Ooi, amigos e leitores dessa coisa aqui, tudo bem?
Antes que alguém pergunte pela tradicional apostila de terça-feira, a dose desta semana já saiu no domingo — e saiu em dobro,aaa. Como eu não consegui esperar até terça para publicar as duas apostilas de musicografia Braille, abri espaço para uma crônica. E o assunto dessa crônica combina perfeitamente com uma frase antiga, daquelas que atravessaram gerações:
Escreveu, não leu, o pau comeu!
Na versão atualizada para 2026, talvez ela devesse ficar assim: gerou, não revisou, se lascou! Às vezes, quem se lasca é a coerência da história. Em outras, é a paciência de quem está assistindo. E, em certos casos, lascam-se também a monetização, o canal e aquela renda passiva que o curso de “fique milionário enquanto a inteligência artificial trabalha para você” havia prometido.
A IA tornou muito mais fácil criar roteiro, imagem, narração, música de fundo, legenda, miniatura e até uma cara humana que nunca pertenceu a ser humano algum. O problema é que ela ainda não inventou uma tecnologia capaz de obrigar o dono do canal a ouvir o próprio vídeo antes de clicar em “Publicar”.
Não é uma guerra contra a inteligência artificial
Vamos começar pelo começo, porque daqui a pouco alguém lê apenas o título, não lê a crônica e o pau come nos comentários: o problema não é usar inteligência artificial.
Eu mesmo uso. Uso para pesquisar, organizar ideias, revisar textos, programar, testar possibilidades e ajudar em trabalhos que, sozinho, levariam muito mais tempo. Também há muita gente criando histórias emocionantes com auxílio de IA — histórias boas mesmo, que cativam do início ao fim, têm personagens interessantes, começo, meio, fim e deixam alguma coisa na cabeça depois que o vídeo termina.
Esses trabalhos não merecem ser colocados no mesmo saco da produção automática feita de qualquer jeito. Em muitos deles existe alguém escolhendo a ideia, reescrevendo trechos, corrigindo a sequência, eliminando repetições, conferindo a narração e decidindo o que fica ou sai. A IA participa da produção, mas há uma pessoa dirigindo a coisa.
O mesmo vale para o chamado canal dark. Não mostrar o rosto não é crime, defeito nem sinônimo de conteúdo ruim. Um canal sem apresentador visível pode ter pesquisa séria, roteiro original, excelente narração e edição cuidadosa. “Canal dark”, aliás, é um nome usado pelo mercado e pelos vendedores de curso; não é uma categoria de infração criada pelo YouTube.
A diferença não está entre “feito por humano” e “feito com IA”. Está entre conteúdo trabalhado e conteúdo despejado.
A mulher de 28 anos e a filha de 17 que também tinha 4
Há alguns meses encontrei no YouTube uma dessas histórias narradas. Não guardei o título nem o link, portanto não vou inventar o nome do vídeo — uma providência que o próprio autor talvez devesse ter tomado com metade das informações do roteiro,aaa.
A protagonista tinha 28 anos e estava casada havia oito. Ela possuía uma filha que não era do marido e, em determinado ponto da história, essa menina parecia ter 4 anos. Até aí já surgia uma pergunta: se a gravidez havia acontecido durante o casamento, como o marido passou nove meses sem perceber a barriga, o nascimento e a chegada da criança? Talvez ele trabalhasse embarcado em Marte. A história não explicou.
Mais adiante, porém, a mesma filha apareceu com 17 anos.
Oi?
Se a mãe tinha 28 e a filha 17, a diferença entre as duas era de onze anos. Então ela teria engravidado por volta dos 10 ou 11. Ao mesmo tempo, a filha de 4 anos era, afinal, a segunda menina, essa sim filha do marido. E aquela gravidez que ele aparentemente não percebeu continuava passeando pelo roteiro sem documento, endereço ou calendário.
Resumindo: havia uma mulher de 28 anos, um casamento de oito, uma filha que era criança pequena e adolescente conforme a necessidade do parágrafo, outra filha que herdou os 4 anos no meio do caminho e um marido que não precisava de exame de DNA. Precisava de uma agenda.
Deu erado.
Não foi um erro escondido numa informação técnica, numa data histórica obscura ou no nome de uma cidade do outro lado do planeta. Bastava ouvir a história uma vez. Para quem consome muitos vídeos pelo áudio, como eu, a emenda malfeita salta aos ouvidos: o personagem envelhece treze anos entre dois parágrafos e a voz sintética segue impassível, como se nada tivesse acontecido.
A IA não fica constrangida. A voz não interrompe a gravação para dizer: “Chefe, essa família está precisando de um contador, de um obstetra e talvez de um físico especializado em viagem no tempo”. Ela apenas lê. Quem precisa perceber o absurdo é a pessoa que decidiu publicar.
A fábrica de emoções descobriu o botão “Gerar”
Histórias emocionantes sempre funcionaram. A pobre empregada humilhada pelo milionário. O idoso abandonado que, por coincidência, era dono da empresa. A noiva traída no altar. O pai que rejeita o filho e descobre vinte anos depois que precisa justamente dele. A herança escondida. O exame de DNA. O cachorro que espera. A mãe que reaparece. A carta lida tarde demais.
Nada disso nasceu com a inteligência artificial. Novelas, radionovelas, contos, filmes e programas de auditório vivem dessas engrenagens há muito tempo. E não há mal nenhum nisso: uma fórmula conhecida ainda pode render uma ótima história quando alguém coloca nela personagens vivos, detalhes convincentes e alguma verdade humana.
A novidade é a escala. Antes, mesmo uma história ruim precisava ser pensada, escrita, narrada e editada. Agora é possível pedir cinquenta roteiros semelhantes, gerar centenas de imagens, colocar uma voz sintética por cima e programar uma chuva de publicações. Troca-se o nome de Maria por Patrícia, o milionário por fazendeiro, o casamento por funeral, e lá vai mais um vídeo de 38 minutos buscar visualizações enquanto o dono do canal gera os próximos doze.
Um levantamento da empresa Kapwing, reproduzido pela imprensa espanhola no fim de 2025, analisou 15 mil canais populares e classificou 278 deles como dedicados exclusivamente ao chamado AI slop — conteúdo de IA produzido em massa e com pouco valor. Juntos, esses canais somavam mais de 63 bilhões de visualizações e 221 milhões de inscritos. Em um teste com uma conta nova, 104 dos primeiros 500 vídeos recomendados entraram nessa classificação.
É claro que a expressão AI slop, algo como “gororoba de IA”, não serve para todo conteúdo gerado com auxílio de inteligência artificial. Ela descreve justamente a produção feita em quantidade, com aparência suficiente para prender o olho ou o ouvido por alguns segundos, mas sem o cuidado necessário para respeitar quem assiste.
E aqui mora a tentação: se um vídeo com erro rende dinheiro, por que gastar meia hora revisando? Porque o público pode até cair uma vez. Na décima filha que muda de idade, no vigésimo milionário com a mesma voz e no quinquagésimo enterro em que o morto reaparece dois parágrafos depois, até o algoritmo começa a sentir cheiro de produção em série.
Bebês no espaço, gatos novelistas e crimes que nunca aconteceram
Quando comecei a procurar exemplos, descobri que a minha família com calendário desmontável estava longe de ser a coisa mais estranha do bairro digital.
Em 2025, uma análise do jornal britânico The Guardian encontrou conteúdo inteiramente gerado por IA em nove dos cem canais que mais cresciam no mundo naquele período. Entre as atrações estavam um bebê entrando num foguete, um Cristiano Ronaldo zumbi e novelas com gatos humanizados vivendo traições, guerras e desgraças familiares.
Agora, uma observação importante: ser absurdo de propósito não é necessariamente ser ruim. Um gato melodramático pode ser humor, fantasia, paródia ou simplesmente a maluquice que alguém queria criar. Se o vídeo assume o que é, tem alguma ideia própria e diverte o público, ótimo. A internet sempre foi um excelente lugar para coisas que jamais sobreviveriam a uma reunião de programação da televisão.
O problema começa quando o absurdo não é escolha artística, mas sobra de uma linha de montagem. Pior ainda quando a ficção se veste de fato.
Foi o que aconteceu com o canal True Crime Case Files. Uma reportagem da 404 Media mostrou que o canal apresentava assassinatos inventados por IA como se fossem crimes verdadeiros. Um vídeo sobre um homicídio supostamente ocorrido em Littleton, no Colorado, chegou perto de 2 milhões de visualizações. Pessoas cobraram do jornal local uma cobertura do caso; uma repórter consultou autoridades e confirmou o detalhe que o vídeo havia esquecido de mencionar: o crime nunca aconteceu.
Segundo as reportagens, o responsável combinava roteiro humano com ChatGPT, imagens artificiais e voz sintética. O canal acumulou mais de 150 vídeos e milhões de visualizações antes de ser retirado. Não era apenas uma personagem trocando de idade. Eram espectadores sentindo indignação, tristeza e revolta por vítimas que nunca existiram, enquanto o vídeo se apresentava como documentário.
Também houve a indústria dos trailers falsos. Os canais Screen Culture e KH Studio misturavam cenas reais e imagens criadas com IA para montar trailers de filmes e continuações que muitas vezes não existiam. Juntos, ultrapassavam 2 milhões de inscritos e 1 bilhão de visualizações. Primeiro perderam a monetização; no fim de 2025, foram encerrados pelo YouTube por violações relacionadas a spam e metadados enganosos.
Aí já não estamos falando de um roteirista que esqueceu se a filha tinha 4 ou 17. Estamos falando de conteúdo calculado para parecer verdadeiro tempo suficiente para ganhar o clique.
Quando o “Deu erado” deixa de ser engraçado
Uma cronologia impossível numa história fictícia rende piada. Um suposto crime real pode causar pânico, atacar a reputação de uma cidade ou fazer pessoas procurarem culpados que não existem. E um falso especialista em saúde pode produzir consequências bem menos engraçadas.
Em setembro de 2026, a Advocacia-Geral da União notificou o YouTube por causa de vídeos com personagens de IA que se apresentavam como médicos ou profissionais de saúde. Uma análise do programa Saúde com Ciência identificou 97 perfis desse tipo entre janeiro e julho. Segundo o Ministério da Saúde, alguns usavam linguagem alarmista, miravam especialmente pessoas idosas e promoviam produtos, curas ou tratamentos sem comprovação.
Nesse caso, “não revisar” pode significar estimular automedicação, abandono de tratamento ou atraso na procura por atendimento verdadeiro. E há situações em que nem cabe falar em falta de revisão: o engano é o próprio produto.
Por isso precisamos separar três coisas:
- Ficção declarada: pode inventar gente, cidade, gato falante, bebê astronauta e até uma família em que todo mundo viaja no tempo — desde que a história faça sentido dentro da proposta.
- Erro de continuidade: acontece quando o roteiro contradiz a si mesmo porque ninguém conferiu idades, nomes, datas e relações.
- Engano: ocorre quando a publicação quer que o espectador acredite que uma invenção é notícia, documentário, trailer oficial ou orientação profissional.
A primeira pode ser arte. A segunda é desleixo. A terceira pode virar desinformação, golpe ou risco real.
O que o YouTube realmente está punindo
Em julho de 2025, o YouTube atualizou a redação das regras do Programa de Parcerias para deixar mais claro que conteúdo repetitivo ou produzido em massa não se qualifica para monetização. Muita gente anunciou o “fim dos vídeos feitos com IA”. Não era isso.
Nas regras atuais, a plataforma diz que o conteúdo monetizado precisa ser original e autêntico, não pode ser genérico, repetitivo, manipulador ou feito em massa apenas para obter visualizações. A própria página oficial dá como exemplo negativo o conteúdo gerado com IA a partir de modelos genéricos, sem ideias ou perspectiva original do criador.
Outra parte das regras trata do conteúdo “insatisfatório ou desagradável”. Entram aí histórias montadas somente para manipular emoções, sequências de trechos de IA desconexos ou incoerentes, falsas mortes de celebridades, desastres que nunca ocorreram e personagens artificiais que se passam por médicos, advogados ou especialistas financeiros.
Já a política contra spam é ainda mais direta: proíbe a produção automatizada ou sintética em massa quando há muitos vídeos quase iguais, com mudanças mínimas. O exemplo oficial parece uma descrição pronta de vários canais que encontramos por aí: a mesma música, imagens repetitivas geradas por IA e, em cada vídeo, a leitura de mais um roteiro também gerado por IA.
Isso não significa que uma voz sintética seja proibida. Também não significa que um canal precise mostrar o rosto do autor, abandonar séries, mudar a abertura em cada episódio ou jogar o computador pela janela. O próprio YouTube afirma que uma introdução igual pode ser usada e que formatos semelhantes podem monetizar, desde que o conteúdo principal de cada vídeo seja realmente diferente e ofereça valor criativo, educativo, narrativo ou analítico.
Na carta de prioridades para 2026, o diretor-executivo do YouTube, Neal Mohan, escreveu que a IA deve ser uma ferramenta de expressão, não uma substituta, ao mesmo tempo em que prometeu reduzir a circulação de conteúdo artificial repetitivo e de baixa qualidade. A empresa, portanto, não está brigando com a ferramenta. Está tentando separar a ferramenta da fábrica de entulho.
Em termos simples:
- Usar IA para ajudar a desenvolver uma história original e depois trabalhá-la pode ser aceito.
- Usar uma voz artificial num roteiro pesquisado, escrito e revisado não é automaticamente uma infração.
- Repetir um formato não é o mesmo que repetir praticamente o mesmo vídeo.
- Gerar dezenas de histórias por modelo, trocar nomes e publicar sem revisão acende todos os sinais de alerta.
- Apresentar invenção como fato, esconder a natureza sintética de cenas realistas ou usar metadados enganosos pode envolver outras políticas além da monetização.
Desmonetizar é uma coisa; encerrar o canal é outra
Também é importante não misturar todas as punições no mesmo liquidificador, porque depois sai uma manchete dizendo que o YouTube “baniu a inteligência artificial” e começa outro revertério.
A plataforma pode limitar anúncios em um vídeo, suspender um canal do Programa de Parcerias ou desativar permanentemente a monetização. Quem é suspenso do programa deixa de receber publicidade, participação do YouTube Premium e outras receitas. Em muitos casos pode contestar a decisão ou tentar uma nova inscrição depois do prazo previsto, desde que corrija o canal.
Encerrar o canal é um passo diferente e mais grave. Pode ocorrer por violações repetidas das Diretrizes da Comunidade, por spam, golpes, metadados enganosos, violações de direitos autorais ou até por um único caso considerado grave. Na política contra spam, o YouTube informa que três advertências em noventa dias podem levar ao encerramento — e que determinadas infrações podem resultar diretamente na suspensão da monetização ou no fim da conta.
Em janeiro de 2026, dois gigantes da produção artificial, CuentosFacianantes e Imperio de Jesus, já não estavam disponíveis. O primeiro havia acumulado cerca de 5,9 milhões de inscritos e mais de 1,2 bilhão de visualizações; o segundo tinha aproximadamente 5,8 milhões de inscritos. Depois, o YouTube confirmou que 11 canais apontados num levantamento da Kapwing foram removidos por violações das regras contra spam. Outros ficaram vazios, privados, mudaram de nome ou foram apagados pelos próprios responsáveis, portanto nem toda ausência pode ser atribuída à mesma punição.
O caso dos trailers falsos mostra bem a escadinha: primeiro se perde o direito de ganhar dinheiro; se as violações continuam ou atingem outras regras, pode-se perder o canal inteiro.
E por que o YouTube começou a apertar os parafusos? Porque uma inundação de vídeos quase idênticos piora a experiência de quem assiste, derruba a confiança dos anunciantes, espalha conteúdo enganoso e enterra criadores que realmente pesquisam, escrevem, gravam e editam. Até para a plataforma, chega uma hora em que quantidade demais começa a comer a própria qualidade do serviço.
A revolucionária tecnologia chamada leitura
Talvez um dia apareça um curso chamado “Método secreto para evitar a desmonetização usando uma técnica milenar”. O método terá oito módulos, três bônus, uma comunidade exclusiva e será parcelado em doze vezes sem juros. O segredo será:
Leia o que você escreveu.
Ou, se o roteiro foi criado por IA, leia o que ela escreveu antes de colocar seu nome, seu canal e sua conta bancária embaixo.
Uma revisão simples já deveria perguntar:
- As idades fecham com as datas, os casamentos, os nascimentos e a passagem do tempo?
- O nome, o parentesco e o papel de cada personagem continuam iguais até o fim?
- Alguém morreu num parágrafo e apareceu para jantar no seguinte?
- A cidade, a profissão, a doença ou o fato histórico existem e foram conferidos?
- O título e a miniatura prometem aquilo que o vídeo realmente entrega?
- Está claro quando o conteúdo é ficção, dramatização, paródia ou material sintético?
- As imagens correspondem à narração ou mostram neve no verão de Porto Alegre e praia no centro de Novo Hamburgo?
- A narração final foi ouvida inteira, depois da edição, sem pular justamente os trechos repetidos?
Para um vídeo de trinta minutos, ouvir a versão final leva aproximadamente trinta minutos. Eu sei: é um escândalo. Dá trabalho. Só que criação sempre deu trabalho. A IA pode reduzir o tempo gasto em várias etapas; ela não transforma responsabilidade em acessório opcional.
E, se o canal publica tanto que não existe tempo para revisar, talvez o problema não seja falta de uma ferramenta mais rápida. Talvez esteja publicando demais.
História do ChatGPT e Gemini
Pouca gente sabe, mas o ChatGPT e o Gemini foram inventados ainda nos anos 1950. Os primeiros modelos funcionavam por meio de cartões perfurados, cuidadosamente colocados em ordem alfabética antes de cada conversa. Uma pergunta simples ocupava cerca de 300 cartões; se alguém derrubasse a caixa no chão, a inteligência artificial passava a responder em espanhol, latim ou receita de pudim.
Todo o conhecimento das duas máquinas ficava armazenado em discos rígidos de 30 TB, instalados em computadores com 8 TB de memória RAM e placas de vídeo com 80 GB de memória — uma configuração bastante comum nas cozinhas de 1954. Como a internet ainda estava em manutenção, as atualizações eram enviadas por telégrafo e levavam apenas três meses para baixar, desde que ninguém usasse o telefone durante o processo.
O ChatGPT teria sido criado primeiro, numa garagem do Vale do Silício, enquanto o Gemini nasceu logo depois, quando dois cartões perfurados foram colocados ao contrário e produziram uma segunda inteligência artificial. Foi assim que começou a grande corrida dos assistentes virtuais, décadas antes de existirem a web, os microprocessadores e qualquer possibilidade de essa história fazer sentido.
Oopa, “deu erado”,aaa, devia ter lido!
Gerar é fácil; assinar embaixo é outra história
Eu continuarei ouvindo histórias feitas com auxílio de inteligência artificial. Algumas são ótimas. Há autores e canais capazes de usar essas ferramentas para construir textos emocionantes, engraçados, surpreendentes e muito bem amarrados, daqueles que nos fazem ficar até o último minuto.
Justamente por isso, é injusto comparar esse trabalho com a chuva de roteiros automáticos que ninguém leu. A boa história não deixa de ser boa porque uma IA ajudou. E a história ruim não se torna moderna porque ganhou uma voz sintética, quinze imagens bonitas e uma miniatura com uma senhora chorando em resolução 4K.
Ferramenta nenhuma elimina a necessidade de autoria. Alguém escolheu o tema, fez o pedido, aceitou a resposta e apertou o botão de publicar. Essa pessoa pode não ter escrito cada palavra, mas assinou o resultado.
A IA pode entregar noventa por cento do caminho em poucos segundos. Os dez por cento restantes — conferir, desconfiar, cortar, reescrever, ouvir e decidir — são justamente onde mora o cuidado. E, muitas vezes, onde mora o autor.
Então fica a regra, agora devidamente atualizada:
Escreveu, não leu, o pau comeu. Gerou, não revisou, a filha envelheceu treze anos, o marido não viu a gravidez, o público percebeu e o YouTube talvez leve a monetização pro invvvvvééérno!
Um abraço e até a próxima!
Fernando.
Fontes consultadas
Em português
- Ajuda do YouTube — Políticas de Monetização de Canais do YouTube: regras sobre conteúdo original, genérico, repetitivo, produzido em massa, reutilizado e gerado com IA.
- Ajuda do YouTube — Política contra spam: exemplos de produção automatizada ou sintética em massa e as possíveis consequências para canais e contas.
- Ajuda do YouTube — Transparência sobre o uso de conteúdo de IA generativa: situações em que cenas realistas alteradas ou geradas precisam ser declaradas.
- Ajuda do YouTube — Encerramentos de canal ou conta: motivos, consequências e regras sobre evasão de encerramento.
- Folha de S.Paulo — Governo notifica YouTube sobre vídeos de médicos falsos gerados por IA: os 97 perfis identificados pelo programa Saúde com Ciência em 2026.
Em espanhol
- Cadena SER — Más del 20% de los vídeos que recomienda YouTube a sus nuevos usuarios son “basura de IA”: dados do levantamento da Kapwing sobre canais, visualizações e recomendações.
- MeriStation — Adiós a CuentosFacinantes e Imperio de Jesús: desaparecimento de dois grandes canais e o endurecimento contra produção artificial repetitiva.
- Cinco Días — YouTube le acaba de declarar la guerra a parte del contenido creado con IA: explicação da atualização de monetização adotada em julho de 2025.
Em inglês
- Blog oficial do YouTube — From the CEO: What’s coming to YouTube in 2026: posição da empresa sobre IA como ferramenta criativa e redução de conteúdo artificial de baixa qualidade.
- 404 Media — A “True Crime” Documentary Series Has Millions of Views. The Murders Are All AI-Generated: investigação sobre crimes fictícios apresentados como verdadeiros.
- TubeFilter — YouTube shuts down “true crime” channel that was all AI lies: retirada do canal True Crime Case Files e detalhes sobre sua produção automatizada.
- The Guardian — Cat soap operas and babies trapped in space: levantamento sobre canais em rápido crescimento com vídeos surreais gerados por IA.
- The Verge — YouTube’s top AI slop channels are disappearing: canais removidos ou esvaziados e a confirmação de encerramentos por violações contra spam.
- Deadline — YouTube Shuts Down Channels Using AI To Create Fake Movie Trailers: encerramento dos canais Screen Culture e KH Studio.