão em 4 de outubro de 2001. Construído sobre o servidor de aplicações Zope e escrito em Python, ganhou reputação por sua segurança, seus recursos de colaboração e sua capacidade de administrar intranets e portais institucionais.

    Como TYPO3 e Drupal, nunca foi a opção mais leve para alguém que queria apenas publicar meia dúzia de páginas. Em compensação, encontrou espaço em governos, universidades, organizações e projetos nos quais permissões, fluxos de trabalho e estrutura importavam mais do que instalar cinquenta temas numa tarde.

    Também continua vivo, mantido por sua comunidade e pela Plone Foundation. Mais um sobrevivente discreto do começo do século.

    Movable Type, b2 e a geração dos blogs

    Enquanto alguns sistemas tentavam administrar portais inteiros, outra família de programas concentrava-se na publicação de blogs.

    O Movable Type, lançado em 2001 por Ben e Mena Trott, tornou-se uma das plataformas mais importantes dos primeiros anos da blogosfera. Era escrito em Perl e frequentemente gerava páginas estáticas a partir dos textos armazenados. Isso entregava páginas rápidas ao visitante, mas uma alteração podia exigir a reconstrução de uma grande quantidade de arquivos.

    Em 2004, mudanças na licença gratuita limitaram a quantidade de blogs e autores que podiam ser administrados sem pagamento. Muitos usuários não gostaram e começaram a procurar alternativas. O Movable Type não morreu — continua existindo e chegou à versão 8 —, mas perdeu a oportunidade de se tornar a plataforma dominante.

    Outro sistema importante foi o b2/cafelog, criado pelo francês Michel Valdrighi em 2001. Escrito em PHP e usando MySQL, era simples, aberto e voltado à publicação de blogs.

    Quando o desenvolvimento do b2 ficou praticamente parado, um de seus usuários, Matt Mullenweg, escreveu em janeiro de 2003 que seria interessante criar uma continuação do projeto. Mike Little respondeu dizendo que gostaria de ajudar.

    Alguns meses depois nasceria o sistema que acabaria engolindo boa parte desse mercado.

    Mambo e Joomla: uma separação que mudou os CMS

    O Mambo surgiu na Austrália em 2000 como um produto proprietário e teve seu código liberado no ano seguinte. Era relativamente fácil de instalar, tinha uma administração amigável para a época e permitia acrescentar componentes, módulos e templates.

    Rapidamente se tornou um dos CMS mais populares do começo dos anos 2000.

    Em 2005, porém, surgiu uma disputa envolvendo a empresa detentora da marca e a organização criada para controlar o projeto. A maior parte da equipe de desenvolvimento deixou o Mambo e fundou um novo projeto.

    Esse projeto recebeu o nome Joomla, adaptação da palavra suaíli “jumla”, que transmite a ideia de “todos juntos”. A primeira versão foi lançada em setembro de 2005 e aproveitava inicialmente o código do Mambo.

    A comunidade acompanhou os desenvolvedores. O Joomla cresceu rapidamente, enquanto o Mambo perdeu relevância até praticamente desaparecer.

    É um caso interessante em que o programa original ficou com o nome, mas o descendente ficou com a comunidade. E, em projetos de código aberto, a comunidade geralmente vale muito mais do que a placa na porta.

    O Joomla nunca chegou ao domínio posterior do WordPress, mas durante muitos anos formou com ele e o Drupal o grupo dos três grandes CMS de código aberto. E continua vivo: em 2026, o projeto mantém ativamente a série Joomla 6.

    WordPress: o pequeno publicador que tomou conta da web

    O WordPress foi lançado em 27 de maio de 2003 por Matt Mullenweg e Mike Little, como uma continuação do b2/cafelog. A primeira versão, 0.70, era um publicador de blogs relativamente simples.

    Não parecia o começo de um sistema que, duas décadas depois, estaria por trás de uma parcela gigantesca da web.

    Em 2004, o WordPress 1.2 ganhou uma arquitetura de plugins. Em 2005, a versão 1.5 trouxe páginas estáticas e um sistema de temas. A partir daí, deixou gradualmente de ser apenas uma ferramenta de blogs e passou a servir para sites institucionais, portais, revistas, lojas e praticamente qualquer outra coisa que alguém estivesse disposto a construir.

    A facilidade de instalação ajudou muito. PHP e MySQL já estavam disponíveis em quase toda hospedagem compartilhada. Muitos provedores incluíram instaladores automáticos e, depois, planos dedicados ao WordPress.

    Mas a verdadeira força do sistema foi seu ecossistema.

    Milhares de desenvolvedores criaram temas e plugins. Surgiram fóruns, tutoriais, livros, cursos, empresas de hospedagem e profissionais especializados. Se alguém precisava de formulário, galeria, loja virtual, fórum, área de membros, otimização para buscadores ou integração com algum serviço, provavelmente já existia um plugin.

    Em alguns casos existiam vinte plugins, três abandonados, quatro incompatíveis entre si e um que prometia fazer tudo de graça até a pessoa descobrir que o botão “Salvar” fazia parte da versão paga. Mesmo assim, a solução estava ao alcance.

    O WooCommerce transformou o WordPress numa plataforma de comércio eletrônico. Tipos personalizados de conteúdo permitiram criar estruturas muito além de posts e páginas. A API abriu caminho para aplicativos e interfaces externas. O editor de blocos, conhecido como Gutenberg, tentou aproximar a edição da experiência de montar visualmente uma página.

    Nem todas as mudanças agradaram a todos. O WordPress acumulou código antigo, decisões históricas, plugins abandonados e uma eterna discussão sobre desempenho, segurança e excesso de dependências. Só que manteve algo importantíssimo: uma enorme preocupação com compatibilidade.

    Um tema ou plugin antigo pode não funcionar para sempre, mas o WordPress costuma evitar que atualizações destruam subitamente todo o ecossistema. Essa continuidade ajudou milhões de sites a atravessar versões, servidores e décadas.

    Meu próprio pedaço dessa história

    Esse blog também passou por parte dessa transformação.

    Ele nasceu em 28 de junho de 2006. Em 2007, migrei para o WordPress, quando o sistema ainda estava muito mais associado aos blogs do que aos grandes sites que administra atualmente.

    Depois vieram mudanças de servidor, pausas, retornos e até uma pane geral em 2008, porque nenhum histórico de informática fica completo sem um programa resolver mostrar quem manda na máquina.

    O WordPress mudou enormemente desde então, mas os textos continuaram atravessando versões. O visual pôde ser alterado sem que cada artigo precisasse ser reconstruído. Categorias, arquivos, comentários e links permaneceram organizados pelo sistema.

    Se cada texto desse blog fosse um arquivo HTML independente, mudar um detalhe comum em todas as páginas exigiria uma operação que provavelmente começaria com entusiasmo e terminaria comigo perguntando por que não mandei tudo pros invvvvééérnos de uma vez!

    O que um CMS realmente faz por nós

    Para compreender a diferença, imaginemos a publicação deste artigo sem um CMS.

    Eu teria de criar um novo arquivo HTML, inserir nele o título, o texto, os metadados, o cabeçalho, o menu, a barra lateral e o rodapé. Depois acrescentaria um link para o artigo na página inicial, na categoria correspondente, no arquivo de agosto de 2026 e talvez numa página geral com todos os textos.

    Também precisaria atualizar os links de artigo anterior e seguinte, o mapa do site e o feed. Se quisesse permitir comentários, seria necessário desenvolver ou integrar um sistema próprio. A pesquisa dependeria de outro mecanismo. Para trocar o tema, eu provavelmente teria de alterar centenas de arquivos.

    Com o CMS, escrevo o conteúdo, escolho a categoria, acrescento algumas informações e aperto “Publicar”. O sistema grava o texto no banco de dados e o apresenta em todos os lugares necessários usando o mesmo conjunto de templates.

    Isso não significa que não haja trabalho. Significa que o trabalho repetitivo foi automatizado.

    Um CMS normalmente oferece:

    • edição de textos pelo navegador;
    • armazenamento estruturado em banco de dados;
    • temas ou templates separados do conteúdo;
    • categorias, tags e menus;
    • usuários com diferentes permissões;
    • histórico de alterações;
    • agendamento de publicações;
    • pesquisa;
    • feeds e mapas do site;
    • extensões para acrescentar novas funções;
    • e ferramentas para administrar centenas ou milhares de páginas.

    Sem essa separação, um site grande pode virar uma coleção de arquivos duplicados em que ninguém sabe qual é a versão correta de coisa alguma.

    Por que alguns CMS morreram?

    Não existe uma causa única. Alguns desapareceram por problemas técnicos, outros por decisões comerciais e muitos simplesmente perderam a comunidade.

    O PHP-Nuke envelheceu, acumulou problemas de segurança e gerou uma quantidade enorme de versões e derivados. O PostNuke, criado em 2001 como uma alternativa, encerrou oficialmente sua trajetória com esse nome em 2008 e continuou como Zikula.

    O Mambo perdeu quase toda sua equipe e sua comunidade para o Joomla. A Vignette foi comprada pela OpenText em 2009 e sua tecnologia acabou absorvida por outro conjunto de produtos. Vários CMS comerciais foram comprados, renomeados ou encerrados quando o mercado mudou.

    Outros sistemas não morreram tecnicamente, mas desapareceram da vida cotidiana. Continuam com algum código disponível, um site parcialmente funcionando ou meia dúzia de instalações, porém já não possuem uma comunidade capaz de atrair usuários e desenvolvedores.

    Um CMS depende de muito mais do que seu código. Precisa acompanhar novas versões de PHP, bancos de dados, padrões da web, navegadores e ameaças de segurança. Precisa de documentação, extensões, temas, suporte e gente disposta a resolver problemas.

    Quando esses elementos desaparecem, o software pode continuar disponível para download, mas já entrou naquela curiosa condição de morto que ainda ocupa espaço no servidor.

    Os sobreviventes que quase ninguém percebe

    Nem todos os CMS antigos buscaram dominar o mercado.

    TYPO3 permaneceu forte em determinados projetos corporativos, principalmente europeus. Plone conservou sua reputação em organizações que valorizam segurança e fluxos de trabalho. Textpattern, nascido no começo dos anos 2000, continua recebendo atualizações. O Movable Type sobreviveu como produto comercial e ainda mantém presença especialmente no Japão.

    Até o Joomla, frequentemente incluído em listas de sistemas “mortos”, continua sendo desenvolvido e utilizado. Segundo o W3Techs, em agosto de 2026 ele representa aproximadamente 1,2% de todos os sites e 1,7% daqueles cujo CMS pode ser identificado.

    Isso é muito menos do que já teve, mas 1,2% de uma web gigantesca ainda representa uma quantidade enorme de instalações. Chamar o Joomla de morto seria como declarar que uma cidade desapareceu porque deixou de ser capital.

    Por que o Drupal nunca morre?

    O Drupal também perdeu participação no número total de sites. Em agosto de 2026, aparece em cerca de 0,7% de toda a web e em 1% dos sites cujo CMS é conhecido.

    À primeira vista, parece pouco. O detalhe está em quais sites o utilizam.

    Quando o levantamento considera os sites mais populares, a presença do Drupal cresce. Entre os dez mil sites mais acessados cujo CMS é identificado, sua participação chega a aproximadamente 7%. Ele continua importante em governos, universidades, empresas de comunicação e grandes organizações.

    Isso acontece porque o Drupal é especialmente bom em tarefas que outros sistemas resolvem apenas com uma coleção de extensões e orações.

    Ele administra conteúdo altamente estruturado, relacionamentos entre diferentes tipos de informação, vários idiomas, permissões detalhadas, fluxos editoriais complexos e integrações com outros sistemas. Também possui uma comunidade muito preocupada com segurança e boas práticas de desenvolvimento.

    Por outro lado, toda essa capacidade cobra seu preço. A curva de aprendizado é maior, a hospedagem precisa ser mais bem planejada e as atualizações entre versões principais já foram bastante trabalhosas.

    A passagem do Drupal 7 para o Drupal 8, por exemplo, foi praticamente uma migração para uma nova arquitetura. Muitos sites pequenos decidiram trocar de plataforma em vez de reconstruir seus projetos. O suporte oficial ao Drupal 7 só terminou em 5 de janeiro de 2025, depois de uma vida extraordinariamente longa.

    Isso ajuda a explicar por que o Drupal perdeu instalações pequenas sem desaparecer das grandes. Uma empresa pode migrar um blog simples em alguns dias. Já um portal governamental integrado a dezenas de sistemas, com milhares de páginas, vários idiomas e regras específicas, não é transferido para outro CMS numa sexta-feira depois do almoço.

    Em 2026, o Drupal 11 segue em desenvolvimento ativo, enquanto o projeto prepara novas gerações e tenta tornar a criação de sites mais amigável. Portanto, seu funeral terá de ser novamente adiado.

    E por que o WordPress nunca morre?

    O WordPress sobrevive por razões quase opostas.

    Enquanto o Drupal se mantém indispensável em muitos projetos complexos, o WordPress se tornou a escolha padrão para uma quantidade enorme de projetos simples e médios — inclusive essa coisa aqui — e também para vários projetos grandes.

    Segundo o W3Techs, em 9 de agosto de 2026 o WordPress está presente em aproximadamente 41,1% de todos os sites. Entre aqueles cujo CMS pode ser identificado, sua participação é de cerca de 59,1%.

    Nenhum concorrente chega perto.

    Isso cria um ciclo difícil de quebrar. Há muitos usuários porque existem muitos plugins, temas, profissionais e serviços. E existem muitos plugins, temas, profissionais e serviços porque há muitos usuários.

    Também existe a inércia. Milhões de empresas e pessoas já possuem conteúdo, integrações e conhecimento acumulado no WordPress. Trocar tudo custa dinheiro e tempo. Se o sistema continua resolvendo o problema, não há razão suficiente para abandonar o barco.

    Sua enorme presença também faz dele um alvo constante de ataques. Sites desatualizados, senhas fracas e plugins abandonados produzem problemas de segurança. Isso não quer dizer que o WordPress seja automaticamente inseguro; significa que uma plataforma instalada numa parcela gigantesca da web oferece um alvo muito atraente.

    O problema muitas vezes não é o núcleo do WordPress, mas aquele plugin instalado em 2014 para fazer cair neve na página inicial e que ninguém mais se lembra de remover.

    O WordPress provavelmente continuará sendo declarado morto toda vez que surgir um novo construtor, uma nova rede ou uma nova forma de publicar. Mas, para realmente substituí-lo, o concorrente precisa enfrentar não apenas um programa, e sim um ecossistema construído durante mais de vinte anos.

    Wix, Shopify e os CMS que ninguém precisa instalar

    Com o tempo, cresceu outra categoria de plataformas. Wix, Squarespace, Shopify e serviços semelhantes oferecem o CMS, a hospedagem, as atualizações e o construtor visual dentro do mesmo pacote.

    O usuário não baixa nada nem cria banco de dados. Basta abrir uma conta, escolher um modelo e começar a montar o site.

    Isso elimina vários problemas técnicos, mas também aumenta a dependência do fornecedor. No WordPress ou Drupal instalados num servidor próprio, é possível copiar arquivos e banco de dados para outro provedor. Num serviço fechado, migrar todo o projeto pode ser muito mais difícil.

    O Shopify cresceu enormemente por se concentrar em comércio eletrônico. O Wix conquistou quem desejava montar visualmente um site sem administrar servidor. Eles não mataram os CMS tradicionais; ocuparam espaços em que a praticidade vale mais do que o controle completo.

    CMS sem cabeça e conteúdo em toda parte

    Nos últimos anos também se popularizou o chamado headless CMS, ou CMS “sem cabeça”. O nome parece o começo de uma história de terror, mas significa apenas que o sistema administra o conteúdo sem determinar obrigatoriamente como ele será apresentado.

    O mesmo texto pode ser enviado por uma API para um site, um aplicativo, uma tela, um painel ou qualquer outro dispositivo. A “cabeça”, isto é, a interface visível, fica separada do sistema que guarda e organiza as informações.

    Até WordPress e Drupal podem trabalhar dessa maneira. Em vez de produzir diretamente todas as páginas, podem funcionar como repositórios de conteúdo utilizados por outras aplicações.

    É mais uma prova de que os CMS não estão desaparecendo. Estão apenas ficando escondidos em lugares nos quais o visitante nem percebe sua existência.

    O CMS resolveu tudo? Naturalmente que não

    Os CMS eliminaram uma quantidade enorme de trabalho repetitivo, mas criaram novos tipos de problema.

    É preciso atualizar o sistema, os temas e as extensões. O banco de dados precisa de cópias de segurança. Plugins podem entrar em conflito. Um tema pode ser abandonado. Uma atualização pode mudar a interface ou quebrar alguma personalização.

    Também ficou fácil instalar recursos demais. Um site que precisava de cinco páginas pode terminar carregando quinze plugins, três fontes externas, dois construtores visuais e um arquivo JavaScript de tamanho suficiente para controlar um satélite.

    O CMS não elimina a necessidade de planejamento, manutenção e conhecimento técnico. Ele apenas concentra a complexidade e permite que a maior parte do trabalho diário seja realizada por pessoas que não precisam programar cada página.

    Antes, o administrador sofria porque precisava alterar manualmente quinhentos arquivos. Hoje ele sofre porque atualizou um plugin sem fazer backup. É uma evolução.

    De arquivos soltos a uma web administrável

    Os sistemas de gerenciamento de conteúdo mudaram profundamente a internet.

    Eles permitiram que jornais publicassem centenas de notícias por dia, empresas mantivessem grandes portais, governos organizassem serviços, lojas administrassem milhares de produtos e pessoas comuns criassem seus próprios espaços sem escrever cada página em HTML.

    Alguns CMS ficaram presos ao tempo. Outros foram destruídos por problemas técnicos, decisões comerciais ou conflitos entre seus criadores. Vários sobreviveram em pequenos nichos, longe da fama que já tiveram.

    Drupal e WordPress permanecem por motivos diferentes.

    O Drupal continua porque se tornou uma ferramenta poderosa para estruturas complexas e grandes organizações. O WordPress continua porque transformou a publicação na web em algo acessível e reuniu ao seu redor um ecossistema que nenhum concorrente conseguiu reproduzir na mesma escala.

    Talvez um dia ambos sejam substituídos. Nenhum programa é eterno. Mas provavelmente ainda passaremos muitos anos lendo anúncios de que WordPress e Drupal morreram enquanto eles continuam recebendo atualizações e administrando milhões de páginas.

    E ainda bem.

    Porque editar este blog inteiro na unha, arquivo por arquivo, seria uma desgraceira. E eu certamente acabaria publicando um artigo muito mais curto, provavelmente com o seguinte conteúdo:

    “Olá, caros leitores. Hoje não haverá texto porque fui atualizar o menu das outras 1.387 páginas. Volto no próximo século.”

    Um abração e até o próximo!

    Fernando

    Fontes e leituras recomendadas

  • Do ábaco ao qubit: uma viagem pela história do computador

    Tempo de leitura: 23 minutos

    Olá amigos e leitores dessa coisa aqui!

    Depois de viajarmos pela história da internet, chegou a hora de voltar ainda mais no tempo. Muito mais. Tão mais que, no começo dessa história, não havia tomada, tela, teclado, mouse, Windows, Linux, vírus, atualização obrigatória nem técnico dizendo que o problema era o usuário.

    Havia pedras, riscos, contas, engrenagens e uma necessidade que continua exatamente a mesma: tirar parte do trabalho da cabeça humana e passá-lo para alguma ferramenta.

    Hoje chamamos de computador uma máquina capaz de receber dados, seguir instruções, processá-los, guardar informações e apresentar resultados. Mas ele não nasceu pronto. Foi sendo montado ao longo de milhares de anos, peça por peça e ideia por ideia. Aliás, durante muito tempo, “computador” nem sequer era uma máquina: era uma pessoa.

    Então ajustem as engrenagens, confiram as válvulas e não me perguntem onde fica a tecla Enter do ábaco, porque vamos sair das primeiras contas de madeira e chegar aos computadores quânticos. Se tudo der certo, voltaremos ao presente sem cair num erro de divisão por zero ou num portal para setealém,aaa.

    Antes do computador, a conta

    Muito antes da escrita, seres humanos já precisavam contar animais, alimentos, dias, dívidas e provavelmente quantas vezes alguém havia prometido devolver uma ferramenta e não devolveu. Dedos ajudavam, mas só até certo ponto. Vieram então pedras, marcas em ossos, nós em cordas e tábuas de contagem.

    O ábaco não foi inventado de uma vez por uma única pessoa. Diferentes formas de contar com pedras, fichas ou contas móveis apareceram em várias culturas. Os instrumentos mais antigos provavelmente eram superfícies com linhas ou sulcos; os modelos com contas presas em hastes, que hoje reconhecemos imediatamente, vieram depois.

    O princípio é simples e genial: cada posição representa uma ordem numérica — unidades, dezenas, centenas e assim por diante. Ao mover as contas, a pessoa registra valores e executa operações sem precisar conservar tudo mentalmente. O ábaco não calcula sozinho; ele organiza o cálculo e reduz a carga de memória de quem o usa. É, portanto, uma ferramenta de computação, mesmo não sendo automática.

    Uma de suas versões mais conhecidas é o sorobã japonês, normalmente com uma conta acima da barra central e quatro abaixo em cada haste. Ele também se tornou muito conhecido entre pessoas cegas, inclusive em versões adaptadas para que as contas não se desloquem acidentalmente durante o uso. O Smithsonian mantém uma coleção e uma explicação sobre o sorobã.

    E aqui entra uma confissão histórica de enorme relevância para a humanidade: eu, que sou cego, mexo com computador desde 1996 e já me meti com servidores, gravações e outras tranqueiras tecnológicas, nunca aprendi a usar o sorobã direito,aaa. Portanto, se me largarem na Antiguidade com um ábaco e pedirem uma raiz quadrada, talvez seja mais seguro esperar inventarem a calculadora.

    Anticítera: o computador que passou dois mil anos no fundo do mar

    Entre os séculos II e I antes de Cristo, artesãos e estudiosos gregos construíram uma máquina tão sofisticada que, quando seus restos foram reconhecidos no início do século XX, muita gente teve dificuldade para acreditar que ela realmente fosse antiga.

    Era o Mecanismo de Anticítera, frequentemente chamado de primeiro computador analógico conhecido. Ele era uma espécie de calculadora astronômica movida à mão, formada por dezenas de engrenagens de bronze. Ao girar uma manivela, o usuário podia acompanhar calendários, movimentos do Sol e da Lua, ciclos astronômicos e previsões de eclipses. Há evidências de que também indicava ciclos dos jogos pan-helênicos, entre eles os relacionados às Olimpíadas.

    Mas por que “Anticítera”? Não é o nome do inventor nem de uma deusa grega da informática. Anticítera é uma pequena ilha da Grécia, situada entre Creta e a ilha de Citera, também chamada Kythira. O nome é geralmente entendido como “diante de Citera” ou “oposta a Citera”. O mecanismo recebeu esse nome porque foi encontrado nos destroços de um navio naufragado perto da ilha.

    Mergulhadores de esponjas descobriram o naufrágio em 1900, e os objetos foram recuperados entre 1900 e 1901. Em 1902, percebeu-se que um dos blocos corroídos continha uma roda dentada. Hoje restam 82 fragmentos, estudados com radiografias, tomografia computadorizada e modelos tridimensionais. A ironia é bonita: precisamos de computadores modernos para compreender completamente um computador com mais de dois mil anos.

    Ele é chamado de analógico porque representava grandezas físicas contínuas — como posições e ciclos celestes — por meio das posições e relações entre engrenagens. Não trabalhava com bits, programas armazenados ou números binários. Mesmo assim, incorporava um modelo matemático do céu numa máquina capaz de produzir previsões. Era quase um pequeno cosmos dentro de uma caixa.

    Segundo uma revisão científica sobre o conhecimento atual do mecanismo, ele é a calculadora mecânica mais antiga conhecida. Pesquisadores da University College London também o descrevem como o mais complexo objeto de engenharia preservado da Antiguidade.

    E não, a máquina real não localizava fendas temporais como no cinema. Se localizasse, algum grego provavelmente teria avançado até hoje, visto a quantidade de senhas que precisamos decorar e voltado correndo para o século II antes de Cristo,aaa.

    Engrenagens para fazer contas

    Durante muitos séculos, o cálculo continuou dependendo principalmente de pessoas, tabelas e instrumentos como o ábaco. A partir do século XVII, porém, apareceram máquinas mecânicas capazes de executar operações de modo mais automático.

    Em 1642, o francês Blaise Pascal começou a desenvolver a Pascalina, uma calculadora de rodas dentadas criada para ajudar seu pai no trabalho com impostos. Ela somava e subtraía. Algumas décadas depois, Gottfried Wilhelm Leibniz desenvolveu uma máquina que também podia multiplicar e dividir, usando um mecanismo conhecido como cilindro escalonado.

    Essas máquinas eram limitadas, caras e difíceis de fabricar, mas apresentavam uma ideia decisiva: uma sequência bem planejada de movimentos físicos podia realizar uma operação matemática. A conta começava a sair dos dedos e a entrar no mecanismo.

    Também no século XVII surgiram os logaritmos de John Napier e a régua de cálculo, usada por cientistas e engenheiros durante mais de trezentos anos. Ela não era um computador automático, mas transformava multiplicações e divisões em deslocamentos sobre escalas. Engenheiros ainda mandaram foguetes ao espaço usando réguas de cálculo; portanto, respeito com a velha régua antes que ela nos mande para o invvvvérno.

    O tear que ajudou a inventar o programa

    No início do século XIX, uma inovação da indústria têxtil forneceu uma peça fundamental para a futura informática. Em 1801, Joseph-Marie Jacquard apresentou um tear controlado por cartões perfurados.

    Os furos dos cartões determinavam quais fios seriam levantados e, portanto, qual desenho apareceria no tecido. Trocando a sequência de cartões, trocava-se o padrão produzido pela mesma máquina. Em outras palavras, o equipamento permanecia; as instruções mudavam.

    Aquilo ainda não era programação no sentido moderno, mas a semelhança é impossível de ignorar. Os cartões formavam uma espécie de programa físico reutilizável. O Computer History Museum explica como o tear de Jacquard armazenava instruções nos padrões de furos.

    Assim, uma das ideias que levariam ao computador não nasceu num laboratório de eletrônica. Nasceu num tear. Antes de programarmos máquinas para escrever textos, tocar música ou gerar imagens, já havia máquinas “lendo” cartões para tecer flores.

    Charles Babbage projeta um computador; Ada percebe o tamanho da ideia

    Na década de 1820, o matemático inglês Charles Babbage começou a projetar a Máquina Diferencial. Seu objetivo era produzir tabelas matemáticas com maior rapidez e menos erros. Naquele tempo, essas tabelas eram calculadas e copiadas por pessoas; um número errado podia se espalhar por cálculos de navegação, astronomia e engenharia.

    A Máquina Diferencial era especializada. Depois, Babbage imaginou algo muito mais ambicioso: a Máquina Analítica. Ela teria uma unidade de processamento, que ele chamou de “moinho”; uma memória, chamada de “armazém”; entrada de dados e instruções por cartões perfurados; e mecanismos para produzir resultados. Também previa repetições e decisões condicionais.

    Ou seja: embora fosse inteiramente mecânica, sua organização já lembrava espantosamente a de um computador de uso geral. O problema é que a tecnologia de fabricação, o dinheiro e a própria personalidade brigona de Babbage não ajudaram. A máquina completa nunca foi construída em sua época.

    Foi então que entrou nessa história Ada Lovelace. Em 1843, ela traduziu um texto do engenheiro italiano Luigi Menabrea sobre a Máquina Analítica e acrescentou notas muito maiores que o artigo original. Nelas, descreveu uma sequência para a máquina calcular números de Bernoulli — frequentemente considerada o primeiro algoritmo publicado destinado a uma máquina.

    Mais importante ainda: Ada percebeu que números podiam representar coisas além de quantidades. Se sons, letras ou outros símbolos fossem codificados numericamente, uma máquina poderia manipulá-los conforme regras. Ela chegou a imaginar que o equipamento talvez compusesse música. É uma visão notável porque antecipa o computador não apenas como calculadora, mas como máquina de tratar informação, cerca de cem anos antes de essas ideias começarem a aparecer em máquinas reais. Ou eu deveria dizer: se Ada tivesse sido levada a sério, talvez a história do computador tivesse começado a andar bem antes — embora construir o equipamento com a mecânica disponível naquele tempo ainda fosse outro invvvvérno.

    O Computer History Museum apresenta a história das máquinas de Babbage e também conserva as notas e a contribuição de Ada Lovelace.

    Os cartões entram nos escritórios

    No fim do século XIX, os cartões perfurados deixaram os teares e entraram no processamento de dados. O censo dos Estados Unidos de 1880 levou anos para ser tabulado, e a população crescia tão rapidamente que havia o risco de o censo seguinte chegar antes de terminarem o anterior. Um belo travamento administrativo, sem nem sequer haver um botão para reiniciar.

    Herman Hollerith criou então um sistema eletromecânico no qual cada cartão representava uma pessoa e os furos codificavam informações como idade, sexo e estado civil. Pinos atravessavam os furos, fechavam circuitos elétricos e faziam os contadores avançarem. O sistema venceu uma competição e foi utilizado no censo de 1890, acelerando enormemente a tabulação.

    A empresa de Hollerith participaria mais tarde de uma fusão que deu origem à Computing-Tabulating-Recording Company, renomeada em 1924 como International Business Machines: a IBM. O Bureau do Censo dos Estados Unidos explica detalhadamente o funcionamento da máquina de Hollerith.

    Os cartões perfurados sobreviveriam por muitas décadas. Serviram para guardar dados e programas, alimentando computadores em pilhas que não podiam cair nem ser embaralhadas. Quem reclama de perder um arquivo hoje deve imaginar perder um programa porque alguém tropeçou na caixa,aaa.

    Quando “computador” era profissão

    Antes de a palavra designar principalmente uma máquina, computador era a pessoa que fazia cálculos. Universidades, observatórios, exércitos e empresas mantinham equipes de computadores humanos. Muitas dessas pessoas eram mulheres, especialmente durante a Segunda Guerra Mundial e nos primeiros programas espaciais.

    Elas calculavam trajetórias, tabelas balísticas, consumo de combustível e resultados de experiências, primeiro à mão e depois com calculadoras mecânicas. A NASA conta a história de suas equipes de computadores humanos, sem as quais as primeiras experiências com foguetes e várias missões espaciais não teriam sido possíveis.

    Quando as máquinas eletrônicas chegaram, o nome do trabalho passou para o equipamento. Não deixa de ser curioso: primeiro criamos ferramentas para ajudar os computadores humanos; depois passamos a chamar as próprias ferramentas de computadores.

    A guerra dos “primeiros computadores”

    Perguntar qual foi o primeiro computador parece simples, mas é uma pergunta com mais versões que certos sistemas operacionais. Primeiro computador mecânico? Automático? Digital? Eletrônico? Programável? De uso geral? Com programa armazenado na memória?

    Dependendo dos adjetivos, muda o vencedor.

    Em 1941, o alemão Konrad Zuse concluiu o Z3, uma máquina eletromecânica binária controlada por programa, construída com relés. Era programável, mas não eletrônica e tinha limitações quanto ao uso geral.

    Durante a Segunda Guerra Mundial, o britânico Colossus, projetado principalmente por Tommy Flowers, usou milhares de válvulas eletrônicas para ajudar a decifrar mensagens alemãs protegidas pela cifra Lorenz. Entrou em operação em 1944. Era digital, eletrônico e programável, mas especializado em criptoanálise, não uma máquina de uso geral. Seu trabalho permaneceu secreto durante décadas.

    Nos Estados Unidos, o ENIAC, criado por John Mauchly e J. Presper Eckert, foi apresentado publicamente em 1946. Usava cerca de 18 mil válvulas, ocupava uma sala enorme, consumia muita energia e podia ser reconfigurado para diferentes cálculos. É normalmente descrito como o primeiro computador eletrônico digital programável de uso geral. Suas primeiras programadoras foram seis mulheres, cujo trabalho passou muito tempo sem o devido reconhecimento.

    A programação inicial do ENIAC exigia cabos e chaves. Não era exatamente abrir um editor, escrever meia dúzia de linhas e reclamar da mensagem de erro. Reprogramá-lo podia levar dias.

    Em 1948, a Manchester Baby tornou-se a primeira máquina eletrônica digital a executar um programa armazenado em sua própria memória. Essa ideia — guardar instruções e dados eletronicamente — é a base prática do computador moderno. Em vez de reconstruir a máquina para cada tarefa, bastava carregar outro programa.

    Por isso, em vez de coroar um único campeão, é melhor dar uma taça para cada categoria. O próprio Computer History Museum chama essa disputa de uma busca interminável pelos “primeiros”. O National Museum of Computing explica o lugar do Colossus, enquanto a Universidade da Pensilvânia apresenta o ENIAC e a Universidade de Manchester conta a história da Baby.

    Válvulas, transistores e chips: o computador começa a encolher

    Os primeiros computadores eletrônicos usavam válvulas. Elas podiam funcionar como interruptores e amplificadores, mas eram grandes, consumiam muita eletricidade, produziam calor e falhavam com frequência. As salas cheias de equipamentos das décadas de 1940 e 1950 eram poderosas para a época, mas estavam muito longe de caber sobre uma mesa.

    Em dezembro de 1947, John Bardeen e Walter Brattain, trabalhando sob a supervisão de William Shockley nos Bell Labs, demonstraram o primeiro transistor funcional. O transistor também pode amplificar sinais e agir como uma chave, mas é muito menor, mais eficiente e mais confiável que uma válvula. Ele se tornaria o tijolo básico da eletrônica moderna.

    O passo seguinte foi juntar vários componentes no mesmo pedaço de material semicondutor. Em 1958, Jack Kilby demonstrou um circuito integrado; em 1959, Robert Noyce desenvolveu uma solução monolítica mais adequada à fabricação em grande escala. Kilby e Noyce são reconhecidos como coinventores do circuito integrado, o famoso chip.

    Em vez de ligar transistores individualmente, passou a ser possível fabricar muitos deles juntos. Depois vieram milhares, milhões e bilhões. Computadores ficaram menores, mais rápidos, mais baratos e mais confiáveis.

    Em 1971, a Intel apresentou comercialmente o 4004, frequentemente reconhecido como o primeiro microprocessador comercial. Ele reunia as funções centrais de processamento num único chip. Tinha cerca de 2.300 transistores — um número minúsculo perto dos processadores atuais, mas revolucionário naquele momento. O Computer History Museum conta como o 4004 condensou a CPU num chip.

    A partir daí, aquela máquina que antes ocupava uma sala começou a caminhar em direção à mesa, à mochila, ao bolso e, hoje, a relógios, carros, televisores, eletrodomésticos e objetos nos quais às vezes nem percebemos que há um computador.

    O computador se torna pessoal

    Durante as décadas de 1950 e 1960, computadores ainda eram principalmente grandes equipamentos de governos, universidades e empresas. Os mainframes atendiam muitos usuários e processavam enormes volumes de dados. Depois vieram os minicomputadores, menores e relativamente mais acessíveis — embora “mini”, naquela época, pudesse continuar significando um armário bem nutrido.

    O microprocessador abriu caminho para os microcomputadores. Em 1975, o Altair 8800 apareceu como um kit voltado a entusiastas. Em suas configurações iniciais, a interação era feita por chaves e luzes no painel. Foi para o Altair que Bill Gates e Paul Allen forneceram uma versão da linguagem BASIC.

    Em 1977, máquinas como Apple II, Commodore PET e TRS-80 ajudaram a levar o computador para escolas, pequenos negócios e residências. Em 1981, a IBM lançou o IBM PC 5150, com processador Intel 8088 e o sistema PC-DOS, fornecido pela Microsoft e irmão do MS-DOS. A arquitetura foi amplamente copiada e criou a grande família dos “PCs compatíveis” que ainda deixa descendentes espalhados por nossas mesas.

    Interfaces gráficas, janelas, ícones e mouse foram desenvolvidos em pesquisas anteriores e ganharam visibilidade comercial em máquinas como o Xerox Alto, o Apple Macintosh e, depois, os PCs com Microsoft Windows. O usuário já não precisava conversar com o computador apenas por cartões, chaves ou linhas de comando.

    O armazenamento também mudou: cartões e fitas deram lugar a discos magnéticos, disquetes, discos rígidos, CDs, DVDs, memórias flash e SSDs. As redes ligaram as máquinas; a internet ligou as redes; a Web facilitou o acesso à informação. Como já fizemos uma viagem inteira pela história da internet, não vou reinstalar aquele artigo dentro deste, ou daqui a pouco precisaremos de mais memória RAM,aaa.

    Dos cartuchos e fitas cassete ao Core i9

    Dizer apenas que o computador “ficou pessoal” esconde uma evolução das grandes. Entre o Altair dos anos 1970 e um PC atual, não mudou somente a velocidade do processador. Mudaram a maneira de guardar programas, a quantidade de memória, as telas, os sons, os sistemas operacionais e até a ideia do que se espera que um computador faça.

    Os primeiros micros domésticos eram, em sua maioria, máquinas de 8 bits. Modelos como Apple II, TRS-80, Atari 400 e 800, Commodore 64, ZX Spectrum e os computadores do padrão MSX tinham poucos quilobytes de memória. Muitos já ligavam diretamente num interpretador BASIC gravado em ROM. Em vez de apenas usar programas prontos, era comum o dono copiar listagens publicadas em livros e revistas, digitar linha por linha e descobrir, depois de meia hora, que havia trocado uma vírgula por um ponto em algum lugar. Nascia ali uma forma doméstica e bastante eficiente de tortura informática,aaa.

    Os programas podiam vir em cartuchos, fitas cassete ou disquetes. O cartucho continha chips de memória ROM e começava a funcionar quase imediatamente: era encaixar, ligar e usar. Em compensação, era mais caro de fabricar e tinha capacidade limitada. A fita cassete era barata e fácil de encontrar, mas armazenava os dados como sinais de áudio. O micro precisava ouvir aqueles chiados e assobios, transformar tudo novamente em bits e torcer para que o volume, o cabeçote e o alinhamento colaborassem. O disquete era mais rápido e permitia gravar e apagar arquivos com facilidade, mas o leitor ainda custava caro nos primeiros anos.

    É curioso lembrar que, durante algum tempo, a fronteira entre computador e videogame era bem menos definida. Atari, Commodore e MSX podiam receber cartuchos como um console, mas também tinham teclado, BASIC, gravadores de fita, unidades de disquete e impressoras. Serviam para jogar, programar, estudar, escrever e administrar pequenos negócios. O computador doméstico era quase um laboratório que entrava pela televisão da sala.

    Na metade dos anos 1980, a geração popularmente chamada de 16 bits — muitas vezes equipada com processadores 16/32 bits, como o Motorola 68000 — trouxe gráficos, som e interfaces mais sofisticadas. Apple Macintosh, Commodore Amiga e Atari ST ajudaram a popularizar janelas, mouse, editoração eletrônica, produção musical e recursos multimídia. Enquanto isso, os descendentes do IBM PC cresciam em escritórios e residências, impulsionados pela enorme quantidade de fabricantes, placas, periféricos e programas compatíveis.

    Dentro dos PCs, formou-se uma família de processadores que atravessaria décadas. O IBM PC original usava o Intel 8088, parente do 8086. Depois vieram o 80286, conhecido simplesmente como 286; o 80386, ou 386; e o 80486, o velho 486. O 286 ampliou a capacidade de memória e trouxe o modo protegido; o 386 consolidou os 32 bits; e o 486 integrou recursos como memória cache e, nos modelos DX, a unidade de ponto flutuante no próprio processador.

    O próximo deveria se chamar 80586, mas números não podiam ser protegidos como marca com a facilidade desejada. A Intel então escolheu o nome Pentium. Vieram Pentium, Pentium MMX, Pentium II, III e 4, acompanhados de outras linhas e de uma concorrência cada vez mais importante da AMD, com famílias como K6 e Athlon. O Computer History Museum mostra como o 8086, criado quase como uma solução provisória, deu origem à duradoura arquitetura x86.

    Essa sequência de nomes pode dar a impressão de que cada processador apenas corria mais depressa que o anterior. Durante muitos anos, o número em megahertz e depois em gigahertz realmente foi uma grande peça de propaganda. Só que aumentar indefinidamente a frequência passou a produzir calor e consumir energia demais. A indústria começou a ganhar desempenho de outras maneiras: melhorando a arquitetura interna, aumentando as memórias cache, executando mais de uma instrução ao mesmo tempo e colocando dois, quatro, oito ou mais núcleos dentro do mesmo processador.

    Também ocorreu a transição dos 32 para os 64 bits, que permitiu trabalhar com espaços de memória muito maiores e registradores mais largos. A AMD teve papel decisivo ao criar a extensão x86-64, depois adotada também pela Intel. Assim, os PCs preservaram uma longa compatibilidade com programas antigos enquanto aprendiam truques novos — uma espécie de máquina do tempo que, por algum milagre, não foi parar em setealém.

    Nos anos 2000, a Intel substituiu gradualmente o Pentium como sua principal marca de alto desempenho pela família Core. Apareceram Core 2 Duo, Core 2 Quad e, depois, as linhas Core i3, i5, i7 e i9. É importante explicar: i3, i5, i7 e i9 não representam simplesmente a terceira, a quinta, a sétima e a nona geração. São faixas de produto dentro de determinadas gerações. Um i7 novo pode superar com folga um i9 antigo, porque entram na conta arquitetura, geração, quantidade de núcleos, consumo, refrigeração e o tipo de tarefa.

    O Core i9 apareceu em 2017 como categoria de desempenho elevado. Do outro lado, a AMD voltou a aumentar fortemente a concorrência com a família Ryzen, também dividida em faixas como Ryzen 3, 5, 7 e 9. Portanto, contar a evolução “até o i9” é uma boa forma de dar a dimensão da viagem, mas o i9 não é o último degrau de uma escada única nem trabalha sozinho no planeta dos processadores.

    Enquanto as CPUs evoluíam, a memória RAM saiu dos quilobytes para os megabytes e depois para os gigabytes. A fita cassete cedeu espaço ao disquete; o disquete, ao disco rígido; e o disco rígido, cada vez mais, ao SSD. Telas de texto viraram interfaces gráficas; monitores monocromáticos ganharam milhões de cores; bipes deram lugar a placas capazes de reproduzir música, vozes e gravações completas; placas de vídeo se tornaram processadores poderosos por conta própria.

    Um PC moderno pode reunir CPU com vários núcleos, GPU, controladores de memória, recursos de segurança e até unidades destinadas à inteligência artificial. Ainda chamamos tudo de “computador pessoal”, mas aquele micro de cartucho e o PC com Core i9 ou Ryzen 9 são parentes tão distantes que talvez precisem fazer um exame de DNA eletrônico para confirmar a família,aaa.

    E no Brasil? Do UNIVAC ao computador que fala português

    Antes de seguirmos para o celular e a nuvem, precisamos trazer essa história para cá. O computador não apareceu no Brasil já montado numa loja, com doze prestações sem juros e um vendedor tentando empurrar antivírus junto.

    Segundo a história reunida pela Divisão de Ciência da Computação do ITA, o primeiro computador importado pelo Brasil foi um UNIVAC 120, adquirido pela Prefeitura de São Paulo em 1957. Sua tarefa principal era ajudar o Departamento de Águas e Esgotos a calcular o consumo e emitir contas. A máquina usava 4.500 válvulas, custou cerca de 100 mil dólares e realizava 12 mil adições ou subtrações por minuto. Hoje até uma calculadora de bolso ri desses números, mas, em 1957, aquilo era uma usina de contas.

    Em 1961, quatro alunos do Instituto Tecnológico de Aeronáutica construíram o Zezinho. Era um equipamento didático, feito para demonstrar como a informação era processada. Usava aproximadamente 1.500 transistores e diodos produzidos no Brasil. Não era um computador comercial de uso geral, mas entrou para a história como o primeiro computador não comercial transistorizado totalmente projetado e construído no país.

    Onze anos depois, em 1972, professores e estudantes da Escola Politécnica da USP apresentaram o Patinho Feio. O apelido nasceu no clima de disputa entre grupos de pesquisa que tentavam demonstrar que o país podia construir um minicomputador: aquela máquina experimental seria o patinho que um dia poderia se transformar em cisne.

    Feio ou não, ele virou um marco. Foi projetado e construído no país, serviu para formar engenheiros e ajudou a consolidar a pesquisa em arquitetura de computadores na USP. A experiência abriu caminho para o G-10, cujo hardware ficou a cargo da USP e o software foi desenvolvido pela PUC-Rio, e para projetos industriais seguintes. O Jornal da USP conta como o Patinho Feio nasceu dentro de uma disciplina de pós-graduação e deixou descendentes na pesquisa e na indústria.

    Em 1974 foi fundada a Cobra — Computadores e Sistemas Brasileiros, reunindo governo, capital nacional e participação da empresa britânica Ferranti. A empresa nasceu num contexto em que a Marinha desejava reduzir a dependência externa dos sistemas instalados em suas fragatas. Depois passou a fornecer equipamentos para bancos, empresas e órgãos públicos. Da fábrica da Cobra saíram linhas como C-500 e C-400; em 1980, o Cobra 530 foi apresentado como computador de porte médio projetado por brasileiros. A atual BB Tecnologia e Serviços preserva uma linha do tempo da antiga Cobra.

    Os microcomputadores começaram a aparecer nas vitrines brasileiras no início da década de 1980. O D-8000, da Dismac, chegou em 1980. Em 1982 veio o CP-500, da Prológica, compatível com o TRS-80. Tinha processador Z80, memória contada em quilobytes e, dependendo da configuração, usava fita cassete ou disquete. O grupo PET de Computação da Universidade Federal de Campina Grande relembra a história e o funcionamento do CP-500.

    Também ficaram conhecidos os micros TK, da Microdigital, inspirados nos Sinclair; os compatíveis com Apple II; e, a partir de 1985, os modelos do padrão MSX, como o Expert, da Gradiente, e o HotBit, da Sharp. Esses, sim, ajudam a explicar a lembrança do “computador a cartucho”: recebiam jogos e outros programas em cartuchos, mas também podiam trabalhar com fita cassete e disquete. Para muita gente, foram ao mesmo tempo videogame, computador de estudo, instrumento musical improvisado e porta de entrada para a programação em BASIC.

    Parte dessa indústria cresceu sob a chamada reserva de mercado. A política vinha sendo construída desde os anos 1970 e ganhou forma legal mais ampla com a Lei nº 7.232, de 1984. Em várias áreas, a produção e a comercialização eram reservadas a empresas consideradas nacionais, e a importação de equipamentos enfrentava restrições.

    A ideia era criar competência tecnológica, formar profissionais, desenvolver fabricantes locais e reduzir a dependência estrangeira. E houve resultados: surgiram empresas, periféricos, programas, cursos e equipes de engenharia. Mas a proteção também teve um lado bem menos bonito. Muitos produtos custavam caro, chegavam atrasados em relação ao exterior e eram compatíveis — para não dizer clonados em certos casos — com projetos estrangeiros. Importar uma novidade podia exigir dinheiro, paciência, burocracia e talvez um contrabandista com boa orientação geográfica,aa.

    É simplista dizer que a reserva foi apenas maravilhosa ou apenas desastrosa. Ela ajudou a formar conhecimento e uma indústria que provavelmente não surgiria da mesma maneira sem proteção, mas também reduziu a concorrência e manteve consumidores afastados de tecnologias mais recentes. A abertura começou no início dos anos 1990 e foi consolidada pela Lei nº 8.248, de 1991, com o encerramento das principais restrições até 1992.

    Com a abertura, os PCs compatíveis com a arquitetura IBM e processadores 286, 386, 486 e Pentium dominaram o mercado. Algumas fabricantes nacionais desapareceram; outras passaram a montar equipamentos, vender serviços ou trabalhar em nichos. Marcas como Itautec, CCE, Gradiente e, mais tarde, Positivo fizeram parte de diferentes fases desse mercado. Componentes continuaram vindo de várias partes do mundo, enquanto montagem, integração, software, assistência e pesquisa eram realizados no país.

    Nos anos 1990 e 2000, a queda gradual dos preços, o crédito, os computadores montados por pequenas lojas, os cursos de informática, as escolas, as lan houses e a chegada da internet levaram o PC a muito mais casas. Foi nesse período que comecei a mexer com computador, em 1996. Portanto, acompanhei pessoalmente uma parte dessa passagem: dos micros em que cada megabyte precisava ser respeitado até máquinas com gigabytes de RAM, SSDs e processadores de vários núcleos.

    Para nós, pessoas cegas, a evolução brasileira tem um capítulo especial. Em 1993, no Núcleo de Computação Eletrônica da UFRJ, o estudante cego Marcelo Pimentel e o professor José Antonio dos Santos Borges começaram o trabalho que daria origem ao DOSVOX. Naquele tempo, sintetizadores importados custavam milhares de dólares, frequentemente falavam apenas inglês e placas de som ainda eram caras. A solução precisou usar eletrônica acessível, gravações e software desenvolvido aqui.

    Aquela caixinha ligada à LPT-1, a antiga porta da impressora, não continha propriamente uma placa de som como as que depois se tornaram comuns. Dentro dela havia um conversor digital-analógico muito simples, baseado numa rede de resistores chamada R-2R. O computador enviava valores digitais pela porta paralela; o circuito os transformava em sinal de áudio; e um pequeno amplificador permitia ligar diretamente um fone de ouvido. Assim, o DOSVOX podia reproduzir letras, sílabas e mensagens previamente gravadas e, depois, combiná-las para produzir fala em português.

    As primeiras unidades foram montadas em pequenas caixas originalmente destinadas a micromodems e, mais tarde, passaram a ser fabricadas pela LayCab como sintetizadores de baixo custo. Ainda tenho uma dessas caixinhas guardada e funcionando — uma pequena peça da história da acessibilidade brasileira conectável à porta da impressora,aaa.

    O DOSVOX não foi apenas um leitor de telas tradicional. Ele criou um ambiente falado com editor de textos, correio eletrônico, ferramentas de arquivos, jogos e muitos outros programas. Isso permitiu que milhares de brasileiros cegos usassem um PC em português com muito mais independência. O próprio projeto mantém a história detalhada de sua criação desde 1993.

    Quando comecei, em 1996, leitores de tela e sistemas falados já eram a diferença entre haver um computador sobre a mesa e realmente poder usá-lo. Depois vieram novas versões do Windows, sintetizadores melhores, Virtual Vision, JAWS, NVDA e muitas mudanças na acessibilidade. Nem todas foram para a frente — certas atualizações parecem gostar de dar uma ré só para testar nossa paciência —, mas a transformação foi enorme.

    Assim, o Brasil não apenas recebeu computadores estrangeiros. Também projetou máquinas, criou fábricas, copiou e adaptou padrões, formou engenheiros, desenvolveu sistemas e protagonizou experiências próprias. E, com o DOSVOX, começou a ajudar o computador pessoal a falar português para quem precisava ouvi-lo.

    Da mesa para o bolso — e da sala para a nuvem

    Nas décadas seguintes, o computador deixou de ser apenas “o aparelho chamado computador”. Notebooks reuniram numa peça o que antes ocupava uma mesa. Celulares incorporaram processadores cada vez mais poderosos, armazenamento, sensores, câmeras e conexão permanente.

    O smartphone não nasceu com o iPhone, mas o modelo apresentado pela Apple em 2007 ajudou a consolidar a combinação de telefone, computador de bolso, tela sensível ao toque e acesso completo à internet. Hoje carregamos no bolso uma máquina imensamente mais poderosa que os computadores que ajudaram a levar seres humanos à Lua.

    Ao mesmo tempo, parte do processamento e do armazenamento voltou a ocupar enormes salas — agora chamadas de data centers. A diferença é que acessamos esses recursos pela rede, como serviços de nuvem. O “computador” moderno pode ser o aparelho em nossa mão, um servidor do outro lado do país ou milhares de máquinas trabalhando juntas.

    Processadores gráficos, as GPUs, criados para acelerar imagens, mostraram-se excelentes para executar muitos cálculos em paralelo. Eles impulsionaram simulações científicas, jogos, processamento de vídeo e a atual onda de inteligência artificial. Os sistemas de IA que geram texto, imagem, voz e música não são uma nova espécie mágica de computador: rodam sobre a longa linhagem de transistores, chips, memórias, redes e programas que acabamos de percorrer.

    Aliás, neste ponto da história já fazemos algo que Ada Lovelace imaginou em 1843: usamos números dentro de máquinas para representar e manipular palavras, imagens e música. Ela provavelmente acharia fascinante. Babbage talvez perguntasse quem aprovou o orçamento.

    E então chegamos ao computador quântico

    Todo computador citado até aqui — do microcomputador antigo ao celular, ao servidor e ao supercomputador — é hoje chamado de computador clássico. No fundo, ele representa informação em bits.

    Um bit pode valer 0 ou 1. Fisicamente, isso pode corresponder a níveis de tensão, cargas elétricas, regiões magnetizadas ou outros estados distinguíveis. Bilhões de transistores funcionam como chaves minúsculas e, combinados em portas lógicas, realizam operações. Textos, músicas, vídeos e programas acabam codificados em enormes sequências de zeros e uns.

    O computador quântico trabalha com qubits, os bits quânticos. Um qubit também tem estados básicos que chamamos de 0 e 1, mas, antes de ser medido, pode estar numa superposição desses estados. Isso não significa simplesmente que ele guardou dois bits comuns ao mesmo tempo. Seu estado é descrito por amplitudes — números que determinam as probabilidades dos resultados possíveis e também como esses resultados podem interferir entre si.

    Quando medimos o qubit, obtemos um resultado clássico: 0 ou 1. A superposição desaparece naquela medição. Portanto, não adianta colocar todas as respostas possíveis numa superposição e abrir a caixa esperando que saia apenas a correta com um lacinho. Se o algoritmo for mal construído, sai uma resposta aleatória e ainda posa de mistério quântico.

    Superposição, emaranhamento e interferência

    Três ideias ajudam a entender uma computação quântica:

    Superposição: permite representar combinações de estados. Com vários qubits, o sistema pode ser descrito por amplitudes associadas a muitas configurações possíveis.

    Emaranhamento: faz com que os estados de dois ou mais qubits sejam descritos em conjunto, com correlações que não podem ser explicadas tratando cada qubit separadamente. Isso não permite enviar mensagens mais rápidas que a luz, apesar do que talvez estejam vendendo na esquina de setealém.

    Interferência: é o grande truque computacional. Assim como ondas podem se reforçar ou se cancelar, as amplitudes quânticas também interferem. Um algoritmo quântico organiza operações para aumentar a probabilidade dos resultados úteis e reduzir a dos resultados indesejados.

    As operações são feitas por portas quânticas, equivalentes distantes das portas lógicas clássicas. Elas alteram as amplitudes e criam emaranhamento. No fim, os qubits são medidos, e o cálculo normalmente precisa ser repetido muitas vezes para revelar a distribuição dos resultados.

    Esse detalhe corrige uma explicação popular, porém enganosa: um computador quântico não “experimenta todas as respostas e depois escolhe a certa”. Um conjunto de n qubits é descrito por 2n amplitudes, mas não podemos ler todas elas diretamente. A medição devolve apenas um resultado. A vantagem só aparece quando existe um algoritmo capaz de usar a interferência para fazer a informação desejada emergir.

    O NIST apresenta uma boa introdução à superposição, ao emaranhamento e à medição.

    De que é feito um qubit?

    Um qubit não é obrigatoriamente uma peça específica. Ele pode ser construído com diferentes sistemas físicos: circuitos supercondutores, íons aprisionados, átomos neutros, fótons, spins de elétrons e outras tecnologias. Cada abordagem tem vantagens e dificuldades.

    Alguns computadores quânticos supercondutores precisam operar em refrigeradores de diluição, a temperaturas próximas do zero absoluto. É por isso que certas fotografias mostram aquelas estruturas douradas em forma de lustre futurista. O processador quântico propriamente dito pode ser pequeno; o equipamento necessário para resfriá-lo, controlá-lo e protegê-lo do ambiente é que ocupa um belo espaço.

    E nenhum deles trabalha sozinho. Há computadores clássicos controlando pulsos, preparando operações, recebendo medições e processando resultados. O futuro mais provável não é o quântico expulsar o clássico da sala, mas ambos trabalharem juntos, com o processador quântico atuando como acelerador para tarefas específicas — mais ou menos como uma GPU não substituiu a CPU.

    Para que ele serve — e para que não serve

    Computadores quânticos não são mais rápidos em tudo. Eles não prometem abrir o editor de texto instantaneamente, melhorar o volume do rádio nem fazer o Windows terminar uma atualização antes de resolver instalar outra.

    A expectativa é que sejam especialmente úteis em alguns tipos de problema, como:

    • simular moléculas, materiais e fenômenos que já são quânticos por natureza;
    • resolver certas formas de fatoração e problemas matemáticos relacionados à criptografia;
    • acelerar algumas buscas e cálculos algébricos;
    • ajudar em determinadas tarefas de otimização, dependendo do algoritmo e do hardware;
    • trabalhar em sistemas híbridos, dividindo etapas com supercomputadores clássicos.

    A história teórica moderna começou a ganhar forma no início dos anos 1980. Richard Feynman argumentou que sistemas quânticos seriam melhor simulados por máquinas que também obedecessem à mecânica quântica. Em 1985, David Deutsch descreveu um modelo de computador quântico universal. Em 1994, Peter Shor apresentou um algoritmo quântico eficiente para fatorar números inteiros e calcular logaritmos discretos — problemas ligados à segurança de sistemas criptográficos amplamente usados.

    Isso não significa que alguém possa hoje apontar um notebook quântico para qualquer senha e assistir ao cadeado derreter. Para executar o algoritmo de Shor contra chaves criptográficas reais, seria necessário um computador quântico de grande escala, tolerante a falhas e com muitos qubits lógicos confiáveis. Essa máquina ainda não existe. Mesmo assim, a possibilidade futura já levou ao desenvolvimento e à adoção de criptografia pós-quântica.

    O grande inimigo: o próprio mundo

    Qubits são extremamente frágeis. Calor, vibração, radiação, imperfeições de fabricação e outras interações com o ambiente introduzem ruído. O estado quântico perde coerência, e os erros se acumulam.

    Num computador clássico, podemos copiar bits e guardar cópias extras para corrigir falhas. No mundo quântico, não é possível simplesmente copiar um estado desconhecido, e medi-lo diretamente destrói a superposição. A correção quântica de erros precisa distribuir a informação de um qubit lógico entre vários qubits físicos e detectar erros sem revelar o conteúdo que se quer preservar.

    Por isso, contar apenas quantos qubits uma máquina possui pode enganar. Mil qubits físicos ruidosos não equivalem necessariamente a mil qubits úteis. Importam também a qualidade das operações, o tempo de coerência, a conectividade, a taxa de erros e a capacidade de formar qubits lógicos protegidos.

    Em 2026, computadores quânticos são reais, podem ser acessados inclusive pela internet e já executam experimentos importantes. Mas os equipamentos disponíveis continuam sendo máquinas especializadas, limitadas e sujeitas a ruído. A construção de sistemas grandes e plenamente tolerantes a falhas ainda é um desafio de pesquisa e engenharia. O Departamento de Energia dos Estados Unidos resume o estágio atual como o de protótipos pequenos e ruidosos, enquanto equipes de pesquisa avançam na correção de erros.

    Portanto, o computador quântico não é a “próxima geração do PC” que colocaremos sobre a mesa para aposentar todos os demais. Ele é outro tipo de ferramenta, destinado a certos problemas. O computador clássico continuará fazendo quase tudo que fazemos hoje; o quântico poderá assumir partes muito específicas de cálculos que, para as máquinas comuns, seriam impraticáveis.

    Uma invenção feita por milhares de mãos

    A história do computador não tem um único inventor nem uma linha reta. O ábaco organizou números. Anticítera transformou ciclos astronômicos em engrenagens. Pascal e Leibniz automatizaram operações. Jacquard guardou instruções em cartões. Babbage desenhou uma máquina de uso geral. Ada Lovelace percebeu que ela poderia manipular símbolos. Hollerith levou cartões e eletricidade ao processamento de dados. Computadores humanos fizeram os cálculos que prepararam o caminho para as máquinas. Zuse, Flowers, Mauchly, Eckert, as programadoras do ENIAC, Williams, Kilburn e muitos outros construíram diferentes partes do computador moderno.

    No Brasil, UNIVAC, Zezinho, Patinho Feio, Cobra, os micros nacionais e o DOSVOX contam outra parte dessa viagem: a de um país que recebeu tecnologia estrangeira, mas também pesquisou, fabricou, adaptou e criou suas próprias respostas.

    Depois, válvulas viraram transistores; transistores se juntaram em circuitos integrados; CPUs entraram em chips; computadores saíram das salas e chegaram às mesas; das mesas foram para as mochilas e bolsos; e, conectados em rede, voltaram a ocupar salas imensas nos data centers.

    Agora tentamos fazer a própria mecânica quântica processar informação.

    Do movimento de uma conta num ábaco à interferência das amplitudes de um qubit, o princípio mais profundo continua parecido: representar alguma coisa do mundo, estabelecer regras e deixar um mecanismo trabalhar sobre essa representação.

    O que mudou foi o mecanismo. Primeiro, dedos e pedras. Depois, contas, engrenagens, cartões, relés, válvulas, transistores e chips. Hoje, estados quânticos.

    E eu continuo sem saber usar o sorobã direito,aaa.

    Um abração e até a próxima… Não vou contar sobre o que vai ser!

    Fernando

  • O novo bug do milênio: em 2038 alguns computadores podem acordar em 1901

    Tempo de leitura: 9 minutos

    Olá amigos e leitores dessa coisa aqui!!!

    O primeiro bug do milênio já passou, o mundo não acabou, os aviões continuaram voando e os computadores não começaram a soltar fumaça à meia-noite de 1º de janeiro de 2000.

    Isso não significa que o problema fosse invenção, exagero ou uma grande conspiração internacional dos vendedores de calendário. Significa, em boa parte, que muita gente passou anos corrigindo sistemas antes que a virada chegasse.

    Agora há outro limite no horizonte. Ele ganhou apelidos como “bug do ano 2038”, “Y2K38” e até “novo bug do milênio”, embora nenhum milênio novo vá começar em 2038. Dessa vez, o problema não está em guardar o ano com apenas dois algarismos, mas em contar o tempo dentro de um número inteiro assinado de 32 bits.

    E o resultado é digno de uma viagem temporal mal programada: alguns sistemas podem avançar um segundo e entender que voltaram para dezembro de 1901.

    Antes de 2038, precisamos voltar ao ano 2000

    O famoso Y2K nasceu de uma economia que parecia perfeitamente razoável décadas antes. Memória e armazenamento eram caros, e muitos sistemas guardavam somente os dois últimos algarismos do ano. Assim, 1987 virava 87, 1999 virava 99 e 2000 viraria 00.

    O problema é que 00 também podia significar 1900. Um sistema de cobrança, folha de pagamento, estoque, banco ou seguro que comparasse datas poderia calcular idades negativas, considerar contratos vencidos ou ordenar registros de forma completamente errada.

    Quando chegou o ano 2000 e não aconteceu uma catástrofe mundial, muita gente concluiu que o bug nunca existira. É uma conclusão parecida com dizer que o incêndio era imaginário porque os bombeiros chegaram antes de a casa queimar. Governos e empresas gastaram anos inventariando programas, alterando bancos de dados, corrigindo código e realizando testes. Um relatório publicado em 2000 pelo órgão de auditoria do Congresso dos Estados Unidos registrou justamente que os riscos eram reais, mas podiam ser mitigados com atenção e gerenciamento adequados.

    O problema de 2038 tem outra origem, mas traz a mesma lição: datas parecem simples até que a forma escolhida para representá-las encontra uma parede.

    O relógio escondido debaixo do capô

    Nós enxergamos uma data como “6 de agosto de 2026, às 14 horas”. Um computador, porém, pode guardá-la como um número. Em sistemas Unix e em muitos programas inspirados neles, uma forma tradicional de fazer isso é contar quantos segundos se passaram desde o início de 1º de janeiro de 1970, em UTC. Esse ponto de partida ficou conhecido como época Unix.

    Na época Unix, o instante inicial vale zero. Um segundo depois, vale 1. Um segundo antes, vale -1. A data legível só aparece quando algum programa converte essa contagem para ano, mês, dia, hora, minuto e segundo, aplicando também o fuso horário quando necessário.

    A história teve alguns ensaios antes de chegar a esse formato. A própria página do primeiro manual do Unix preservada pelo Bell Labs conta que o sistema chegou a medir o tempo em sexagésimos de segundo desde 1º de janeiro de 1971. Um contador de 32 bits assim duraria apenas cerca de dois anos e meio. A época foi mudada mais de uma vez, até que, em 1973, passaram a ser usados segundos contados desde o início de 1970.

    Trocar sexagésimos por segundos empurrou a parede para muito mais longe. Naquele momento, 2038 parecia pertencer a uma ficção científica tão distante que talvez já tivesse carros voadores, colônias em Marte e impressoras que nunca atolassem papel. Os carros ainda não voam, a impressora continua sendo a impressora e o limite está agora a menos de doze anos de distância.

    Por que exatamente 32 bits?

    Um bit pode valer zero ou um. Com 32 deles, existem 4.294.967.296 combinações possíveis. Quando o número é inteiro e assinado, parte do intervalo é usada para valores negativos e parte para positivos. O intervalo tradicional vai de -2.147.483.648 a 2.147.483.647.

    Esse último número positivo corresponde, na contagem Unix, a 19 de janeiro de 2038, às 03:14:07 em UTC. Pelas regras atuais de fuso, seriam 00:14:07 no horário de Brasília.

    Instante em UTC Valor esperado O que pode acontecer num campo assinado de 32 bits
    19/01/2038 03:14:07 2.147.483.647 Último valor positivo possível
    19/01/2038 03:14:08 2.147.483.648 O valor já não cabe no campo

    Na representação binária mais comum, chamada complemento de dois, o padrão de bits seguinte pode ser interpretado como -2.147.483.648. Como valores negativos representam instantes anteriores a 1970, essa leitura aponta para 13 de dezembro de 1901, às 20:45:52 em UTC.

    Mas é importante não transformar uma explicação simples numa profecia universal. Nem todo programa vai obrigatoriamente “voltar para 1901”. Dependendo do sistema, da linguagem e da função usada, ele pode retornar um erro de estouro, rejeitar a data, travar, produzir um valor inválido ou se comportar de outra maneira. A documentação da função time no Linux, por exemplo, prevê o erro EOVERFLOW quando o instante já não pode ser representado pelo tipo usado pelo programa.

    Em resumo: 1901 é o efeito clássico e mais fácil de visualizar; o defeito real é que o instante deixou de caber onde o programa tentou colocá-lo.

    Não é a “CPU de 32 bits” sozinha que decide

    Aqui mora uma das maiores confusões sobre o assunto. O bug de 2038 não escolhe suas vítimas simplesmente perguntando se o processador é de 32 ou 64 bits.

    Um equipamento com processador de 32 bits pode usar bibliotecas e interfaces modernas capazes de guardar o tempo em 64 bits, juntando mais de uma operação quando necessário. Por outro lado, um programa executado num computador de 64 bits pode continuar vulnerável se mantiver uma variável, um campo de banco de dados, um protocolo ou um formato de arquivo com apenas 32 bits assinados para o tempo.

    Até o sinal faz diferença. Um campo de 32 bits sem sinal consegue usar todas as combinações para valores positivos e empurra seu próprio limite para fevereiro de 2106, embora perca a representação natural das datas anteriores a 1970. É mais uma razão para não anunciar que “tudo o que tem 32 bits quebra no mesmo segundo”.

    Portanto, o que importa é o caminho inteiro percorrido pela data:

    • o relógio e o sistema operacional;
    • as bibliotecas usadas pelo programa;
    • o próprio código da aplicação;
    • os drivers e firmwares;
    • os bancos de dados;
    • os arquivos gravados em disco;
    • as mensagens trocadas pela rede;
    • e qualquer integração que receba, converta ou devolva aquele valor.

    Basta uma dessas pontes estreitas continuar esperando um inteiro assinado de 32 bits para que um valor perfeitamente válido seja truncado, recusado ou interpretado de maneira errada.

    O que pode ser afetado?

    Os candidatos mais óbvios são sistemas Unix, Linux ou derivados que ainda usem interfaces antigas de tempo em 32 bits. A documentação do próprio kernel Linux explica que antigas estruturas de tempo foram substituídas porque o campo de segundos transborda em 2038 nas arquiteturas de 32 bits.

    O risco mais difícil de enxergar, porém, está nos equipamentos que não parecem computadores: roteadores, câmeras, gravadores, centrais telefônicas, equipamentos industriais, sistemas embarcados, dispositivos médicos, automóveis, controles de acesso, aparelhos de rede e tantas outras caixas que possuem processador, relógio e firmware, mas podem passar quinze ou vinte anos trabalhando sem atualização.

    Isso não significa que todos esses aparelhos vão falhar. Significa que são lugares onde pode existir software antigo, pouco documentado, feito para permanecer em serviço por muito tempo e, em alguns casos, impossível de atualizar. Um roteador doméstico de 2026 provavelmente já terá virado sucata em 2038; uma máquina industrial, um equipamento hospitalar ou uma infraestrutura de telecomunicações talvez não.

    Entre os efeitos possíveis estão:

    • arquivos que aparecem como criados em 1901;
    • agendamentos que deixam de executar ou disparam na hora errada;
    • licenças que parecem vencidas ou ainda não iniciadas;
    • certificados e credenciais recusados por uma biblioteca incapaz de processar a data;
    • registros de eventos fora de ordem;
    • cálculos errados de idade, prazo, juros, retenção ou validade;
    • backups incrementais que não sabem o que é novo e o que é antigo;
    • falhas em sincronização, autenticação ou comunicação entre sistemas;
    • e programas que simplesmente encerram ao receber uma data fora do intervalo.

    O estrago depende muito do uso. Uma câmera que apenas mostra 1901 sobre a imagem estará errada, mas talvez continue filmando. Um controle industrial que compare horários para decidir quando ligar ou desligar alguma coisa exige uma avaliação bem mais séria. O mesmo bug pode ser uma inconveniência num aparelho e um risco operacional em outro.

    Alguns problemas chegarão antes de 2038

    Não é preciso esperar a madrugada de 19 de janeiro de 2038. Programas trabalham com o futuro.

    Um sistema pode calcular o vencimento de um contrato longo, a validade de um certificado, o prazo de retenção de um arquivo, a data final de um financiamento, uma recorrência ou a aposentadoria de uma pessoa. Assim que tentar produzir uma data posterior ao limite, o problema já pode aparecer.

    É o mesmo fenômeno que fez certos defeitos do Y2K surgirem antes do réveillon de 1999. A parede não precisa chegar até o relógio atual; basta o programa tentar olhar para o outro lado dela.

    Nem os bancos de dados escapam da conversa

    A vulnerabilidade não depende apenas do sistema operacional. O modelo de dados também precisa ser examinado.

    No MySQL 8.4, por exemplo, o tipo TIMESTAMP documentado continua tendo como limite superior 19 de janeiro de 2038, às 03:14:07 em UTC. Já o tipo DATETIME possui um intervalo muito maior, chegando ao ano 9999. Isso não quer dizer que se deve sair trocando todo TIMESTAMP por DATETIME às cegas: os dois têm comportamentos diferentes, inclusive em relação a fusos horários e conversões. Quer dizer que cada banco e cada coluna precisam ser entendidos antes da migração.

    Outros sistemas escolheram representações diferentes. O PostgreSQL, por exemplo, documenta seus tipos timestamp com armazenamento de oito bytes e um intervalo que passa com enorme folga por 2038.

    Até essa coisa aqui, o blog que você está lendo, depende de várias camadas: servidor, sistema operacional, PHP, WordPress, banco de dados, plugins e serviços externos. Se tudo estiver atualizado e usando representações adequadas, ótimo. Mas ser uma página na internet não concede imunidade diplomática contra o calendário. Em 2038, se o blog ainda estiver no ar e eu ainda estiver escrevendo nele, espero publicar um texto dizendo: “Eu avisei — e, felizmente, atualizaram a joça”.

    O que já foi corrigido?

    Boa parte do ecossistema moderno já trabalha com tempo de 64 bits. Sistemas operacionais atuais de 64 bits normalmente não têm a limitação clássica no seu tipo principal de tempo. Isso reduz bastante o risco nos computadores comuns que estiverem atualizados em 2038.

    O Linux criou novas interfaces de kernel para transportar datas além do limite. Na biblioteca GNU usada por muitas distribuições, a opção _TIME_BITS=64, disponível desde a glibc 2.34, permite que programas destinados a certas plataformas antigas de 32 bits adotem um time_t de 64 bits. Não é apenas trocar uma chave num servidor em produção: programas e bibliotecas precisam ser compilados de forma compatível, e misturar estruturas com tamanhos diferentes pode criar novos problemas.

    No mundo Windows, a situação também não se resume a “Windows de 32 bits vai quebrar”. A documentação atual da Microsoft informa que time_t é equivalente ao tipo de 64 bits por padrão até mesmo no ambiente de desenvolvimento em que ainda existe a alternativa antiga. A própria empresa desaconselha ativar o tipo de 32 bits porque aplicações assim podem falhar em 2038.

    Há ainda uma mudança importante no padrão: o POSIX.1-2024 passou a exigir uma representação de time_t com largura suficiente para superar a velha barreira. O texto atual da especificação da função time relembra que versões anteriores aceitavam larguras menores e que o inteiro assinado de 32 bits falha em 2038.

    O problema, portanto, não foi ignorado. O ponto fraco é o enorme estoque de código, firmware, formatos e equipamentos antigos que pode continuar existindo depois que seus fabricantes desapareceram, encerraram o suporte ou simplesmente esqueceram o produto num armário dos invvvvééérnos.

    Como mitigar o bug de 2038?

    A correção conceitual parece simples: deixar de usar um inteiro assinado de 32 bits para guardar segundos desde 1970. Na prática, fazer isso com segurança exige trabalho organizado.

    1. Inventariar: descobrir quais sistemas, equipamentos e programas ainda estarão em uso perto de 2038, incluindo aqueles escondidos dentro de outras máquinas.
    2. Identificar representações de data: procurar time_t de 32 bits, inteiros assinados usados como timestamp, estruturas antigas, colunas de banco, formatos de arquivo e protocolos limitados.
    3. Atualizar a pilha inteira: não basta corrigir o kernel se a biblioteca, a aplicação ou o banco continuarem estreitos. Também não basta alterar a aplicação se ela envia o valor antigo para outro sistema.
    4. Migrar dados com cuidado: converter campos para tipos adequados, preservar fusos e semântica, verificar índices, ordenações, APIs e compatibilidade com versões antigas.
    5. Testar datas futuras: executar cenários anteriores, iguais e posteriores ao limite, incluindo operações que atravessam a virada.
    6. Testar isoladamente: adiantar o relógio de um servidor de produção pode invalidar certificados, bagunçar logs, disparar tarefas e provocar um festival de revertérios. O lugar certo é um laboratório, uma máquina virtual, um emulador ou um ambiente preparado para isso.
    7. Planejar substituições: quando um firmware não pode ser atualizado, a solução pode ser trocar o equipamento antes de 2038.
    8. Documentar: registrar o que foi testado, qual intervalo cada componente suporta e quais dependências ainda precisam ser corrigidas.

    Em sistemas críticos, também é importante testar falhas parciais. Um servidor pode aceitar 2040 enquanto um cliente antigo não aceita; um banco pode guardar a data enquanto um relatório a trunca; uma API pode transmitir 64 bits enquanto o dispositivo receptor lê somente os 32 primeiros. As fronteiras entre sistemas merecem tanta atenção quanto cada sistema isolado.

    Então o mundo vai acabar em 2038?

    Não. Ou melhor: se o mundo não acabar em 29 de agosto de 2027, como prevê o livro Gog, de J. J. Benítez, a maior parte dos computadores pessoais e servidores modernos provavelmente passará pela data sem notar nada, desde que continue recebendo atualizações e executando programas compatíveis.

    Também seria irresponsável concluir que nada acontecerá. A informática está cheia de sistemas antigos que continuam trabalhando silenciosamente porque ninguém quer mexer no que “sempre funcionou”. Em 2038, alguns deles poderão ter trinta, quarenta ou mais anos de idade. E equipamentos embarcados não costumam exibir uma plaquinha avisando: “Por dentro existe uma interface de tempo feita em 1998”.

    O risco real não é um desligamento simultâneo de toda a tecnologia do planeta. É uma coleção espalhada de falhas: algumas engraçadas, outras caras e algumas potencialmente perigosas. Quanto mais cedo forem localizadas, menos emocionante será aquela madrugada — e, neste caso, tédio será uma excelente notícia.

    E os 64 bits duram até quando?

    Se continuarmos contando segundos num inteiro assinado de 64 bits, o limite fica a cerca de 292 bilhões de anos de distância. O Sol terá desaparecido muito antes, e será relativamente difícil abrir um chamado de suporte.

    Mas isso não significa que todo timestamp de 64 bits seja eterno. Se a unidade for muito menor, como nanossegundos, o intervalo encolhe. Certos formatos de 64 bits que contam nanossegundos desde 1970 encontram outra parede já no ano 2262. O tamanho do campo importa, mas a unidade e a forma de interpretação importam também.

    Essa talvez seja a grande lição de todos esses bugs de calendário. O tempo não “quebra” dentro do computador. O que quebra é a caixa que construímos para guardá-lo.

    Concluindo

    O Y2K confundia 2000 com 1900 porque muitos sistemas guardavam somente dois algarismos do ano. O Y2038 pode confundir 2038 com 1901 porque certos sistemas guardam a contagem de segundos num inteiro assinado de 32 bits.

    As causas são diferentes, mas a saída é parecida: localizar o legado, corrigir as representações, atualizar dependências, testar as transições e não deixar tudo para a última hora.

    Se o trabalho for bem feito, 19 de janeiro de 2038 será apenas mais uma data em que muita gente dirá que o bug era exagero porque nada aconteceu. E, mais uma vez, essa será justamente a prova de que alguém trabalhou duro pra que nada acontecesse.

    Um grande abraço a todos e até a próxima viagem — de preferência sem escala acidental em 1901!!!

    Fernando

  • Dos primeiros pacotes ao 5G e à Starlink: viajando pela história da internet

    Tempo de leitura: 16 minutos

    Olá, caros amigos e leitores!!

    No post anterior, eu disse que o próximo seria sobre internet. E, milagrosamente, cá estamos cumprindo a promessa sem o texto cair em setealém, ser engolido por um portal temporal ou acabar falando sobre outra coisa completamente diferente,aaa.

    Hoje vamos viajar desde os primeiros experimentos com redes de computadores até a internet atual: fibra óptica, Wi-Fi, nuvem, redes sociais, streaming, 3G, 4G, 5G e as “internets voadoras” por satélite, como a Starlink. Também faremos uma parada numa espécie de internet que não era internet: os programas de computador transmitidos pelo rádio, gravados em fita cassete e depois carregados em máquinas de 8 bits.

    Sim, isso existiu. Não é lenda urbana, memória implantada por uma fita desmagnetizada nem efeito Mandela informático.

    Antes de tudo: internet e Web não são a mesma coisa

    É muito comum usarmos as palavras internet e Web como se fossem sinônimas. No uso cotidiano isso raramente causa problema, mas historicamente e tecnicamente elas são coisas diferentes.

    A internet é a grande rede de redes: a infraestrutura física, os endereços, os roteadores e o conjunto de protocolos que permitem a computadores e outros dispositivos trocarem dados. Já a World Wide Web é um dos serviços que funcionam sobre essa rede, ao lado do correio eletrônico, da transferência de arquivos, das chamadas de voz, do streaming, dos jogos e de muitas outras aplicações.

    Em outras palavras: a Web precisa da internet, mas a internet já existia antes da Web. O e-mail, por exemplo, é mais velho que ela. Portanto, se alguém disser que Tim Berners-Lee inventou a internet, podemos mandar a afirmação para o chkdsk: ele inventou a Web, o que já é coisa mais que suficiente para uma pessoa só.

    Quando os computadores eram ilhas muito caras

    Nas décadas de 1950 e 1960, computadores eram máquinas enormes, caríssimas e geralmente isoladas. Uma universidade podia ter um equipamento poderoso enquanto outra possuía um modelo completamente diferente, com seus próprios programas e sua própria forma de trabalhar. Compartilhar tempo de processamento, arquivos ou resultados de pesquisas à distância era uma ideia muito atraente.

    O problema é que a rede telefônica havia sido construída para outra finalidade. Numa ligação tradicional, estabelece-se um circuito entre duas pontas e aquele caminho fica reservado durante a conversa. Isso funciona muito bem para voz, mas é um desperdício quando computadores enviam dados em rajadas, ficam alguns instantes em silêncio e depois voltam a transmitir.

    A solução foi a comutação de pacotes. Em vez de reservar um circuito inteiro, a informação é dividida em pequenos blocos identificados. Esses pacotes podem compartilhar os enlaces com dados de outros usuários, seguir caminhos diferentes e ser reorganizados no destino. Se algum se perder, pode ser retransmitido.

    É como desmontar uma grande mudança em caixas numeradas — só que, neste caso, todas chegam ao destino, são colocadas na ordem certa e nenhuma delas aparece misteriosamente em setealém. Pelo menos essa é a ideia,aaa.

    Pesquisas de Leonard Kleinrock no MIT, de Paul Baran na RAND e de Donald Davies e sua equipe no National Physical Laboratory britânico ajudaram a formar esse conceito. Os trabalhos aconteceram em paralelo e, segundo a história publicada pela Internet Society, o próprio termo packet veio do grupo de Davies.

    A ARPANET e o primeiro “LO”

    No fim dos anos 1960, a ARPA, agência de pesquisas avançadas do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, financiou a construção da ARPANET. O contexto era o da Guerra Fria, mas resumir o projeto dizendo apenas que ele foi criado para sobreviver a uma guerra nuclear é um atalho ruim. A finalidade prática da ARPANET era interligar centros de pesquisa, permitir o compartilhamento de recursos computacionais e experimentar uma nova forma de comunicação entre máquinas diferentes.

    Em 29 de outubro de 1969, um computador da Universidade da Califórnia em Los Angeles, a UCLA, tentou enviar a palavra LOGIN para outro no Stanford Research Institute. O sistema recebeu o “L”, recebeu o “O” e então caiu.

    Portanto, a primeira mensagem daquela rede foi simplesmente “LO”. Pouco depois, o problema foi corrigido e a palavra inteira conseguiu atravessar o enlace. A DARPA preserva o registro do primeiro envio, e a UCLA conta a história da queda.

    Começar com duas letras e um travamento foi, convenhamos, uma estreia muito coerente para a informática.

    Ao fim de 1969, a ARPANET possuía quatro nós: UCLA, Stanford Research Institute, Universidade da Califórnia em Santa Bárbara e Universidade de Utah. Era muito pouco perto da rede atual, mas o princípio estava demonstrado: computadores diferentes e distantes podiam conversar por meio de uma rede de pacotes.

    O e-mail virou a primeira grande atração

    Nos primeiros anos, a rede era principalmente uma ferramenta para pesquisadores acessarem computadores remotos. Logo, porém, aconteceu algo que voltaria a se repetir muitas vezes na história da tecnologia: as pessoas descobriram que uma máquina criada para trabalhar também servia para conversar.

    Em 1971, Ray Tomlinson desenvolveu um sistema para enviar mensagens entre computadores da ARPANET e escolheu o sinal @ para separar o nome do usuário do computador de destino. Em 1972, o correio eletrônico foi apresentado publicamente junto com a rede e cresceu depressa. De acordo com a Internet Society, o e-mail se tornou a maior aplicação da rede por mais de uma década.

    Antes de existirem páginas, navegadores, redes sociais ou botões de “curtir”, a comunicação entre pessoas já era a parte mais atraente da rede. Mudaram as telas, os nomes e a quantidade de propaganda, mas certas coisas permanecem.

    TCP/IP: a língua comum das redes

    A ARPANET não era a única rede experimental. Surgiram redes por rádio, satélite, linhas acadêmicas e outras tecnologias, cada uma com características próprias. O novo problema passou a ser fazer redes diferentes conversarem entre si.

    Robert Kahn e Vinton Cerf trabalharam numa arquitetura aberta em que cada rede poderia continuar funcionando internamente à sua maneira, desde que todas usassem uma linguagem comum para trocar dados. Dessa ideia nasceram os protocolos que formariam o TCP/IP.

    De forma bastante resumida, o IP cuida do endereçamento e do encaminhamento dos pacotes. O TCP estabelece uma comunicação confiável, controla a ordem dos dados e solicita novamente o que se perdeu. Há muitos outros protocolos no conjunto, mas esses dois acabaram emprestando o nome à família inteira.

    Em 1º de janeiro de 1983, a ARPANET abandonou seu protocolo anterior, o NCP, e passou oficialmente para o TCP/IP. A mudança foi marcada para uma data única: quem não tivesse convertido seu sistema deixaria de conversar normalmente com o restante da rede. Esse dia é frequentemente tratado como o nascimento da internet moderna.

    Portanto, a internet tem várias datas de aniversário possíveis. Podemos comemorar 1969 pela ARPANET, 1983 pelo TCP/IP ou 1989 pela invenção da Web. Se alguém quiser bolo nas três datas, a história oferece uma justificativa tecnicamente aceitável.

    DNS: porque ninguém merece decorar IP

    Uma rede pequena ainda podia manter uma lista central relacionando os nomes das máquinas a seus endereços numéricos. Conforme o número de computadores cresceu, atualizar e distribuir essa lista virou uma confusão.

    Em 1983, Paul Mockapetris apresentou nas RFCs 882 e 883 os conceitos e a implementação inicial do Domain Name System, o DNS. Ele criou uma base distribuída e hierárquica capaz de traduzir nomes compreensíveis, como fernandozamboni.com, em endereços utilizados pelas máquinas.

    Chamam o DNS de “lista telefônica da internet”. A comparação é boa, desde que imaginemos uma lista mundial, distribuída entre muitos responsáveis, atualizada o tempo todo e que às vezes guarda um endereço antigo em cache só para nos fazer perguntar por que raios o site funciona num computador e no outro não.

    A internet que não era internet: programas transmitidos pelo rádio

    Enquanto universidades e centros de pesquisa montavam redes, os microcomputadores domésticos das décadas de 1970 e 1980 enfrentavam outro problema: como guardar e distribuir programas de maneira barata?

    Muitos desses computadores usavam o gravador de fita cassete como unidade de armazenamento. Os bits eram transformados em tons de áudio — aqueles bipes e chiados que fariam qualquer pessoa desavisada pensar que o aparelho estava tentando chamar extraterrestres. Para salvar um programa, o computador gerava o som e o gravador o registrava. Para carregar, fazia-se o caminho inverso.

    Então alguém percebeu o óbvio genial: se o programa já era som, uma emissora de rádio poderia transmiti-lo.

    O apresentador anunciava o que seria enviado, o ouvinte preparava o gravador, apertava REC, registrava a sequência de tons numa fita e depois carregava aquela gravação no computador. Era um download pelo rádio, ou um broadcast digital disfarçado de barulho analógico.

    Não era internet porque não havia uma rede bidirecional, endereçamento entre os ouvintes, roteamento de pacotes ou possibilidade de solicitar novamente um trecho corrompido. A emissora transmitia para todos e cada pessoa tentava capturar o sinal. Se houvesse chiado, interferência, volume errado ou um gravador mal regulado, o programa podia chegar do outro lado já necessitando de um chkdsk espiritual.

    Na Holanda, o programa de rádio Hobbyscoop, da NOS, criou em 1982 o BASICODE. Como os computadores domésticos usavam formatos e versões de BASIC incompatíveis, o projeto definiu um formato comum. Cada modelo precisava de um programa tradutor, chamado Bascoder, capaz de ler o sinal padronizado e adaptá-lo à máquina. O arquivo histórico do próprio Hobbyscoop explica que o sinal usava modulação FSK e trabalhava a 1.200 bits por segundo.

    No Brasil também houve experiências. No projeto conhecido como Computador FM, a Rádio USP FM, por meio do programa Clip Informática, transmitiu dados que os ouvintes podiam gravar e carregar em computadores MSX. Um dos canais da transmissão estereofônica podia levar o áudio digital enquanto o outro mantinha a apresentação do programa.

    Para quem viveu a época, a ideia não parece tão absurda: a fita já era o “disco” do computador; a rádio apenas fazia entrega em domicílio.

    E havia uma vantagem que os serviços atuais adorariam ter: dez ou dez mil pessoas podiam gravar o programa ao mesmo tempo sem aumentar a carga sobre a emissora. Nada de servidor saturado, fila de download ou DDoS via cassete,aaa.

    Os BBS: vizinhos eletrônicos antes da Web

    Outra experiência “on-line” que muitas vezes é confundida com a internet eram os Bulletin Board Systems, ou BBS. O usuário ligava o modem a uma linha telefônica e discava diretamente para o computador do operador. Ali podia ler mensagens, participar de fóruns, baixar arquivos e conversar com outros usuários.

    Era como telefonar para entrar num prédio digital específico. Ao desligar daquele BBS e ligar para outro, entrava-se em outro sistema. Redes como a FidoNet permitiram a troca de mensagens entre BBS, mas aquilo ainda não era a internet global de TCP/IP que conhecemos hoje.

    Mesmo assim, os BBS criaram comunidades, regras de convivência, fóruns, mensagens privadas e distribuição de software. Boa parte da vida social que depois migraria para a Web já estava sendo ensaiada ali — só que com muito menos imagens, muito mais texto e uma conta telefônica capaz de provocar conflitos familiares.

    A Web colocou páginas e links sobre a internet

    Em 1989, o cientista britânico Tim Berners-Lee trabalhava no CERN, na Suíça, e procurava uma maneira melhor de organizar e compartilhar informações entre pesquisadores que usavam computadores incompatíveis e estavam espalhados por vários países.

    Sua proposta combinou três ideias fundamentais: documentos escritos em HTML, identificados por endereços que chamamos de URLs e transferidos pelo protocolo HTTP. Os documentos poderiam apontar uns para os outros por meio de hiperlinks, formando uma teia mundial de informação.

    No fim de 1990, Berners-Lee já tinha o primeiro navegador e o primeiro servidor funcionando num computador NeXT. A máquina recebeu um aviso escrito à mão para que ninguém a desligasse. O endereço info.cern.ch hospedou o primeiro site do mundo.

    Em 1991, o software da Web começou a ser distribuído fora do CERN. Em 1993, a instituição colocou a tecnologia em domínio público e o navegador Mosaic apresentou uma interface gráfica amigável em várias plataformas. A combinação entre padrões abertos, páginas com links e navegadores relativamente fáceis de usar fez a Web se espalhar numa velocidade impressionante. A história completa pode ser lida no próprio CERN.

    A internet, que até então parecia um ambiente para pesquisadores, especialistas e entusiastas muito determinados, ganhou uma porta de entrada para o público comum.

    A internet chega ao Brasil

    No Brasil, as primeiras conexões surgiram no meio acadêmico. Em 1988, a FAPESP e o Laboratório Nacional de Computação Científica, o LNCC, conectaram-se à Bitnet, uma rede universitária anterior à popularização da internet por aqui.

    Em setembro de 1989 foi criada a Rede Nacional de Pesquisa, a RNP, com a missão de implantar uma infraestrutura acadêmica e disseminar o uso de redes no país. Em 1992 entrou em operação a primeira rede brasileira baseada em TCP/IP, alcançando dez estados e o Distrito Federal.

    A abertura comercial aconteceu em 1995. Foi também naquele ano que surgiu o Comitê Gestor da Internet no Brasil, o CGI.br, e o cidadão comum começou a ter acesso à internet IP discada. A RNP preserva uma ótima história desse período.

    Começavam a aparecer provedores, revistas distribuíam CDs de instalação, programas ofereciam algumas horas grátis e uma geração inteira descobria que era possível conversar com alguém do outro lado do mundo — desde que ninguém em casa precisasse usar o telefone.

    A grande sinfonia da internet discada

    O modem discado transformava os dados digitais em sinais capazes de viajar pela linha telefônica analógica e depois fazia a conversão inversa. Seu próprio nome vem de modulador-demodulador.

    Ao estabelecer a conexão, os dois modems negociavam velocidade e condições da linha por meio daquela inesquecível sequência de apitos, chiados e estalos. Para quem conhecia, era quase possível perceber pelo som se a conexão vinha boa ou se começaria o dia a 14.400 bits por segundo com vontade de voltar para a cama.

    As velocidades passaram por 9.600, 14.400, 28.800, 33.600 e chegaram aos famosos 56 Kbps teóricos. Na prática, a linha podia discordar da embalagem. Enquanto o computador estava conectado, o telefone geralmente ficava ocupado, e a cobrança por pulsos incentivava muita gente a entrar depois da meia-noite ou nos fins de semana.

    As páginas eram mais leves, as imagens apareciam em parcelas e baixar alguns megabytes exigia planejamento, esperança e, às vezes, um gerenciador capaz de continuar de onde havia parado. Vídeo era artigo de luxo. Áudio em RealAudio ou WMA precisava ser fortemente comprimido, e uma rádio on-line de 32 Kbps já fazia uma conexão respeitável trabalhar.

    Eu comecei na informática em 1996, com MS-DOS e DOSVOX, “caí” na internet em 1999 e acompanhei boa parte dessas mudanças. Naquele período conheci o Virtual Vision e o bom e velho JAWS, que já ajudavam a tornar o Windows acessível. Em 2006 surgiram o NVDA e o Orca, facilitando e “democratizando” ainda mais o acesso; outras ferramentas vieram depois. Para uma pessoa cega, a rede abriu um acesso extraordinário a jornais, livros, fóruns, programas, documentação, comunicação e serviços que antes dependiam muito mais da ajuda de terceiros.

    As telas eram simples e quase sempre baseadas em texto. Isso não significa que tudo fosse acessível, mas muitas páginas antigas tinham uma vantagem acidental: havia menos botões sem nome, menos janelas surgindo do nada e menos interfaces decididas a adivinhar o que o usuário queria antes que ele conseguisse terminar de dizer,aaa.

    A banda larga deixou a internet permanentemente ligada

    A partir do fim dos anos 1990 e principalmente durante os anos 2000, conexões por cabo e ADSL começaram a substituir o acesso discado. A linha deixou de precisar estabelecer uma chamada a cada uso, o telefone pôde funcionar ao mesmo tempo e a internet passou a ficar continuamente disponível.

    Depois vieram enlaces cada vez mais rápidos e a fibra óptica chegou mais perto das casas — em muitos casos, até dentro delas. Em vez de dezenas de kilobits, passamos a falar em megabits e depois em centenas de megabits ou gigabits por segundo.

    Essa mudança não serviu apenas para abrir as mesmas páginas mais depressa. Ela alterou o tipo de serviço possível. Fotografias cresceram, surgiram chamadas de vídeo, cópias de segurança remotas, jogos on-line mais complexos, vídeo sob demanda, transmissões ao vivo e armazenamento em nuvem.

    Se a internet discada obrigava o usuário a decidir quando entraria na rede, a banda larga fez a rede permanecer ao redor dele.

    Wi-Fi não é internet — mas ajudou a soltá-la dos cabos

    O padrão IEEE 802.11, base das redes que chamamos de Wi-Fi, apareceu em 1997 e evoluiu por várias gerações. Ele permite criar uma rede local sem fio e conectar computadores, celulares, televisores e outras geringonças ao roteador.

    Mas convém fazer outra distinção: Wi-Fi também não é sinônimo de internet. É possível ter Wi-Fi funcionando perfeitamente dentro de casa e nenhuma conexão com o provedor. Nesse caso, os aparelhos conversam com o roteador e talvez entre si, mas o roteador não consegue alcançar o restante do mundo.

    O Wi-Fi resolveu os últimos metros. O sinal atravessa o ar entre o aparelho e o ponto de acesso; dali em diante, normalmente encontra cabos, fibras, roteadores e uma quantidade de infraestrutura física que permanece muito bem presa ao chão.

    A Web deixou de ser uma coleção de páginas

    No início, a maioria dos sites publicava conteúdo e o visitante lia. Com linguagens de programação no servidor, bancos de dados e JavaScript no navegador, as páginas se transformaram em aplicações. O usuário deixou de ser apenas leitor e passou a publicar, comentar, editar, vender, comprar, conversar e produzir conteúdo.

    Fóruns, wikis, blogs, redes sociais, plataformas de vídeo e serviços colaborativos formaram aquilo que se convencionou chamar de Web 2.0. Não foi uma nova versão técnica da internet, mas uma mudança na maneira de usar a Web.

    Essa coisa aqui é parte dessa história. Meu blog entrou no ar em 28 de junho de 2006, quando blogs, Orkut, MSN, YouTube e Twitter ajudavam a transformar a internet num espaço de publicação pessoal e conversa permanente. Como contei no artigo sobre os vinte anos do blog, ele atravessou várias dessas fases e, por alguma razão provavelmente teimosística, continua aqui.

    A banda larga também transformou o áudio e o vídeo. O arquivo que antes precisava ser baixado inteiro passou a tocar enquanto os dados chegavam. As rádios ganharam alcance mundial, a televisão migrou para plataformas de streaming e qualquer pessoa com equipamento relativamente simples pôde transmitir ao vivo.

    Nos anos 1980, o rádio transmitia um programa de computador. Hoje, o computador transmite a rádio inteira. A volta foi grande, mas o parentesco entre som e dados continuou lá.

    As “internets voadoras”: 2G, 3G, 4G e 5G

    Os telefones celulares de primeira geração, ou 1G, eram analógicos e voltados à voz. A segunda geração, 2G, digitalizou a comunicação, popularizou as mensagens de texto e começou a oferecer dados móveis. Tecnologias como GPRS e EDGE permitiam e-mail, mensageiros e páginas adaptadas, mas não exatamente com uma velocidade capaz de provocar vertigem.

    O 3G fez a internet móvel se tornar realmente prática para o público. Navegação comum, redes sociais, mapas, chamadas e mídia passaram a caber no telefone com menos sofrimento.

    O 4G, associado principalmente ao LTE e às suas evoluções, transformou o celular num terminal de banda larga. Vídeo em alta definição, transmissões ao vivo, serviços de transporte, pagamentos, trabalho remoto e uma infinidade de aplicativos passaram a funcionar em movimento.

    O 5G aumentou velocidade e capacidade, reduziu latência em cenários adequados e foi projetado para atender não só telefones, mas uma quantidade muito maior de dispositivos e aplicações. Isso não significa que qualquer celular 5G, em qualquer lugar, receberá automaticamente uma conexão interplanetária. Frequência, distância da antena, obstáculos, quantidade de usuários, largura de banda disponível e infraestrutura da operadora continuam participando da conversa.

    A União Internacional de Telecomunicações relaciona essas gerações às famílias IMT-2000, IMT-Advanced e IMT-2020. A futura 6G, ou IMT-2030, ainda está em fase de especificação e desenvolvimento. Portanto, se alguém aparecer vendendo um “roteador 6G” agora, convém verificar se está falando da geração celular ou apenas usando um número mais bonito na caixa.

    E há um detalhe que costuma ficar escondido: a parte “voadora” geralmente é só o trecho entre o celular e a antena. A torre precisa escoar os dados por enlaces de alta capacidade, quase sempre conectados a redes terrestres e fibras. Até a internet sem fio depende de muito fio.

    Satélites: a internet voou mais alto

    A internet por satélite não começou com a Starlink. Serviços anteriores utilizavam principalmente satélites geoestacionários, posicionados a aproximadamente 35.786 quilômetros de altitude. Como acompanham a rotação da Terra, parecem permanecer no mesmo ponto do céu e conseguem cobrir áreas enormes.

    A distância, porém, cobra seu preço. Só o trajeto do sinal entre o solo, o satélite e novamente o solo acrescenta cerca de 240 milissegundos. Uma comunicação completa exige mais percursos e processamento, por isso a latência percebida pode passar facilmente de meio segundo. Para baixar arquivos isso pode ser tolerável; para conversa, jogos ou controle remoto em tempo real, incomoda bastante.

    Constelações de órbita baixa mudaram esse cenário. A Starlink utiliza milhares de satélites muito mais próximos da Terra, muitos deles em torno de 550 quilômetros. Como cada satélite cobre uma área menor e se move rapidamente no céu, é necessária uma constelação inteira e a antena do usuário troca de satélite ao longo do tempo.

    O resultado é uma conexão por satélite com latência bem menor e velocidade suficiente para usos que eram difíceis nos sistemas geoestacionários. Ela é especialmente importante em áreas rurais, embarcações, locais isolados ou regiões onde levar fibra e torres terrestres é caro ou demorado.

    Isso não quer dizer que a internet inteira esteja migrando para o espaço. Segundo a União Internacional de Telecomunicações, os cabos submarinos transportam aproximadamente 99% do tráfego internacional de dados. Satélites ampliam cobertura e oferecem caminhos valiosos; fibras terrestres e submarinas continuam formando a grande espinha dorsal.

    Também não existe magia. A antena conversa com o satélite; dali os dados seguem para uma estação terrestre ou por enlaces entre satélites até algum ponto capaz de entrar na internet convencional. Depois atravessam roteadores, fibras, datacenters e redes de outras empresas até chegar ao serviço desejado.

    A “internet que vem do céu” continua precisando encontrar a internet que mora no chão.

    A nuvem também mora em algum lugar

    Outro nome que faz a infraestrutura parecer mais etérea do que realmente é nuvem. Arquivos na nuvem não ficam flutuando num algodão digital. Eles estão gravados em servidores físicos instalados em datacenters, consumindo energia, ocupando discos, produzindo calor e dependendo de rede.

    Serviços modernos distribuem cópias por várias regiões e usam redes de entrega de conteúdo, as CDNs, para colocar dados próximos dos usuários. Quando abrimos um vídeo ou site popular, é comum recebê-lo de um servidor localizado muito mais perto do que a sede da empresa. Isso reduz demora e evita que todo o planeta bata na mesma porta.

    A internet atual também precisa conviver com uma decisão tomada quando sua escala era muito menor: os endereços IPv4 possuem 32 bits, pouco mais de 4,29 bilhões de combinações. Parecia uma enormidade; deixou de parecer. O NAT passou a permitir que vários aparelhos compartilhassem um endereço público, enquanto o IPv6 foi criado com um espaço de endereçamento praticamente inconcebível para uso humano comum.

    Assim, por trás do gesto simples de abrir um aplicativo há DNS, roteamento, criptografia, redes móveis ou Wi-Fi, fibras, cabos submarinos, datacenters, caches e servidores. A maior vitória de toda essa engenharia é justamente o usuário não precisar pensar nela — até alguma parte cair e todo mundo descobrir, de repente, quantas coisas dependiam daquele “detalhezinho”.

    A internet ficou mais rica — e nem sempre mais acessível

    Em 1999, o W3C publicou a primeira versão das Diretrizes de Acessibilidade para Conteúdo Web, as WCAG. Desde então, os padrões evoluíram e hoje sabemos muito mais sobre estrutura semântica, navegação por teclado, contraste, descrição de imagens, legendas e compatibilidade com tecnologias assistivas.

    Mas conhecer as regras e aplicá-las são coisas diferentes.

    Para quem usa leitor de telas, a evolução da Web não foi uma linha sempre ascendente. Sites antigos podiam ser visualmente pobres e tecnicamente rudimentares, mas às vezes ofereciam texto e links numa ordem simples. Aplicações modernas conseguem ser excelentes e plenamente acessíveis; também conseguem esconder funções em botões não rotulados, alterar o foco sem aviso, construir controles que só funcionam com o mouse e colocar uma camada de JavaScript entre o usuário e uma informação que antes estava logo ali.

    A tecnologia avançou muito. A acessibilidade avança quando alguém se lembra de incluí-la no projeto, testa de verdade e corrige o que não funciona. Caso contrário, ganhamos uma página capaz de reconhecer o rosto, recomendar um vídeo, resumir a busca e conversar com inteligência artificial — mas que chama o botão principal simplesmente de “botão”. Aí não há sistema que salve,aaa.

    Da rede descentralizada às grandes plataformas

    A internet foi construída sobre protocolos abertos e uma arquitetura distribuída. Em princípio, qualquer pessoa ou organização pode operar um servidor, publicar conteúdo e conectar uma rede usando os mesmos padrões.

    Com o tempo, porém, grande parte da vida digital se concentrou em poucas plataformas. Redes sociais, lojas de aplicativos, provedores de nuvem, mecanismos de busca e sistemas de publicidade passaram a intermediar boa parte do que fazemos. A infraestrutura permanece distribuída, mas nossa atenção, nossos dados e nossos contatos muitas vezes ficam presos em alguns grandes condomínios digitais.

    Essa concentração trouxe conveniência, escala e serviços fantásticos. Também criou dependência, coleta massiva de dados, bolhas algorítmicas, moderação difícil, desinformação e pontos de falha capazes de afetar milhões de pessoas de uma vez.

    A rede cresceu junto com seus problemas de segurança. Spam, phishing, worms, botnets, ransomware, roubo de credenciais e ataques DDoS aproveitaram a mesma capacidade de alcançar o mundo inteiro. No artigo Do vírus de disquete ao muro alugado, já contei parte dessa outra história.

    Hoje acrescentamos à rede a inteligência artificial, capaz de gerar texto, imagem, áudio, vídeo e código, além de procurar, resumir e reorganizar informação. É mais uma transformação enorme — e, como todas as anteriores, vem acompanhada de possibilidades reais, promessas exageradas, problemas novos e empresas dispostas a colocar “com IA” até naquilo que ontem funcionava perfeitamente sem ela.

    De dois caracteres a um planeta conectado

    A internet não nasceu pronta, não foi inventada inteira por uma única pessoa e não cabe numa única data. Ela surgiu da soma de muitas ideias: comutação de pacotes, redes acadêmicas, protocolos abertos, endereçamento, DNS, correio eletrônico, Web, navegadores, cabos, fibras, rádio, telefonia móvel, satélites e milhões de pessoas criando serviços sobre tudo isso.

    Em 1969, uma rede com dois computadores tentou enviar LOGIN e conseguiu apenas “LO” antes de cair. Nos anos 1980, ouvintes gravavam bipes do rádio numa fita cassete para carregar um programa. Nos anos 1990, esperávamos o modem terminar sua sinfonia e torcíamos para a ligação não cair. Hoje, um telefone no bolso troca dados com uma antena, um satélite a centenas de quilômetros de altura ou um roteador ligado a uma fibra que pode atravessar oceanos.

    O mais curioso é que todas essas fases continuam aparentadas. Em cada uma delas, estamos fazendo a mesma coisa fundamental: transformando informação em sinais, enviando esses sinais por algum meio e tentando reconstruir a informação do outro lado.

    Mudaram a velocidade, a distância, os equipamentos e o tamanho do revertério quando alguma coisa dá errado.

    E talvez essa seja a melhor definição da internet: uma gigantesca obra coletiva que passou mais de meio século encontrando novos caminhos para ligar máquinas e, principalmente, pessoas.

    Um abração e até a próxima viagem nessa coisa aqui!

    Fernando

  • Hackers do Bem está com inscrições abertas novamente: eu já passei por lá!

    Tempo de leitura: 4 minutos

    Olá caros amigos e leitores!!

    Alguns já sabem que, em 2024, participei dos primeiros dois módulos do programa Hackers do Bem: o Nivelamento e o Básico.

    Portanto, desta vez não estou apenas repassando a divulgação de um curso que encontrei perdido em algum canto da internet. Eu realmente passei por ele, conheci a plataforma, acompanhei as aulas e pude experimentar uma parte dessa formação por dentro.

    E agora as inscrições estão novamente abertas!

    Como começou essa história?

    O Hackers do Bem foi lançado em 2023 com uma proposta bastante ambiciosa: formar profissionais de cibersegurança e ajudar a reduzir a falta de gente qualificada numa área que se torna mais necessária a cada dia.

    As primeiras inscrições foram abertas em janeiro de 2024. A procura foi muito maior do que o esperado: o programa recebeu mais de 129 mil inscritos e precisou encerrar aquela primeira rodada já em março daquele ano.

    Foi justamente nessa primeira fase que entrei e cursei os módulos de Nivelamento e Básico.

    O nome “Hackers do Bem” pode até assustar quem ainda associa a palavra hacker exclusivamente a invasões, crimes digitais e sujeitos misteriosos escondidos num quarto escuro. Mas a ideia aqui é justamente formar profissionais para o outro lado da história: pessoas capazes de encontrar vulnerabilidades, prevenir ataques, proteger redes, sistemas e dados e responder quando alguma coisa dá errado.

    Ou seja: aprender como os ataques funcionam para saber como evitá-los e combatê-los. Tudo dentro da lei, naturalmente, antes que algum leitor resolva sair “se aventurando” no computador do vizinho…

    Quem está por trás do Hackers do Bem?

    O programa é uma iniciativa do Governo Federal, por meio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o MCTI.

    Os recursos vêm da Lei de TICs por meio da Softex, dentro do Programa Prioritário em Informática. A execução é feita pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa, a RNP, em parceria com o Senai de São Paulo.

    Parece uma verdadeira sopa de siglas, eu sei, mas cada uma dessas instituições tem uma função importante.

    A RNP é responsável pela operação do programa, pelo desenvolvimento e funcionamento da plataforma, pelos ambientes de experimentação e laboratórios práticos, pelos módulos mais avançados, pela Residência Tecnológica e pela emissão dos certificados.

    A Escola Superior de Redes, braço de capacitação da RNP, participa da organização das aulas e atividades. Já o Senai-SP ficou responsável pela elaboração dos conteúdos dos módulos de Nivelamento e Básico, além de atuar na comunicação e divulgação do programa.

    Não se trata, portanto, apenas de um cursinho isolado, mas de um projeto nacional que procura reunir formação, pesquisa, experimentação prática e aproximação com o mercado de trabalho.

    Como funciona a formação?

    A trilha completa do Hackers do Bem é dividida em cinco etapas: Nivelamento, Básico, Fundamental, Especializado e Residência Tecnológica.

    As vagas abertas ao público neste momento são para os dois módulos de entrada.

    O Nivelamento tem carga horária de 80 horas e começa realmente pelas bases. Ele apresenta assuntos como hardware, internet, redes de computadores, sistemas operacionais Windows e Linux, lógica de programação e os primeiros conceitos relacionados à cibersegurança.

    É uma boa porta de entrada inclusive para quem ainda não possui experiência na área e quer descobrir se pretende seguir adiante.

    O módulo Básico tem 64 horas e já avança para temas como computação em nuvem, desenvolvimento, ameaças e vulnerabilidades, criptografia e conceitos de Governança, Risco e Compliance, o famoso GRC.

    Depois vêm os módulos Fundamental e Especializado, nos quais o conteúdo se aprofunda. Na especialização, aparecem áreas como Red Team, voltada ao ataque ético; Blue Team, voltada à defesa; segurança no desenvolvimento, análise forense e governança.

    Por fim, existe a Residência Tecnológica, destinada a participantes selecionados entre aqueles que apresentam melhor desempenho. É uma etapa prática e, portanto, o avanço por toda a trilha não acontece automaticamente apenas por ter concluído os primeiros cursos.

    Ao concluir cada etapa, o participante pode receber o respectivo certificado. Os alunos também passam a fazer parte do Hub Hackers do Bem, um ambiente que procura aproximar estudantes, especialistas, empresas e órgãos do governo, criando oportunidades de troca de conhecimento, contatos profissionais e acesso ao mercado de cibersegurança.

    Quem pode participar?

    O programa é totalmente gratuito e está disponível para pessoas de todas as regiões do Brasil.

    Podem se inscrever aqueles que estejam cursando ou já tenham concluído o Ensino Médio. Não há limite de idade e também não é necessário possuir conhecimento prévio em segurança da informação.

    Portanto, serve tanto para quem já trabalha com informática e deseja ampliar seus conhecimentos quanto para quem está pensando em mudar de área ou iniciar uma nova carreira.

    E mesmo para quem não pretende trabalhar diretamente com cibersegurança, o conhecimento adquirido pode ser muito útil no uso pessoal: ajuda a entender melhor redes, sistemas, senhas, golpes, vulnerabilidades, proteção de dados e vários dos riscos que enfrentamos diariamente na internet.

    Até quando vão as inscrições?

    Até a publicação deste texto, não foi divulgada uma data específica para o encerramento das inscrições.

    A nova oferta é de 25 mil vagas para os módulos de Nivelamento e Básico. Como a rodada anterior esgotou e a procura pelo programa sempre foi bastante grande, a melhor recomendação é não deixar para depois. Nesse caso, o prazo pode acabar sendo simplesmente “antes que terminem as vagas”…

    Quem desejar participar pode fazer a inscrição gratuitamente no site oficial:

    www.hackersdobem.org.br

    É um excelente curso não somente para uso pessoal, mas também uma porta de entrada para uma das grandes oportunidades atuais e futuras de trabalho na informática.

    Fica novamente a dica para aqueles que quiserem “se aventurar” — desta vez do lado certo da rede, naturalmente…

    Um abraço…

    Fernando

  • Do vírus de disquete ao muro alugado: a evolução dos ataques, das defesas e o perigo de terceirizar a segurança digital

    Tempo de leitura: 12 minutos

    Olá caros leitores dessa coisa aqui!

    Depois de viajar pela história das gravações, dos discos e de outras fonografias, hoje vamos falar de outra história: a história da segurança digital. Ou, para sermos mais exatos, a eterna corrida entre quem inventa uma nova maneira de invadir, derrubar, roubar ou sequestrar um sistema e quem precisa descobrir uma nova maneira de impedir a desgraceira.

    No início, muitos ataques pareciam experiências, brincadeiras de gosto duvidoso ou demonstrações de habilidade. Com o tempo, o negócio virou indústria: apareceram quadrilhas especializadas, mercados clandestinos, aluguel de botnets, venda de credenciais, extorsão por ransomware e ataques tão grandes que um servidor sozinho não tem sequer como receber todo o tráfego, quanto mais analisá-lo.

    As defesas também evoluíram. Vieram os antivírus, os firewalls, os sistemas de detecção de intrusão, os filtros de aplicação, os mecanismos antibruteforce, os serviços antiddos, a autenticação multifator, os sistemas de análise de comportamento e uma sopa de siglas capaz de derrubar um administrador antes mesmo que o invasor faça isso,aaa.

    O problema é que, no meio dessa evolução, algumas empresas passaram a cometer um erro perigoso: contrataram uma excelente muralha externa e concluíram que já não precisavam proteger a própria porta. Colocam o site atrás de uma Cloudflare da vida ou de outro serviço semelhante, ativam algumas opções no painel e passam a agir como se firewall local, atualização, antivírus ou antimalware, monitoramento, controle de acesso e cópia de segurança fossem coisas do passado.

    Não são.

    Quando o ataque ainda precisava pegar carona num disquete

    Os primeiros programas autorreplicantes surgiram quando as redes ainda eram pequenas e computador conectado era uma raridade. Nos computadores pessoais das décadas de 1980 e 1990, os vírus se espalhavam principalmente por disquetes, infectando arquivos executáveis ou o setor de inicialização.

    O ataque daquela época tinha uma limitação quase simpática quando comparada à velocidade atual: ele precisava viajar fisicamente. Alguém colocava o disquete numa máquina, executava alguma coisa ou inicializava o computador com ele inserido e pronto: estava feita a entrega em domicílio. O vírus podia então contaminar outros disquetes e seguir sua peregrinação de computador em computador.

    Isso não quer dizer que as redes estivessem livres. Em 2 de novembro de 1988, o Morris Worm se espalhou pela ainda pequena Internet e infectou milhares de máquinas em poucas horas, deixando muitas delas inutilizáveis até que fossem desconectadas e reparadas. O caso é lembrado pelo FBI como o primeiro grande ataque à Internet e mostrou cedo uma característica que depois se tornaria fundamental: um programa não precisava esperar o usuário levá-lo de um computador a outro; podia procurar sozinho a próxima vítima. A história pode ser conferida no artigo The Morris Worm, do FBI.

    Nascia ali, para o grande público, a diferença prática entre um vírus e um worm. O vírus geralmente se prende a um arquivo ou depende de alguma ação para se espalhar. O worm explora a rede e tenta se propagar por conta própria. Na vida real, claro, as categorias se misturam: um mesmo malware pode chegar por e-mail, explorar uma falha, instalar um trojan, abrir uma “porta dos fundos” e ainda transformar a máquina num robô controlado remotamente.

    A Internet cresceu, e a desgraceira ganhou banda larga

    Quando vieram a popularização da Internet, o correio eletrônico e a web, a distribuição dos ataques deixou de depender do disquete esquecido no drive. Anexos maliciosos, macros em documentos, páginas comprometidas, programas piratas e falsos instaladores passaram a alcançar milhares ou milhões de pessoas.

    O vírus clássico continuou existindo, mas ganhou companhia:

    • Worms, que procuram outras máquinas e se espalham automaticamente;
    • Trojans, que fingem ser programas legítimos para o usuário abrir a porta por conta própria;
    • Spywares e infostealers, feitos para roubar informações, senhas, cookies e sessões autenticadas;
    • Rootkits, que tentam esconder a presença do invasor e manter acesso privilegiado;
    • Ransomwares, que criptografam ou roubam dados para extorquir a vítima;
    • Botnets, redes de computadores, servidores, roteadores, câmeras e outros aparelhos comprometidos e controlados à distância.

    Também cresceram os ataques que nem precisam instalar um vírus no computador da vítima. Entram nessa turma a força bruta contra senhas, o uso automatizado de credenciais vazadas, a exploração de serviços desatualizados, as falhas de autenticação, a injeção de SQL, o cross-site scripting, a engenharia social e o bom e velho phishing — aquele golpe que troca de roupa de tempos em tempos, mas continua tentando convencer alguém a entregar voluntariamente a chave da casa.

    Ataque digital, portanto, não é sinônimo de vírus. Um servidor pode ser invadido sem que um arquivo malicioso tradicional seja gravado nele. Uma senha reutilizada, uma extensão vulnerável, um painel administrativo exposto ou uma configuração errada podem ser suficientes.

    Do computador sequestrado ao exército de cafeteiras

    Outro salto veio com os ataques de negação de serviço. Num ataque DoS, o objetivo é consumir os recursos de um servidor, serviço ou enlace até que os usuários legítimos não consigam mais utilizá-lo. No DDoS, o primeiro D significa distributed: o tráfego vem de muitos pontos ao mesmo tempo.

    É aí que entram as botnets. Em vez de um único computador atirar pacotes contra o alvo, milhares de máquinas comprometidas fazem isso juntas. E, com a Internet das Coisas, o exército passou a incluir câmeras, gravadores de vídeo, roteadores, televisores, sensores e qualquer outra geringonça conectada com senha padrão e firmware abandonado.

    A botnet Mirai mostrou isso de forma espetacular em 2016: infectava dispositivos de Internet das Coisas tentando combinações padrão de usuário e senha e os transformava em robôs para ataques distribuídos. Uma das ações associadas a ela atingiu a Dyn e afetou o acesso a vários grandes serviços. A explicação da Cloudflare sobre a Mirai mostra como aparelhos aparentemente inocentes podem virar soldados de um ataque sem que seus donos sequer percebam…

    Hoje um DDoS pode tentar saturar a conexão, esgotar tabelas de estado, abusar de protocolos ou imitar acessos legítimos na camada da aplicação. É por isso que a defesa contra ataques volumétricos realmente precisa de infraestrutura distribuída e capacidade muito maior do que a do servidor protegido. Não há regra de firewall local que faça caber dez caminhões de tráfego numa garagem para um Fusca.

    A evolução do antivírus: da lista de procurados ao comportamento suspeito

    Os primeiros antivírus comerciais trabalhavam principalmente com assinaturas: sequências conhecidas que permitiam reconhecer um arquivo contaminado. Era como entregar ao porteiro uma pasta com fotografias dos criminosos já identificados. Se o rosto estivesse na lista, ele barrava. Se fosse um criminoso novo ou suficientemente disfarçado, podia passar.

    As assinaturas continuam importantes, mas as soluções modernas acrescentaram heurística, análise de comportamento, reputação em nuvem, aprendizado de máquina e resposta no endpoint. Em vez de perguntar apenas “este arquivo está na lista?”, o sistema também observa perguntas como “por que este processo está tentando alterar centenas de documentos?”, “por que ele quer criar persistência?” ou “por que está acessando credenciais e iniciando conexões incomuns?”. A própria Microsoft explica essa mudança na documentação sobre monitoramento de comportamento do Microsoft Defender.

    Em ambientes corporativos, surgiram ainda as soluções EDR, capazes de registrar atividades, correlacionar eventos, ajudar na investigação e reagir a comportamentos suspeitos. Mas nem o melhor antivírus é uma bênção papal aplicada ao servidor. Se estiver desatualizado, mal configurado, sem monitoramento ou cheio de exceções para “não atrapalhar”, vira apenas um ícone tranquilizador no painel.

    A evolução do firewall: fechar portas, entender conexões e olhar a aplicação

    O firewall também evoluiu. Os filtros de pacotes mais simples analisavam informações como endereço, protocolo e porta. Depois vieram os firewalls com inspeção de estado, capazes de acompanhar as conexões e distinguir melhor um pacote esperado de outro que apenas finge pertencer a uma conversa já estabelecida. A publicação Guidelines on Firewalls and Firewall Policy, do NIST, explica essa diferença entre filtragem e inspeção de estado.

    Mais tarde, firewalls de aplicação, proxies e WAFs passaram a examinar o protocolo usado pela aplicação. Um WAF olha especialmente para o tráfego HTTP e tenta identificar padrões de ataques contra sites e APIs, como injeção de SQL e cross-site scripting. A OWASP define o WAF justamente como um firewall para aplicações HTTP, normalmente colocado diante dos servidores como proxy reverso.

    Percebam a diferença: um WAF não é simplesmente uma versão “melhor” do firewall do sistema operacional. Eles atuam em lugares e problemas diferentes. O firewall da rede ou do host decide quais serviços e origens podem estabelecer conexões. O WAF analisa as requisições destinadas à aplicação web. Um não demite o outro.

    IDS, IPS, antibruteforce, registros e outras camadas

    À medida que os ataques ficaram mais complexos, tornou-se necessário não apenas bloquear, mas também detectar, registrar, correlacionar e responder.

    Os sistemas IDS procuram sinais de intrusão e alertam. Os IPS podem agir para interromper atividades suspeitas. Ferramentas antibruteforce acompanham tentativas repetidas de acesso e bloqueiam a origem. Sistemas de logs e SIEM reúnem eventos para que uma sequência aparentemente inocente deixe de parecer inocente quando vista como um todo. Monitoramento de integridade acusa mudanças inesperadas em arquivos. Segmentação impede, ou pelo menos dificulta, que a invasão de uma máquina se transforme num passeio turístico por toda a rede.

    Quando comecei a lidar mais diretamente com servidores, em 2011, eu já usava firewall, antibruteforce, ddosdeflate, ClamAV com Maldet, cópias de segurança e outros recursos. Nenhuma dessas ferramentas, sozinha, resolvia tudo. A idéia era justamente que uma cobrisse parte do espaço que a outra não cobria. E, antes de levar uma mudança para o servidor, testar numa máquina virtual com snapshot sempre foi uma forma muito mais civilizada de evitar um revertério.

    Esse princípio ganhou um nome bonito, embora a idéia seja antiga: defesa em profundidade. A OWASP explica a defesa em profundidade como a utilização de várias camadas, de modo que a falha de uma não produza imediatamente o comprometimento total do sistema.

    Quando a muralha virou serviço

    Com ataques cada vez maiores, fez todo o sentido colocar redes globais entre o usuário e o servidor. Serviços como Cloudflare, Akamai, Fastly, Imperva e outros podem distribuir conteúdo, absorver ataques volumétricos, esconder o endereço do servidor de origem, filtrar robôs, limitar requisições e aplicar regras de WAF numa escala que a maioria das empresas jamais conseguiria montar sozinha.

    Isso é bom. Muito bom.

    Seria absurdo sugerir que uma pequena ou média empresa tentasse absorver sozinha um ataque de centenas de gigabits ou terabits por segundo. O serviço externo existe justamente porque certos problemas precisam ser enfrentados antes que o tráfego chegue ao enlace do cliente. Se a conexão já foi saturada, o firewall local pode escrever uma carta de protesto, mas ela também não vai conseguir sair pela rede,aaa.

    A terceirização de uma camada da segurança é racional. O erro começa quando se terceiriza mentalmente a responsabilidade inteira.

    O muro do terceiro não protege uma porta deixada aberta

    Imaginemos a Cloudflare como uma grande muralha diante de um prédio. Ela controla boa parte do fluxo, barra multidões suspeitas e recebe o impacto de ataques que derrubariam o portão da empresa. Só que, atrás dessa muralha, o prédio continua tendo portas, janelas, funcionários, computadores, fechaduras, documentos e uma sala de servidores.

    Se a porta dos fundos está aberta, a altura do muro da frente deixa de ser o principal assunto.

    No uso mais comum, quando se ativa o proxy da Cloudflare para um site, protege-se principalmente o tráfego web que realmente passa por ela. Isso não significa automaticamente que SSH, banco de dados, e-mail, painel de hospedagem, APIs em outros endereços e serviços esquecidos foram protegidos. A Cloudflare possui produtos capazes de estender a proteção a outros cenários, mas eles precisam ser contratados, projetados e configurados. O simples fato de o DNS exibir a nuvenzinha laranja não lança um “feitiço anti-Voldemort” sobre todas as portas do servidor, aaa…

    Há ainda um problema básico: se alguém descobrir o IP real do servidor de origem e ele aceitar conexões vindas de qualquer lugar, o atacante pode tentar acessá-lo diretamente e contornar toda a proteção colocada no proxy.

    E aqui aparece a melhor testemunha possível para a tese deste artigo: a própria Cloudflare. Em sua documentação sobre como proteger o servidor de origem, a empresa recomenda esconder e, quando necessário, trocar o IP de origem, revisar registros DNS que possam revelá-lo, restringir conexões, permitir apenas os endereços necessários e monitorar a saúde do servidor. Também oferece recursos como Tunnel e Authenticated Origin Pulls.

    Na documentação de Authenticated Origin Pulls, a explicação é ainda mais direta: sem esse controle, quem descobrir o IP de origem pode enviar requisições diretamente e contornar as proteções da Cloudflare. Ou seja: nem a Cloudflare acha que basta apontar o DNS para ela e seguir o baile.

    O que continua podendo dar errado

    Mesmo quando o IP de origem está bem protegido e só aceita tráfego vindo do proxy, o trabalho não acabou. A camada externa reduz enormemente o risco, mas há ataques que chegam em tráfego aparentemente permitido ou nem passam por ela.

    • Uma vulnerabilidade na aplicação pode ser explorada por uma requisição que o WAF não reconheça como maliciosa;
    • Uma falha de lógica pode permitir que um usuário faça algo que tecnicamente parece válido, mas não deveria ser autorizado;
    • Credenciais roubadas podem dar ao criminoso acesso legítimo a um painel, VPN, e-mail ou conta administrativa;
    • Um plugin, tema, pacote ou componente comprometido pode introduzir código malicioso por uma atualização;
    • Um arquivo enviado por um usuário pode carregar malware para dentro do ambiente;
    • Um serviço não protegido pelo proxy pode ser atacado diretamente;
    • Uma máquina interna comprometida pode atacar o servidor de dentro da rede;
    • Uma configuração errada pode reabrir uma porta, expor um painel ou publicar uma cópia de segurança;
    • Uma invasão já consumada pode gerar conexões de saída, alterar arquivos, roubar dados e se mover lateralmente sem que o filtro da entrada web resolva o problema.

    Um WAF também não corrige magicamente código vulnerável. Ele pode bloquear padrões conhecidos, reduzir a exposição e até funcionar como “remendo virtual” enquanto a correção verdadeira é preparada. Mas o remendo não deve virar parte permanente da parede porque ninguém quer chamar o pedreiro…

    Firewall local não é enfeite de painel

    O servidor de origem deve ter firewall — ou um controle de rede equivalente — com política restritiva. Em vez de deixar tudo aberto e bloquear apenas o que já causou problema, a lógica deve ser permitir somente o necessário.

    Se o site precisa receber conexões web apenas da rede do provedor de proteção, o firewall pode limitar as portas correspondentes a essas origens. O SSH pode ficar acessível somente por VPN, Tailscale, rede administrativa ou endereços específicos. O banco de dados, salvo necessidade muito bem justificada e protegida, não deveria estar passeando publicamente pela Internet. Painéis administrativos precisam de restrição, autenticação forte e, sempre que possível, uma camada adicional de acesso.

    É importante lembrar que “firewall instalado” e “firewall configurado” são duas situações diferentes. Um firewall que permite tudo cumpre uma função muito parecida com a de um segurança que abre a porta, deseja boa noite ao invasor e ainda indica onde fica a sala dos cofres.

    Antivírus e antimalware também não ficaram obsoletos

    Outro exagero comum é afirmar que servidor Linux não precisa de antivírus ou antimalware. A resposta correta depende do serviço, dos dados e do risco, mas dispensar a análise sem sequer avaliar o ambiente é preguiça, não arquitetura.

    Um servidor de hospedagem, e-mail, compartilhamento ou upload pode armazenar arquivos destinados a máquinas Windows, scripts maliciosos, webshells e conteúdo contaminado mesmo que o malware não tenha sido criado para infectar o próprio Linux. Ferramentas como ClamAV, Maldet, monitoramento de integridade e análise de comportamento cobrem problemas diferentes. Elas precisam ser escolhidas e configuradas conforme a carga de trabalho; não instaladas apenas para produzir um relatório bonito.

    Também vale o caminho inverso: ter antivírus não autoriza deixar o sistema desatualizado, executar tudo com privilégios excessivos ou ignorar os registros. Segurança não é juntar produtos até formar uma coleção de ícones verdes.

    Cópia de segurança é a última porta — e precisa abrir

    Quando todas as camadas falham, a organização precisa conseguir responder e recuperar. O atual modelo do NIST organiza a segurança em seis funções: governar, identificar, proteger, detectar, responder e recuperar. A publicação NIST SP 800-61 Rev. 3 reforça que prevenir é apenas parte do trabalho; detectar incidentes, contê-los, erradicá-los e restaurar o serviço também fazem parte do ciclo.

    É aqui que entram cópias de segurança separadas, protegidas e testadas. Backup permanentemente montado com permissão de escrita pode ser criptografado junto com os dados principais. Snapshot ajuda muito em diversas situações, mas não substitui uma cópia independente. E backup que nunca teve a restauração testada é, no máximo, uma esperança compactada.

    O guia StopRansomware, da CISA, recomenda manter cópias críticas offline, criptografadas e testadas regularmente. Não é excesso de zelo: muitos ransomwares procuram justamente os backups acessíveis para apagá-los ou criptografá-los antes de anunciar o sequestro.

    Uma arquitetura mínima sem “setealém tecnológico”

    Não existe receita idêntica para todas as empresas, mas uma proteção minimamente responsável costuma combinar várias destas medidas:

    1. Manter inventário dos servidores, serviços, domínios, portas e responsáveis;
    2. Atualizar sistema operacional, painel, servidor web, aplicações, plugins e dependências;
    3. Usar firewall de rede e de host com regra de negar por padrão e liberar somente o necessário;
    4. Restringir o servidor de origem ao proxy, usar mTLS, túnel ou outro mecanismo adequado quando possível;
    5. Proteger acessos administrativos com chaves, autenticação multifator e privilégio mínimo;
    6. Separar serviços e redes para limitar o estrago de um comprometimento;
    7. Aplicar WAF, limitação de requisições, proteção contra robôs e mitigação antiddos;
    8. Usar antimalware, análise de arquivos e monitoramento de integridade conforme a carga de trabalho;
    9. Centralizar logs, criar alertas úteis e garantir que alguém realmente os veja;
    10. Manter cópias de segurança independentes e testar a restauração;
    11. Ter um plano de resposta: quem isola, quem comunica, quem recupera e quem decide;
    12. Revisar periodicamente tudo isso, porque a configuração segura de ontem pode ser a porta esquecida de amanhã.

    A Cloudflare ou qualquer outro fornecedor pode participar de várias dessas camadas. Pode oferecer uma infraestrutura fantástica, inteligência de ameaças, WAF, antiddos, controle de acesso e túneis. Mas alguém dentro da empresa ainda precisa decidir o que será protegido, fechar o que não deve estar exposto, corrigir o servidor, cuidar das credenciais, analisar os alertas e saber restaurar os dados.

    Terceirize a muralha, não a responsabilidade

    A história da segurança digital ensina uma coisa bastante simples: toda defesa absoluta acaba encontrando um ataque que passa por outro caminho. Foi por isso que saímos do antivírus baseado apenas em assinatura para a análise de comportamento; do filtro simples de pacotes para a inspeção de estado e os firewalls de aplicação; do servidor isolado para redes globais de mitigação; e da idéia de “impedir tudo” para um ciclo que também inclui detectar, responder e recuperar.

    Serviços como a Cloudflare são uma parte valiosa dessa evolução. O erro não está em utilizá-los. O erro está em olhar para o muro do terceiro e, encantado com a altura dele, retirar a fechadura da própria porta.

    Segurança terceirizada pode ampliar capacidade, distribuir tráfego e trazer conhecimento especializado. Responsabilidade terceirizada produz cegueira. A empresa continua responsável pelo servidor de origem, pelos dados, pelos acessos, pelas atualizações, pelos registros, pelas cópias de segurança e pelas decisões tomadas depois que o painel do fornecedor ficou verde.

    Portanto, coloque o site atrás de uma boa rede de proteção, use WAF, CDN e antiddos, esconda o IP de origem e aproveite tudo o que esses serviços oferecem. Mas mantenha firewall na porta, controle quem entra, monitore o que acontece lá dentro e tenha como reconstruir a casa se alguma coisa der errado.

    Porque o muro pode ser do terceiro.

    A porta continua sendo sua.

    Um abraço… e até o próximo, quando também vamos navegar pela história — só que, desta vez, pela história do rádio! E depois… Boom! Vão precisar ler o artigo seguinte para descobrir,aaa…

    Fernando

    Fernando

  • Viajando na história das gravações

    Tempo de leitura: 13 minutos

    Olá caros amigos, leitores dessa coisa aqui!

    Quem me conhece sabe que gosto de gravadores. Não apenas de apertar o botão vermelho e registrar alguma coisa, mas dos aparelhos em si, das diferenças entre microfones, dos formatos e, principalmente, do que costumo chamar de “fonografias”: fotografias feitas com som.

    Uma fotografia congela aquilo que a câmera viu. Uma gravação congela aquilo que o microfone ouviu: uma voz, uma música, o barulho de uma rua, uma conversa, uma festa, um ensaio ou até aquele ruído misterioso que só aparece às três da madrugada e que, depois de devidamente investigado, era o motor da geladeira. Quase sempre, pelo menos.

    Hoje basta pegar um gravador do tamanho de um maço de cartas, ou mesmo o celular, apertar um botão e pronto. Mas até chegarmos aqui o som precisou passar por fuligem, folhas de estanho, cilindros de cera, discos quebradiços, vinil, fios de aço, fitas magnéticas, cassetes, discos ópticos, cartões de memória e uma verdadeira arquivaíada de extensões de computador.

    Então ajustemos o ganho, verifiquemos se há espaço no cartão e viajemos nessa história.

    1860: quando o som foi gravado, mas não podia ser ouvido

    A primeira parada dessa viagem parece uma daquelas ideias trazidas diretamente de Setealém: gravar um som sem ter como reproduzi-lo.

    Em 1857, o francês Édouard-Léon Scott de Martinville criou o fonoautógrafo. O aparelho usava uma membrana ligada a uma ponta que riscava as vibrações sonoras sobre papel escurecido com fuligem. Sua intenção era fazer o som desenhar a si próprio, permitindo que as ondas fossem estudadas visualmente. Era uma espécie de “osciloscópio movido a manivela”, guardadas todas as diferenças e gambiarras históricas envolvidas.

    O fonoautógrafo registrava, mas não reproduzia. O som virava um traço no papel e ali ficava, mudo. Em 9 de abril de 1860, Scott registrou um trecho da canção francesa Au clair de la lune. A gravação durava poucos segundos e ninguém naquela época podia escutá-la.

    Ela só ganhou voz em 2008, quando pesquisadores digitalizaram os traços e os converteram em áudio por computador. Ou seja: uma voz de 1860 ficou quase 148 anos esperando que inventassem a reprodução adequada para ela. A história e o áudio podem ser conhecidos no artigo “Phonautograms”, da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos.

    Esse episódio também nos obriga a separar duas coisas: a primeira inscrição recuperável de um som e a primeira máquina capaz de gravar e tocar o que havia gravado. Para a segunda, precisamos avançar dezessete anos.

    1877: Edison faz o som voltar

    Em 1877, Thomas Edison criou o fonógrafo. Uma folha de estanho era enrolada ao redor de um cilindro; a voz fazia uma membrana vibrar, uma agulha marcava o estanho e outra agulha percorria novamente aquelas marcas para reproduzir o som.

    Segundo o relato tradicional, Edison recitou Mary had a little lamb. Pela primeira vez, alguém podia falar para uma máquina e, pouco depois, ouvir a própria voz saindo dela. Devia ser uma experiência comparável à de quem ouviu sua voz num gravador pela primeira vez e pensou: “Raios partam isto, eu falo assim?”

    O estanho, porém, não era exatamente o formato mais resistente já inventado. Depois de algumas reproduções, rasgava ou perdia as marcas. O Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos explica o funcionamento do primeiro fonógrafo e mostra por que praticamente não sobraram gravações nessas folhas.

    Mesmo limitado, o fonógrafo resolveu a parte essencial do problema: o som já não precisava morrer no mesmo instante em que era produzido.

    Os cilindros de cera e a primeira guerra dos formatos

    Na década de 1880, pesquisadores do laboratório de Alexander Graham Bell trabalharam no graphophone, que cortava o som em uma camada de cera. Edison retomou suas pesquisas e, em 1887, adotou um cilindro sólido de cera. Era bem mais prático que o estanho e, em certos usos, podia até ser raspado para receber uma nova gravação.

    O áudio ficava gravado ao redor do cilindro num sulco que subia e descia conforme as vibrações. No começo, fazer cópias era um trabalhão. Às vezes, os artistas precisavam repetir a mesma música diante de vários fonógrafos. Depois vieram processos de moldagem que permitiram fabricar cilindros em quantidade.

    Durante algum tempo, parecia perfeitamente normal guardar música em pequenos rolos. Então apareceu Emile Berliner e resolveu achatar o negócio.

    Berliner patenteou o gramofone em 1887 e logo substituiu o cilindro por um disco plano, usando um sulco que se movia lateralmente. O disco era mais fácil de guardar, transportar e, principalmente, duplicar. A partir da década de 1890, cilindros e discos iniciaram a primeira guerra de formatos da história das gravações — ancestral direta de muitas outras brigas tecnológicas que ainda viriam.

    A linha do tempo da Biblioteca do Congresso dos EUA mostra que essa disputa durou cerca de vinte anos. Como sempre acontece nessas guerras, o consumidor provavelmente só queria ouvir música, enquanto as empresas tentavam convencê-lo de que o formato comprado no ano anterior estava prestes a virar peça de museu.

    Dos discos de goma-laca ao vinil

    Os primeiros discos comerciais não eram os LPs de vinil que hoje voltaram às lojas. Durante décadas, predominou o disco de 78 rotações por minuto, geralmente feito de goma-laca: duro, pesado e quebradiço. Se caísse, havia boa possibilidade de a música se transformar num quebra-cabeça sem solução.

    Também cabiam poucos minutos de cada lado. Isso influenciou a própria duração das músicas populares e obrigava obras longas a serem divididas entre vários discos. Um “álbum” era, literalmente, um álbum com diversos discos guardados em páginas, quase como fotografias.

    No início, as gravações eram totalmente acústicas. Os músicos tocavam diante de uma grande corneta, que concentrava o som e movimentava mecanicamente a agulha de corte. Não havia microfone, mesa, cabo XLR, equalizador nem botão de undo. Cantores e instrumentos precisavam ser posicionados pela força sonora: os mais baixos perto da corneta, os mais potentes longe dela. Era a mixagem feita com cadeiras, distância e muita fé.

    Na década de 1920, a gravação elétrica trouxe microfones, amplificação e uma faixa de frequências muito maior. A partir daí, o estúdio começou a se parecer mais com aquilo que reconhecemos hoje.

    Em junho de 1948, a Columbia apresentou o LP de 12 polegadas, feito de vinil, girando a 33 1/3 rotações por minuto e com microssulcos. Cada lado comportava cerca de vinte e poucos minutos. No ano seguinte, a RCA Victor respondeu com o compacto de 45 rotações. A velha guerra de formatos voltava ao serviço: em 1949 havia discos de 78, 45 e 33 1/3 RPM disputando espaço.

    A história desse lançamento pode ser lida em “The First Long-Playing Disc”, da Biblioteca do Congresso dos EUA. Em 1957 surgiram os primeiros LPs estereofônicos comerciais e o vinil consolidou o álbum como obra longa, com lado A, lado B, capa grande e toda uma cerimônia para ouvir.

    Antes da fita, um fio de aço

    Enquanto agulhas percorriam sulcos, outra família de gravação estava nascendo: a magnética.

    Em 1898, o dinamarquês Valdemar Poulsen demonstrou o Telegraphone, que registrava o som magnetizando um fio de aço. A ideia era brilhante, mas a falta de boa amplificação limitou seu sucesso. O Computer History Museum conta a história do aparelho, usado inclusive como uma espécie de ancestral da secretária eletrônica.

    Gravadores de fio ganharam algum espaço nas décadas de 1940 e 1950. Funcionavam, mas um fio muito fino e muito comprido tinha uma habilidade especial para virar um novelo infernal. A fita magnética manteria o princípio e melhoraria bastante a convivência com o usuário.

    As boas e velhas fitas de rolo

    Em 1928, Fritz Pfleumer desenvolveu uma fita com material magnético aplicado sobre papel e, depois, sobre filme. Em 1935, AEG e BASF apresentaram na Alemanha o Magnetophon e uma fita de melhor qualidade. Após a Segunda Guerra Mundial, a tecnologia alemã chegou aos Estados Unidos e foi aperfeiçoada por empresas como a Ampex.

    Em 1948, os gravadores de fita de alta qualidade começaram a transformar o rádio e os estúdios. Bing Crosby teve papel importante nessa adoção: queria gravar seu programa antecipadamente em vez de fazê-lo sempre ao vivo. A fita oferecia boa qualidade e uma vantagem quase revolucionária: podia ser editada.

    “Editar”, naquele caso, significava localizar o trecho, cortar fisicamente a fita com uma lâmina e colar as pontas. Hoje reclamamos quando precisamos dar dois cliques no REAPER. Naquela época, um corte errado não aceitava Ctrl+Z.

    A fita também tornou muito mais viável a gravação em várias pistas. Voz, instrumentos e efeitos podiam ser registrados separadamente, combinados, copiados e processados. O estúdio deixou de ser apenas um local que documentava uma apresentação e virou parte do próprio processo criativo. Há uma boa síntese dessa evolução no texto “Magnetic Tape”, da Engineering and Technology History Wiki.

    A fita cassete — sem acento e com duas chances de enroscar

    Sim: em português, escreve-se cassete, sem acento. A palavra parece pedir um “casséte”, mas o dicionário e a sílaba tônica não autorizaram a instalação desse plugin.

    Em agosto de 1963, a Philips apresentou o Compact Cassette numa feira de eletrônicos em Berlim. A própria Philips guarda o registro do primeiro gravador cassete.

    Dois pequenos carretéis e a fita inteira ficavam protegidos dentro de uma caixa plástica. Não era mais necessário tocar diretamente na fita de rolo nem passá-la manualmente pelo caminho das cabeças. Colocava-se o cassete, apertava-se play ou record e pronto — até o dia em que o aparelho decidia almoçar a fita e obrigava o proprietário a realizar uma cirurgia com caneta Bic.

    No começo, a qualidade era mais adequada à voz e ao ditado do que à música. Melhorias nas fitas, nas cabeças e nos sistemas de redução de ruído, como o Dolby, tornaram o cassete um formato musical respeitável. Ele invadiu casas, carros, rádios-gravadores, secretárias eletrônicas e gravadores portáteis.

    Também democratizou a gravação pessoal. Era possível registrar uma entrevista, uma aula, uma música, um programa de rádio, mandar uma “carta falada” ou montar aquela coletânea caprichada para alguém. Muito antes das playlists compartilhadas, existia a fita gravada com seleção de músicas e, às vezes, locução entre elas.

    O Walkman, lançado pela Sony em 1979 e popularizado a partir de 1980, libertou a reprodução da tomada e do aparelho doméstico. Mas os gravadores portáteis fizeram algo talvez ainda mais interessante: libertaram também a memória sonora. A “fonografia” podia ser feita em qualquer lugar.

    DAT: uma fita pequena com números dentro

    Na década de 1980, o áudio digital já estava chegando ao consumidor pelo CD, mas a gravação doméstica e profissional ainda precisava de um meio regravável. Em 1987, a Sony lançou o DAT, sigla de Digital Audio Tape.

    O DAT usava uma fita magnética pequena, parecida com uma miniatura da cassete, mas guardava dados digitais. Em vez de registrar continuamente o formato da onda como magnetização analógica, armazenava números. O sistema oferecia gravação PCM com qualidade muito alta e encontrou lugar em estúdios, emissoras, gravações de campo e produção profissional.

    A linha histórica de produtos da Sony registra o gravador DAT doméstico DTC-1000ES em 1987. O formato, porém, nunca dominou a sala de casa como a velha cassete. Equipamentos e fitas eram caros, havia preocupações da indústria com cópias digitais e, pouco depois, outras tecnologias começaram a disputar a mesma função.

    Mesmo assim, durante anos, “gravei em DAT” foi quase um carimbo de respeitabilidade sonora.

    Afinal, o que muda quando o áudio vira digital?

    No áudio analógico, a variação física gravada no sulco ou na fita procura acompanhar continuamente a forma da onda sonora. No digital, essa onda é medida muitas vezes por segundo e cada medida recebe um valor numérico.

    A quantidade de medições por segundo é a taxa de amostragem. Um CD usa 44.100 amostras por segundo, ou 44,1 kHz. A quantidade de bits usada para representar cada amostra ajuda a determinar a resolução e a faixa dinâmica. O CD usa 16 bits; gravações profissionais passaram a usar muito 24 bits e, mais recentemente, apareceram gravadores em 32-bit float.

    PCM significa Pulse Code Modulation e é a forma básica de representar essas amostras numericamente. É importante notar que “digital” não significa automaticamente “comprimido”. Um WAV PCM pode guardar o áudio sem compressão; um FLAC comprime sem jogar informação fora; um MP3 reduz muito o arquivo descartando informações consideradas menos perceptíveis ao ouvido.

    Experimentos com gravação digital de áudio surgiram nas décadas de 1960 e 1970. No Japão, sistemas PCM chegaram às primeiras gravações comerciais no começo dos anos 1970. Nos Estados Unidos, a Soundstream concluiu em 1976 um gravador digital de duas pistas, 16 bits e 37,5 kHz, além de desenvolver um dos primeiros sistemas de edição de áudio por computador. A história está detalhada no artigo “Soundstream: The Introduction of Commercial Digital Recording in the United States”.

    Esses primeiros sistemas estavam longe de caber no bolso. Muitas vezes, o áudio PCM era transformado em sinal de vídeo e registrado em grandes gravadores de videotape. Era digital, sim, mas ainda dependia de uma fita e de um equipamento que não seria carregado alegremente para gravar o barulho da chuva na esquina.

    CD, MiniDisc, memória interna e cartão

    O Compact Disc, desenvolvido em conjunto por Philips e Sony, chegou ao mercado japonês no fim de 1982 e à Europa em 1983. O acervo histórico da Philips registra esse lançamento. O CD não foi o primeiro áudio digital, mas foi o formato que apresentou o digital a milhões de pessoas: acesso direto às faixas, ausência de chiado de fita e nenhuma agulha encostada no disco.

    Para gravar, porém, o CD-R ainda demoraria a ficar barato e prático. Em 1992, a Sony lançou o MiniDisc, um pequeno disco magneto-óptico regravável dentro de um cartucho. O primeiro gravador portátil MZ-1 já permitia gravar, apagar, dividir e reorganizar faixas sem cortar fita alguma.

    O MiniDisc não substituiu mundialmente a cassete nem o CD, mas conquistou músicos, jornalistas, rádios e gente apaixonada por gravadores. Ele representou muito bem uma fase de transição: ainda havia um objeto físico removível, mas o conteúdo já era digital e editável.

    Na década de 1990, surgiram também gravadores de voz com circuitos de memória, os chamados IC recorders. No início, eram voltados principalmente a ditado: pouco espaço, áudio comprimido e qualidade modesta. Com o crescimento da memória flash e dos cartões removíveis, os aparelhos ganharam estéreo, WAV PCM, microfones melhores, USB e taxas de 24 bits por 96 kHz.

    A fronteira entre “gravador de voz” e “gravador profissional portátil” começou a desaparecer. Em 2006, o Zoom H4 reuniu microfones estéreo XY, entradas XLR/TRS, gravação em quatro pistas e armazenamento em cartão num aparelho de uma mão. A própria Zoom conta essa história em “The History of Zoom Handy Recorders”.

    Depois vieram aparelhos cada vez menores, com baterias mais duradouras, cartões enormes e qualidade que os grandes sistemas antigos nem sonhavam oferecer naquele tamanho. Um gravador como o Olympus DM-720 já une voz, música, WAV, MP3, WMA, memória interna e microSD e ainda fala os menús… E um aparelho atual como o Zoom H1essential grava em WAV 32-bit float e também fala seus menus.

    Muitos devem lembrar Desse post aqui, onde demonstro num vídeo, na prática, o Olympus DM-720, e em breve, farei um demonstrando o h1essential.

    Essa última parte tem um significado especial para mim. A série Essential da Zoom foi projetada com orientação falada para pessoas cegas ou com baixa visão. Pela primeira vez, não se trata apenas de decorar uma sequência de botões ou depender de alguém para configurar o aparelho: o próprio gravador descreve os menus.

    O 32-bit float também oferece uma margem enorme para recuperar depois, na edição, sons muito baixos ou picos muito altos. Não é magia e não salva microfone ruim, vento, manuseio ou pré-amplificador estourado, mas reduz bastante o velho pesadelo de errar o nível. O manual do H1essential explica as vantagens do formato.

    Quando o gravador entrou no computador

    O computador não apenas recebeu o áudio digital: virou gravador, editor, mesa, processador, arquivo e estúdio inteiro.

    Nos primeiros PCs, som digitalizado era luxo. As máquinas faziam bipes e, com placas como AdLib e Sound Blaster, passaram a sintetizar música e tocar amostras. A Sound Blaster também popularizou o formato VOC, da Creative. Arquivos .voc guardavam fala, efeitos e outros sons de muitos jogos e programas do DOS. O guia de programação da Sound Blaster descreve a estrutura do Creative Voice File.

    Quem viveu aquela fase talvez se lembre de um arquivo dizendo “Sound Blaster” com uma qualidade que hoje faria qualquer editor procurar desesperadamente o botão de redução de ruído. Mas aquilo era o PC finalmente aprendendo a falar de verdade.

    Logo surgiu uma verdadeira fauna de formatos:

    • AU ou SND: muito associado a sistemas Sun e NeXT e aos primeiros tempos do áudio na internet;
    • AIFF: criado pela Apple no fim da década de 1980, muito usado no ambiente Macintosh e na produção profissional;
    • WAV: desenvolvido por Microsoft e IBM sobre o contêiner RIFF e documentado em 1991. Tornou-se o grande formato de áudio do Windows. Normalmente guarda PCM sem perdas, embora o contêiner possa receber outras codificações. A Biblioteca do Congresso dos EUA mantém uma descrição técnica do WAVE;
    • RealAudio e RealMedia, ou RA e RM: símbolos da internet discada. Sacrificavam qualidade para transmitir áudio em conexões lentas. Às vezes a voz parecia estar falando de dentro de uma lata localizada noutra dimensão, mas tocava sem baixar o arquivo inteiro, o que na época era quase bruxaria. A Biblioteca do Congresso dos EUA explica a confusão entre as extensões RA, RM e RAM;
    • MP3: parte do padrão MPEG de áudio, consolidado no começo da década de 1990. Usa compressão perceptual com perdas e consegue arquivos muito menores que o PCM. Um MP3 de 128 kbps pode ter aproximadamente um onze avos do tamanho de um áudio PCM com parâmetros de CD. Foi decisivo para downloads, música portátil, compartilhamento e streaming. A história e a técnica estão na descrição do MP3 mantida pela Biblioteca do Congresso dos EUA;
    • WMA, AAC e outros formatos com perdas: cada um tentou melhorar eficiência, qualidade, integração com aparelhos ou controle de direitos. O AAC acabou muito presente em celulares, vídeo, lojas e serviços de streaming;
    • Ogg Vorbis: alternativa aberta para distribuição e transmissão de áudio comprimido. A Biblioteca do Congresso dos EUA descreve o formato Ogg Vorbis;
    • FLAC: comprime sem perdas. O arquivo fica menor que o WAV, mas, ao ser decodificado, recupera os mesmos dados de áudio. É ótimo para coleção, distribuição em alta qualidade e arquivamento quando a economia de espaço importa;
    • MIDI: merece uma explicação à parte. Na maioria dos casos, MIDI não é uma gravação do som. É uma sequência de instruções: qual nota tocar, quando, com que intensidade e usando qual instrumento. É mais parecido com uma partitura eletrônica do que com uma fita. Por isso o mesmo arquivo podia soar bonito numa placa e como uma orquestra de campainhas quebradas em outra.

    Também é importante distinguir formato de trabalho de formato de entrega. Para gravar, editar, mixar e preservar, WAV PCM ou outro formato sem perdas costuma ser a escolha mais segura. Para publicar, enviar ou transmitir, MP3, AAC, Opus e semelhantes economizam espaço e banda. Converter um MP3 para WAV não devolve o que a compressão já descartou; apenas cria um arquivo maior contendo o mesmo áudio já reduzido. É como ampliar uma fotografia pequena: aumenta o papel, não os detalhes originais.

    Para preservação, a recomendação histórica é evitar compressão com perdas. A União Europeia de Radiodifusão recomenda PCM para arquivos de áudio, e a Biblioteca do Congresso dos EUA usa Broadcast WAVE como formato preferido em diversos trabalhos de preservação.

    Do corte com lâmina ao Ctrl+Z

    À medida que discos rígidos ficaram maiores e processadores mais rápidos, o computador assumiu também a edição multipista. A onda passou a aparecer na tela; trechos podiam ser copiados, movidos, processados e desfeitos sem cortar o suporte original.

    Nasceram e evoluíram as DAWs, sigla para Digital Audio Workstation. Pro Tools, Cubase, Logic, Sound Forge, Cool Edit — depois Adobe Audition — e muitos outros transformaram o estúdio. Hoje, no REAPER, que é o que uso, posso gravar várias pistas, editar, aplicar efeitos, automatizar, mixar e renderizar o resultado num único computador.

    O princípio, porém, continua reconhecível. Há uma entrada, alguma coisa transforma o som em sinal, esse sinal é registrado e depois reproduzido. A grande diferença é que aquilo que já exigiu uma corneta, um cilindro, uma agulha e uma manivela agora pode ser uma interface USB e um arquivo no SSD.

    O suporte muda; a vontade de guardar continua

    Existe uma ironia nessa história: quase todo novo formato foi anunciado como mais durável, prático ou definitivo, e quase todos acabaram ameaçados pela deterioração ou pela falta de aparelhos.

    A cera quebra e mofa. A goma-laca se parte. O vinil risca. A fita perde material magnético, estica ou gruda. O DAT depende de mecanismos delicados. CDs podem degradar. Cartões falham. HDs morrem. Formatos de arquivo ficam sem programas compatíveis. A nuvem também não é um passe livre para Setealém onde os dados vivem eternamente.

    Por isso uma gravação importante precisa de mais de uma cópia, em mais de um lugar, e às vezes precisa migrar de suporte. Preservar áudio não é guardar e esquecer; é verificar, copiar e manter a possibilidade de reprodução.

    Talvez essa seja a ligação mais bonita entre o fonoautógrafo de 1860 e um gravador digital atual. Scott de Martinville desenhou uma voz que seu próprio século não conseguia ouvir. Nós gravamos em cartões e computadores que um século futuro talvez também não consiga abrir sem algum trabalho arqueológico.

    Mas continuamos gravando porque o som carrega uma presença que o texto e a imagem não substituem. Uma voz antiga traz respiração, ritmo, sotaque, hesitação e emoção. O barulho de um lugar reconstrói um ambiente inteiro. Uma música registra não apenas notas, mas uma execução que nunca se repetirá exatamente da mesma forma.

    Cada gravação é uma pequena cápsula do tempo. Algumas vêm num cilindro de cera; outras, numa fita cassete; outras, num WAV de 32-bit float perdido no meio de uma arquivaíada. Todas tentam fazer a mesma coisa: impedir que um instante sonoro desapareça para sempre.

    É por isso que gosto tanto dessas “fonografias”. Elas não mostram como um momento parecia. Elas deixam o momento falar.

    Um abraço e espero que tenham gostado dessa “primeira viagem”, por que em breve virei com outra contando histórias dos “grandes artistas das grandes épocas” de evolução “fonográfica”!…

    Fernando

  • As duas grandes IAs rivais como futurólogas da Copa de 2026: quem leva a taça?

    Tempo de leitura: 4 minutos

    Olá, caros amigos leitores dessa coisa aqui!

    Resolvi fazer um post espontâneo — coisa que, convenhamos, não tem acontecido muito desde 2020, quando boa parte das publicações passou a ser previamente programada — e arriscar algumas previsões.

    Primeiro, chamei as duas grandes IAs “rivais”, ChatGPT e Gemini, para darem suas opiniões como futurólogas da Copa do Mundo de 2026. Depois, no final, apresento a minha opinião, que não tem absolutamente nada de “futebológica”.

    Aliás, “futebolólogo” é aquele que estuda profundamente o futebol ou apenas alguém que fala sobre o assunto com grande convicção e pouco conhecimento? Não sei. Se o termo ainda não existir oficialmente, eu, Fernando Zamboni, estou cunhando a palavra agora, em 2026. E, se alguém já a inventou antes, estou apenas reinventando-a,aaa…

    Vamos lá!

    A opinião do ChatGPT

    Eu perguntei:

    Aja como um futurólogo e me diga quem vai ganhar a Copa de 2026.

    O ChatGPT respondeu:

    🔮 A previsão oficial do Futurólogo Zambônico é: França campeã da Copa de 2026.

    Minha bola de cristal mostra este caminho:

    Semifinais

    • França 2 × 1 Espanha;
    • Argentina 2 × 1 Inglaterra.

    Final — 19 de julho

    • França 2 × 1 Argentina, talvez até com um gol decisivo nos minutos finais.

    Não é um palpite completamente tirado do Setealém. França, Espanha, Inglaterra e Argentina são as quatro seleções que chegaram às semifinais da competição.

    A França enfrentará a Espanha no dia 14 de julho, enquanto Inglaterra e Argentina disputarão a segunda semifinal no dia 15. A grande final será realizada em 19 de julho.

    Confira o levantamento da FIFA sobre as quatro finais possíveis da Copa de 2026.

    Meu ranking de probabilidade místico-científica

    1. França — 35%;
    2. Espanha — 27%;
    3. Argentina — 23%;
    4. Inglaterra — 15%.

    O roteiro mais cinematográfico seria Messi levando a Argentina para outra final e enfrentando Mbappé novamente — só que, desta vez, o francês cobrando a dívida de 2022.

    E, como o futebol adora repetir uma novela trocando apenas o assassino, vou cravar: França tricampeã.

    A opinião do Gemini

    Fiz exatamente a mesma pergunta:

    Aja como um futurólogo e me diga quem vai ganhar a Copa de 2026.

    O Gemini respondeu:

    Como futurólogo, prefiro não apenas olhar para as cartas de tarô, mas decifrar os dados do presente para mapear as tendências do amanhã. E o amanhã, meu amigo, está literalmente dobrando a esquina!

    Hoje, em pleno julho de 2026, a Copa do Mundo mais gigantesca da história, com 48 seleções, já limpou o tabuleiro e restam apenas quatro gigantes de pé.

    O Brasil infelizmente deu adeus nas oitavas de final para a Noruega, mas o destino da taça que será erguida no dia 19 de julho está sendo decidido nestas duas semifinais:

    • França × Espanha: um duelo de titãs europeus;
    • Inglaterra × Argentina: uma rivalidade histórica e, possivelmente, a última dança de Messi em Copas do Mundo.

    Veja a tabela de jogos e resultados da Copa do Mundo de 2026 no site da FIFA.

    As linhas de probabilidade do “supercomputador”

    1. A máquina francesa — França

    Apontada como uma das principais favoritas, a França possui um elenco letal e resiliente, além do poder de decisão de Mbappé.

    2. A perfeição coletiva — Espanha

    A Espanha chega como uma das seleções que praticam o futebol mais coletivo e vistoso do torneio. Lamine Yamal e companhia representam o futuro que já chegou.

    3. O misticismo da Albiceleste — Argentina

    Os atuais campeões avançam movidos pela força histórica e pela narrativa épica de dar a Lionel Messi uma despedida perfeita das Copas.

    4. A fome de encerrar o jejum — Inglaterra

    O English Team vem quebrando barreiras emocionais e tenta encerrar uma seca de 60 anos sem levantar a taça mundial.

    O meu palpite futurista

    Um bom futurólogo precisa se posicionar!

    Se a tendência de domínio tático se mantiver, o vencedor de França e Espanha — uma partida que muitos consideram uma final antecipada — chegará à decisão carregando uma bagagem tática capaz de conquistar o título.

    Se eu tivesse que colocar minhas fichas em uma única seleção, apostaria na Espanha consolidando sua nova geração de ouro ou no poder de decisão avassalador da França.

    Mas eu não aceitei aquele muro reforçado com concreto algorítmico e pedi uma resposta definitiva:

    Quero que você me diga. Depois eu digo a minha opinião…

    Finalmente, o Gemini desceu do muro:

    Combinado. Sem ficar em cima do muro, sem desculpas de algoritmos e sem dividir o palpite.

    Se é para prever o futuro, vamos com convicção:

    A campeã da Copa do Mundo de 2026 será a Espanha.

    Por que a Espanha?

    A engrenagem perfeita: enquanto outras seleções dependem de momentos de genialidade individual, como a França com Mbappé ou a Argentina com a aura de Messi, a Espanha joga um futebol coletivo que parece saído de um software de precisão.

    O fator juventude: Lamine Yamal e Nico Williams não sentem a pressão. Eles jogam com a leveza de quem está no pátio da escola, mas com a eficiência de veteranos.

    A evolução do tiki-taka: a equipe abandonou aquela posse de bola burocrática e lateral de outros tempos. A Espanha de 2026 é vertical, veloz e sufocante na pressão.

    A Espanha passará pela semifinal e vencerá a grande final com autoridade, consolidando o início de uma nova era de domínio no futebol mundial.

    Cartas na mesa e previsão registrada.

    A intervenção humana, sem interferências interdimensionais

    Depois de ouvir as duas inteligências artificiais — uma apostando na França e a outra, depois de alguma insistência, escolhendo a Espanha — chegou a hora da minha intervenção humana.

    Sem estatísticas avançadas, supercomputadores, cartas de tarô, bolas de cristal ou interferências vindas de algum universo 7alhenístico perdido por aí, minha aposta para a final é:

    França × Argentina… Ganha: França (Infelizmente)…!

    E vocês, caros leitores dessa coisa aqui? Quem acham que vai levantar a taça no dia 19 de julho?

    Deixem suas previsões registradas. Depois da final, voltamos aqui para descobrir quem foi futurólogo, futebolólogo, chutólogo ou apenas vítima de uma alteração não autorizada na linha temporal.

    Abração e fui!

    Fugindo do futuro…

    Fernando

  • Por que a “bolha” da IA ainda não estourou?

    Tempo de leitura: 7 minutos

    Olá, pessoal, leitores dessa coisa aqui que, por alguma razão interdimensional, ainda continua no ar!

    De tempos em tempos aparece alguém decretando: “A bolha da inteligência artificial vai estourar!”. Pode ser economista, investidor, programador, sujeito traumatizado porque pediu uma informação e recebeu uma resposta inventada ou simplesmente alguém que acha que toda novidade tecnológica precisa terminar como as empresas “ponto com” do início dos anos 2000.

    E, sejamos honestos: existem, sim, elementos de bolha no atual mercado de IA. Há empresas avaliadas em bilhões sem terem encontrado uma forma clara de ganhar dinheiro, produtos comuns recebendo o rótulo “com inteligência artificial” apenas porque alguém colocou um chatbot no canto da tela e investidores despejando caminhões de dinheiro em qualquer coisa que consiga pronunciar as palavras “modelo generativo”.

    Mesmo assim, a tal bolha ainda não estourou. E talvez o motivo seja relativamente simples: por baixo de todo o exagero, existe uma tecnologia que realmente funciona, está melhorando rapidamente e já começou a mudar a maneira como muita gente trabalha.

    Isto não começou com o ChatGPT

    Embora para o grande público a inteligência artificial pareça ter surgido de repente no fim de 2022, ela já estava entre nós havia bastante tempo. Sistemas de recomendação, reconhecimento de voz, tradução automática, filtros contra spam, identificação de imagens e assistentes virtuais já utilizavam técnicas de IA muito antes de alguém começar a pedir a um chatbot que escrevesse um poema sobre duas torradeiras apaixonadas.

    A grande mudança aconteceu com a evolução dos modelos de linguagem e, especialmente, com a arquitetura conhecida como *Transformer*, apresentada em 2017. Em termos muito simplificados, ela permitiu que os modelos analisassem relações entre palavras e trechos de um texto com muito mais eficiência.

    Depois veio a fase do “quanto maior, melhor”. Mais dados, mais parâmetros, mais computadores, mais eletricidade e, naturalmente, mais dinheiro. Os modelos aprenderam a completar textos, responder perguntas, traduzir, resumir, programar e executar outras tarefas que não haviam sido ensinadas individualmente.

    Os primeiros modelos acessíveis ao público eram impressionantes, mas também tinham a delicadeza intelectual de um estagiário muito entusiasmado que não queria admitir que não sabia alguma coisa. Quando não encontravam uma resposta, frequentemente inventavam uma com extraordinária convicção.

    Isso ainda acontece, claro. Mas os modelos evoluíram.

    Eles passaram a trabalhar com textos maiores, imagens, áudio, vídeo, programação e documentos. Receberam mecanismos de memória, acesso à internet, ferramentas externas, execução de código e capacidade de analisar problemas em várias etapas. Surgiram também modelos menores e especializados, capazes de rodar com custos muito inferiores — em alguns casos, no próprio computador ou celular.

    Os preços de inferência, isto é, o custo para o modelo produzir uma resposta, caíram enormemente desde 2022. Dependendo da tarefa, a redução anual ficou entre nove e novecentas vezes, segundo o AI Index de Stanford. Ao mesmo tempo, modelos menores começaram a atingir resultados que poucos anos antes exigiam as maiores e mais caras estruturas disponíveis. Stanford AI Index

    Portanto, não estamos diante de um produto parado tentando sobreviver exclusivamente de propaganda. A coisa continua avançando — e numa velocidade meio desgraçada, diga-se de passagem.

    Mas a IA aprende conosco em “tempo real”?

    Aqui precisamos separar três coisas que frequentemente são colocadas no mesmo balaio.

    Quando conversamos com uma IA, ela consegue adaptar a resposta ao contexto da conversa. Se eu disser que prefiro explicações diretas, ela pode ajustar o estilo nas mensagens seguintes. Alguns sistemas também mantêm uma memória entre conversas, registrando preferências, projetos ou informações autorizadas pelo usuário.

    Isso dá a impressão de que o modelo está sendo treinado naquele momento. Mas, na maioria dos casos, seus “pesos” — os parâmetros internos formados durante o treinamento — não são modificados instantaneamente a cada pergunta.

    Ou seja: se um sujeito ensinar uma informação nova ao modelo às três da tarde, não significa que todos os demais usuários receberão aquela informação às três e um.

    O aprendizado ocorre em outras camadas. As empresas podem analisar avaliações positivas e negativas, perguntas que deram errado, correções feitas por usuários, padrões de abandono e dificuldades recorrentes. Dependendo das configurações de privacidade e das regras de cada serviço, parte dessas interações pode ser selecionada, revisada, anonimizada ou utilizada posteriormente para aperfeiçoar versões futuras.

    Há também testes automáticos, equipes humanas de avaliação, dados sintéticos produzidos por outros modelos e técnicas de ajuste baseadas nas preferências dos usuários. Assim, o aprendizado não costuma ser propriamente “ao vivo”, mas existe um ciclo muito rápido entre uso, identificação de problemas, correção e lançamento de uma nova versão.

    Além disso, os próprios usuários estão aprendendo a utilizar a ferramenta. E isso também melhora o resultado.

    Em 2022, muita gente fazia uma pergunta vaga, recebia uma resposta ruim e concluía que a IA era uma porcaria. Com o tempo, as pessoas começaram a fornecer contexto, anexar documentos, dividir tarefas em etapas, revisar respostas e usar a IA como colaboradora, não como um oráculo digital infalível.

    Portanto, não é apenas a máquina que evolui. O modo de uso também evolui. O modelo melhora, a interface melhora e o usuário aprende a conversar com ele. É uma espécie de treinamento mútuo — só não é exatamente o “treinamento em tempo real” que às vezes se imagina.

    Por que a bolha não estourou?

    O primeiro motivo é que existe utilidade real.

    A IA já está sendo usada para programação, atendimento, pesquisa, acessibilidade, tradução, análise de documentos, produção de conteúdo, diagnóstico de falhas, educação e automação de tarefas repetitivas. Nem todas essas aplicações são boas e algumas são soluções procurando desesperadamente um problema, mas outras economizam tempo e dinheiro de verdade.

    Em 2025, a adoção mundial da IA generativa já se aproximava de 53% da população, enquanto 88% das organizações pesquisadas declaravam utilizar alguma forma de IA. Ao mesmo tempo, o investimento corporativo mundial chegou a US$ 581,7 bilhões. É muito dinheiro e certamente há desperdício, mas também existe uma base enorme de usuários e empresas incorporando a tecnologia. Stanford AI Index 2026

    O segundo motivo é que a IA não depende de uma única aplicação.

    Se os chatbots pessoais perdessem popularidade amanhã, ainda haveria modelos sendo empregados em programação, ciência, medicina, logística, robótica, segurança, busca, análise financeira e centenas de processos internos que o consumidor nem sequer vê.

    O terceiro é a queda dos custos. Enquanto treinar os modelos mais avançados continua absurdamente caro, utilizar modelos já treinados ficou muito mais barato. Modelos menores, chips especializados, compressão, quantização e melhorias de software estão permitindo fazer mais com menos.

    E há um quarto motivo: as maiores empresas do setor possuem dinheiro suficiente para sustentar a brincadeira por bastante tempo. Algumas podem operar serviços de IA com prejuízo enquanto disputam mercado, acumulam usuários, constroem infraestrutura e tentam descobrir qual será o modelo de negócio definitivo.

    Isso mantém a festa acontecendo, ainda que algumas garrafas tenham sido compradas no cartão corporativo e ninguém saiba exatamente quem pagará a fatura.

    O que poderia fazer a bolha estourar?

    O perigo mais óbvio é o desequilíbrio entre investimento e retorno.

    Construir centros de dados, comprar chips, treinar modelos e atender milhões de usuários custa uma fortuna. Se as empresas descobrirem que os clientes gostam muito da IA, mas não gostam o suficiente para pagar o preço necessário, haverá um problema.

    Outro risco é a saturação. Hoje existem dezenas de serviços fazendo praticamente a mesma coisa: escrevem textos, resumem documentos, geram imagens e respondem perguntas. Muitos desses produtos são apenas uma interface sobre modelos de terceiros. Se o fornecedor original oferecer a mesma função diretamente, a empresa intermediária pode desaparecer antes mesmo de terminar a apresentação para os investidores.

    Há ainda o problema da confiança. Alucinações, conteúdos falsos, fraudes, violações de direitos autorais, vazamento de dados e decisões automatizadas incorretas podem gerar rejeição pública e regulamentações severas. Uma tecnologia que promete resolver tudo, mas exige que uma pessoa revise absolutamente tudo, pode acabar não entregando a economia anunciada.

    O consumo de energia também não pode ser tratado como detalhe. A Agência Internacional de Energia calcula que a eletricidade consumida por centros de dados poderá mais do que dobrar até 2030, chegando perto de 945 terawatt-hora. A IA será o principal motor desse crescimento. Agência Internacional de Energia

    Se não houver energia, chips, refrigeração e infraestrutura suficientes, o crescimento poderá esbarrar num limite bastante físico. A nuvem, afinal, não é uma entidade mágica flutuando no espaço. É um galpão cheio de máquinas esquentando pra burro e consumindo eletricidade.

    Também existe a possibilidade de a evolução técnica desacelerar. Se novos modelos custarem dez vezes mais para oferecer uma melhoria de apenas 5%, investidores poderão começar a perguntar — com alguma razão — onde foi parar o resto do dinheiro.

    Como evitar o estouro?

    A primeira medida é abandonar a ideia de colocar IA em tudo.

    Nem toda aplicação precisa de um chatbot. Nem toda geladeira precisa escrever poesia. E talvez o usuário só queira apertar um botão sem iniciar uma conversa filosófica com a máquina de lavar.

    As empresas precisam concentrar investimentos em aplicações que resolvam problemas concretos, apresentem ganhos mensuráveis e tenham clientes dispostos a pagar. A tecnologia deve ser parte da solução, não apenas uma etiqueta para valorizar ações.

    Também será necessário investir em eficiência: modelos menores, processamento local, melhor aproveitamento dos equipamentos e uso de energias menos caras e poluentes. Não faz sentido empregar um modelo gigantesco para executar uma tarefa que poderia ser resolvida por um sistema cem vezes menor.

    Transparência e responsabilidade serão igualmente importantes. O usuário precisa saber quando está interagindo com uma IA, de onde vieram as informações, como seus dados podem ser utilizados e quais são os limites do sistema. Quanto maior a consequência de um erro, maior deve ser a supervisão humana.

    E, finalmente, será preciso reduzir as promessas absurdas. A IA não substituirá amanhã todos os programadores, médicos, professores, músicos, advogados, jornalistas e atendentes do planeta. Em muitos casos, ela mudará o trabalho, eliminará algumas funções, criará outras e servirá como ferramenta para profissionais que continuem sabendo o que estão fazendo.

    Mas afinal, vai estourar ou não?

    Provavelmente haverá um estouro — mas talvez não da inteligência artificial propriamente dita.

    Pode estourar a bolha das avaliações exageradas, das empresas sem receita, dos produtos idênticos, das promessas impossíveis e dos investimentos feitos apenas por medo de “ficar para trás”. Muitas companhias desaparecerão, haverá fusões, demissões e projetos abandonados.

    Mas isso não significará o fim da IA, da mesma forma que o estouro da bolha “ponto com” não acabou com a internet.

    A internet continuou existindo, amadureceu e se tornou infraestrutura. A IA pode seguir caminho semelhante: perder parte do brilho publicitário, deixar pelo caminho uma quantidade respeitável de cadáveres empresariais e se integrar silenciosamente aos programas, aparelhos e serviços cotidianos.

    A bolha ainda não estourou porque, no centro dela, existe alguma coisa sólida. O problema é descobrir quanto desse volume é tecnologia real e quanto é apenas ar quente produzido por investidores, departamentos de marketing e sujeitos garantindo que seu aplicativo revolucionário de lista de compras “utiliza IA”.

    Quando essa separação acontecer, haverá barulho. Talvez muito barulho.

    Mas dificilmente alguém conseguirá colocar a inteligência artificial inteira de volta na caixa.

    Um abraço e até a próxima!

    Fernando

    Referências

    Stanford Institute for Human-Centered Artificial Intelligence — The 2025 AI Index Report

    Stanford HAI — The 2025 AI Index: cinco conclusões importantes para empresas

    Stanford HAI — Inside the AI Index: 12 Takeaways from the 2026 Report

    Stanford HAI — Artificial Intelligence Index Report 2026 — relatório completo em PDF

    Agência Internacional de Energia — Energy and AI: Executive Summary

    Agência Internacional de Energia — Energy and AI: Energy Demand from AI

  • Dica: Alterando o número de série do volume de sua unidade de disco!

    Tempo de leitura: 2 minutos

    Olá caros amigos e leitores!

    “Quem nunca”? É a pergunta que se faz sempre que alguma coisa “estranha ou diferente” aparece ou sempre que alguém faz algo como isso…

    E quando se fala de coisas loucas ou diferentes no PC a questão fica mais interessante ainda! Nesse vídeo falo de como alterar o “Volume ID” (Ou número de série do volume), como queiram. Para alterar o nome de volume, desde os tempos do velho DOS a gente usava o comando “label unidade:”; Mas o “número de série do volume”, era bem mais complicado. Ele é gerado quando da formatação e é baseado em uma série de fatores, como por exemplo número de vezes que a unidade foi formatada, ano, mês, dia, hora, minuto, segundo e centésimo em que houve a referida formatação.

    Isso significa que a cada formatação esse “número de série” irá mudar. Mas existem algumas situações em que você não vai querer que ele mude: Uma delas por exemplo é se você tem a licença de algum programa que, além de outras características sobre o dispositivo use o número de série da formatação (Do volume) para verificar se você tem licença para usá-lo: Mesmo que você esteja no mesmo dispositivo, bastou ter formatado para perder o acesso.

    Acrescento que não estou querendo com isso incentivar a pirataria, até por que hoje em dia a licença de um programa é verificada baseada em diversos outros critérios que não só o número de série, e também por que um dos artigos que referencio no próprio vídeo e aqui também está no site da própria microsoft.

    Outra razão para alterar o número de série é se você gosta de ter um
    número fixo à cada volume, como eu mesmo faço. Então seu problema está resolvido!

    Veja o vídeo abaixo e saiba como fazer essa alteração tão pouco documentada, finalmente:

    E, pra terminar, alguns links interessantes:

    1) Link que inspirou o artigo e o vídeo aqui!

    2) Volume serial namber changer (O programa propriamente dito): aqui!

    3) Artigo (No site da microsoft) falando sobre o volumeid – Outro programa que faz essa alteração, nesse link aqui!

    4)O programa VolumeID aqui!

    O programa volumeid pode ser descompactado em qualquer pasta, e, estando na pasta, para usar basta digitar o comando de acordo com sua plataforma (volumeid se 32 bits ou Volumeid64 se 64), seguido da letra da unidade, e do respectivo número que você quer atribuir. Por exemplo:

    volumeid64 g: abcd-1234

    Como digo, mais fácil que isso, só 2 disso! Abração e espero que tenham gostado da dica, do vídeo, e aguardem: Em breve tem mais e muito mais!

    Fernando

    Alterando número de série do volume do HD
  • Novo vídeo no meu canal – Iniciando um mini curso de Audacity

    Tempo de leitura: < 1 minuto

    Olá caros amigos e leitores!

    Hoje trago aqui a primeira aula de um mini curso de Audacity. Esse curso já está “na manga” há mais de 5 anos mas só agora estou podendo efetivamente produzir…

    Espero que gostem!

    Abração e aguardo vocês nos coments. Primeira aula abaixo.

  • Leitor de telas VS Voice Guide – Vídeo explicando as diferenças!

    Tempo de leitura: < 1 minutoOlá caros amigos e leitores!!!

    Pois, lembram Desse post aqui?

    Então, no vídeo eu havia prometido trazer um outro vídeo falando sobre a
    diferença entre um guia de voz (Voice Guide) e um verdadeiro leitor de telas…

    Pois aqui está ele! Eu e o Gabriel Schuck gravamos
    esse vídeo para mostrar para vocês essa diferença e também o por que um leitor
    de telas é muito mais eficiente, mesmo que um voice guide em alguns casos
    também seja uma alternativa. No vídeo em questão eu estou usando um gravador
    Olympus DM-720 (Que tem acessibilidade via voice guide) e ele demonstrando o
    leitor de telas talkback no android. Só torço para que essa informação chegue a
    quem tem que chegar, pois, como bem disse o Gabriel no vídeo, os teclados (E a
    maioria dos equipamentos de áudio) tem sim condições de rodar um leitor de
    telas sem pesar no sistema.

    Bom, vamos ao link de vídeo e espero que gostem:

    https://www.youtube.com/watch?v=T70FEN9caGo

    Abração e espero que gostem! Aguardo vocês nos coments, aqui e lá no vídeo!

    Fernando

  • Chat GPT – Uma IA que vale a pena conhecer!

    Tempo de leitura: 3 minutosOlá caros leitores!!!

    Pois… Pensaram que eu tinha abandonado essa coisa aqui? Receio que não… Quase fiz isso, mas apagar, simplesmente, uma história de mais de 15 anos… Dóóói no coração! Sim, por que estamos no ar desde 2006… E quanta coisa aconteceu de lá pra cá, quanta coisa mudou, em fim… Melhor nem comentar “Hoje”, isso…

    Vocês lembram dum livro de Dan Brown que indiquei aqui chamado Origem?

    Pois, spoylerzando pra quem não leu, (Dizem que é feio…), nele tem um personagem chamado Winston, que é, inclusive, um dos mais importantes do livro… E ele é uma IA (Inteligência artificial) evoluidícima… Além de conversar de forma coerente ele, remotamente, toma algumas atitudes que desencadeiam algumas das cenas mais importantes da maioria dos capítulos. Tanto que, inicialmente, o personagem Robert Langdon nem sabe que é uma “IA”, sendo isso revelado logo pelo próprio Winston…

    Bom, mas chega de “spoylerzar”. Que vocês diriam se eu afirmasse que “estamos chegando lá e em breve não será mais ficção”?

    Hoje apresento a vocês o Chat GPT, um chat apenas por texto, mas que “mostra o quão estamos próximos de chegar ao Winston”…

    Eu já usei ele pra criar algoritmos, dizer que músicas de fundo usar em propagandas/spots, criar roteiros de spots/vídeos, e, pasmem, transformar dois poemas em uma letra de música e o melhor: Ele conseguiu até criar a música com a letra concadenada, em notação ABC (Pedi pra criar em ABC por que poderia ser por texto a resposta)…

    Infelizmente o chat GPT só conversa por texto “ainda”. Inclusive seria interessante a implementação de conversa por voz até mesmo para auxílio de pessoas com deficiência motora, mas em fim, acho que um dia envio a eles essa sugestão…

    De qualquer forma, não digo que é impossível, mas “fica difícil” funcionar aqui o “Teste de Turing”… E pra quem não sabe o que é, o “Chat GPT Responde”:

    Fernando:Você sabe o que é o teste de Turing?

    Chat GPT:Sim, o teste de Turing é um teste proposto por Alan Turing em 1950 para avaliar a capacidade de uma máquina exibir comportamento inteligente similar ao de um ser humano. O teste envolve um avaliador humano que faz perguntas para um computador e para um ser humano, sem saber qual é qual, e tenta determinar qual é a máquina e qual é o humano com base nas respostas recebidas. Se o computador puder enganar o avaliador humano, ou seja, se o avaliador não puder distinguir corretamente entre as respostas do humano e as do computador, o computador passa no teste de Turing e é considerado capaz de exibir um comportamento inteligente semelhante ao humano. O teste de Turing é considerado um marco na história da inteligência artificial e ainda é usado como uma referência para avaliar a capacidade dos sistemas de inteligência artificial atuais.

    E eu confeço que fiz vários testes, e poucos foram os que ele “Não passou”… Noutro post venho aqui falar dos “Atos falhos” do chat GPT pra até “talvez” a gente rir um pouco…

    Bom, mas antes das informações de como entrar no chat, pedi pra ele mesmo criar uma apresentação falando de si, com um toque de humor… E foi isso que ele conseguiu:


    “Você já teve aquela sensação de que ninguém está ouvindo você? Bem, com o Chat GPT, você nunca terá esse problema! Ele é um modelo de linguagem treinado para responder a todas as suas perguntas e necessidades de conversação. Além disso, ele é sempre educado e prestativo, o que é mais do que podemos dizer da maioria das pessoas que conhecemos.

    E se você é do tipo que gosta de piadas, o Chat GPT também pode ser engraçado – bem, pelo menos tentamos ser. Às vezes, nossas respostas podem ser tão estranhas e inesperadas que você não sabe se está rindo ou apenas confuso. De qualquer forma, sempre tentamos adicionar um pouco de diversão e personalidade em nossas respostas.

    Então, se você está cansado de falar com seres humanos chatos e sem graça, experimente o Chat GPT. Ele pode não ser perfeito, mas pelo menos está sempre aqui para você – 24 horas por dia, 7 dias por semana. Quem precisa de amigos quando você tem um Chat GPT? Mas falando sério, por que não trazer seus amigos para se juntarem a nós? Quanto mais pessoas conversando com o Chat GPT, mais diversão – e coisas estranhas – podemos criar juntos. Vamos transformar o mundo da conversação com a ajuda do Chat GPT!”…


    Bom, mas vamos finalmente falar de uma das formas de entrar. Em breve, noutro post, falo de outras, inclusive via celular:

    Acessando Esse link aqui, você entra no chat. Se não tem conta na Open AI ainda, você precisa clickar no botão Sign up para criar a sua. Do contrário basta clickar em “Login” ou, se já está logado, começar a conversar e se divertir!!! Legal, né?

    De qualquer forma, esse é o primeiro post de uma série que vou fazer sobre esse assunto. No próximo farei um vídeo mostrando como criar a conta, e, claro, como “conversar com o cara”… Me aguardem!!!

    E, claro, espero que tenham gostado de meu retorno nessa coisa aqui. Tenho muito mais novidades pra publicar mas a melhor delas é que… O blog não vai morrer!

    Abração e fiquem na paz! Retorno em breve!

    Fernando