Categoria: Rubem Alves

Textos do Rubem Alves

  • Um texto interessante…

    Tempo de leitura: 8 minutos

    Oi turma!!!

    Tudo bom?

    Aqui, tudo…

    Pois é… E, novamente, mechendo nos meus “arquivos velhos”, encontrei
    esse texto, e resolvi compartilhar com vocês… Eu, particularmente,
    diria que tem muito de mim nesse texto, e por isso que gostei tanto de
    relê-lo. Resumindo, digamos que a “sétima torre” falada no texto,
    poderia dizer que fecha 100% comigo… Quero só ver se um dia eu
    encontro alguém que a compartilhe, como o carinha do texto encontrou,
    né? Vamos a ele, então:


    O Barbazul

    Rubem Alves

    Vivia num país, não me recordo se próximo ou distante, um
    homem que todos conheciam pelo apelido Barbazul. Era um homem de rara
    beleza. Do seu rosto o que mais impressionava eram os olhos, de um azul
    profundo, dos quais saía uma luz azul que envolvia sua barba numa aura
    azulada, razão do seu apelido.

    Barbazul era um homem rico. Vivia num castelo. Numa das
    extremidades do seu castelo havia uma torre de sete patamares, trancados
    a sete chaves. Era uma torre misteriosa, interditada ao público, e
    sobre o que havia nela circulavam as estórias mais escabrosas.

    Barbazul era um homem solitário. Nunca se casara. Tão bonito,
    tão rico: por que nunca se casara? – era a pergunta que todos faziam.

    Muitas eram as mulheres, lindas mulheres, que por ele se
    apaixonavam. E Barbazul não se esquivava. Aceitava as sugestões
    contidas nos sorrisos… A princípio era um simples namorico, os dois
    passeando pelos bosques… Mas sempre chegava o momento quando a jovem
    lhe dizia:

    “Gostaria de me casar com você…”

    “Casamento é coisa muito séria”, dizia Barbazul. “Só devem
    se casar pessoas que se conhecem profundamente. E só existe uma forma
    de as pessoas se conhecerem: é preciso que vivam juntas. Você
    viveria comigo, no meu castelo, mesmo sem nos casarmos? Eu no meu
    quarto, você no seu… Até nos conhecermos?”

    E assim acontecia. A jovem ia viver com Barbazul no seu castelo,
    cada um no seu quarto. Comiam juntos, passeavam, conversavam… Barbazul
    era um homem extremamente fino e delicado. Mas sempre acontecia a mesma
    coisa: depois de um mês assim vivendo Barbazul se dirigia à jovem e
    lhe dizia: “Vou fazer uma viagem de sete dias. Nesses dias você tem
    permissão para visitar a ‘Torre dos Sete Patamares’. Aqui estão as
    sete chaves… Durante a sua visita você deverá segurar a chave do
    patamar que você estará visitando na sua mão esquerda, fechada com
    bastante força. Isso é muito importante. Porque as chaves têm
    propriedades mágicas…”

    Com essas palavras ele partia e a jovem ficava só, com as sete
    chaves na mão, e a Torre dos Sete Patamares a ser visitada…

    Transcorridos sete dias Barbazul regressava e após o abraço do
    reencontro perguntava:
    “Visitou a Torre dos Sete Patamares?”
    “Sim. Visitei todos os patamares…”, a jovem respondia
    alegremente.
    “Você gostou?”
    “Eu os achei maravilhosos!”
    Barbazul insistia:
    “Todos eles?”
    “Sim, todos eles…”
    “Então”, concluía com um sorriso, “é hora de você me
    devolver as sete chaves, aquelas que você apertou na mão esquerda, o
    lado do coração. Como eu lhe disse, elas são mágicas… Elas
    vão me contar o que você sentiu…”

    Assentava-se então numa poltrona, fechava os olhos, e segurava
    as chaves na sua mão esquerda, uma de cada vez. A magia das chaves
    estava nisso: elas o faziam sentir, ao segurá-las, o mesmo que a jovem
    havia sentido, na sua visita aos sete patamares da torre.

    Só de olhar para o seu rosto era possível perceber os
    sentimentos guardados na chave que segurava. Eram sentimentos os mais
    variados, todos os que existem no leque que vai da alegria até a
    tristeza. As jovens sempre se emocionavam ao visitar os patamares da
    torre… Com uma exceção. Ao segurar a sétima chave o sorriso de
    Barbazul desaparecia e, no seu lugar, aparecia enfado e tédio. Era
    isso que a jovem havia sentido no sétimo patamar: enfado e tédio.

    “Não”, dizia ele à jovem. “Não poderemos nos casar. Comigo
    você será para sempre infeliz. O que há de mais fundo em mim, para
    você é tédio e enfado.”

    E sem outras explicações levava a jovem à casa de seus pais,
    não sem antes enchê-la com os presentes que trouxera da viagem.

    E era sempre assim.
    Foi então que aconteceu…
    Era o entardecer, o sol se pondo no horizonte. O mar estava
    maravilhosamente azul. Barbazul caminhava na praia, como sempre fazia,
    pés descalços… Viu, ao longe, uma jovem que caminhava sozinha,
    molhando os seus pés na espuma do mar. Era uma cena linda, digna de
    uma tela de Monet: uma jovem sozinha, vestes brancas na areia branca,
    contra o azul do céu e o azul do mar… Ela caminhava na sua
    direção, distraída. Mas parecia não vê-lo, tão absorta se
    encontrava. Ela se assustou quando o viu…
    “Eu a assustei?”, ele perguntou.
    “Eu estava distraída”, ela disse, se desculpando.
    “Qual é o seu nome?”
    “O meu nome? Stella Maris…”
    “Chamam-me de Barbazul, por causa da cor da minha barba…”
    Eles riram.
    Ela não era bonita. Mas a cena era bonita, bonitos eram seus
    olhos, bonita era a sua voz…

    Barbazul ouviu músicas no seu coração. E foi assim que
    caminharam juntos de pés descalços ao sol poente, caminhadas que
    vieram a se repetir a cada novo dia.

    Até que, numa dessas caminhadas, Barbazul falou o que nunca
    falara.
    “Você não quer morar comigo no meu castelo?”
    “Você está pedindo que eu me case com você?”, ela perguntou.

    “Não. Estou pedindo que você venha morar comigo. Depois de
    morar comigo, quem sabe, descobriremos que as nossas solidões
    poderão caminhar juntas pela vida…”

    E assim, ela foi morar no castelo do Barbazul. E aconteceu
    exatamente como acontecia com todas as outras: passado um tempo Barbazul
    anunciou uma viagem de sete dias e lhe deu as sete chaves com a mesma
    recomendação. E partiu…

    No primeiro dia Stella Maris tomou a primeira chave, abriu a porta
    do primeiro patamar e segurou firmemente a chave na sua mão. Era um
    enorme salão de festas cheio de gente. A orquestra tocava valsas
    alegres e as pessoas dançavam e riam. Parecia que todos estavam leves
    e felizes. Stella Maris dançou também e se sentiu leve e feliz.

    No segundo dia Stella Maris tomou a segunda chave, abriu a porta
    do segundo patamar e segurou firmemente a chave na sua mão. Era um
    salão de banquetes onde se serviam as mais deliciosas comidas e se
    bebiam os vinhos mais caros. Muitos eram os comensais, mas não tantos
    quantos havia no salão de festas. Stella Maris juntou-se a eles,
    assentou-se, comeu, bebeu e se alegrou.

    No terceiro dia Stella Maris tomou a terceira chave, abriu a porta
    do terceiro patamar e segurou a chave firmemente na sua mão. Era um
    parque cheio de crianças que brincavam dos mais variados brinquedos:
    balanços, gangorras, pipas, piões, cabo-de-guerra, pau de sebo,
    perna de pau, pula-corda, amarelinha, bolinhas de gude, bonecas,
    casinha, cabra-cega, escorregador, sela… Todas riam. Todas estavam
    felizes. Stella Maris se sentiu como criança e se juntou com elas, a
    brincar.

    No quarto dia Stella Maris tomou a quarta chave, abriu a porta do
    quarto patamar e segurou a chave firmemente em sua mão. Era uma
    biblioteca com prateleiras cheias de livros. Havia livros de todos os
    tipos: livros de ciência, de história, de literatura, de poesia, de
    filosofia, de humor, de mistério, de crime, de ficção
    científica, de arte, de culinária, de sexo, de religião… Os
    rostos daqueles que, assentados às mesas, liam livros em silêncio,
    revelavam emoções que os livros continham: concentração,
    excitação, curiosidade, alegria, tristeza, riso… Stella Maris
    escolheu um livro de arte, pinturas de Monet. Vendo as ninféias de
    Monet ela se sentiu leve e diáfana e desejou ver uma ninféia num
    lago…

    No quinto dia Stella Maris tomou a quinta chave, abriu a porta do
    quinto patamar e segurou a chave firmemente na sua mão. Era uma
    catedral gótica. A luz do sol se filtrava através dos vitrais
    coloridos e no silêncio do espaço vazio se ouvia o Requiem, de
    Fauré. E não eram muitas as pessoas que lá estavam. Havia rostos
    de súplica, rostos de sofrimento, rostos de paz. Stella Maris foi
    envolvida pelo silêncio, pelas cores dos vitrais, pela música… E a
    sua alma orou, chorou, agradeceu e sentiu paz.

    No sexto dia Stella Maris tomou a sexta chave, abriu a porta do
    sexto patamar e segurou a chave firmemente na sua mão. Era um jardim
    japonês. Ouvia-se o barulho da água que caía na fonte onde nadavam
    carpas coloridas em meio às ninféias. As cerejeiras estavam
    floridas. Um velho hai-kai repentinamente floresceu: “Cerejeiras ao
    anoitecer – Hoje também já é outrora…” (Issa). Poucas, muito
    poucas eram as pessoas que andavam pelo jardim. Stella Maris se assentou
    sob uma cerejeira florida e o seu pensamento parou. Não era
    necessário pensar. A beleza era tanta que ocupava todo o lugar onde
    moram os pensamentos. Experimentou o paraíso…

    No sétimo dia Stella Maris tomou a sétima chave, abriu a porta
    do sétimo patamar e segurou a chave firmemente na sua mão. Era uma
    ampla sala vazia, na penumbra. Ninguém, somente ela. O silêncio era
    absoluto. A solidão era absoluta. Dois móveis apenas, duas cadeiras.
    A que se encontrava no centro da sala era iluminada pela luz das velas
    de um candelabro que pendia do teto. Stella Maris assentou-se na cadeira
    que estava num canto, nas sombras.

    Foi então que um homem entrou por uma porta nos fundos. Vinha
    abraçado com um violoncelo. Sem dizer uma única palavra ele se
    assentou, arrumou o violoncelo entre as pernas, tomou o arco,
    concentrou-se e pôs-se a tocar. A melodia, em meio ao silêncio
    absoluto, sem nenhum ruído ou fala que a profanasse, era de tal pureza
    e pungência que lágrimas começaram a escorrer pelo rosto de Stella
    Maris.

    Sentiu que o seu corpo estava possuído pela beleza. Era como se
    ele, o seu corpo, fosse o instrumento de onde saía a música. Sim,
    ela já a ouvira: a Suíte n. 1, em sol maior para violoncelo, de
    Bach. Terminada a execução, o artista se levantou e se retirou sem
    nada dizer. Stella Maris permaneceu assentada, em silêncio; não
    queria que aquele momento terminasse. Queria que ele se prolongasse,
    para sempre…

    * * *

    “Então”, disse Barbazul sorridente, “visitou a Torre dos Sete
    Patamares?”
    “Visitei”, respondeu Stella Maris, entregando-lhe as chaves.
    Barbazul pediu para ficar sozinho e reclinando com os olhos fechados foi
    apertando as chaves, sucessivamente, com a mão esquerda, a mão do
    coração. No seu rosto se estampavam as emoções que Stella Maris
    havia tido em cada um dos patamares: leveza, alegria, riso, beleza,
    tristeza – até chegar ao último patamar, aquele que, ao segurar a
    sua chave, sentira o tédio e o enfado que as outras mulheres haviam
    sentido. O que é que Stella Maris teria sentido?

    E, de repente, sentiu lágrimas rolando pelo seu rosto, as mesmas
    lágrimas que haviam rolado pelo rosto de Stella Maris. Era como se o
    seu corpo estivesse possuído pela beleza e fosse o instrumento do qual
    a música saía…

    Barbazul sorriu. Permaneceu assentado, em silêncio; não queria
    que aquele momento terminasse. Queria que ele se prolongasse, para
    sempre…

    * * *

    “Stella Maris, você quer se casar comigo”, ele perguntou.

    “Casar? Mas eu pensei que…”

    “Sim, casar. Você compreendeu o que é a Torre dos Sete
    Patamares? É a minha alma. Cada patamar é um pedaço de mim. Lá
    se encontram os prazeres e alegrias humanos. Homens, mulheres e
    crianças se reúnem para compartilhar esses prazeres e alegrias. Mas,
    ao final da torre, há um lugar de solidão absoluta onde só entra
    uma pessoa de cada vez, eu permitindo. Aquele lugar é o fundo do meu
    coração. Quem não amar aquele lugar jamais me amará. Poderá
    até ser um companheiro de danças, de jantares, de discussões
    literárias, de brinquedos… Muitos podem ser bons companheiros. Mas,
    para me amar, é preciso amar a minha solidão. E aquela música é
    a forma sonora da minha solidão. Você a achou bela. Você permitiu
    que ela possuísse o seu corpo. E, por isso, eu a amo… Nossas
    solidões são amigas… Você quer se casar comigo?”

    – Estórias são parábolas. Não podem ser tomadas
    literalmente. Eu usei uma figura masculina como figura central – o
    Barbazul – porque estou reescrevendo e transformando a velhíssima
    estória do Barba Azul, cheia de violências e assassinatos. Mas seria
    possível escrever uma estória com a mesma trama tendo uma mulher
    como a figura central.

    – “O primeiro homem é o primeiro visionário de espíritos. A
    ele tudo aparece como espírito. O que são as crianças, senão
    primeiros homens? O fresco olhar da criança é mais transcendente que
    o pressentimento do mais resoluto dos visionários.” (Novalis,
    Pólen, 163).


    E então? Que tal o texto?? Comentem!!! E depois agente conversa…

    Abração!

    Fernando