Oláamigos e leitores dessa coisa aqui!
Ser cego tem suas dificuldades, claro. Há rua sem acessibilidade, site que parece ter sido programado em Setealém, aplicativo cujo botão principal não tem nome e cardápio que só existe num QR Code que leva a uma imagem. Mas nada disso se compara à criatividade de certas pessoas que, ao avistarem uma bengala branca, imediatamente recebem um chamado superior: precisam fazer alguma coisa.
O problema é que, frequentemente, elas não sabem o quê.
E também não perguntam.
Então fazem.
O resultado pode variar entre uma situação engraçada, um pequeno constrangimento, uma viagem não solicitada para o lado errado da rua e a destruição física do equipamento que permitiria ao cego continuar andando. Tudo, é claro, em nome da ajuda.
Antes que alguém se ofenda: não estou dizendo que toda pessoa que enxerga faz essas coisas, nem que todo cego reage da mesma maneira. Estou reunindo situações que aconteceram comigo e outras que aparecem repetidamente nos relatos de pessoas cegas. Algumas são engraçadas depois que passam. Outras já nascem prontas para serem enviadas ao invvvérno,aaa.
1. Deus lhe dê outra
Essa aconteceu comigo.
Eu estava na rua quando um sujeito, desesperado para me entregar um panfleto de igreja, pisou na minha bengala. A bengala quebrou.
Até aí já tínhamos um pequeno problema logístico: eu sou cego e, graças ao esforço missionário do cidadão, acabava de ficar sem o instrumento que usava para me orientar.
Mas ele não se abalou. Diante do resultado material de sua obra, deu a solução:
— Deus lhe dê outra.
E foi embora.
Não sei se a reposição viria por milagre, transportadora celestial ou retirada na secretaria da igreja. Só sei que, naquele instante, fiquei mais cego do que já era: antes eu não enxergava; dali em diante, além de não enxergar, estava sem bengala.
Talvez o panfleto contivesse instruções para solicitar a segunda via, mas infelizmente ele não estava em braile e, como o fato se deu em 2010, ainda não existiam os óculos Ray-Ban Meta para ler o dito-cujo,aaa.
2. “Seu colega está aí na frente”
Você está caminhando e há outro cego alguns metros adiante. Imediatamente alguém avisa:
— Seu colega está aí na sua frente.
Colega?
Colega de quê? Trabalhamos na mesma empresa? Estudamos na mesma turma? Participamos do mesmo sindicato internacional da cegaíada? Temos reunião marcada para discutir a cotação mundial das bengalas?
Não. Somos apenas duas pessoas cegas que, por uma dessas coincidências estatisticamente permitidas pelo universo, estão usando a mesma calçada.
Curiosamente, quando duas pessoas de camisa azul se cruzam, ninguém corre para dizer: “Seu colega de azul está ali”. Mas basta aparecerem duas bengalas e pronto: começou a confraternização anual da firma.
3. “Você está indo para a escola ou para a igreja?”
Essa pergunta também faz parte do repertório:
— Você está indo para a escola ou para a igreja?
Porque, como todos sabem, a vida de uma pessoa cega possui somente dois destinos possíveis. De manhã, escola. À noite, igreja. Entre uma coisa e outra, talvez fique guardada num armário, com a bengala dobrada, aguardando a próxima saída autorizada.
Trabalhar? Não.
Ir ao mercado? Impossível.
Encontrar amigos, tomar uma cerveja, ir a um show, namorar, levar a filha para passear, gravar música, resolver problemas no banco ou simplesmente andar por aí sem prestar relatório? Isso já exige a versão premium do cego e parece que nem todo mundo sabe que ela existe.
4. “Se você for à minha igreja, Deus vai curar você”
Este é um clássico tão internacional que aparece até em relatos de cegos de outros países.
O sujeito não sabe seu nome, não conhece sua história, não perguntou se você tem fé, se frequenta alguma religião ou se deseja conversar sobre o assunto. Mas sabe uma coisa: você precisa ser curado.
Quem disse, raios, que eu quero ser curado?
É claro que muita gente gostaria de voltar a enxergar, e não há nada de errado nisso. Mas não se pode presumir que essa seja a vontade de toda pessoa cega, muito menos abordar alguém na rua como se sua existência fosse um defeito aguardando manutenção divina.
No meu caso, imaginem a confusão: adaptar-me a uma vida completamente nova, reaprender um monte de coisas e, principalmente, começar a ver muita coisa que talvez eu nem quisesse ver.
Depois de tantos anos usando leitor de telas, eu ainda correria o risco de olhar para uma página visualmente poluída e perguntar: “Onde raios aperto H para pular esta desgraceira?”
5. O OCNI no prato
No restaurante, antes que você escolha qualquer coisa, alguém anuncia:
— Já servi seu prato.
Mas raios, eu nem disse o que queria!
Talvez a pessoa tenha concluído que cego também não possui preferência culinária. Ou talvez já esteja relativamente acostumada com o que você costuma comer — afinal, não é a primeira vez que você vai ali — e ache que não precisa da sua intervenção, digamos assim. Basta colocar comida no prato e ele executa o procedimento padrão de alimentação.
Tudo bem. Para não parecer mal-educado, você começa a comer. Arroz identificado. Feijão identificado. Alguma coisa que parece carne. De repente, o garfo encontra um OCNI — Objeto Comestível Não Identificado.
Você cutuca.
É mole por um lado, resistente por outro e produz um ruído que não ajuda em nada. Pode ser legume, farofa compactada, decoração gastronômica ou uma criatura que entrou no prato para fugir da cozinha.
E, naturalmente, não há ninguém por perto para responder à pergunta essencial:
— Que raio de coisa é essa?
6. A operação cirúrgica com talheres alheios
A situação anterior ainda pode evoluir.
— Deixa eu ajeitar um pouco aí.
Antes que você descubra o significado de “ajeitar”, a pessoa pega os talheres que já usou para comer e começa a reorganizar seu prato.
Nãããão! Não faça isso, pelo amor de Deus!
Ou vem a versão mais especializada:
— Vou cortar para você.
O garfo e a faca do cego estavam no lugar, limpos e perfeitamente utilizáveis. Mesmo assim, o sujeito — ou a sujeita, para garantir a igualdade no setor de invasões gastronômicas — realiza a cirurgia com os próprios talheres usados.
Quem precisa de bactéria individual quando pode participar de um programa de compartilhamento comunitário?
Se quiser ajudar no prato, pergunte. Diga o que foi servido, indique as posições como num relógio e deixe a pessoa decidir se precisa de mais alguma coisa. Não é necessário fazer uma laparoscopia no bife.
7. O sequestro solidário
Você está parado na calçada, pensando na vida, esperando alguém ou simplesmente tentando descobrir de onde vem determinado som.
De repente, uma mão agarra seu braço e você começa a se mover.
— Vem, eu ajudo você a atravessar!
Pensamentinho: “Pera aí, caralho! Atravessar para onde? Por quê? Como? Quando? Pra quê? De que jeito?”
Detalhe: você não queria atravessar.
Talvez estivesse esperando um carro, procurando uma porta ou apenas parado porque, pasmem, cegos também podem ficar parados. Mas agora está no outro lado da rua, graças ao serviço gratuito de teletransporte por puxão.
Às vezes a pessoa empurra pelas costas. Às vezes puxa pela bengala. Às vezes agarra os dois ombros e passa a dirigir o cego como se fosse um carrinho de supermercado com uma roda emperrada.
É muito simples: pergunte se a pessoa quer ajuda. Se ela aceitar, ofereça o braço e deixe que ela segure próximo ao cotovelo. Não é preciso rebocá-la.
8. “É ali”
Você pergunta onde fica a porta.
— É ali.
Ali onde?
— Ali, ó!
A segunda tentativa vem acompanhada de um dedo apontado com convicção. O dedo provavelmente sabe o caminho, mas infelizmente não transmite dados por Bluetooth para a bengala.
Também existe a pessoa que faz sinal para o cego entrar no elevador, atravessar a rua ou passar pela porta. Em silêncio. Talvez esteja acenando magnificamente; para nós, contudo, o espetáculo continua sem audiodescrição.
“À sua direita”, “três passos à frente” e “a porta está aberta” resolvem. “Ali” é uma coordenada geográfica localizada em lugar nenhum.
9. Pergunte ao acompanhante, porque aparentemente o cego veio sem voz
No restaurante:
— O que ele vai querer?
No consultório:
— Ele está sentindo dor há quanto tempo?
Na loja:
— Qual modelo ele prefere?
E o cego está ali. Às vezes entre o atendente e o acompanhante. Respirando, pensando e, em casos avançados, até falando.
É uma experiência curiosa: em poucos segundos você deixa de ser cliente, paciente ou cidadão e passa a ser um assunto debatido por terceiros na sua presença.
A solução revolucionária é olhar — ou dirigir a voz — para a pessoa cega e perguntar diretamente a ela. Sim, funciona até sem atualização do sistema.
10. Aumente o volume: ele não enxerga
Algumas pessoas veem a bengala e imediatamente ajustam a voz:
— O SENHOR PRECISA DE AJUDA?
Não necessariamente. Mas, se continuar gritando, talvez eu precise de um otorrino.
Cegueira não é surdez. Também não é dificuldade de compreensão. Pode falar no volume e na velocidade normais, sem transformar cada frase numa aula de alfabetização transmitida por alto-falante de rodoviária.
11. “Adivinha quem é?”
A pessoa chega, altera um pouco a voz e pergunta:
— Adivinha quem é?
Começou o programa de auditório.
O cego agora tem de consultar o arquivo universal de vozes, comparar respirações, analisar o perfume e descobrir qual das 847 pessoas conhecidas resolveu brincar de identidade secreta.
Se acertar, ganha o direito de continuar a conversa. Se errar, ouve:
— Nossa, não reconheceu minha voz?
Não. E muita gente que enxerga também não reconheceria você se aparecesse usando uma máscara e falando pelo nariz.
Diga seu nome. Poupa tempo, constrangimento e uma investigação do FBI.
12. A pessoa que vai embora em modo furtivo
Você está conversando, termina uma frase, faz uma pergunta e recebe silêncio.
Espera um pouco.
Repete a pergunta.
Mais silêncio.
Então alguém informa:
— Ah, ele saiu faz uns cinco minutos.
Maravilha. Durante esse tempo você apresentou sua opinião completa a uma cadeira, que provavelmente foi a ouvinte mais atenta da sala.
Não precisa protocolar requerimento: basta dizer “vou ali”, “estou saindo” ou “já volto”. Desaparecer em silêncio pode funcionar no cinema de espionagem; numa conversa com uma pessoa cega, só produz monólogo involuntário.
13. “Nossa! Você usa celular?”
Não apenas uso celular como também computador, internet, aplicativos, leitor de telas e, quando os deuses da acessibilidade permitem, até compro coisas sozinho.
Mas sempre aparece alguém maravilhado:
— Como você digita?
Com os dedos, geralmente.
— Mas como você sabe onde estão as letras?
Da mesma forma que um pianista sabe onde estão as notas e muita gente sabe digitar sem ficar olhando para o teclado. A diferença é que meu computador fala. Às vezes fala até demais — especialmente quando o site foi construído com 93 botões chamados apenas de “botão”.
A tecnologia assistiva existe há muito tempo. O milagre não é o cego usar o aparelho; o milagre é sobreviver a certos aplicativos.
14. A superação de tomar café
O cego pega um ônibus, trabalha, cozinha, publica um texto ou serve o próprio café.
— Que exemplo de superação!
Calma. Às vezes era só café.
Transformar qualquer atividade comum numa epopeia pode parecer elogio, mas também passa a ideia de que ninguém esperava que uma pessoa cega fosse capaz de realizá-la.
Se eu escalar o Everest de costas carregando um piano, podem elogiar à vontade. Se eu apenas ligar o computador e começar a trabalhar, talvez seja cedo para encomendar a cinebiografia.
15. Alguém “organizou” suas coisas
Uma pessoa bem-intencionada resolve arrumar sua mesa, sua cozinha ou seu quarto.
O que estava à esquerda vai para a direita. O pote de café troca de lugar com o açúcar. O controle remoto parte para uma nova vida atrás de um vaso. A cadeira fica elegantemente afastada da mesa, pronta para atingir a canela do primeiro desavisado.
Para quem não enxerga, a posição dos objetos não é mero capricho decorativo: também é informação.
Depois da “organização”, começa a caça ao tesouro. Só faltam um mapa inacessível, três pistas em tinta e alguém dizendo que o objeto está “bem ali”.
16. O cão-guia virou atração turística
Esta vem dos colegas que usam cão-guia — colegas por uma experiência concreta, desta vez, não apenas porque existe outra bengala na rua,aaa.
O cão está trabalhando, desviando de obstáculos e ajudando seu usuário a circular com segurança. Aí chega alguém:
— Ai, que lindo!
E começa a chamar, assobiar, oferecer comida ou fazer carinho sem perguntar.
O animal realmente é lindo, mas naquele momento não está fazendo hora extra como departamento de recreação pública. Distrair um cão-guia trabalhando pode colocar a pessoa em risco. Admire, controle a vontade de apertar e fale primeiro com o ser humano que está junto dele — algo que, como vimos, já é uma tecnologia social bastante avançada.
O método revolucionário para ajudar uma pessoa cega
Depois de toda essa pesquisa, descobri um procedimento tão sofisticado que decidi revelá-lo gratuitamente:
Pergunte.
“Você precisa de ajuda?”
Se a resposta for não, a operação terminou com sucesso.
Se for sim, pergunte como pode ajudar. Fale diretamente com a pessoa, em voz normal. Não agarre o braço, não empurre pelas costas, não puxe a bengala, não distraia o cão-guia, não remexa no prato com seu garfo e não aponte silenciosamente para o infinito. E, especialmente, se estiver ajudando alguém a atravessar a rua, vá até o outro lado. Não largue o cego no meio da pista dizendo que ele já pode seguir sozinho! Tenho uma amiga que já foi atropelada por causa disso, e eu mesmo já levei um belo susto…
Ajuda boa não é aquela que faz mais coisas. É aquela que respeita a autonomia de quem vai recebê-la.
E, por favor, se quebrar a bengala de alguém, não terceirize a reposição para Deus.
De onde vieram as maluquices adicionais?
Além das minhas experiências, encontrei situações semelhantes em relatos e orientações publicados por pessoas cegas e por organizações que trabalham com deficiência visual. Entre eles estão o texto da blogueira cega Holly, do Life of a Blind Girl; uma coletânea bem-humorada do Industries for the Blind and Visually Impaired; uma conversa entre pessoas cegas no fórum r/Blind; e as orientações da UniGuairacá sobre como ajudar pessoas cegas na rua.
Ou seja: infelizmente, o panfleteiro destruidor de bengalas pode ter sido uma edição especial brasileira, mas o restante da coleção possui distribuição mundial.
Um abração e até a próxima maluquice nessa coisa aqui!
Fernando