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  • PCD, mas nem tanto? Quando a empresa escolhe a deficiência que “dá menos trabalho”

    Tempo de leitura: 12 minutos

    Olá, amigos e leitores dessa coisa aqui!

    Tudo bem?

    Espero que sim…

    Ontem, lendo a postagem de uma amiga no Facebook, me “inspirei” a tratar deste tema. Afinal, a inclusão não deve ser apenas discutida, mas colocada em prática — especialmente por recrutadores e empresas que condenam o capacitismo em suas palestras, mas acabam reproduzindo-o por conveniência.

    Há poucos dias, publiquei o artigo Em Busca de uma Pessoa de Verdade: O Caos das Plataformas de Emprego no Brasil. Falei dos currículos pulverizados, dos processos intermináveis e das respostas automáticas que chegam tão depressa que às vezes parece que o robô rejeitou o candidato antes mesmo de ele terminar de apertar o botão.

    Mas existe uma camada ainda mais complicada nessa bagunça: o que acontece quando o candidato é uma pessoa com deficiência?

    E vou afunilar um pouco mais a conversa. Quero falar principalmente da pessoa com deficiência visual total — a pessoa cega — e de uma situação que muita gente desse grupo conhece bem: a empresa anuncia uma vaga para PcD, declara amor à diversidade, coloca algumas peças coloridas nas redes sociais e, na hora de contratar, procura a deficiência que exija o mínimo possível de mudança.

    A vaga aceita pessoa com deficiência. Desde que ela continue enxergando a tela, caminhe sem obstáculos, use todos os sistemas exatamente como eles já são e não obrigue ninguém a rever processo algum. Ou seja: aceita-se a diferença, contanto que ela não faça diferença.

    É aqui que a inclusão pode virar uma espécie de cardápio de deficiências. A lei fala em oportunidade; parte do mercado traduz como conveniência.

    Antes que alguém entenda tudo pelo lado errado, deixo uma coisa muito clara: pessoas com visão monocular e pessoas com baixa visão têm direitos legítimos, enfrentam barreiras reais e não estão “tomando” a vaga de ninguém. O problema não é o trabalhador contratado. O problema aparece quando a empresa instrumentaliza uma deficiência considerada mais simples de acomodar apenas para marcar a casinha da cota, sem se comprometer com inclusão de verdade.

    É coisa séria. Mas, como o excesso de linguagem corporativa já causou estragos suficientes por hoje, vamos conversar em português humano.

    Sumário

    Empregabilidade não é apenas conseguir entrar

    A gente costuma falar em empregabilidade como se ela fosse uma característica guardada dentro do candidato: formação, experiência, cursos, comunicação, currículo bem escrito e capacidade de aprender. Tudo isso importa, evidentemente. Mas, para uma pessoa com deficiência, a empregabilidade também depende do mundo ao redor.

    Uma pessoa pode ter estudo, experiência e competência e, ainda assim, ser eliminada por um formulário incompatível com leitor de tela, uma dinâmica visual sem alternativa acessível, um teste cronometrado que não admite adaptação ou um recrutador que decide, em trinta segundos, que “a função não combina com o perfil”. Às vezes o perfil profissional combina perfeitamente. O que não combinou foi a deficiência com a imaginação limitada de quem avaliou.

    Por isso, empregabilidade de PcD precisa envolver pelo menos quatro coisas: acesso à seleção, contratação, condições reais de permanência e possibilidade de crescimento. Colocar alguém para dentro, abandoná-lo num sistema inacessível e depois concluir que “não se adaptou” não é inclusão. É preparar uma experiência para dar errado e culpar a pessoa pelo resultado.

    A deficiência não está apenas no corpo. Ela surge também da interação entre a pessoa e as barreiras. Para quem usa leitor de tela, por exemplo, um sistema bem construído pode tornar uma tarefa perfeitamente executável; um botão sem nome, uma tabela mal estruturada ou uma janela que não recebe foco pode transformar a mesma tarefa num labirinto. A competência do profissional não mudou de uma tela para outra. Mudou a qualidade do ambiente.

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    Os números mostram o tamanho da porta estreita

    A sensação de exclusão não vive apenas nos relatos pessoais. Segundo a PNAD Contínua 2022 divulgada pelo IBGE, a taxa de participação na força de trabalho era de 29,2% entre pessoas com deficiência e de 66,4% entre pessoas sem deficiência. O nível de ocupação era de 26,6% para o primeiro grupo e 60,7% para o segundo.

    Nem mesmo o diploma fecha o abismo. Entre as pessoas com nível superior, 54,7% das que possuíam deficiência participavam da força de trabalho, contra 84,2% das que não possuíam. Portanto, a velha resposta automática de que “falta qualificação” explica uma parte do problema, mas está muito longe de explicar tudo.

    O levantamento também mostrou que aproximadamente 55% das pessoas com deficiência ocupadas estavam na informalidade. O rendimento médio real era de R$ 1.860, enquanto chegava a R$ 2.690 entre trabalhadores sem deficiência.

    Em 2025, a Agência Brasil divulgou resultados do estudo Radar da Inclusão, realizado com 1.230 pessoas com deficiência ou neurodivergentes no fim de 2024. Oito em cada dez participantes empregados consideraram que a maioria das empresas não estava preparada para recebê-los, e 33% disseram que o próprio ambiente de trabalho não era devidamente adaptado.

    Quando uma diferença tão grande continua existindo mesmo entre pessoas escolarizadas, não dá para colocar toda a responsabilidade no currículo. Há algo emperrado também do lado de quem recruta, contrata, compra os sistemas e organiza o trabalho.

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    A Lei de Cotas abriu a porta — mas não terminou o serviço

    A chamada Lei de Cotas existe desde 1991. O artigo 93 da Lei nº 8.213 determina que empresas com cem ou mais empregados preencham de 2% a 5% de seus cargos com pessoas com deficiência ou beneficiários reabilitados, conforme o tamanho do quadro.

    Sem essa obrigação, é bastante provável que a presença de PcDs no mercado formal fosse ainda menor. A lei foi e continua sendo essencial. O problema é esperar que uma porcentagem, sozinha, faça o trabalho inteiro da inclusão.

    Cota conta pessoas. Inclusão precisa considerar pessoas, tarefas, ferramentas, acessibilidade, convivência, remuneração e carreira. A empresa pode preencher o percentual e continuar com processo seletivo inacessível, sistema interno impossível de usar, gestores despreparados e funcionários com deficiência estacionados durante anos no cargo mais baixo.

    A Lei Brasileira de Inclusão é bastante direta: proíbe a discriminação em razão da deficiência nas etapas de recrutamento, seleção, contratação, permanência e ascensão profissional. Também assegura trabalho de livre escolha em ambiente acessível e inclusivo, com igualdade de oportunidades.

    Em outras palavras, não basta convidar a pessoa para a fotografia do Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência. É preciso deixá-la participar da reunião na terça-feira, usar o sistema na quarta, fazer o treinamento na quinta e concorrer à promoção quando ela chegar.

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    O cardápio de deficiências e a procura pelo “PcD conveniente”

    A Lei de Cotas não criou uma tabela dizendo que uma pessoa com determinada deficiência vale mais do que outra. Ainda assim, na prática, algumas empresas estabelecem uma hierarquia informal: primeiro vêm os candidatos cuja contratação aparentemente exige pouca ou nenhuma adaptação; mais abaixo ficam aqueles que obrigariam a organização a rever ferramentas, instalações ou atitudes.

    Um estudo publicado na Revista Brasileira de Educação Especial, baseado em entrevistas com profissionais de RH de doze empresas, encontrou um retrato bastante revelador. Em 42% das empresas pesquisadas, as características da deficiência e o nível de escolaridade estavam entre os principais critérios de seleção. Um dos entrevistados chegou a falar na procura por um “menor grau” de deficiência para que a pessoa pudesse desempenhar o trabalho.

    É uma pesquisa localizada e não autoriza dizer que toda empresa brasileira pensa da mesma maneira. Porém, ela documenta algo que muitos candidatos reconhecem imediatamente: a deficiência deixa de ser uma característica da pessoa e vira um filtro de conveniência organizacional.

    Nesse cenário, uma pessoa com visão monocular pode parecer mais atraente ao empregador porque, em muitas funções, continuará usando interfaces visuais sem adaptações significativas. Uma pessoa com baixa visão pode conseguir trabalhar com ampliação, contraste, iluminação adequada ou ajustes de tela. Já a pessoa cega total normalmente dependerá de leitor de tela, navegação por teclado, documentos acessíveis e sistemas compatíveis.

    A Lei nº 14.126/2021 classificou a visão monocular como deficiência sensorial do tipo visual para todos os efeitos legais. Isso foi uma conquista de direitos e deve ser respeitado. A crítica não é à pessoa monocular nem à sua presença na cota. A crítica é à empresa que pensa assim: “Se ambas contam da mesma forma na planilha, vou escolher aquela que não me obriga a mexer em nada”.

    Quando esse raciocínio comanda o recrutamento, a cota deixa de priorizar quem enfrenta barreiras maiores e passa a premiar quem consegue se aproximar mais do padrão que a organização já considera normal. É a inclusão com uma cláusula escondida: pode ser diferente, mas não muito.

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    Por que a cegueira total assusta tanto o recrutamento?

    Em parte, porque quem nunca conviveu com uma pessoa cega imagina a cegueira a partir do que ele próprio faria se fechasse os olhos naquele instante. Como ele não saberia usar o computador, deslocar-se ou executar a tarefa, conclui que ninguém sem visão saberia.

    O erro está em usar a própria falta de treinamento como régua para medir a capacidade do outro.

    Uma pessoa cega não passa o dia tentando trabalhar como um vidente de olhos fechados. Ela usa técnicas, atalhos, leitores de tela, bengala, orientação e mobilidade, memória espacial e outras estratégias desenvolvidas ao longo da vida ou durante a reabilitação. Em informática, muitas tarefas podem ser realizadas com enorme eficiência pelo teclado. Dependendo da função e do profissional, a voz sintetizada do leitor de tela corre numa velocidade que faz alguém não habituado perguntar se o computador começou a falar em código alienígena,aaa…

    O que assusta a empresa, muitas vezes, não é o custo real da adaptação. É o desconhecido. Ela imagina treinamento permanente, dependência constante, risco jurídico e queda de produtividade antes mesmo de perguntar ao candidato de que ele efetivamente precisa.

    Há adaptações físicas que exigem planejamento e investimento, claro. Mas, no caso de muitos postos administrativos, de atendimento, tecnologia, comunicação, educação e trabalho remoto, boa parte da solução pode estar em algo tão pouco cinematográfico quanto instalar um leitor de tela, garantir atalhos de teclado e corrigir um sistema.

    A Fundação Dorina Nowill, que atua diretamente com empregabilidade de pessoas cegas e com baixa visão, destaca que é possível tornar postos de trabalho acessíveis, inclusive para pessoas cegas. A questão central não é descobrir uma ocupação mitológica “para cegos”, mas analisar competências, tarefas e barreiras concretas.

    Também é importante abandonar alguns extremos. A pessoa cega não é incapaz de tudo nem super-herói capaz de qualquer coisa sem adaptação. É um profissional, com qualificações, limitações, experiências, pontos fortes e pontos fracos — uma descrição surpreendentemente parecida com a de qualquer ser humano.

    Vale acrescentar que cada pessoa desenvolve seus próprios métodos e formas de adaptação. O fato de alguém executar determinada tarefa de uma maneira não significa que todas as outras pessoas cegas precisarão da mesma adaptação.

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    Quando o capacitismo começa antes da entrevista

    Capacitismo é a ideia, explícita ou disfarçada, de que pessoas com deficiência são naturalmente menos capazes. Ele pode aparecer numa ofensa direta, mas costuma circular muito bem vestido, com crachá e vocabulário corporativo.

    A vaga diz que é inclusiva, mas o formulário não funciona com leitor de tela. O teste traz imagens sem descrição. A dinâmica exige interpretar uma apresentação visual que não foi enviada em formato acessível. A entrevista começa com perguntas sobre a deficiência antes de chegar às competências. O candidato informa como trabalha e ouve que “o sistema da empresa talvez não esteja preparado”. Depois recebe uma mensagem dizendo que outro perfil está “mais alinhado”.

    Alinhado com quê?

    Às vezes, com a função. Em muitas outras, com a disposição da empresa de não mudar absolutamente nada.

    O capacitismo também aparece quando a deficiência engole o currículo inteiro. A pessoa pode ter anos de experiência, formação técnica e domínio das ferramentas, mas a entrevista vira uma investigação sobre como vai ao banheiro, almoça, chega ao prédio ou encontra uma cadeira. Perguntas sobre necessidades de adaptação são legítimas quando relacionadas ao trabalho e feitas para remover barreiras. O problema é quando servem apenas para calcular o suposto “trabalho” que aquele corpo dará.

    E há o filtro automático. Se o cadastro pergunta o tipo e o grau da deficiência antes de qualquer avaliação humana, a tecnologia pode facilitar uma triagem discriminatória em escala industrial. O robô não inventa preconceito sozinho; ele apenas executa com enorme eficiência os critérios que alguém configurou.

    O estudo da Revista Brasileira de Educação Especial também alerta que instrumentos padronizados, quando não são adaptados, viram barreiras contra determinados grupos. Tratar todo mundo de modo idêntico num ambiente construído para apenas um tipo de pessoa não produz igualdade. Produz exclusão com aparência de neutralidade.

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    O leitor de tela não é o problema; o sistema inacessível é

    Quando uma empresa descobre que o candidato cego usa NVDA, JAWS, VoiceOver ou outro leitor de tela, pode imaginar que precisa substituir metade do prédio por uma nave espacial. Em muitos casos, o leitor já existe, o profissional já sabe usá-lo e o custo da licença pode até ser zero, como ocorre com o NVDA.

    O grande problema costuma morar nos sistemas corporativos: botões sem identificação, menus que só abrem com o mouse, campos sem rótulo, CAPTCHAs sem alternativa, documentos digitalizados como imagem e programas remotos que transformam a tela em algo que a tecnologia assistiva não consegue interpretar.

    Isso não demonstra incapacidade do trabalhador. Demonstra uma dívida técnica da empresa ou do fornecedor do software.

    É curioso observar que organizações gastam fortunas implantando plataformas, integrações e consultorias, mas tratam acessibilidade como um luxo extravagante. Depois descobrem que corrigir o básico melhora o produto para muita gente: navegação por teclado ajuda usuários com limitações motoras e também quem trabalha com atalhos; rótulos claros beneficiam leitor de tela e reduzem confusão geral; bom contraste atende baixa visão e continua útil quando alguém tenta enxergar a tela sob iluminação ruim.

    Acessibilidade não é instalar uma extensão milagrosa depois que tudo ficou pronto. Ela precisa entrar na escolha do sistema, na compra, no desenvolvimento, nos testes e nos contratos com fornecedores. Se a organização adquire uma ferramenta inacessível e depois elimina o candidato porque ele não consegue usá-la, criou a barreira e puniu a pessoa por encontrá-la.

    Uma revisão sistemática sobre pessoas com deficiência visual em contextos de trabalho concluiu que a produção brasileira ainda é incipiente e permanece muito concentrada na entrada dessas pessoas no mercado, havendo pouca discussão sobre práticas organizacionais específicas de inclusão. Isso diz bastante: ainda estamos brigando para chegar à porta quando já deveríamos conversar também sobre carreira, liderança e poder de decisão.

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    Contratou. E agora?

    A contratação não é a linha de chegada. Às vezes é apenas o começo de outro conjunto de barreiras.

    Há empresas que contratam uma pessoa com deficiência, mas não sabem qual atividade entregar. Para “proteger”, reduzem responsabilidades, deixam o funcionário sem tarefa relevante ou o mantêm num canto profissionalmente esterilizado. Parece gentileza; na prática, impede experiência, desenvolvimento e promoção.

    Também acontece o oposto: entregam as mesmas metas, os mesmos prazos e as mesmas ferramentas inacessíveis, sem remover a barreira, e chamam isso de igualdade. Cobrar resultado é natural. Cobrar que a pessoa vença diariamente um sistema que a empresa se recusa a corrigir é outra coisa.

    A inclusão real pergunta:

    • Quais tarefas fazem parte da função?
    • Quais competências o profissional já possui?
    • Que barreiras existem no ambiente físico e digital?
    • Quais ajustes são necessários e quem será responsável por eles?
    • A equipe e a liderança receberam orientação?
    • Treinamentos, avaliações e oportunidades de promoção são acessíveis?

    É muito mais útil perguntar “do que você precisa para executar esta atividade?” do que decidir antecipadamente “isso não é possível para uma pessoa cega”. A primeira pergunta procura solução. A segunda apenas transforma desconhecimento em sentença.

    Inclusão também não significa gratidão eterna pela oportunidade. O funcionário com deficiência tem direito a salário justo, condições adequadas, cobrança compatível, discordância, promoção e até vontade de procurar outro emprego. Contratá-lo não é caridade empresarial; é uma relação profissional.

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    Como sair da inclusão decorativa

    Não existe botão mágico, palestra anual nem selo colorido capaz de resolver tudo. Mas há um caminho bastante concreto.

    1. Descrever a função pelas atividades essenciais. Em vez de presumir que determinado cargo “não serve” para certa deficiência, é preciso analisar o que realmente deve ser feito.
    2. Tornar a seleção acessível desde o início. Formulários, testes, entrevistas por vídeo, documentos e dinâmicas precisam admitir recursos de acessibilidade e adaptações razoáveis.
    3. Não usar o tipo de deficiência como atalho de triagem. A pergunta correta é se a pessoa consegue desempenhar as funções essenciais com os ajustes necessários.
    4. Testar os sistemas com usuários reais. A logomarca da acessibilidade na apresentação comercial do fornecedor não garante que o botão “Salvar” tenha nome quando o leitor de tela chegar nele.
    5. Preparar liderança e equipe. Não para ensinar uma cartilha de frases perfeitas, mas para desfazer mitos, explicar recursos e criar um canal normal de diálogo.
    6. Planejar carreira, não apenas admissão. A pessoa com deficiência deve acessar treinamentos, projetos, avaliações, bônus e promoções em igualdade de condições.
    7. Ouvir a própria pessoa. Nada sobre nós sem nós também vale na reunião em que a empresa decide qual adaptação comprar.

    E um aviso aos setores de RH: não é preciso conhecer todas as deficiências existentes no planeta antes de contratar a primeira pessoa. É preciso abandonar a certeza de que já se sabe o que ela não consegue fazer, conversar com o candidato, buscar apoio especializado quando necessário e assumir a acessibilidade como parte do trabalho.

    Organizações como a Fundação Dorina Nowill oferecem apoio à empregabilidade de pessoas cegas e com baixa visão e ajudam empresas a desconstruir barreiras. Falta de conhecimento pode ser resolvida. Falta de vontade, infelizmente, não vem com instalador automático.

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    Conclusão: não falta capacidade, falta atravessar a barreira

    Não pretendo afirmar que toda empresa discrimina pessoas cegas nem que todo candidato com visão monocular ou baixa visão encontra facilidade. Cada deficiência produz barreiras diferentes, cada pessoa tem uma história e cada função possui exigências próprias.

    O que precisa ser enfrentado é uma lógica muito específica: a de que a melhor pessoa com deficiência para contratar é aquela cuja presença menos obriga a empresa a mudar.

    Essa lógica parece prática, mas é capacitista. Ela seleciona pela conveniência da estrutura e não pela competência do candidato. Também cria uma disputa injusta entre grupos que deveriam ter seus direitos respeitados, como se a pessoa monocular fosse “PcD demais” para umas coisas e “PcD de menos” para outras, enquanto a pessoa cega fosse aceita no discurso e evitada na contratação.

    A Lei de Cotas é necessária, mas a porcentagem não pode virar teto moral. Cumprir a lei escolhendo apenas os candidatos considerados mais fáceis de acomodar talvez preencha uma planilha; não constrói uma empresa inclusiva.

    Como pessoa com deficiência visual total, não quero que alguém ignore as limitações reais da cegueira. Quero justamente o contrário: que elas sejam analisadas com honestidade, junto das minhas competências, das ferramentas disponíveis e das tarefas concretas do cargo — e não transformadas numa incapacidade genérica antes de eu conseguir demonstrar o que sei.

    A empresa não precisa contratar alguém porque sente pena. Precisa deixar de rejeitá-lo porque sente medo de uma adaptação que nem se deu ao trabalho de conhecer.

    Talvez a verdadeira pergunta da seleção não seja “qual deficiência dá menos trabalho?”. Talvez seja: “que trabalho precisamos fazer para que pessoas diferentes tenham a mesma oportunidade?”.

    Quando essa pergunta entrar de verdade no RH, nos sistemas e na liderança, a inclusão finalmente deixará de ser uma vaga especial e começará a fazer parte do emprego comum.

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    Fontes e leituras recomendadas

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    Um abraço e até a próxima!

    Fernando

  • Do FAT12 ao ZFS: a história dos sistemas de arquivos — e a confusão entre MBR, GPT, discos básicos e dinâmicos

    Tempo de leitura: 25 minutos

    Ooi amigos e leitores!!!

    Tudo bem?

    Espero que sim…

    Quando eu estudava na FTEC, tivemos uma aula sobre sistemas de arquivos. Em determinado momento, comecei a falar sobre FAT12, FAT16, FAT32, exFAT, HPFS, NTFS, ext3, ext4 e mais alguns habitantes desse zoológico informático. Expliquei para que serviam, onde apareciam e quais eram suas diferenças, até que o professor resolveu brincar e me chamou de “oráculo”.

    Não sei se eu era propriamente um oráculo ou apenas alguém que já havia formatado discos demais nesta vida, mas a história ficou na memória. E, como esse blog também é a casa das nossas memórias, achei que estava na hora de consultar novamente o velho oráculo dos discos — agora com alguns anos a mais, muitos terabytes depois e uma quantidade respeitável de siglas novas para complicar a brincadeira.

    Todo computador, celular, servidor, pendrive, cartão de memória, videogame, câmera, NAS ou torradeira inteligente que guarda arquivos precisa de alguma maneira de responder a perguntas aparentemente simples: onde começa este arquivo? Onde termina? Quem pode abri-lo? Quais blocos estão livres? O que fazer se faltar energia no meio de uma gravação? É o sistema de arquivos que organiza boa parte dessa coisa aqui.

    Mas antes de passearmos pela história, precisamos desfazer uma confusão muito comum: FAT32, NTFS e ext4 não são concorrentes diretos de MBR e GPT; e disco básico ou dinâmico é ainda outra conversa. Tudo mora no mesmo bairro, mas não na mesma casa.

    Sumário

    Disco, partição, volume e sistema de arquivos: cada coisa no seu lugar

    Imagine um prédio ainda vazio. O SSD ou HD é o terreno físico. MBR ou GPT é a planta que indica como o terreno será dividido. As partições são os cômodos demarcados. Um volume é o espaço lógico que o sistema operacional entrega para uso — às vezes correspondente a uma única partição, às vezes reunindo pedaços de mais de um disco. Por fim, o sistema de arquivos é o método usado para colocar armários, etiquetas, fichários e regras de acesso dentro desse espaço.

    Em uma instalação comum do Windows, por exemplo, podemos ter um SSD físico, particionado em GPT, tratado como disco básico e com a partição principal formatada em NTFS. Essas quatro descrições falam do mesmo armazenamento, mas de quatro camadas diferentes.

    As principais camadas do armazenamento
    Camada Pergunta que responde Exemplos
    Dispositivo físico Onde os bits serão gravados? HD, SSD SATA, SSD NVMe, pendrive, cartão SD
    Tabela de partições Como o dispositivo será dividido? MBR e GPT
    Gerenciamento de volumes Como um ou vários espaços serão apresentados ao sistema? Disco básico, disco dinâmico, Storage Spaces, LVM, pools do ZFS
    Sistema de arquivos Como pastas, arquivos e metadados serão organizados? FAT32, exFAT, NTFS, ext4, XFS, APFS, ZFS

    “Formatar” normalmente significa criar um sistema de arquivos dentro de uma partição ou volume. “Particionar” significa desenhar as divisões do disco. Trocar MBR por GPT não transforma FAT32 em NTFS; converter um disco básico em dinâmico também não muda automaticamente o sistema de arquivos. Misturar essas operações é uma boa receita para clicar no botão errado e, poucos segundos depois, adquirir um súbito interesse por programas de recuperação de dados.

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    Clusters, fragmentação, journaling, copy-on-write e outras criaturas

    Um sistema de arquivos não costuma administrar cada byte isoladamente. Ele agrupa setores físicos ou lógicos em unidades de alocação, geralmente chamadas de blocos ou clusters. Quando um arquivo ocupa menos espaço do que o tamanho de um cluster, sobra um pedaço não aproveitado dentro daquela unidade. Quando o cluster é muito pequeno, há mais unidades para controlar; quando é muito grande, arquivos pequenos podem desperdiçar espaço. Por isso os sistemas escolhem valores padrão conforme o tamanho e o uso do volume.

    A fragmentação acontece quando os pedaços de um arquivo ficam espalhados. Em um HD mecânico isso pode custar tempo, porque a cabeça de leitura precisa passear pelo disco. Em SSDs não existe cabeça mecânica procurando setores, mas a distribuição dos dados e a organização dos metadados ainda podem influenciar desempenho, amplificação de escrita e manutenção. Portanto, a história não virou simplesmente “SSD não fragmenta e pronto”.

    Journaling

    Um sistema com journaling mantém um diário das alterações que pretende fazer, especialmente nos metadados. Se faltar energia no meio da operação, ele consulta esse diário para voltar a um estado coerente com muito mais rapidez. NTFS, ext3, ext4 e XFS são exemplos conhecidos.

    Isso não quer dizer que todo conteúdo recém-digitado estará salvo depois de qualquer pane. O journal protege principalmente a consistência do sistema de arquivos; ele não é máquina do tempo, cópia de segurança nem promessa de que todos os dados que ainda estavam no cache chegaram ao disco.

    Copy-on-write

    No modelo copy-on-write, ou COW, uma alteração costuma ser gravada em um novo bloco antes que os ponteiros sejam atualizados. Em vez de sobrescrever imediatamente a estrutura antiga, o sistema preserva a versão anterior até que a nova esteja pronta. Isso facilita recursos como snapshots, clones rápidos e cópias por referência. APFS, Btrfs e ZFS usam amplamente essa ideia; o ReFS também emprega mecanismos de alocação em gravação para seus metadados.

    Checksums e autocorreção

    Checksums são valores calculados a partir dos dados ou metadados. Se o conteúdo lido não produzir o valor esperado, o sistema sabe que algo mudou indevidamente. Mas detectar não é sempre reparar: para corrigir sozinho, ele precisa de outra cópia válida, como um espelho ou uma redundância oferecida pelo pool de armazenamento.

    Permissões, criptografia e nomes

    Alguns sistemas armazenam proprietário, grupos, listas detalhadas de controle de acesso, atributos estendidos, criptografia por arquivo e auditoria. Outros foram projetados para simplicidade e intercâmbio. FAT32 e exFAT, por exemplo, não oferecem o mesmo modelo de permissões do NTFS ou dos sistemas Unix. Isso pode ser ótimo para um pendrive que precisa abrir em tudo e péssimo para o disco de um servidor com centenas de usuários.

    Também muda o tratamento dos nomes. No Windows, Relatorio.txt e relatorio.txt normalmente são entendidos como o mesmo nome, embora o NTFS consiga preservar maiúsculas e trabalhar com sensibilidade a caixa em situações específicas. No Linux, sistemas como ext4 geralmente diferenciam os dois. Uma simples troca de maiúscula pode, portanto, ser detalhe em um sistema e criar outro arquivo em outro.

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    A família FAT: dos disquetes ao cartão de memória

    A sigla FAT vem de File Allocation Table, ou tabela de alocação de arquivos. A ideia central é manter uma tabela indicando quais clusters estão livres, quais pertencem a um arquivo e qual é o próximo cluster da sequência. É um projeto relativamente simples, fácil de implementar e, justamente por isso, sobrevivente profissional.

    As denominações FAT12, FAT16 e FAT32 se referem à quantidade aproximada de bits usada nas entradas que identificam clusters. Quanto mais endereços disponíveis, maior pode ser o espaço administrado — embora os limites reais também dependam do tamanho dos setores, dos clusters e da implementação do sistema operacional.

    FAT12: o idioma dos disquetes

    O FAT nasceu no fim dos anos 1970 e acompanhou a infância da microinformática da Microsoft. O FAT12 tornou-se inseparável dos disquetes: 360 KB, 720 KB, 1,2 MB, 1,44 MB e outros formatos que hoje parecem caber dentro de um espirro digital.

    Ele não existiu exclusivamente em disquetes, mas foi perfeito para mídias pequenas. Tinha pouco desperdício estrutural, exigia poucos recursos e podia ser entendido por máquinas bastante limitadas. Continua aparecendo em imagens antigas, equipamentos embarcados e tarefas de preservação, mas ninguém em sã consciência o escolheria para guardar uma coleção moderna de vídeos.

    FAT16: dos disquetes grandes aos primeiros HDs populares

    Com discos rígidos maiores, o FAT12 ficou apertado. O FAT16 ampliou o número de clusters endereçáveis e acompanhou o MS-DOS e os primeiros Windows durante muitos anos. Seu mundo era o dos nomes no padrão 8.3 — oito caracteres para o nome, três para a extensão — até que extensões como o VFAT permitiram nomes longos mantendo compatibilidade com programas antigos.

    Os limites variavam conforme a versão do DOS ou do Windows e o tamanho do cluster, mas, na prática, volumes de centenas de megabytes e depois alguns gigabytes já faziam o FAT16 parecer uma roupa de criança em disco adulto. Quanto maior o volume, maiores podiam ficar os clusters e maior o desperdício com muitos arquivos pequenos.

    FAT32: mais espaço e uma longevidade espantosa

    O FAT32 chegou ao público com o Windows 95 OSR2, em 1996, e permitiu volumes maiores com clusters menores do que os que seriam exigidos pelo FAT16. Ele atravessou o Windows 98, o Windows Me e incontáveis pendrives, cartões, câmeras, aparelhos de som, televisores, consoles e dispositivos embarcados.

    Seu maior trunfo ainda é a compatibilidade. Windows, macOS, Linux e uma infinidade de aparelhos leem e gravam FAT32. Seu defeito mais famoso é o limite de 4 GiB menos 1 byte para um único arquivo. O pendrive pode ter centenas de gigabytes livres; se o vídeo tiver 5 GB, o FAT32 cruza os braços e diz que o arquivo é grande demais.

    Outro detalhe costuma causar confusão: as ferramentas gráficas do Windows normalmente não oferecem FAT32 ao criar volumes acima de 32 GB, mas isso não significa que o sistema de arquivos seja tecnicamente limitado a 32 GB. O Windows consegue usar volumes FAT32 maiores criados por ferramentas ou aparelhos compatíveis. Já saber se o televisor, o rádio do carro ou o firmware jurássico vai aceitá-los é outra novela.

    O FAT32 também continua discretamente importante em computadores atuais: a partição de sistema EFI, usada na inicialização de máquinas UEFI, é normalmente formatada em FAT32. O mesmo sistema que lembra pendrive antigo participa do início de um Windows novinho. A informática não joga nada fora; ela põe uma sigla nova por cima e continua usando,aaa.

    exFAT: o sucessor para arquivos grandes

    O exFAT, de Extended File Allocation Table, apareceu em 2006 pensando especialmente em memória flash e mídias removíveis maiores. A própria especificação da Microsoft o define como sucessor do FAT32 dentro da família FAT. Ele preserva relativa simplicidade, aceita arquivos e volumes muito maiores e elimina, para todos os usos práticos, o teto de 4 GB por arquivo.

    E o nome “FAT64”? Ele existe como apelido informal e até aparece entre parênteses em alguns materiais de fabricantes, provavelmente porque o exFAT usa campos de 64 bits para representar tamanhos de arquivo. Mas seu nome oficial é exFAT, e ele não deve ser descrito simplesmente como “FAT32 com o dobro de bits”. Sua estrutura inclui diferenças importantes, como bitmap de alocação e organização própria de diretórios.

    Hoje o exFAT é geralmente a melhor opção para um SSD externo, pendrive ou cartão que precise circular entre Windows, macOS e distribuições Linux atuais, especialmente se houver vídeos, imagens de disco, projetos de áudio ou outros arquivos com mais de 4 GB. Cartões SDXC, de mais de 32 GB até 2 TB, adotam exFAT como padrão; o futuro padrão SDUC, acima de 2 TB, também o utiliza.

    O preço da universalidade é abrir mão de recursos como journaling, permissões detalhadas, compressão nativa e várias proteções do NTFS. Ele é ótimo para transporte e intercâmbio, mas não seria minha primeira escolha para o disco interno de trabalho permanente. E remover a unidade com uma gravação em andamento continua sendo uma excelente maneira de transformar praticidade em palavrão.

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    HPFS: a ponte entre o DOS, o OS/2 e o futuro

    O High Performance File System, ou HPFS, estreou com o OS/2 1.2, em 1989, quando Microsoft e IBM ainda colaboravam no sistema. Ele nasceu para superar limitações da FAT em discos que cresciam, redes que exigiam mais organização e usuários que já estavam cansados de nomes espremidos em oito mais três caracteres.

    O HPFS permitia nomes de até 254 caracteres, armazenava mais informações de data e hora, organizava diretórios com estruturas mais eficientes e incluía recursos como o hot fixing: ao detectar um setor defeituoso durante uma gravação, podia redirecionar os dados para um setor saudável e marcar o problemático.

    Foi um salto importante, mas ficou preso à história do OS/2. As primeiras versões do Windows NT — 3.1, 3.5 e 3.51 — conseguiam acessá-lo, mas o Windows NT 4.0 abandonou esse suporte. Com a separação dos caminhos de IBM e Microsoft, o crescimento do NTFS e a perda de espaço comercial do OS/2, o HPFS virou sistema legado.

    Hoje ele “funciona” principalmente onde ainda existem instalações de OS/2, máquinas virtuais históricas, discos antigos e trabalhos de recuperação. Não é uma escolha para um computador novo, mas é uma peça importante na ponte que levou o mercado da simplicidade da FAT aos sistemas mais ricos em metadados, nomes longos e recuperação.

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    NTFS: o veterano que ainda manda no Windows

    O NTFS chegou com o Windows NT 3.1, em 1993. A sigla costuma ser expandida como New Technology File System, embora a própria Microsoft hoje prefira simplesmente o nome NTFS. Ele foi projetado para um sistema operacional de classe profissional, com multiusuário, segurança, discos maiores e tolerância melhor a falhas.

    No centro do NTFS está a Master File Table, a MFT, uma grande estrutura que registra arquivos, pastas e seus atributos. Para o NTFS, quase tudo é tratado como arquivo ou fluxo de dados, inclusive boa parte de seus próprios metadados.

    Ao longo do tempo, o NTFS reuniu uma coleção respeitável de recursos:

    • journaling dos metadados para recuperação mais rápida depois de falhas;
    • listas de controle de acesso e propriedade por usuário;
    • compressão transparente;
    • criptografia por arquivo com EFS;
    • cotas de disco;
    • arquivos esparsos;
    • hard links, pontos de montagem e pontos de nova análise;
    • fluxos de dados alternativos;
    • registro de mudanças usado por serviços de indexação, backup e outras ferramentas;
    • suporte a volumes e arquivos muito maiores do que os da família FAT.

    É por isso que o NTFS continua sendo a escolha normal para o volume do Windows, programas, documentos e discos internos usados principalmente nesse sistema. Ele trabalha tanto em HDs quanto em SSDs SATA e NVMe; o tipo físico da unidade não exige abandonar o NTFS.

    Na compatibilidade externa, a história é menos perfeita. O macOS normalmente lê NTFS, mas não grava nele sem software adicional. O Linux possui suporte de leitura e gravação — inclusive pelo driver NTFS3 do kernel e pelo tradicional NTFS-3G —, porém aparelhos eletrônicos variam muito. Um televisor pode reconhecer NTFS, outro pode ignorá-lo solenemente.

    Assim, para um disco que ficará no Windows, NTFS. Para uma unidade que viajará diariamente entre Windows e Mac, exFAT costuma causar menos revertério. E não custa repetir: o journal do NTFS ajuda a recuperar a consistência depois de uma queda, mas não substitui backup.

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    ReFS: resiliência, servidores e um futuro que ainda está chegando

    O Resilient File System, ou ReFS, apareceu com o Windows Server 2012. Seu nome já entrega a intenção: lidar melhor com grandes conjuntos de dados, detectar corrupção, manter volumes disponíveis e trabalhar em conjunto com tecnologias modernas de armazenamento.

    O ReFS usa checksums para seus metadados e pode usá-los também para os dados dos arquivos por meio dos integrity streams. Com redundância fornecida pelo Storage Spaces, ele consegue detectar uma cópia corrompida, buscar outra saudável e realizar correções online. Também oferece recursos valiosos para virtualização e backup, como clonagem de blocos, arquivos esparsos e operações eficientes com grandes imagens de máquinas virtuais.

    Mas ReFS não é “NTFS 2” para instalar imediatamente em todo notebook. A disponibilidade para criar volumes depende da edição e do cenário do Windows; vários recursos tradicionais do NTFS não se comportam da mesma forma ou simplesmente não existem; e o ReFS não permite reduzir um volume. Seu foco continua sendo armazenamento de dados, servidores, virtualização, backup e estações de trabalho em situações específicas.

    Há uma novidade curiosa em 2026: a Microsoft passou a documentar a inicialização do Windows Server a partir de ReFS, mas somente em versões Insider Preview e com exigências específicas. Até a partição do ambiente de recuperação continua precisando de NTFS. Portanto, é um experimento oficial promissor, não autorização para declarar a morte do NTFS na próxima terça-feira.

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    ext2, ext3 e ext4: a linhagem clássica do Linux

    Nos primeiros tempos do Linux, o sistema de arquivos herdado do Minix era simples demais para as ambições do novo sistema operacional. Em 1992 surgiu o Extended File System, ou ext, seguido pelo ext2 em 1993. A família se tornaria uma das marcas registradas do Linux.

    ext2: simples, estável e sem journal

    O ext2 organizava arquivos por meio de inodes, estruturas que guardam metadados e apontam para os blocos de dados. Ele suportava nomes longos, permissões Unix, links e volumes muito mais adequados ao Linux do que o sistema do Minix.

    Seu ponto fraco era a ausência de journaling. Depois de uma queda de energia ou travamento, uma verificação completa com fsck podia demorar bastante em discos grandes. Por outro lado, a falta do journal reduzia gravações e alguma sobrecarga, razão pela qual o ext2 continuou sendo usado por muito tempo em disquetes, cartões, pequenas partições de inicialização e outras situações específicas.

    ext3: o ext2 ganha um diário

    O ext3 surgiu no fim dos anos 1990 e se popularizou no início dos anos 2000 ao acrescentar journaling ao desenho do ext2. A grande vantagem foi a transição suave: era possível transformar um ext2 em ext3 adicionando um journal, sem reconstruir tudo do zero.

    Ele se tornou padrão de muitas distribuições Linux e reduziu drasticamente o drama da verificação depois de desligamentos incorretos. Hoje é considerado legado para novas instalações, mas ainda pode ser encontrado em servidores antigos, equipamentos embarcados e discos guardados. A documentação atual do kernel informa que o ext3 é um subconjunto do ext4 e deve ser acessado pelo driver ext4.

    ext4: evolução sem jogar a família fora

    O ext4 foi considerado estável no kernel Linux 2.6.28, lançado no fim de 2008. Ele manteve a familiaridade administrativa da linhagem ext, mas modernizou estruturas fundamentais.

    Entre as melhorias estão os extents, que descrevem faixas contínuas de blocos com muito menos metadados; alocação atrasada, que permite escolher melhor onde os dados serão gravados; checksums no journal; timestamps mais precisos; suporte a arquivos e volumes maiores; mais subdiretórios; desfragmentação online e verificações mais rápidas.

    O ext4 continua sendo uma escolha conservadora e muito difundida para desktops, servidores, máquinas virtuais, placas e dispositivos Linux. Debian, Ubuntu e muitas outras distribuições o utilizam ou oferecem como padrão. O Red Hat Enterprise Linux, por sua vez, adotou XFS como padrão nas gerações mais recentes, sem que isso torne o ext4 obsoleto.

    No Windows, ext4 não aparece como um volume comum no Explorador. O WSL 2 pode montar determinados discos Linux e acessar ext4 dentro do subsistema, mas isso não equivale a suporte nativo geral do Windows para qualquer pendrive ext4. No macOS também não há suporte nativo completo. Para intercâmbio entre sistemas, portanto, ext4 não disputa a mesma função do exFAT.

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    XFS, Btrfs e ZFS: quando o armazenamento fica mais ambicioso

    XFS: herança da Silicon Graphics para grandes cargas

    O XFS foi desenvolvido pela Silicon Graphics no início dos anos 1990 para o IRIX e chegou ao Linux no começo dos anos 2000. É um sistema de arquivos de 64 bits, com journaling, alta escalabilidade e grande capacidade de executar operações paralelas.

    Ele brilha em servidores, grandes arquivos, múltiplos fluxos simultâneos, arrays de armazenamento e cargas empresariais. Por isso é o padrão do Red Hat Enterprise Linux há várias versões. Pode crescer enquanto está montado, mas não possui uma ferramenta suportada para encolher o sistema de arquivos. É um daqueles detalhes pequenos que só parecem pequenos até o dia em que alguém precisa devolver 200 GB para outra partição.

    Seu ambiente natural hoje é Linux e outros sistemas Unix que o suportam. Windows e macOS não o montam nativamente como um disco de uso comum.

    Btrfs: snapshots e administração integrados

    O Btrfs — pronunciado de várias formas, porque aparentemente até o nome precisava oferecer opções — começou a ser desenvolvido em 2007 e entrou no kernel Linux em 2009. É um sistema moderno baseado em copy-on-write, com gerenciamento de volumes integrado.

    Ele oferece subvolumes, snapshots rápidos, checksums de dados e metadados, compressão, reflinks, envio incremental e suporte a múltiplos dispositivos. Distribuições como openSUSE e Fedora o adotaram em cenários importantes, e vários NAS utilizam Btrfs, muitas vezes com camadas próprias de gerenciamento.

    Nem todo recurso merece a mesma confiança: a própria documentação ainda classifica os perfis semelhantes a RAID 5 e RAID 6 como não prontos para produção. É um bom lembrete de que dizer “o sistema suporta” não é o mesmo que dizer “use tranquilamente para guardar a única cópia das fotos do casamento”.

    Snapshots do Btrfs também não são backups por si mesmos. Eles compartilham blocos com o conjunto original; uma falha física, corrupção mais ampla ou comando destrutivo pode atingir ambos. Snapshot é excelente para voltar rapidamente no tempo, mas uma cópia independente continua necessária.

    ZFS: sistema de arquivos e gerenciador de volumes no mesmo pacote

    O ZFS começou a ser desenvolvido pela Sun Microsystems em 2001 e teve seu código aberto em 2005. Em vez de separar rigidamente RAID, gerenciador de volumes e sistema de arquivos, ele reúne essas funções em pools de armazenamento.

    Seu conjunto de recursos inclui copy-on-write, checksums de ponta a ponta, snapshots, clones, compressão, replicação com send e receive, scrubs periódicos, espelhamento e RAID-Z. Havendo redundância, o ZFS pode comparar cópias, identificar a correta pelo checksum e reparar dados silenciosamente corrompidos.

    Ele é muito usado em NAS, servidores de arquivos, armazenamento de máquinas virtuais, FreeBSD, illumos e distribuições Linux por meio do OpenZFS. No Linux, sua licença CDDL não é considerada compatível com a GPL do kernel para incorporação direta ao código principal; por isso normalmente é instalado como módulo separado.

    ZFS é poderoso, mas pede planejamento. A escolha da topologia dos discos, da redundância, do tamanho de bloco, das políticas de snapshot e do backup não deveria ser feita apertando “Avançar” até sumir a janela. Poderoso não significa telepático.

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    UFS, JFS, ReiserFS e outros nomes da história Unix

    Seria impossível colocar todos os sistemas de arquivos já criados em um único artigo sem transformar esta página em uma partição que nunca termina. Mas alguns nomes merecem pelo menos uma visita.

    UFS e UFS2

    O Unix File System descende do Fast File System desenvolvido no ambiente BSD nos anos 1980. Tornou-se tradicional em variantes Unix e no Solaris. O FreeBSD modernizou a família com o UFS2 e ainda o oferece como sistema nativo, embora o ZFS tenha conquistado muito espaço. É robusto, bem conhecido no universo BSD e representa uma linhagem histórica diferente da família ext do Linux.

    JFS e JFS2

    O Journaled File System foi desenvolvido pela IBM para o AIX e ganhou versões para OS/2 e Linux. No AIX atual, o JFS2 — ou Enhanced Journaled File System — é a evolução de 64 bits voltada a arquivos e volumes maiores. No Linux, JFS existe e é leve, mas perdeu protagonismo para ext4, XFS e Btrfs.

    ReiserFS: uma antiga estrela que saiu de cena

    O ReiserFS foi uma opção bastante comentada no início dos anos 2000, especialmente pelo desempenho com muitos arquivos pequenos, e chegou a ser padrão em versões do SUSE Linux. Com a diminuição da manutenção e o avanço de alternativas, foi sendo abandonado. Depois de um período oficial de obsolescência, seu suporte foi removido do kernel Linux principal na versão 6.13, lançada em 2025.

    Um disco antigo em ReiserFS não perde os dados magicamente por causa disso, mas passa a exigir um kernel anterior ainda compatível ou ferramentas específicas para leitura e migração. Sistemas de arquivos também envelhecem; a diferença é que, em vez de cabelos brancos, aparecem avisos de montagem.

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    HFS, HFS+ e APFS: a evolução dos discos da Apple

    HFS e HFS+

    O Hierarchical File System, HFS, apareceu nos Macintosh em 1985. Em 1998, a Apple introduziu o HFS+, exibido no Utilitário de Disco como “Mac OS Expandido” ou “Mac OS Extended”. Ele aumentou limites, melhorou o uso do espaço e mais tarde ganhou journaling.

    Durante muitos anos, HFS+ foi o sistema dos Macs, dos discos de inicialização e das cópias do Time Machine. Ainda pode aparecer em HDs externos antigos e situações de compatibilidade, mas deixou de ser a escolha principal da plataforma.

    APFS: feito para a era do flash

    O Apple File System, APFS, tornou-se o padrão do macOS a partir da versão 10.13 High Sierra, em 2017, e também é usado por iPhone, iPad, Apple Watch, Apple TV e outros dispositivos da empresa.

    Ele foi otimizado para SSDs e memória flash, embora também funcione em HDs. Traz copy-on-write para metadados, clonagem rápida, snapshots, criptografia forte, melhor tratamento de diretórios e compartilhamento de espaço: vários volumes dentro do mesmo contêiner APFS podem utilizar dinamicamente o espaço livre comum, em vez de depender de divisões rígidas definidas antecipadamente.

    Para um Mac atual, APFS é a escolha normal. Para um disco externo que só circulará entre Macs recentes, também faz sentido. Para trocar arquivos com Windows, porém, exFAT costuma ser mais prático, pois o Windows não oferece suporte nativo ao APFS.

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    ISO 9660, Joliet e UDF: os sistemas dos CDs, DVDs e Blu-rays

    CD não usa FAT32 apenas porque é um disco redondo. O CD-ROM popularizou o ISO 9660, padronizado para permitir que diferentes computadores lessem a mesma mídia. O formato original tinha regras rígidas para nomes, profundidade de diretórios e caracteres.

    Para aliviar essas limitações, surgiram extensões. O Rock Ridge acrescentou ao ISO 9660 nomes longos, permissões e características Unix. O Joliet, criado pela Microsoft, permitiu nomes longos em Unicode e virou presença comum nos CDs gravados no Windows. Quando o Windows mostra “CDFS”, normalmente está se referindo ao suporte a esse universo de sistemas de CD, não a um sucessor secreto do NTFS.

    O UDF, ou Universal Disk Format, foi pensado para mídias ópticas mais novas e regraváveis. Tornou-se padrão em DVDs e Blu-rays e também pode ser usado em outras mídias. Muitos discos foram gravados como “UDF Bridge”, contendo estruturas compatíveis com UDF e ISO 9660 para aumentar a chance de leitura em aparelhos antigos.

    Esses formatos lembram que um sistema de arquivos não precisa ser ideal para edição constante. Em uma mídia distribuída pronta, a prioridade pode ser leitura universal, previsibilidade e preservação do conteúdo.

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    F2FS, SquashFS, EROFS, tmpfs e sistemas especializados

    F2FS

    O Flash-Friendly File System foi criado pela Samsung para considerar as características de memórias flash. É suportado no Linux e aparece em aparelhos Android, ao lado do ext4. O próprio Android Open Source Project mantém suporte frequente a ext4 e F2FS e oferece criptografia baseada em arquivos para ambos.

    Isso não quer dizer que todo SSD de computador deva ser imediatamente reformatado em F2FS. Controladores de SSD já executam sua própria tradução e manutenção, e sistemas generalistas maduros continuam excelentes. O F2FS faz mais sentido quando o sistema e o fabricante foram projetados e testados para ele.

    SquashFS e EROFS

    SquashFS é um sistema comprimido e somente para leitura, muito usado em Live CDs, imagens de instalação, firmwares de roteadores e pacotes como Snap. O conteúdo é preparado previamente e depois montado de forma compacta.

    EROFS também é somente para leitura, aceita compressão e foi otimizado para leitura eficiente. Entrou no Linux na era dos dispositivos móveis e aparece em imagens de sistema Android. Se o conteúdo não deve ser alterado durante o uso, um sistema somente para leitura pode ser mais compacto e previsível do que um sistema de propósito geral.

    tmpfs

    O tmpfs vive principalmente na memória RAM e pode usar swap. É empregado no Linux e em outros Unix para arquivos temporários, áreas voláteis e dados que precisam de acesso rápido. Seu conteúdo normalmente desaparece ao desligar ou desmontar. É um sistema de arquivos verdadeiro, só que com uma relação bastante desapegada com a eternidade.

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    SMB e NFS: quando os arquivos estão do outro lado da rede

    SMB e NFS frequentemente aparecem em listas de sistemas de arquivos, mas pertencem a uma categoria diferente dos formatos gravados diretamente no disco.

    SMB é o protocolo de compartilhamento mais associado ao Windows e também é oferecido por Samba, macOS, Linux e praticamente todo NAS. NFS nasceu no universo Unix e continua muito usado em Linux, BSD, servidores e virtualização.

    Quando você abre uma unidade de rede, o computador cliente fala SMB ou NFS com o servidor. O disco real do servidor pode estar em NTFS, ReFS, ext4, XFS, Btrfs, ZFS ou outro formato. O cliente não precisa conhecer a organização física; ele recebe arquivos e pastas pelo protocolo. É como pedir um livro pelo balcão: não importa se o bibliotecário guarda o acervo em estante de madeira, aço ou concreto.

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    MBR ou GPT: o mapa das partições

    Agora voltamos a uma camada anterior ao sistema de arquivos. MBR e GPT são estilos de particionamento: estruturas que descrevem onde cada partição começa, onde termina e que tipo de conteúdo deve existir ali.

    MBR: o mapa herdado da era do BIOS

    O Master Boot Record surgiu na era do IBM PC e do DOS. Seu primeiro setor contém a tabela de partições e, no uso tradicional, um pequeno código de inicialização. Ele foi projetado quando ninguém imaginava comprar no supermercado um único HD com vários terabytes.

    O MBR possui quatro entradas principais. Podemos ter quatro partições primárias ou usar uma delas como partição estendida, dentro da qual são criadas unidades lógicas. Foi uma solução engenhosa para ultrapassar o limite original, mas é uma gambiarra oficializada pela história.

    Com setores lógicos de 512 bytes, o endereçamento do MBR alcança aproximadamente 2 TiB. Em um disco maior, o espaço excedente pode ficar inutilizável ou exigir arranjos que prejudicam compatibilidade. Além disso, a tabela principal não possui a redundância e as verificações de integridade oferecidas pelo GPT.

    Ainda faz sentido usar MBR quando precisamos inicializar um computador realmente antigo em modo BIOS legado ou atender algum equipamento que não entende GPT. Fora desses casos, ele é principalmente uma herança de compatibilidade.

    GPT: o mapa moderno

    A GUID Partition Table faz parte do ecossistema UEFI. Em vez de depender das quatro entradas do MBR, identifica partições por GUIDs e foi projetada para discos enormes e expansão futura.

    O GPT mantém uma tabela principal e uma cópia de segurança no fim do disco, além de usar CRC32 para detectar danos em suas estruturas. No Windows, um disco GPT pode ter até 128 partições sem a história de primária, estendida e lógica. Seus limites teóricos são tão grandes que, para o usuário comum, o sistema de arquivos e o próprio sistema operacional encontrarão outros tetos muito antes.

    Todo disco GPT também contém um “MBR protetor”. Ele não transforma o disco em híbrido; serve para que ferramentas antigas enxerguem uma grande partição ocupando o dispositivo e não concluam alegremente que o disco está vazio e disponível para destruição.

    GPT exige UEFI? E MBR exige BIOS?

    Para discos apenas de dados, sistemas modernos podem usar GPT independentemente de o computador ter iniciado por BIOS ou UEFI, desde que o sistema operacional reconheça o formato. A ligação fica mais rígida no disco de inicialização: o Windows moderno inicializado em modo UEFI usa GPT; para boot tradicional em BIOS legado, usa-se normalmente MBR.

    Portanto, GPT não é sistema de arquivos, não substitui NTFS e não determina sozinho o formato dos dados. É perfeitamente normal ter GPT com NTFS no Windows, GPT com APFS no Mac, GPT com ext4 no Linux ou GPT com exFAT em um disco externo.

    Comparação resumida entre MBR e GPT
    Característica MBR GPT
    É um sistema de arquivos? Não Não
    Contexto histórico BIOS, DOS e PCs antigos UEFI e sistemas modernos
    Partições no Windows Quatro entradas principais; pode usar partição estendida Até 128 partições
    Discos grandes Limite prático próximo de 2 TiB com setores de 512 bytes Suporta tamanhos muito superiores
    Redundância da tabela Não possui o mesmo modelo de cópia e CRC Tabela principal, cópia de segurança e CRC32
    Quando escolher hoje Compatibilidade com BIOS ou equipamentos antigos Praticamente toda instalação nova compatível

    Atenção: converter estilos de partição pode apagar volumes conforme a ferramenta e o método usados. O Windows possui o MBR2GPT para determinados discos de sistema elegíveis, mas isso não torna qualquer conversão automaticamente segura. Backup verificado vem antes da cirurgia, e não depois que o paciente começou a gritar.

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    Disco básico ou dinâmico: a outra escolha do Windows

    “Básico” e “dinâmico” são tipos de gerenciamento de armazenamento do Windows. Eles não indicam velocidade, idade do disco, presença de SSD nem o uso de MBR ou GPT. Um disco básico pode ser MBR ou GPT; um disco dinâmico também pode usar um dos dois estilos em sistemas compatíveis.

    Disco básico

    É o tipo padrão e o mais comum. Em um disco básico, o Windows trabalha com partições contíguas de um único dispositivo. Cada partição pode ser formatada com NTFS, exFAT, FAT32 ou outro sistema suportado e virar um volume com letra como C: ou D:.

    O modelo básico é simples, amplamente reconhecido por instaladores, ferramentas de clonagem, programas de recuperação e outros sistemas operacionais. Para praticamente todo computador pessoal e para grande parte dos servidores, ele resolve a vida.

    Disco dinâmico

    Os discos dinâmicos chegaram com o Windows 2000. Eles utilizam o Logical Disk Manager e mantêm uma base de dados sobre os volumes. Com isso, podem criar:

    • volumes simples;
    • volumes distribuídos, que juntam espaço de vários discos;
    • volumes seccionados, semelhantes ao RAID 0;
    • volumes espelhados, semelhantes ao RAID 1;
    • volumes RAID 5 em edições de servidor compatíveis.

    Um volume dinâmico pode usar trechos não contíguos e até se estender por mais de um disco físico. No começo dos anos 2000 isso oferecia flexibilidade que o particionamento básico do Windows não tinha. Era possível aumentar volumes, somar discos e criar alguma redundância sem uma controladora RAID dedicada.

    Por que está caindo em desuso?

    A Microsoft não retirou a função. O Gerenciamento de Disco e o DiskPart ainda reconhecem volumes dinâmicos no Windows 10, Windows 11 e Windows Server atuais. Entretanto, a empresa os classifica oficialmente como preteridosdeprecated — para todos os usos, com exceção específica do espelhamento do volume de inicialização em certos cenários. Sua documentação de 2026 diz claramente que discos dinâmicos não são recomendados para novas implantações.

    Há vários motivos para esse envelhecimento:

    • o modelo depende das tecnologias antigas LDM e Virtual Disk Service;
    • compatibilidade com instaladores, outros sistemas, clonadores e ferramentas de recuperação é pior;
    • mover um conjunto de discos entre máquinas e importar volumes pode ser mais delicado;
    • um volume distribuído amplia o risco: se qualquer disco falhar, o volume inteiro pode ficar comprometido;
    • o volume seccionado melhora desempenho, mas não oferece redundância;
    • alternativas mais novas administram pools, espelhamento e paridade de maneira mais integrada;
    • voltar de dinâmico para básico com as ferramentas nativas normalmente exige excluir os volumes, o que torna a conversão uma operação nada inocente.

    A recomendação atual da Microsoft é usar discos básicos para o armazenamento comum e Storage Spaces quando for necessário reunir vários discos, criar espelhamento, paridade ou pools expansíveis. Em servidores, uma controladora RAID apropriada ou soluções de armazenamento definidas por software também podem ser mais adequadas, conforme a carga.

    Disco dinâmico e volume dinâmico não são VHDX dinâmico

    Mais uma pegadinha de nomes: um arquivo de disco virtual VHD ou VHDX “dinamicamente expansível” cresce conforme recebe dados. Isso não significa que o disco apresentado dentro da máquina virtual seja um “disco dinâmico” do Logical Disk Manager. São conceitos diferentes com a mesma palavra tentando nos levar ao revertério.

    E quem já usa disco dinâmico?

    Não há motivo para entrar em pânico e começar uma conversão na marra. “Preterido” não significa “parou de funcionar hoje”; significa que não é a tecnologia recomendada para novos projetos e pode não receber a mesma evolução das alternativas atuais. Se o conjunto está funcionando, o correto é verificar backups, documentar a configuração e planejar uma migração consciente para hardware RAID, disco básico, Storage Spaces ou outra solução adequada.

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    Qual sistema escolher hoje?

    Não existe um campeão absoluto. Existe o sistema que atende ao equipamento, aos sistemas operacionais envolvidos, ao tamanho dos arquivos, à necessidade de permissões, à tolerância a falhas e à possibilidade de recuperação.

    Escolhas comuns em 2026
    Situação Escolha geralmente indicada Observação
    Disco interno com Windows GPT, disco básico e NTFS É a combinação normal para máquinas atuais
    Pendrive para aparelhos antigos FAT32, geralmente com MBR Máxima compatibilidade, mas arquivos não podem chegar a 4 GB
    SSD ou pendrive entre Windows, Mac e Linux exFAT Bom intercâmbio e suporte a arquivos grandes; não tem journal
    Disco exclusivo de um Mac atual GPT e APFS Especialmente apropriado para SSD e recursos modernos da Apple
    Linux de uso geral ext4 Maduro, difundido e fácil de administrar
    Servidor Linux com arquivos grandes e muita E/S paralela XFS Ótima escalabilidade; lembre que não encolhe
    Linux com snapshots, subvolumes e compressão Btrfs Planeje os perfis de múltiplos discos com cuidado
    NAS ou servidor com foco em integridade e pools ZFS/OpenZFS Excelente conjunto de recursos, desde que a topologia seja bem planejada
    Windows Server, virtualização ou alvo de backup específico ReFS com Storage Spaces, quando suportado Depende da edição, aplicação e matriz oficial de compatibilidade
    CD de ampla compatibilidade ISO 9660 com Joliet ou Rock Ridge Escolha as extensões conforme os sistemas que lerão a mídia
    DVD ou Blu-ray UDF É o formato típico das mídias ópticas mais novas

    Para cartões SD, vale uma regra adicional: câmeras, gravadores e outros aparelhos preferem que o cartão seja formatado pelo próprio equipamento ou pela ferramenta da SD Association. O padrão relaciona a capacidade ao sistema esperado: SD usa FAT12 ou FAT16, SDHC usa FAT32 e SDXC ou SDUC usa exFAT. Trocar por um formato “mais moderno” pode apenas fazer a câmera fingir que nunca viu aquele cartão.

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    O que nenhum sistema de arquivos faz por milagre

    Journal não é backup

    Ele ajuda o sistema a manter ou recuperar sua consistência depois de uma interrupção. Não cria outra cópia do seu documento em outro lugar.

    Snapshot não é backup independente

    Snapshots são excelentes para recuperar rapidamente uma versão anterior, mas costumam permanecer no mesmo conjunto de discos. Se o hardware morrer, o pool for destruído ou um invasor apagar tudo, original e snapshots podem partir juntos.

    RAID não é backup

    Espelhamento e paridade ajudam o serviço a continuar quando um disco falha. Eles também replicam exclusões acidentais, arquivos corrompidos, ransomware e decisões tomadas às três da manhã.

    Checksum não cria uma cópia saudável

    Ele pode avisar que o conteúdo está errado. Para corrigir automaticamente, o sistema precisa de redundância válida. Sem isso, teremos uma informação muito precisa de que o arquivo estragou — útil, mas pouco consoladora.

    Formatação rápida não apaga com segurança

    Normalmente ela recria estruturas do sistema de arquivos e marca o espaço como disponível, sem sobrescrever todos os dados antigos. Em SSDs, TRIM e o funcionamento interno do controlador tornam a recuperação e o apagamento seguro ainda mais particulares. Para descarte de informação sensível, é preciso usar o procedimento apropriado ao dispositivo e à criptografia adotada.

    O sistema mais sofisticado não salva hardware morrendo

    Erros SMART, setores defeituosos, desconexões, superaquecimento e controladores problemáticos não viram saúde por causa de uma sigla bonita. Monitoramento, redundância e cópias verificadas continuam valendo mais do que fé tecnológica.

    A regra continua simples: pelo menos três cópias dos dados importantes, em duas mídias ou sistemas diferentes, com uma delas fora do equipamento principal. E backup só ganha esse nome depois que alguém confirma que consegue restaurá-lo.

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    Conclusão: o melhor sistema é o adequado para o trabalho

    Dos disquetes em FAT12 aos pools gigantes em ZFS, os sistemas de arquivos contam a própria história da computação. Cada geração nasceu tentando resolver os problemas que a anterior não conseguia mais esconder: nomes curtos, discos pequenos, quedas de energia, permissões, milhões de arquivos, corrupção silenciosa, snapshots, memória flash e armazenamento distribuído por vários dispositivos.

    Alguns sobreviveram porque são tecnicamente sofisticados. Outros sobreviveram justamente porque são simples. O FAT32 continua vivo não por ser o mais seguro ou poderoso, mas porque quase tudo o entende. O NTFS permanece dominante no Windows porque reúne maturidade, compatibilidade e recursos. O ext4 ocupa papel semelhante no Linux de uso geral. APFS conversa profundamente com o ecossistema Apple. XFS, Btrfs, ZFS e ReFS atendem necessidades que vão muito além de apenas criar uma pasta chamada “Documentos”.

    MBR e GPT, por sua vez, não organizam os arquivos: organizam as partições. Disco básico e dinâmico não dizem se o volume é NTFS ou FAT32: dizem como o Windows monta e gerencia esse volume. Entender essas camadas evita boa parte da confusão e, principalmente, evita formatar a coisa errada achando que estava apenas mudando uma sigla inocente.

    Se hoje eu voltasse àquela aula da FTEC, provavelmente lembraria de ainda mais sistemas e o professor talvez promovesse o “oráculo” a algum cargo mais extravagante. Ou mandasse o oráculo calar a boca para a aula conseguir terminar, o que também seria bastante razoável,aaa.

    De uma coisa tenho certeza: por trás de cada arquivo que abrimos há uma estrutura enorme trabalhando em silêncio. Quando ela funciona, ninguém lembra que existe. Quando deixa de funcionar, subitamente todo mundo aprende o significado de chkdsk, fsck, recuperação de dados e oração.

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    Fontes e leituras complementares

    Fontes consultadas e informações técnicas conferidas em setembro de 2026.

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    Um abraço e até a próxima!

    Fernando

  • Do cartão perfurado à inteligência artificial: a história das linguagens de programação que dominaram, sumiram e se recusam a morrer

    Tempo de leitura: 22 minutos

    Ooi amigos e leitores!!!

    Tudo bem?

    Espero que sim…

    Hoje vamos fazer uma viagem por uma história cheia de nomes estranhos, brigas de família, linguagens dadas como mortas que continuam trabalhando e outras que realmente foram para o cemitério dos bits.

    Vamos falar sobre a história das linguagens de programação mais famosas — e também sobre algumas coisas que costumam entrar nessa conversa embora, tecnicamente, não sejam linguagens de programação. É o caso do HTML, do CSS, do CGI e do MySQL. Calma: ninguém será expulso da festa por causa da documentação,aaa…

    Algumas dessas tecnologias nasceram quando os computadores ocupavam salas inteiras. Outras apareceram para colocar janelas na tela, construir a internet, administrar servidores ou impedir que o programador transformasse a memória do computador num terreno baldio. Algumas perderam espaço por limitações técnicas; outras foram abandonadas por seus fabricantes; várias apenas saíram dos holofotes e continuam sustentando bancos, governos, empresas, aviões, celulares, sites e sistemas que ninguém tem coragem de desligar.

    Portanto, não faremos apenas uma lista de datas. Vamos é entender de onde cada uma veio, o que ela mudou, onde ainda é usada e, nos casos de falecimento confirmado ou quase confirmado, quem matou a criatura.

    Sumário

    Antes de tudo: código de máquina e Assembly

    No princípio não havia Python, janelinha, botão “Executar” nem mensagem simpática explicando que faltou fechar um parêntese. Havia números.

    Os primeiros computadores eram programados por meio de instruções diretamente compreendidas pela máquina, representadas por códigos numéricos, cartões, fitas perfuradas, cabos e chaves. Era um trabalho demorado, específico para cada equipamento e bastante propenso a erros. Digitar um comando errado hoje pode gerar uma mensagem do compilador; naquela época, dependendo da máquina, talvez fosse preciso procurar o erro no meio de uma procissão de cartões.

    As linguagens Assembly deram nomes simbólicos às instruções do processador. Em vez de decorar apenas sequências numéricas, o programador passou a usar mnemônicos como MOV, ADD e JMP. Um montador, o assembler, transforma esses comandos em código de máquina.

    Situação atual: vivíssima, mas especializada. Assembly ainda aparece em sistemas operacionais, inicialização de computadores, firmwares, drivers, equipamentos embarcados, rotinas de altíssimo desempenho e engenharia reversa. Não é a primeira escolha para fazer um cadastro de clientes, a menos que o programador esteja com tempo sobrando e algum desejo secreto de sofrer,aaa…

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    Fortran: a ciência aprende a falar com o computador

    O Fortran, nome derivado de Formula Translation, estreou em 1957. Foi desenvolvido na IBM por uma equipe liderada por John Backus e representou um salto gigantesco: cientistas e engenheiros puderam expressar fórmulas e cálculos numa linguagem muito mais próxima de sua maneira de trabalhar, deixando para o compilador a tarefa de produzir as instruções da máquina.

    Ele foi decisivo para a computação científica. Previsão do tempo, física, química, engenharia, simulações, pesquisa espacial e cálculo numérico passaram por linhas de Fortran. Como muita coisa importante foi escrita nele e seus compiladores foram sendo extraordinariamente otimizados, trocar tudo apenas para parecer moderno raramente seria uma ideia barata ou inteligente.

    Situação atual: antiga, atualizada e viva. O Fortran moderno é bem diferente daquele de 1957 e continua presente em computação de alto desempenho, supercomputadores e grandes bibliotecas científicas. É mais uma prova de que linguagem velha não é necessariamente linguagem parada.

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    Lisp: parênteses, inteligência artificial e ideias imortais

    Criado por John McCarthy em 1958, o Lisp nasceu ligado à pesquisa em inteligência artificial e ao processamento simbólico. Seu nome vem de List Processing, porque listas são o centro de sua estrutura. Código e dados podem ter formas muito parecidas, o que abriu espaço para macros poderosas, programas capazes de manipular programas e um jeito diferente de pensar a computação.

    O excesso de parênteses virou piada histórica. Para quem olha um programa Lisp pela primeira vez, pode parecer que o teclado ficou com a tecla “)” trancada. Contudo, conceitos popularizados por Lisp — recursão, coleta automática de lixo, funções como valores e programação funcional — influenciaram muitas linguagens posteriores.

    Situação atual: não domina o mercado, mas não morreu. Common Lisp, Scheme, Racket, Clojure e Emacs Lisp mantêm a família em atividade. O Lisp original virou avô; os descendentes continuam mexendo nas gavetas.

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    COBOL: o dinossauro que ainda fecha a folha de pagamento

    O COBOL nasceu no fim da década de 1950, num esforço que reuniu governo, fabricantes e empresas dos Estados Unidos. A intenção era criar uma linguagem comum para processamento de dados comerciais. Parte de suas ideias veio do FLOW-MATIC, desenvolvido sob a liderança de Grace Hopper, uma das figuras mais importantes da história da computação.

    O nome significa Common Business-Oriented Language. Sua sintaxe foi pensada para parecer relativamente próxima do inglês e para descrever registros, arquivos, cálculos financeiros e regras de negócio de maneira clara. Não era uma linguagem feita para desenhar foguinho na tela. Era feita para faturamento, folha de pagamento, contas, seguros, impostos, estoque e outros assuntos capazes de acabar com o bom humor de qualquer empresa quando dão errado.

    Ao longo das décadas, uma quantidade colossal de código foi escrita. Grandes bancos, seguradoras, governos, companhias aéreas e empresas de vários setores construíram sistemas em COBOL sobre mainframes. Muitos desses sistemas não estão apenas “guardados”: processam transações diariamente, conversam com aplicações modernas e carregam regras acumuladas durante quarenta, cinquenta ou sessenta anos.

    Por que o COBOL não morreu?

    Primeiro, porque os programas continuam funcionando. Segundo, porque reescrever um sistema crítico é caro, demorado e arriscado. Terceiro, porque a parte mais valiosa nem sempre é a sintaxe: são as regras de negócio espalhadas pelo código, testadas por décadas de operação. Às vezes ninguém possui uma documentação completa dessas regras. O programa virou a documentação — uma documentação que compila, cobra juros e fecha o balanço.

    Além disso, mainframes continuam recebendo modernizações, e o COBOL ganhou novos compiladores, integração com bancos de dados, serviços, APIs, JSON, XML e ferramentas atuais de desenvolvimento. Em muitos projetos, a solução não é arrancar tudo e começar de novo, mas modernizar interfaces, separar serviços, testar melhor e substituir partes com cuidado.

    O grande problema está na formação de profissionais. Muita gente experiente se aposenta, enquanto os cursos costumam correr atrás apenas das linguagens da moda. Isso transforma o conhecimento de COBOL em algo menos comum justamente quando ainda há sistemas que precisam dele.

    Já falamos bastante sobre isso nessa coisa aqui. Quem quiser estudar a linguagem pode visitar:

    Situação atual: legado crítico, mercado especializado e vida longa. Não é a linguagem mais indicada para criar a próxima rede social de vídeos de gato. Mas, quando alguém compra nessa rede social usando um cartão, há uma chance razoável de algum sistema antigo participar da conversa nos bastidores.

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    RPG: o primo empresarial menos famoso

    Não, neste caso RPG não significa jogo de interpretação com magos, dados e dragões. A sigla veio de Report Program Generator. A IBM criou a linguagem em 1959 para facilitar a produção de relatórios e o processamento comercial.

    Ela cresceu junto com os sistemas de médio porte da empresa e continua ligada principalmente ao IBM i, sucessor de plataformas como AS/400. Sistemas de folha, estoque, faturamento, indústria e varejo ainda utilizam RPG. As versões modernas abandonaram boa parte da aparência rígida das antigas colunas e ganharam recursos mais atuais.

    Situação atual: nicho empresarial bastante vivo. Fora do ecossistema IBM, quase não aparece; dentro dele, continua indo ao trabalho todos os dias.

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    ALGOL: a linguagem que virou ancestral

    O ALGOL, especialmente o ALGOL 60, teve enorme importância na definição de algoritmos e na evolução da programação estruturada. Popularizou uma descrição formal da sintaxe e ajudou a consolidar blocos, escopos e outras ideias que parecem naturais hoje.

    Ele não venceu a guerra comercial como Fortran ou COBOL. Fabricantes diferentes já possuíam interesses, ferramentas e bases instaladas; além disso, o ALGOL teve dificuldades práticas de padronização de entrada, saída e implementação. Mesmo assim, influenciou diretamente Pascal e, por caminhos diferentes, famílias inteiras de linguagens posteriores.

    Situação atual: como produto de mercado, praticamente histórica. Como conjunto de ideias, está espalhado por toda parte. É uma daquelas criaturas que morreram e deixaram tantos filhos que ninguém consegue encerrar o inventário.

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    BASIC e Visual Basic: do laboratório às janelas do Windows

    O BASIC foi criado em Dartmouth por John Kemeny e Thomas Kurtz. O primeiro programa rodou em 1º de maio de 1964. O objetivo estava explícito no nome: Beginner’s All-purpose Symbolic Instruction Code. Eles queriam que estudantes de diferentes áreas pudessem usar computadores sem precisar virar especialistas em eletrônica, matemática avançada ou algum dialeto secreto de laboratório.

    Décadas depois, os microcomputadores levaram o BASIC para milhões de casas. Muitas máquinas já ligavam apresentando um interpretador e um convite implícito: digite alguma coisa. GW-BASIC, QuickBASIC, QBasic, Commodore BASIC, AppleSoft BASIC e inúmeros dialetos fizeram parte da iniciação de gerações.

    As versões clássicas ganharam fama de estimular programas cheios de GOTO, números de linha e caminhos capazes de fazer um prato de espaguete parecer organizado. Isso não era uma condenação inevitável da linguagem, mas vários dialetos iniciais facilitavam bastante a bagunça.

    Visual Basic: desenhe a janela e programe o comportamento

    Em 1991, a Microsoft lançou o Visual Basic. Ele combinava a família BASIC com desenvolvimento visual e rápido para Windows: o programador colocava botões, caixas de texto e outros componentes num formulário e escrevia o código dos eventos. Essa maneira de trabalhar democratizou a criação de aplicações gráficas e influenciou muitas ferramentas posteriores.

    O Visual Basic 6, de 1998, tornou-se especialmente popular. Porém, a antiga IDE deixou de receber suporte em 2008. A Microsoft ainda mantém componentes centrais do runtime no Windows para permitir que aplicações existentes continuem rodando, mas recomenda a migração para tecnologias modernas.

    O Visual Basic .NET, lançado na era do .NET, é outra geração da linguagem. Continua documentado e utilizável, especialmente em aplicações Windows e manutenção de sistemas, embora a Microsoft concentre bem mais evolução e atenção em C#.

    E ainda existe o VBA, usado em macros e automações do Microsoft Office. Planilhas de empresas inteiras continuam dependendo dele — às vezes com documentação, às vezes com uma oração e o aviso “não mexa nessa célula”.

    Situação atual: o BASIC clássico perdeu o centro do palco; o ambiente de desenvolvimento do VB6 está oficialmente aposentado; o runtime sobrevive por compatibilidade; VB.NET e VBA continuam vivos. Portanto, escrever apenas “Visual Basic morreu” é simples, dramático e incompleto.

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    Pascal e Delphi: da sala de aula ao programa de verdade

    Niklaus Wirth publicou o Pascal em 1970. A linguagem foi criada com atenção à programação estruturada e ao ensino, ajudando estudantes a organizar tipos, procedimentos, funções, decisões e repetições sem transformar tudo numa excursão descontrolada de saltos.

    O Pascal espalhou-se por universidades e escolas, mas não ficou preso nelas. O Turbo Pascal, lançado pela Borland em 1983, reuniu editor, compilador rápido e preço acessível num ambiente que fez história no DOS. Era possível escrever, compilar e testar um programa sem esperar o café esfriar — algo bastante respeitável para a época.

    Delphi: Pascal ganha componentes, banco de dados e janelas

    Em 14 de fevereiro de 1995, a Borland lançou o Delphi. A ferramenta levou o Object Pascal para o desenvolvimento visual de aplicações Windows, com componentes reutilizáveis, formulários, acesso a bancos de dados e compilação nativa. Foi uma resposta poderosíssima à necessidade de construir sistemas comerciais rapidamente.

    Delphi é ao mesmo tempo o nome do ambiente e, no uso cotidiano, da linguagem derivada de Object Pascal. Ele mudou de mãos ao longo dos anos e hoje pertence à Embarcadero. Em 2026, o RAD Studio 13 Florence demonstra que o produto continua sendo desenvolvido, inclusive com IDE de 64 bits e suporte a plataformas atuais.

    Aliás, eu mesmo continuo mexendo no velho Delphi 6 para criar e atualizar programas integrados ao DOSVOX. Portanto, se alguém disser perto demais que Delphi morreu, o compilador instalado aqui poderá entrar com um recurso,aaa…

    Situação atual: Pascal deixou de ser a linguagem de ensino dominante, mas Free Pascal e Lazarus mantêm uma alternativa livre e multiplataforma. Delphi continua comercial, atualizado e usado principalmente em aplicações corporativas, desktop, bancos de dados, sistemas antigos e projetos multiplataforma. Não possui a multidão de Python ou JavaScript, mas está longe do cemitério.

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    C: pequeno no nome e gigantesco na influência

    Dennis Ritchie transformou a linguagem B em C nos Bell Labs entre 1971 e 1973. A história de C está ligada ao Unix: reescrever partes do sistema numa linguagem de nível mais alto ajudou a torná-lo portável entre máquinas diferentes.

    C oferece acesso muito próximo à memória e ao equipamento sem obrigar o programador a escrever tudo em Assembly. Essa combinação de desempenho, simplicidade do núcleo e portabilidade fez a linguagem atravessar décadas.

    Sistemas operacionais, compiladores, bancos de dados, bibliotecas, ferramentas de rede, firmwares e equipamentos embarcados dependem de C. Muitas linguagens mais novas também são implementadas em C ou conversam com bibliotecas escritas nele.

    O preço desse poder é a responsabilidade. Ponteiros, gerenciamento manual de memória e limites de vetores podem produzir programas extremamente rápidos ou bugs extremamente criativos. C não coloca muitas grades na estrada; entrega o veículo, mostra os pedais e espera que o motorista tenha juízo.

    Situação atual: viva e fundamental. Talvez perca espaço em alguns projetos para linguagens com maior segurança de memória, como Rust, mas não há sinal de desaparecimento geral.

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    C++: C ganhou classes — e mais algumas toneladas de recursos

    Bjarne Stroustrup começou, em 1979, o trabalho que inicialmente chamou de “C com Classes”. O nome C++ apareceu em 1983. A proposta era preservar a eficiência e o contato com o sistema oferecidos por C, acrescentando mecanismos melhores para organizar programas grandes.

    Com o tempo vieram classes, herança, polimorfismo, templates, biblioteca padrão, programação genérica, recursos funcionais e muitas outras camadas. C++ tornou-se poderosa, ampla e famosa por permitir várias maneiras de resolver o mesmo problema — inclusive algumas que o autor do código esquecerá como funcionam seis meses depois.

    Ela está em navegadores, mecanismos de jogos, aplicações gráficas, sistemas financeiros de baixa latência, ferramentas profissionais, bancos de dados, simuladores e softwares nos quais desempenho e controle importam muito.

    Situação atual: muito viva. Continua recebendo novos padrões e recursos. É antiga, moderna e complexa ao mesmo tempo, uma façanha que poucos conseguem realizar sem precisar de três manuais e um café.

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    Clipper: o rei dos cadastros em tela preta

    O Clipper surgiu em 1985, criado pela Nantucket, inicialmente como compilador para aplicações compatíveis com a família dBASE e xBase. Seu grande território foi o DOS. Cadastros, estoques, vendas, contabilidade, consultórios e sistemas administrativos de todos os tamanhos ganharam telas de texto, arquivos DBF e executáveis feitos em Clipper.

    Ele permitia transformar aplicações de banco de dados em programas distribuíveis e rápidos para os computadores da época. A linguagem cresceu, recebeu bibliotecas e tornou-se uma ferramenta de trabalho para uma enorme comunidade.

    Por que o Clipper perdeu o mercado?

    A mudança do DOS para interfaces gráficas foi decisiva. Visual Basic, Delphi, PowerBuilder, Access e outras ferramentas ofereceram caminhos mais diretos para Windows e arquiteturas cliente-servidor. O Clipper oficial não realizou essa transição com a mesma força. A aquisição da Nantucket pela Computer Associates, mudanças de estratégia e o fim das atualizações também empurraram a plataforma para a manutenção de sistemas existentes.

    Então ele morreu? O produto CA-Clipper, sim: foi descontinuado. A linguagem e os programas, nem completamente. Há sistemas antigos ainda em uso, emuladores e sucessores como Harbour e xHarbour. O Harbour é livre, multiplataforma e compatível com Clipper, permitindo levar muito código xBase a ambientes atuais.

    Situação atual: o Clipper comercial clássico morreu; o legado e seus descendentes continuam respirando. É menos um zumbi perigoso e mais aquele tio aposentado que ainda aparece para consertar o cadastro porque ninguém mais sabe onde fica a rotina do estoque.

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    Ada: quando um erro não pode derrubar um avião

    Na década de 1970, o Departamento de Defesa dos Estados Unidos enfrentava uma quantidade enorme de linguagens incompatíveis em seus projetos. Um concurso escolheu a proposta liderada por Jean Ichbiah, e a nova linguagem recebeu o nome de Ada em homenagem a Ada Lovelace. O primeiro padrão foi publicado em 1983.

    A linguagem prioriza legibilidade, tipos rigorosos, modularidade, concorrência e confiabilidade. Isso a tornou importante em sistemas embarcados e críticos, incluindo aviação, defesa, ferrovias, espaço e outras áreas nas quais “depois lançamos uma correção” pode ser uma estratégia ligeiramente inadequada.

    Situação atual: nunca virou linguagem popular de uso geral, mas permanece viva em ambientes de alta confiabilidade. Seu parente SPARK permite verificar formalmente propriedades do programa. Ada perdeu o mandato que a favorecia em projetos militares, mas não perdeu os problemas que sabe resolver.

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    Smalltalk: a linguagem que ajudou a inventar o futuro

    Desenvolvido no Xerox PARC durante a década de 1970 por uma equipe que incluiu Alan Kay, Dan Ingalls e Adele Goldberg, Smalltalk não era apenas uma linguagem. Era um ambiente inteiro, com interface gráfica, objetos, janelas e uma maneira interativa de programar.

    Ele ajudou a popularizar a programação orientada a objetos e influenciou interfaces gráficas, ambientes de desenvolvimento e linguagens posteriores. A ideia de enviar mensagens a objetos estava no coração do sistema.

    Situação atual: nicho ativo, com implementações como Pharo, Squeak e VisualWorks. Smalltalk não dominou os computadores pessoais, mas muitas ideias que pareciam futuristas em seu ambiente hoje são rotina. Comercialmente pequeno; historicamente gigantesco.

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    Java: escreva uma vez, execute em muitos lugares

    Java começou na Sun Microsystems, no início da década de 1990, dentro de um projeto para eletrônicos de consumo. A linguagem criada por James Gosling chamava-se Oak. Depois foi redirecionada para a internet, recebeu o nome Java e apareceu publicamente em 1995.

    A grande promessa era compilar o programa para um formato executado pela Máquina Virtual Java. Em vez de gerar diretamente um programa exclusivo para cada sistema, o mesmo bytecode poderia rodar onde houvesse uma JVM compatível. Daí veio o famoso “escreva uma vez, execute em qualquer lugar” — acompanhado, naturalmente, de algumas piadas de programadores sobre as ocasiões em que a promessa exigia negociação.

    Java tornou-se enorme em servidores, aplicações corporativas, sistemas bancários, ferramentas, plataformas distribuídas e aplicativos Android. No Android moderno divide o espaço com Kotlin, mas o ecossistema Java continua sendo uma fundação importantíssima.

    Situação atual: vivíssima, atualizada e muito usada. Pode não ser mais a novidade da semana, mas empresas normalmente preferem que o sistema de faturamento seja previsível a que ele ganhe um troféu de linguagem mais faceirinha do mês.

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    C#: a resposta da Microsoft para a era do .NET

    C#, pronunciado “C sharp”, foi desenvolvido na Microsoft por uma equipe cujos principais criadores incluíram Anders Hejlsberg, Scott Wiltamuth e Peter Golde. Sua primeira implementação amplamente distribuída apareceu em 2000, junto à iniciativa .NET.

    A linguagem reuniu ideias de C++, Java e outras famílias numa plataforma moderna, fortemente tipada e com gerenciamento automático de memória. Começou muito ligada ao Windows, mas o .NET atual é multiplataforma e de código aberto.

    C# é usado em aplicações empresariais, serviços web, nuvem, desktop, ferramentas, jogos com Unity e muitos outros cenários. A Microsoft continua evoluindo a linguagem rapidamente, o que a colocou no centro de seu ecossistema de desenvolvimento.

    Situação atual: muito viva. Se o Visual Basic .NET ocupa hoje uma sala mais tranquila da casa, C# está na cozinha, na sala, no escritório e provavelmente mexendo no roteador.

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    Perl e CGI: a primeira grande oficina da web dinâmica

    Larry Wall lançou Perl 1 em 1987. A linguagem nasceu no mundo Unix e ficou famosa pelo processamento de texto, pelas expressões regulares, pela automação e pela filosofia de que existe mais de uma maneira de fazer a mesma coisa.

    Perl virou ferramenta indispensável para administradores de sistemas e, nos anos 1990, tornou-se uma das estrelas da web dinâmica. Formulários, livros de visitas, contadores, pesquisas, fóruns e lojas passaram por scripts Perl.

    CGI não é uma linguagem

    CGI significa Common Gateway Interface. É uma interface que permite ao servidor web executar um programa externo, entregar os dados da requisição e receber a resposta. Esse programa podia ser escrito em Perl, C, shell, Python ou qualquer outra linguagem adequada.

    A interface é usada na web desde 1993. Ela foi revolucionária porque permitiu sair das páginas completamente estáticas. O problema do CGI clássico é que, normalmente, cada requisição inicia um novo processo. Em sites movimentados, abrir um programa inteiro para cada visitante consome recursos e não escala bem. Módulos integrados ao servidor, FastCGI, servidores de aplicação e frameworks persistentes passaram a atender melhor esses cenários.

    Por que Perl perdeu tanto espaço?

    PHP facilitou a hospedagem e a criação de páginas dinâmicas. Python e Ruby ganharam popularidade com sintaxe considerada mais uniforme e ecossistemas web atraentes. JavaScript avançou no servidor. O próprio estilo extremamente flexível de Perl podia produzir programas concisos, mas também códigos difíceis de compreender quando escritos sem disciplina.

    Situação atual: Perl continua vivo em automação, bioinformática, processamento de texto e manutenção de sistemas. O CPAN ainda reúne uma enorme coleção de módulos. CGI também não deixou de existir, porém saiu do centro da arquitetura web. Nenhum dos dois morreu; apenas perderam o camarote.

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    HTML e CSS: não são linguagens de programação, mas tente fazer a web sem elas

    HTML significa HyperText Markup Language. É uma linguagem de marcação: descreve a estrutura e o significado do conteúdo. Títulos, parágrafos, links, listas, tabelas, formulários e imagens são representados por elementos HTML.

    Tim Berners-Lee criou as primeiras versões no nascimento da World Wide Web, por volta de 1990. O HTML evoluiu de um conjunto pequeno de marcações para a base estrutural de aplicações completas.

    CSS significa Cascading Style Sheets. É uma linguagem de estilos que define apresentação: cores, tamanhos, espaçamentos, posicionamento, adaptação a telas diferentes e muito mais. A primeira recomendação CSS do W3C apareceu em 1996.

    Nenhuma das duas é linguagem de programação no sentido clássico: por si só, não oferecem o modelo geral de algoritmos, decisões e processamento que associamos a C, Python ou JavaScript. Ainda assim, são linguagens formais essenciais, e a separação entre estrutura e apresentação foi decisiva para organização, manutenção e acessibilidade da web.

    Situação atual: enquanto a web continuar baseada em documentos e navegadores, HTML e CSS dificilmente morrerão. Podem ganhar recursos, módulos e novas formas de uso, mas substituí-los exigiria praticamente inventar outra web. Até lá, essa coisa aqui continuará juntando <p>, <h2> e umas folhas de estilo que às vezes resolvem colaborar,aaa…

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    JavaScript: a linguagem que escapou do navegador

    Brendan Eich criou JavaScript em 1995, quando trabalhava na Netscape. A linguagem apareceu no Netscape Navigator e ganhou seu nome numa tentativa de aproveitar a popularidade de Java, embora as duas tenham muito menos parentesco do que o nome leva a imaginar.

    No início, JavaScript servia principalmente para pequenas interações em páginas. Com a padronização ECMAScript, a evolução dos navegadores, o AJAX e aplicações web cada vez maiores, ganhou uma responsabilidade que seus primeiros programas dificilmente anunciavam.

    Depois veio o Node.js, levando JavaScript com força para servidores, ferramentas de desenvolvimento e automação. Hoje a mesma família está no navegador, no servidor, em aplicativos móveis, programas desktop e incontáveis ferramentas. TypeScript acrescentou tipagem e melhores recursos para projetos grandes, mas no fim normalmente é transformado em JavaScript.

    Situação atual: indispensável para a web moderna. Pode ser amada, criticada ou responsabilizada por uma pasta node_modules capaz de desenvolver gravidade própria; ignorada é que ela não pode ser.

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    PHP: a criatura que muita gente critica e quase toda a web conhece

    Em 1995, Rasmus Lerdorf publicou o código das ferramentas que deram origem ao PHP. Elas começaram como utilitários para acompanhar visitas a sua página pessoal e processar formulários. O projeto cresceu, virou linguagem, recebeu novos mecanismos internos e passou a significar recursivamente PHP: Hypertext Preprocessor.

    A grande vantagem era direta: inserir código numa página, enviar ao servidor e gerar HTML dinamicamente. Hospedagens baratas ofereceram PHP em toda parte. Sistemas como WordPress, Drupal, Joomla e inúmeras aplicações próprias multiplicaram sua presença.

    A linguagem carrega decisões antigas, inconsistências e uma reputação alimentada por muito código inseguro escrito quando a web ainda aprendia a trancar as portas. Entretanto, PHP moderno possui orientação a objetos, tipos, gerenciador de dependências, frameworks, ferramentas de teste, melhorias expressivas de desempenho e versões mantidas ativamente.

    Situação atual: muito vivo. O próprio WordPress que sustenta essa coisa aqui é feito em PHP. Se a linguagem morrer de repente, não será um enterro discreto: uma parte imensa da web cairá dentro da cova junto,aaa…

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    SQL e MySQL: a linguagem e o banco não são a mesma coisa

    O modelo relacional de dados foi proposto por Edgar F. Codd, da IBM, em 1970. Na mesma década, Donald Chamberlin e Raymond Boyce desenvolveram uma linguagem inicialmente chamada SEQUEL e depois SQL, sigla de Structured Query Language.

    SQL é uma linguagem declarativa para consultar e manipular bancos relacionais. Em vez de programar passo a passo como encontrar cada registro, descrevemos o resultado desejado: selecionar clientes, somar vendas, relacionar pedidos, atualizar valores ou remover dados — esta última opção preferencialmente depois de conferir o WHERE, para que a sexta-feira não termine numa restauração de backup.

    MySQL, por sua vez, é um sistema gerenciador de banco de dados relacional lançado em 1995. Ele entende SQL, armazena e organiza os dados, controla acessos, transações, índices e outras estruturas. Portanto, dizer que “programamos em MySQL” pode ser compreendido na conversa, mas a linguagem é SQL e o sistema é MySQL.

    Outros gerenciadores, como PostgreSQL, Oracle Database, SQL Server, MariaDB e SQLite, também usam SQL, cada qual com extensões e diferenças. Essa coisa aqui, por exemplo, usa WordPress com MariaDB, um sistema que nasceu historicamente ligado ao MySQL.

    Situação atual: SQL está em toda parte e MySQL continua sendo um dos bancos mais conhecidos do mundo. Aplicações podem mudar de moda, mas alguém ainda precisa guardar o cadastro, localizar o pedido e descobrir quem apagou a tabela.

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    Python: simplicidade, automação, dados e inteligência artificial

    Guido van Rossum criou Python no início da década de 1990, no CWI, nos Países Baixos, como sucessor da linguagem ABC. O nome não veio da cobra, mas do grupo humorístico Monty Python — o que já ajuda a explicar por que a própria documentação oficial faz piadas.

    Python valoriza legibilidade e uma sintaxe relativamente direta. Tornou-se excelente porta de entrada para iniciantes sem ficar limitado a exercícios escolares. Automação, administração de sistemas, web, testes, ciência de dados, aprendizado de máquina e inteligência artificial encontraram nele um ecossistema gigantesco.

    O preço da facilidade pode aparecer em desempenho, distribuição de aplicações e administração de dependências. Mesmo assim, bibliotecas escritas em C, C++ e outras linguagens permitem que Python atue como uma camada produtiva sobre componentes muito rápidos.

    Para nós, há ainda uma ligação especialmente interessante: o NVDA é desenvolvido principalmente em Python, e os complementos que estendem o leitor de tela também usam a linguagem. O nosso Diário para NVDA entrou justamente por essa porta.

    Situação atual: fortíssima. Toda linguagem um dia perde o título de novidade, mas Python construiu bases grandes demais em educação, automação, pesquisa e IA para desaparecer quando a próxima moda chegar.

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    Ruby: felicidade para programar e a revolução do Rails

    Yukihiro “Matz” Matsumoto criou Ruby no Japão e fez seu primeiro lançamento público em 1995. Ele combinou ideias de Perl, Smalltalk, Lisp e outras linguagens com uma preocupação declarada: tornar a programação agradável para seres humanos.

    Ruby explodiu mundialmente com Ruby on Rails, framework web lançado nos anos 2000. Convenção em vez de configuração, geração rápida de aplicações e uma comunidade criativa influenciaram o desenvolvimento web inteiro.

    Depois, JavaScript, Python, PHP moderno, Go e outras plataformas dividiram os holofotes. Rails também passou pela inevitável fase em que deixou de ser novidade e virou ferramenta de trabalho.

    Situação atual: viva, com comunidade, versões e empresas importantes. Perdeu parte do entusiasmo de massa, não a utilidade. Há diferença entre sair da capa da revista e desaparecer do planeta.

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    Shell script: a cola que mantém Unix e Linux trabalhando

    Um shell é, ao mesmo tempo, uma interface de comandos e um ambiente capaz de executar scripts. Os primeiros shells nasceram com o Unix. O Bourne shell, ou sh, consolidou uma base histórica; depois vieram C shell, KornShell, Bash, Zsh e outros.

    Shell script combina comandos existentes, redireciona entrada e saída, encadeia programas e automatiza tarefas. Instalações, backups, processamento de arquivos, administração de servidores, inicialização do sistema, contêineres e rotinas de integração contínua dependem dele.

    Seu poder nasce da composição. Em vez de construir uma ferramenta enorme, conectamos várias pequenas. O problema aparece quando o script de cinco linhas, muito satisfeito consigo mesmo, cresce até virar um sistema corporativo de quatro mil linhas que ninguém ousa tocar.

    Situação atual: indispensável em Unix e Linux. A forma pode mudar, e ferramentas como Python, Ansible ou linguagens próprias de infraestrutura assumem tarefas mais complexas, mas sempre haverá arquivos, processos e servidores pedindo alguma automação próxima do sistema.

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    PowerShell: o Windows descobre que terminal também pode ser moderno

    A Microsoft lançou o Windows PowerShell 1.0 em 2006. O projeto, concebido por Jeffrey Snover e inicialmente conhecido como Monad, queria resolver um problema antigo: administrar o Windows de maneira consistente e automatizável.

    A diferença central está no pipeline. Em shells Unix, comandos geralmente trocam texto. No PowerShell, eles trocam objetos do .NET. Um comando pode entregar processos, serviços, arquivos ou usuários como objetos com propriedades e métodos, reduzindo a necessidade de recortar colunas de texto na unha.

    Os comandos seguem a convenção verbo-substantivo, como Get-Process e Set-Item. A linguagem cresceu para administrar Windows, Active Directory, Exchange, Azure, servidores, arquivos, APIs e fluxos de implantação.

    A partir da geração moderna, PowerShell tornou-se código aberto e multiplataforma, funcionando também em Linux e macOS. O Windows PowerShell 5.1 tradicional continua no sistema, enquanto PowerShell 7 e posteriores representam a linha atual baseada no .NET moderno.

    Situação atual: viva e estratégica para automação. Arquivos .ps1 não são apenas “comandos do Windows colocados num arquivo”; PowerShell é uma linguagem de scripts completa, com funções, módulos, classes, tratamento de erros e acesso ao .NET.

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    Go, Rust, Swift e Kotlin: linguagens novas para problemas novos — e antigos

    Go

    O Google apresentou Go como projeto aberto em 2009. Criada por Robert Griesemer, Rob Pike e Ken Thompson, a linguagem buscou simplicidade, compilação rápida, boa concorrência e facilidade para construir software de rede e sistemas em grande escala.

    Onde está: nuvem, serviços de rede, ferramentas de infraestrutura, contêineres e programas de servidor. Docker e Kubernetes ajudaram a tornar seu ecossistema bastante visível. Situação: viva e consolidada.

    Rust

    Rust começou como projeto de Graydon Hoare, ganhou apoio da Mozilla e chegou à versão 1.0 em 2015. Sua grande proposta é oferecer desempenho de linguagem de sistemas com segurança de memória garantida por regras verificadas em compilação, sem depender de coletor de lixo.

    O modelo de propriedade e empréstimos exige estudo e pode fazer o compilador parecer um professor rigoroso. Contudo, ele impede classes inteiras de erros antes que o programa rode. Onde está: sistemas, navegadores, ferramentas, servidores, componentes críticos e embarcados. Situação: em forte crescimento.

    Swift

    A Apple apresentou Swift em 2014 como linguagem moderna para seus ecossistemas. Ela foi criada para trabalhar com o legado de Objective-C oferecendo sintaxe mais segura e agradável. Depois tornou-se código aberto e ganhou suporte também fora das plataformas Apple.

    Onde está: principalmente em aplicativos para iPhone, iPad, Mac, Apple Watch e outros sistemas Apple. Objective-C continua em códigos antigos e em interoperabilidade, mas Swift é o caminho principal para novos projetos. Situação: viva e fortemente ligada ao ecossistema Apple.

    Kotlin

    A JetBrains revelou Kotlin em 2011 e lançou a versão 1.0 em 2016. A linguagem nasceu para interoperar muito bem com Java, reduzir verbosidade e acrescentar recursos modernos sem abandonar o enorme ecossistema da JVM.

    Onde está: Android, servidores, aplicações multiplataforma, JavaScript, código nativo e WebAssembly. O apoio oficial do Google ao Kotlin para Android acelerou muito sua adoção. Situação: viva, atualizada e importante.

    Essas quatro linguagens mostram que novidade não significa destruir tudo o que veio antes. Go convive com C e Java; Rust pode substituir componentes inseguros aos poucos; Swift conversa com Objective-C; Kotlin usa bibliotecas Java. A evolução real costuma parecer menos uma demolição e mais uma reforma feita enquanto a casa continua habitada.

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    ActionScript: um caso de morte praticamente confirmada

    ActionScript era a linguagem de programação do Flash. Jogos, animações, players de áudio e vídeo, sites inteiros e aplicações educacionais dependeram dela. Durante anos, instalar o Flash Player era quase parte do ritual de entrar na internet.

    Problemas de segurança, desempenho, consumo de energia, acessibilidade e dependência de um plugin proprietário pesaram contra a plataforma. HTML5, CSS, JavaScript e APIs nativas dos navegadores passaram a fazer boa parte do trabalho sem exigir Flash. A Adobe encerrou o suporte ao Flash Player em 31 de dezembro de 2020 e bloqueou a execução do conteúdo pouco depois.

    Situação atual: como tecnologia central da web, morreu. Ainda há preservação de jogos, emuladores, arquivos históricos e uso de tecnologias descendentes fora do navegador, mas novos sites não escolhem ActionScript. Aqui temos um raro atestado de óbito com data, fabricante e aviso para desinstalar o falecido.

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    Afinal, o que faz uma linguagem morrer?

    Depois dessa caminhada, fica claro que “morrer” pode significar várias coisas:

    • o fabricante encerrou o produto: aconteceu com o CA-Clipper e com a IDE do Visual Basic 6;
    • a plataforma desapareceu: ActionScript perdeu seu principal ambiente quando o Flash Player foi encerrado;
    • o mercado migrou: CGI clássico, Perl na web e Pascal no ensino perderam espaço para soluções consideradas mais convenientes;
    • a linguagem virou nicho: Ada, Smalltalk, RPG e Lisp não estão em todos os cursos, mas continuam resolvendo problemas reais;
    • a linguagem original sumiu, mas suas ideias venceram: ALGOL é um excelente exemplo;
    • o código existente impede o enterro: COBOL, Visual Basic 6 e Clipper ainda aparecem porque sistemas úteis não evaporam quando chega uma nova tendência.

    Uma linguagem sobrevive quando possui código importante, ferramentas, documentação, comunidade, empresas interessadas e alguma vantagem difícil de substituir. Compatibilidade também pesa muito. Se um sistema funciona, gera dinheiro e guarda quarenta anos de regras, reescrevê-lo do zero pode criar mais riscos do que benefícios.

    Ela morre de verdade quando perde ao mesmo tempo o ambiente de execução, os mantenedores, os usuários e a razão para iniciar novos projetos. Mesmo assim, historiadores, comunidades de preservação e programadores curiosos às vezes aparecem com um emulador e começam a mexer no túmulo. Em informática, nem o cemitério consegue garantir sossego.

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    Conclusão: linguagem boa é linguagem que resolve alguma coisa

    A história das linguagens de programação não é uma fila em que a nova simplesmente empurra a velha para fora. É uma árvore enorme. Algumas ideias começam em Fortran, Lisp, ALGOL, C, Smalltalk ou Pascal e reaparecem décadas depois com nomes, sintaxes e objetivos diferentes.

    Também não existe uma única linguagem melhor para tudo. C e Rust aproximam-se do sistema; Python privilegia produtividade; Java e C# sustentam aplicações enormes; JavaScript domina a programação do navegador; PHP mantém uma fatia gigantesca da web; SQL conversa com os dados; shell e PowerShell automatizam ambientes; COBOL e RPG continuam administrando negócios que já existiam antes de muitas linguagens atuais nascerem.

    E HTML e CSS, mesmo sem a carteirinha tradicional de “linguagem de programação”, continuarão levantando a estrutura e arrumando a aparência das páginas. Afinal, alguém precisa colocar este parágrafo no lugar certo enquanto JavaScript discute com o navegador e PHP procura o post no banco de dados,aaa…

    A melhor escolha depende do problema, da equipe, do sistema existente, das ferramentas e do futuro esperado. Aprender uma linguagem ensina sua sintaxe; conhecer a história de várias ensina por que certas decisões existem — e por que aquela novidade revolucionária às vezes é uma ideia de 1960 usando roupa nova.

    Fontes e materiais consultados

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    Por hoje era isso!

    Espero que tenham gostado desta viagem dos cartões perfurados à inteligência artificial, passando por mainframes, telas pretas, janelas do Windows, servidores e navegadores.

    Um abraço e até a próxima!

    Fernando

  • Do tec-tec do disquete à nuvem: como mudaram nossos arquivos, músicas e memórias

    Tempo de leitura: 17 minutos

    Ooi amigos e leitores!!!

    Tudo bem?

    Espero que sim…

    Outro dia falei por aqui sobre a volta do vinil às prateleiras, aquela mídia grandona que a gente pega, limpa, vira de lado e, se bobear, ainda conversa com a capa.

    Hoje, nessa coisa aqui, vamos continuar falando de coisas que guardam outras coisas. Só que, desta vez, sairemos do tec-tec do disquete, passaremos pelo ronco do gravador de CD, enfiaremos algumas dezenas de músicas num MP3 player de 128 MB, perderemos pelo menos um pendrive numa gaveta e terminaremos olhando para uma nuvem que não molha ninguém, mas que pode levar embora nossas fotos se a senha resolver tirar férias.

    Em poucas décadas, passamos de contar cada quilobyte a carregar terabytes no bolso. Um único arquivo de fotografia produzido por um celular atual não caberia em vários disquetes de 1,44 MB. Um projeto de áudio em WAV poderia exigir uma pequena mudança de endereço. E aquele vídeo que hoje mandamos quase sem pensar talvez precisasse, nos anos 1990, ser transportado numa carreta de disquetes — com escolta armada para proteger a parte 37 do arquivo compactado,aaa…

    Mas essa não é apenas uma história sobre capacidade. É também uma história sobre hábitos, paciência, propriedade, acessibilidade, memória e confiança. Antes, a informação tinha peso, ocupava gaveta e podia cair atrás do armário. Hoje, pode estar disponível em qualquer lugar e, ao mesmo tempo, não sabermos exatamente onde está.

    Não pretendo declarar guerra à nuvem, muito menos fundar o Movimento Internacional pela Volta do Disquete. A ideia é entender o que ganhamos, o que perdemos e por que nenhuma tecnologia, por mais moderna que pareça, dispensa uma coisa antiga chamada cuidado.

    Sumário

    Antes do disquete: quando cinco megabytes ocupavam uma sala

    Para entender o tamanho da revolução, precisamos voltar um pouco além dos computadores pessoais. Durante muito tempo, dados eram registrados em cartões perfurados, fitas magnéticas e equipamentos enormes, caros e nada apropriados para serem carregados na mochila.

    O IBM 305 RAMAC, apresentado em 1956, foi o primeiro computador a usar uma unidade de disco com acesso aleatório. Armazenava aproximadamente 5 MB e ocupava boa parte de uma sala. Cinco megabytes! Hoje há fotografias de celular maiores do que isso, mas, naquela época, conseguir localizar uma informação em segundos, sem percorrer uma fita inteira ou procurar cartões, era uma verdadeira revolução…

    O disquete nasceu dentro desse mundo de máquinas grandes. A IBM começou a desenvolver o formato no fim dos anos 1960 e passou a vender unidades de oito polegadas em 1971. A intenção inicial não era salvar trabalhos escolares nem levar joguinhos para a casa do vizinho: o disco ajudava a carregar instruções e atualizações em computadores de grande porte.

    Depois vieram os formatos menores. O disquete de 5¼ polegadas apareceu em 1976, adequado aos computadores de mesa, e a Sony apresentou unidades de 3½ polegadas em 1981. O modelo rígido por fora e flexível por dentro acabaria se tornando a imagem mais lembrada dos anos 1990.

    A informação, que antes ficava presa a uma máquina ou a um departamento, começava a viajar na mão das pessoas. Era uma espécie de internet de sola de sapato: alguém gravava o arquivo, atravessava o corredor, a rua ou a cidade e o colocava em outro computador. Em inglês, essa circulação física ganhou até o apelido de sneakernet, uma “rede de tênis”.

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    A era prática, limitada e barulhenta dos disquetes

    Quem viveu os anos 1980 e 1990 diante de um computador provavelmente lembra do som inconfundível da unidade tentando ler um disco. O motor girava, a cabeça se movimentava e começava aquele tec-tec-tec que podia significar duas coisas: “estou trabalhando” ou “seu arquivo foi para setealem e não deixou endereço”.

    Houve disquetes de várias dimensões e capacidades, mas o de 3½ polegadas e 1,44 MB virou o grande símbolo da era. A carcaça era rígida, porém o disco magnético lá dentro continuava flexível — daí o nome floppy disk. Uma pequena lingueta permitia bloquear a gravação e proteger o conteúdo contra alterações acidentais. Pelo menos em teoria, porque nenhum mecanismo protegia contra poeira, calor, umidade, campos magnéticos, setores defeituosos ou a vontade do universo de estragar justamente o único disquete sem cópia.

    Cada megabyte contava. Textos simples cabiam com folga, mas imagens, programas e jogos começaram a crescer. Instalar um aplicativo podia exigir uma sequência de discos numerados. A própria versão em disquetes do Windows 95 usava 13 unidades, segundo o histórico publicado pela IBM. Era colocar o disco 1, esperar, trocar pelo 2, esperar, seguir até o 13 e torcer para o último não descobrir naquele exato momento que possuía um setor ilegível.

    As etiquetas também faziam parte do ritual. “Trabalho final”, “Trabalho final mesmo”, “Trabalho final certo” e “Trabalho final agora vai” podiam coexistir na mesma caixa. Se alguém escrevesse por cima, riscasse o nome errado ou simplesmente esquecesse de identificar o conteúdo, começava uma arqueologia doméstica.

    Apesar das limitações, o disquete trouxe independência. Era possível carregar documentos, trocar programas e fazer cópias sem depender de uma rede. A pessoa segurava a mídia, sabia onde ela estava e podia guardá-la. Não era garantia de sobrevivência do arquivo, mas dava uma sensação muito concreta de posse.

    Seu legado sobrevive até hoje num lugar curioso: o botão “Salvar” de muitos programas continua representado pelo desenho de um disquete. Há jovens que nunca usaram um, mas clicam diariamente em sua pequena assombração gráfica. O objeto morreu quase por completo; o ícone conseguiu emprego vitalício.

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    Compactar, dividir e rezar para nenhuma parte falhar

    Quando um arquivo não cabia, havia duas alternativas: desistir ou começar a engenharia. Programas como ARJ, PKZIP, WinZip e, mais tarde, WinRAR reduziam o tamanho dos dados e permitiam dividir um pacote em vários volumes.

    Era perfeitamente possível espalhar um jogo ou programa por cinco, dez ou vinte disquetes. A ideia funcionava bem até surgir a mensagem de erro de CRC, indicando que alguma parte estava corrompida. Se a parte 8 falhasse, as outras dezenove podiam estar impecáveis, perfumadas e emocionalmente preparadas: o arquivo completo continuava inutilizável.

    Essa limitação ensinou, à força, noções que muita gente só foi aprender depois. Era preciso organizar os discos, numerá-los, conferir o conteúdo e manter mais de uma cópia do que realmente importava. Também aprendemos que “tenho o arquivo num disquete” não era sinônimo de “tenho backup”. Se aquela era a única cópia, tínhamos apenas um arquivo morando perigosamente.

    No DOS, ainda havia os nomes no padrão 8.3: até oito caracteres antes do ponto e três depois. Aquele relatório chamado “Versão definitiva e corrigida do trabalho da faculdade” precisava renascer como algo do tipo TRABFIN2.DOC. Era menos poético, mas pelo menos cabia no sistema.

    A compactação não desapareceu. ZIP, RAR, 7z e vários outros formatos continuam úteis para reunir arquivos, reduzir transferências e criar pacotes. O que mudou foi a escala. Hoje dividimos gigabytes para mandar pela internet; naquela época, brigávamos para economizar alguns quilobytes e encaixar o último arquivo no disquete sem precisar expulsar o LEIAME.TXT.

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    A revolução do CD e a arte de queimar discos

    Quando os leitores de CD-ROM se popularizaram, o salto pareceu coisa de outro planeta. O CD havia sido desenvolvido pela Sony e pela Philips para música e chegou comercialmente em 1982. Pouco depois, a tecnologia foi adaptada para armazenar dados de computador.

    Um CD-ROM podia trazer centenas de megabytes. Os CD-R mais comuns acabaram oferecendo 650 ou 700 MB, o equivalente, aproximadamente, a mais de 450 disquetes de 1,44 MB. De repente, enciclopédias inteiras, coleções de programas, jogos com falas e vídeos e instaladores enormes cabiam num único disco.

    É importante separar três parentes que às vezes aparecem misturados na memória:

    • O CD-ROM vinha gravado de fábrica e era apenas para leitura.
    • O CD-R podia ser gravado uma vez. Depois disso, o conteúdo permanecia fixo.
    • O CD-RW podia ser apagado e regravado, embora nem todo aparelho antigo conseguisse lê-lo.

    Quando os gravadores de CD ficaram acessíveis, nasceu outro ritual doméstico: “queimar” CDs. Escolhíamos os arquivos, organizávamos a ordem, calculávamos o espaço, abríamos o Nero ou outro programa e iniciávamos a gravação. A partir daí, convinha não provocar o computador.

    O temido buffer underrun acontecia quando o gravador consumia os dados mais rápido do que o computador conseguia fornecê-los. Como a escrita do CD-R precisava manter um fluxo contínuo, o esvaziamento do buffer podia interromper a gravação e transformar uma mídia virgem num porta-copos brilhante. Tecnologias posteriores passaram a interromper e retomar a escrita, mas, antes disso, gravar no limite da velocidade era quase um exercício respiratório: não abra programa, não mexa no mouse, não espirre perto do gabinete e talvez dê tudo certo.

    Também havia diferença entre gravar um CD de áudio e um CD de dados com arquivos MP3. O primeiro seguia o formato dos aparelhos de som tradicionais e comportava, em geral, 74 ou 80 minutos. O segundo podia reunir muitas horas de música compactada, mas exigia um aparelho compatível com MP3. Mais de uma pessoa produziu uma coletânea maravilhosa e só descobriu no carro que o toca-CDs a considerava um objeto decorativo.

    As caixinhas de acrílico, as capas impressas, as canetas próprias e os estojos com dezenas de discos devolveram à informação uma espécie de cerimônia. O backup tinha nome, cor e lugar na estante. Ao mesmo tempo, CDs arranhavam, camadas de gravação envelheciam e leitores desapareciam dos computadores. A propaganda de “qualidade digital para sempre” esqueceu de combinar o “para sempre” com a física.

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    Zip, DVD e outras pontes entre duas eras

    A evolução do armazenamento não foi uma escadinha organizada na qual uma tecnologia saía educadamente para a próxima entrar. Vários formatos conviveram, disputaram espaço e desapareceram sem esperar o fim da reunião.

    O Zip Drive, lançado pela Iomega em 1994, começou com discos de 100 MB. Era uma enormidade perto do disquete comum e se tornou útil para editoração, imagens, áudio e backups. Também existiram unidades Jaz, discos magneto-ópticos, SuperDisk e outras soluções que prometiam resolver o problema da capacidade.

    O obstáculo era quase sempre o mesmo: para ler a mídia, o outro computador precisava ter a unidade correspondente. O disquete e o CD venceram não apenas pela tecnologia, mas pela ubiquidade. De pouco adiantava carregar 100 MB no bolso e descobrir que, no destino, havia apenas uma entrada de disquete olhando para você com ar de deboche.

    O DVD ampliou bastante a capacidade dos discos ópticos. Um DVD comum de camada simples armazena 4,7 GB; os de camada dupla chegam a cerca de 8,5 GB. Filmes, shows, jogos e grandes coleções de dados passaram a caber num suporte fisicamente parecido com o CD.

    Depois viria o Blu-ray, levando o disco óptico ainda mais longe. No entanto, para o transporte cotidiano de arquivos, a memória flash avançou depressa demais. Enquanto os discos ópticos dependiam de gravação, finalização, cuidado com riscos e uma unidade mecânica, o pendrive oferecia a sedutora possibilidade de copiar, apagar e reutilizar em poucos instantes.

    Esses formatos intermediários deixaram uma lição importante: não basta a mídia estar perfeita; é preciso conservar uma forma de lê-la. Uma caixa de discos impecáveis pode virar uma coleção de espelhos se não houver unidade, cabo, driver ou programa compatível.

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    O MP3 colocou a música dentro do arquivo

    O CD digitalizou a distribuição da música, mas ela ainda continuava presa a um disco. O MP3 mudou essa relação porque transformou a gravação numa unidade pequena, copiável, reorganizável e fácil de transmitir.

    O nome é abreviação de MPEG-1 Audio Layer III. O formato foi padronizado nos anos 1990, e a extensão .mp3 foi escolhida pela equipe do Instituto Fraunhofer em 14 de julho de 1995. A compressão aproveita características da audição humana para representar com menos precisão partes menos perceptíveis do som. Dependendo da configuração, o arquivo pode ficar até dez vezes menor do que o original, com pouca diferença audível para a maioria das pessoas.

    Existe perda de informação, portanto MP3 não é igual a WAV nem a um formato sem perdas como FLAC. Ainda assim, naquele contexto de discos rígidos pequenos e internet discada, reduzir uma música de dezenas de megabytes para poucos megabytes era praticamente abrir uma passagem secreta.

    Vieram os programas para extrair faixas de CDs, os compartilhamentos pela internet, as playlists e os tocadores no computador. A música deixou de seguir obrigatoriamente a ordem do álbum. Podia ser classificada por artista, gênero, humor, década ou pelo método científico conhecido como “joguei tudo nessa pasta e depois eu vejo”, aaa…

    Os primeiros aparelhos portáteis com 32, 64 ou 128 MB parecem minúsculos hoje. Porém, um MP3 player de 128 MB podia carregar algo em torno de trinta músicas com compressão comum na época. Não precisava de fita, não dependia de um disco girando e não pulava quando a pessoa caminhava. Aquilo era ostentação tecnológica de bolso.

    Em 2001, o primeiro iPod chegou com um disco rígido de 5 GB e a promessa de até mil músicas. Não foi o primeiro MP3 player, mas ajudou a popularizar a ideia de carregar uma biblioteca musical inteira. Mais tarde, celulares assumiriam essa função e engoliriam câmera, gravador, agenda, rádio, GPS e mais algumas repartições do universo.

    O MP3 também favoreceu podcasts, audiolivros, gravações pessoais, programas de rádio e materiais de estudo. Ao mesmo tempo, abriu discussões enormes sobre compartilhamento, pirataria, remuneração de artistas e a transformação da música em serviço. A portabilidade cresceu; a velha relação entre objeto, obra e propriedade começou a ficar bem mais complicada.

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    Pendrives e cartões: o armazenamento encolheu e cresceu

    A memória flash, inventada nos anos 1980, permitiu guardar dados sem peças móveis e sem precisar de energia permanente para conservá-los. No ano 2000, a Trek lançou um dispositivo USB de 8 MB chamado ThumbDrive. A capacidade inicial não impressionava diante de um CD, mas a combinação era irresistível: pequeno, regravável, relativamente resistente e conectado diretamente à porta USB.

    Em pouco tempo, os 8 MB viraram 32, 128, 512 MB, depois 1, 4, 16, 64 GB e assim por diante. O objeto menor do que um isqueiro passou a carregar documentos, músicas, sistemas de instalação, vídeos e backups. Também passou a ser esquecido em computadores, lavado dentro do bolso e emprestado para alguém que jurava devolver na terça-feira de um ano ainda não determinado.

    O pendrive eliminou a gravação como cerimônia. Bastava copiar o arquivo — e, de preferência, usar a opção de remover o dispositivo com segurança antes de arrancá-lo como quem puxa o fio de um ventilador. Essa facilidade também ajudou a espalhar programas maliciosos. Durante certo período, conectar um pendrive desconhecido era quase convidar um vírus para tomar café.

    Os cartões de memória fizeram revolução semelhante em câmeras, celulares, gravadores e outros equipamentos. A SD Association foi criada em 2000 pela Panasonic, pela SanDisk e pela Toshiba para desenvolver e promover o padrão SD. Depois vieram SDHC, SDXC, microSD e capacidades que fariam um disquete pedir aposentadoria por humilhação.

    Essas mídias parecem robustas, mas não são arquivos eternos. Podem falhar por desgaste, defeito eletrônico, problemas no controlador, falsificação ou simples desaparecimento físico — especialmente no caso de um microSD, que é pequeno o suficiente para sumir durante um espirro mais decidido.

    Pendrive é excelente para transporte e pode participar de uma estratégia de cópias. Não deveria, porém, ser o único lar de fotografias, documentos ou gravações importantes. Portátil demais também significa perdível demais.

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    HDs externos, SSDs e servidores domésticos

    Enquanto as mídias portáteis encolhiam, nossos arquivos engordavam. Fotografias ganharam resolução, projetos de áudio passaram a reunir dezenas de pistas, vídeos chegaram ao 4K e os programas começaram a ocupar gigabytes sem demonstrar qualquer remorso.

    Os HDs externos ofereceram muita capacidade por um preço relativamente baixo. Um único dispositivo passou a guardar coleções inteiras que antes exigiriam armários de CDs e DVDs. O ponto fraco é mecânico: há pratos girando, cabeças de leitura e componentes sensíveis a quedas, vibrações e desgaste.

    Os SSDs substituem os discos giratórios por memória eletrônica. São rápidos, silenciosos e mais resistentes a impactos, mas não são mágicos. Controladores falham, células se desgastam e um defeito pode tornar muitos dados inacessíveis de uma vez. Trocar HD por SSD melhora bastante o desempenho; não revoga a necessidade de backup.

    Também se popularizaram os NAS e servidores domésticos: computadores ou equipamentos dedicados que armazenam arquivos e os oferecem pela rede. Eles podem funcionar como uma nuvem particular, devolver ao usuário maior controle e centralizar cópias de vários dispositivos.

    Esse controle vem acompanhado de responsabilidade. É preciso pensar em atualizações, senhas, energia, discos, redundância e uma cópia fora do local. RAID pode manter o serviço funcionando quando uma unidade falha, mas não é backup: exclusões acidentais, corrupção, incêndio, roubo e ataques podem atingir o conjunto inteiro.

    Ter um servidor próprio é um pouco como ter a própria casa. Ninguém muda o regulamento do condomínio digital sem avisar, mas, quando uma telha voa, o chamado técnico chega diretamente ao espelho,aaa…

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    A nuvem: o arquivo está em todo lugar e em lugar nenhum

    Guardar dados remotamente não nasceu de uma hora para outra. Antes dos serviços modernos, muita gente já usava servidores, contas de e-mail, FTP e hospedagens como depósitos improvisados. O que mudou foi a escala, a automação e a forma de apresentar essa infraestrutura ao usuário.

    Segundo a definição do NIST, computação em nuvem envolve acesso conveniente e sob demanda, pela rede, a um conjunto compartilhado de recursos configuráveis, como servidores, armazenamento e aplicações. Entre suas características estão o autosserviço, o amplo acesso pela rede, o compartilhamento de recursos e a capacidade de crescer ou diminuir rapidamente.

    O lançamento do Amazon S3, em 2006, foi um dos marcos da infraestrutura moderna de armazenamento em nuvem. Depois, serviços voltados ao público tornaram natural salvar um documento no computador, continuar no celular e compartilhar com outra pessoa sem entregar mídia alguma.

    A conveniência é indiscutível. A nuvem permite sincronização, colaboração, acesso remoto e uma cópia geograficamente distante da nossa casa. Se um notebook for roubado ou um HD parar, os dados remotos podem evitar um desastre.

    Mas nuvem não é ausência de hardware. Os arquivos continuam em equipamentos físicos, dentro de centros de dados, distribuídos e administrados por alguém. A frase “a nuvem é o computador de outra pessoa” é engraçada e contém uma verdade, mas simplifica bastante: normalmente são muitos computadores, redes, sistemas de redundância e camadas de software trabalhando para que não precisemos saber em qual disco está cada pedaço.

    Essa abstração muda nossa percepção. Vemos uma pasta e um ícone, não o servidor. Pagamos por espaço, aceitamos termos de uso e confiamos que a conta continuará acessível. Uma senha esquecida, um bloqueio, uma alteração de preço, o encerramento de um serviço ou uma conexão indisponível podem separar temporária ou definitivamente a pessoa de seus próprios arquivos.

    Também é preciso distinguir sincronização de backup. Se um arquivo for apagado numa pasta sincronizada, a exclusão pode ser enviada a todos os dispositivos. Lixeiras e históricos de versões ajudam, mas possuem regras e prazos. A nuvem pode fazer parte do backup; não é automaticamente um backup só porque há um desenho simpático de algodão na tela.

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    Da posse ao acesso: quando ter deixou de significar guardar

    O disquete, o CD e o pendrive deixavam claro onde estava a cópia. Isso não garantia duração nem direitos ilimitados, mas havia um objeto ou arquivo sob controle direto. Com o streaming e os serviços por assinatura, passamos frequentemente de donos de cópias a usuários de acesso.

    Uma música num CD continuava na estante mesmo que a gravadora mudasse de estratégia. Um MP3 sem proteção podia ser copiado para outro disco e reproduzido em programas diferentes. Já uma faixa disponível num catálogo online pode desaparecer por mudança de contrato, região ou decisão comercial. A assinatura compra conveniência e acesso enquanto determinadas condições existirem; não coloca necessariamente a obra em nosso acervo.

    O mesmo raciocínio vale para filmes, livros, programas e até documentos produzidos dentro de plataformas. Às vezes, o conteúdo pode ser exportado facilmente. Em outras, depende de um formato proprietário ou de uma conta ativa. Por isso, para o que é insubstituível, vale perguntar: consigo baixar uma cópia? Em qual formato? Outro programa consegue abri-la? O que acontece se esse serviço acabar?

    A tangibilidade também não era perfeita. Discos ocupavam espaço, quebravam, riscavam e podiam ser roubados. O arquivo digital permite cópias idênticas, busca rápida e acesso em vários lugares. O problema não está em escolher o novo ou o antigo, e sim em confundir facilidade de acesso com garantia de preservação.

    Talvez tenhamos trocado a gaveta bagunçada por uma bagunça invisível. Antes, procurávamos o CD sem etiqueta. Agora, procuramos saber em qual conta, aplicativo, pasta sincronizada ou “Nova pasta (37)” foi parar o documento.

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    O que essa evolução representou para a acessibilidade

    Para pessoas com deficiência visual, cada fase trouxe liberdade e barreiras ao mesmo tempo. Uma mídia física podia ter organização previsível, mas sua etiqueta escrita a caneta não dizia muita coisa a quem não enxergava. Era possível usar marcação tátil ou braile, mas isso exigia preparação.

    O DOSVOX, iniciado na UFRJ em 1993, é um exemplo importante de como o disquete também ajudou a levar acessibilidade de um computador a outro. O histórico do projeto registra a montagem de uma estrutura de replicação, empacotamento, distribuição e suporte, num período em que baixar centenas de megabytes pela internet doméstica ainda pertencia à ficção científica.

    CDs e DVDs aumentaram enormemente o volume de programas, livros e materiais que podiam circular. Porém, alguns vinham com menus gráficos, apresentações automáticas ou instaladores pouco compatíveis com leitores de tela. A capacidade crescia; a acessibilidade nem sempre acompanhava o pacote.

    O áudio digital abriu possibilidades gigantescas. MP3, audiolivros, podcasts e gravações puderam ser copiados, catalogados e ouvidos sem manipular dezenas de discos. Certos aparelhos simples, com botões físicos previsíveis, eram razoavelmente utilizáveis. Outros escondiam tudo em telinhas e menus sem qualquer retorno falado.

    A nuvem pode aumentar muito a autonomia quando oferece boa navegação por teclado, controles identificados e compatibilidade com leitores de tela. Quando depende de arrastar e soltar, botões sem rótulo, CAPTCHAs problemáticos ou diálogos confusos, a mesma tecnologia vira porteiro de boate digital: o arquivo está ali, mas resolveram não deixar o dono entrar.

    Portanto, acessibilidade não pertence automaticamente a uma mídia. Ela depende da cadeia completa: equipamento, programa, interface, documentação e possibilidade de recuperar os dados. Um sistema moderno e inacessível pode dar menos autonomia do que uma pasta local bem organizada num computador antigo.

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    Uma viagem em números

    As unidades nem sempre são apresentadas da mesma forma pelos fabricantes e pelos sistemas operacionais, portanto os valores abaixo são aproximados. Ainda assim, ajudam a visualizar o tamanho do salto.

    Capacidade aproximada de diferentes mídias e dispositivos comparada ao disquete de 1,44 MB
    Mídia ou dispositivo Capacidade típica citada Equivalência aproximada em disquetes de 1,44 MB
    Disquete de 3½ polegadas 1,44 MB 1
    Zip Disk original 100 MB 69
    CD-R 650 a 700 MB 451 a 486
    DVD de camada simples 4,7 GB Cerca de 3.264
    Primeiro iPod 5 GB Cerca de 3.472
    Unidade de 1 TB 1.000 GB Cerca de 694 mil

    Naturalmente, ninguém trocaria uma unidade de 1 TB por 694 mil disquetes, nem mesmo para montar a maior instalação artística sobre sofrimento digital já produzida. A comparação mostra como aquilo que chamávamos de “muito espaço” mudou em pouquíssimo tempo.

    Também revela outra ironia: quanto maior a capacidade, mais fácil acumular sem organizar. No disquete, apagávamos um arquivo para liberar 50 KB. Num disco de terabytes, guardamos doze cópias do mesmo vídeo porque descobrir qual é a certa parece mais trabalhoso do que comprar outro disco.

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    Como evitar que a memória digital vire fumaça

    Nenhuma mídia é eterna. Disquetes perdem leitura, discos ópticos se degradam, HDs quebram, SSDs falham, pendrives desaparecem e contas online podem se tornar inacessíveis. Preservar não significa encontrar o suporte perfeito; significa manter cópias, verificar e migrar.

    Uma orientação conhecida é a regra 3-2-1, recomendada inclusive pela agência norte-americana de segurança cibernética CISA:

    • manter três cópias dos arquivos importantes;
    • usar dois tipos diferentes de armazenamento;
    • guardar uma cópia fora do local principal.

    Na prática, alguém poderia manter os arquivos no computador, uma cópia num HD externo desconectado e outra num serviço remoto ou na casa de uma pessoa de confiança. Não existe uma combinação única para todos. O importante é evitar que uma queda, exclusão, pane, roubo, incêndio ou ataque leve tudo de uma vez.

    Alguns cuidados simples ajudam bastante:

    1. Organize antes de multiplicar. Pastas por assunto e datas no formato ano-mês-dia facilitam a busca e evitam um oceano de “final-agora-vai-2”.
    2. Não confie numa única mídia. O pendrive que transporta não deve ser a única cópia; o HD de backup não deve ficar permanentemente conectado se isso o expõe às mesmas ameaças.
    3. Teste a restauração. Backup que nunca foi aberto é uma promessa. De tempos em tempos, confira se alguns arquivos podem realmente ser recuperados.
    4. Observe os formatos. Para documentos importantes, mantenha também versões em formatos amplamente aceitos, quando possível. Um arquivo perfeito não ajuda se nenhum programa disponível souber interpretá-lo.
    5. Migre o acervo. Antes de uma mídia ou unidade desaparecer do mercado, copie o conteúdo para tecnologia atual. Preservação digital é manutenção, não embalsamamento.
    6. Proteja o que for sensível. Use criptografia e senhas fortes, mas guarde de maneira segura as informações necessárias à recuperação. Criptografia sem chave é uma excelente proteção contra o próprio dono.
    7. Documente o acervo. Um pequeno arquivo de texto explicando pastas, datas, programas necessários e localização das cópias pode salvar muito tempo no futuro.

    A Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos recomenda não tratar a nuvem como única solução e lembra que mídias digitais precisam ser acompanhadas e transferidas ao longo do tempo. O trabalho não termina quando clicamos em “Salvar”. Na verdade, esse é apenas o momento em que começamos a negociar com o futuro.

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    Conclusão: mudaram as mídias, não mudou a responsabilidade

    Em pouco mais de meio século, saímos de discos de oito polegadas destinados a computadores enormes para serviços capazes de entregar arquivos em segundos a qualquer dispositivo conectado. No caminho, colecionamos disquetes, CDs, DVDs, cartões, pendrives, HDs e algumas extensões de arquivo que ninguém mais consegue abrir.

    Ganhamos capacidade, velocidade, portabilidade e acesso remoto. Perdemos parte da tangibilidade e, em alguns casos, da percepção de posse. Antes, o perigo era o disquete estragar na gaveta. Agora, também precisamos pensar em contas, formatos, sincronização, contratos, interfaces e senhas.

    Não existe motivo para escolher entre nostalgia e conveniência. Podemos gostar do barulho de uma unidade antiga e, ao mesmo tempo, agradecer por não precisar instalar um programa em treze disquetes. Podemos usar a nuvem sem entregar a ela a única cópia das nossas memórias. Podemos ter um servidor próprio sem imaginar que redundância e backup são a mesma coisa.

    O melhor armazenamento não é necessariamente o mais novo, o mais caro ou o que anuncia capacidade com o maior número de zeros. É aquele que faz parte de uma estratégia compreensível, acessível e redundante — e do qual conseguimos recuperar os dados quando o dia resolve acordar com espírito de porco.

    O disquete virou ícone, o CD virou nostalgia, o MP3 virou nome informal para quase qualquer arquivo de música, o pendrive virou morador de gaveta e a nuvem virou destino padrão. As mídias mudam; nossa vontade de guardar lembranças continua a mesma.

    E, da próxima vez que você clicar no desenho de uma nuvem, lembre: em algum lugar existem computadores de verdade, discos de verdade, cabos de verdade e uma conta de energia que certamente também é de verdade,aaa…

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    Fontes e leituras recomendadas

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    Um abraço e até a próxima!

    Fernando

  • Diário acessível para NVDA, Windows e DOSVOX: colocando as coisas para fora — ou para dentro?

    Tempo de leitura: 4 minutos

    Ooi amigos e leitores!!!

    Tudo bem?

    Espero que sim…

    O post anterior mal saiu do forno e eu já venho aqui de novo… Mas, é por uma excelente causa, digamos assim…

    Hoje essa coisa aqui traz não um, mas dois programinhas novos: um diário para quem utiliza o NVDA e outro para quem prefere o bom e velho DOSVOX.

    A ideia é simples: permitir que a pessoa escreva sobre o dia, registre lembranças, organize pensamentos ou simplesmente descarregue aquela confusão que resolveu montar acampamento dentro da cabeça.

    Ou seja: colocar as coisas para fora.

    Embora, pensando bem, a gente esteja colocando tudo para dentro de um diário,aaa…

    Navegação rápida:

    A dificuldade de encontrar programas acessíveis

    Encontrar um programa para escrever um diário parece uma tarefa simples. Basta procurar, instalar e começar a escrever, certo?

    Certíssimo, desde que você enxergue a tela e tenha sorte.

    Para quem utiliza leitor de telas, a história costuma ser um pouco diferente. Existem vários programas de diário, agendas pessoais e aplicativos de anotações, mas muitos deles apresentam botões sem identificação, áreas que não recebem foco pelo teclado, calendários impossíveis de navegar ou janelas nas quais o leitor anuncia coisas extremamente informativas, como “botão”, “botão”, “botão” e, depois de algum esforço, mais um “botão”.

    Pode ser um diário. Pode ser o painel de controle de uma usina nuclear. Nunca saberemos,aaa…

    Outros programas até funcionam parcialmente, mas exigem que a pessoa use o mouse em algum momento, não oferecem retorno falado adequado ou transformam uma tarefa que deveria ser tranquila em mais uma disputa entre o usuário, o teclado e a interface.

    E um diário deveria ser justamente o contrário disso: um lugar simples, reservado e confortável para escrever.

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    Colocar as coisas para fora — ou para dentro?

    Escrever um diário não é apenas registrar que acordamos, tomamos café, reclamamos do calor, reclamamos do frio e passamos o restante do dia tentando decidir de qual dos dois reclamar mais.

    Um diário também pode ajudar a organizar pensamentos, reconhecer padrões, guardar momentos importantes e transformar aquela mistura de sentimentos que está rodando no modo liquidificador em frases um pouco mais compreensíveis.

    Às vezes, escrever não resolve o problema. Mas colocar em palavras aquilo que estamos sentindo pode diminuir a sensação de que tudo está acontecendo ao mesmo tempo e sem qualquer ordem.

    Também é possível reler uma entrada antiga e perceber que determinada fase passou, que algumas coisas mudaram ou que aquele problema gigantesco de três meses atrás hoje cabe num parágrafo.

    Naturalmente, um diário não substitui acompanhamento psicológico, psiquiátrico ou qualquer outro cuidado profissional quando ele é necessário. Mas pode ser uma ferramenta complementar bastante útil para o autoconhecimento e para a saúde mental.

    E ele tem uma vantagem importante: está disponível quando surge a vontade de escrever, inclusive às duas e quarenta e sete da madrugada, horário em que os pensamentos costumam promover assembleias extraordinárias sem autorização do proprietário da cabeça.

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    Diário para NVDA

    O primeiro programa é um complemento para o NVDA. Ele permite adicionar, listar, ler, editar e excluir entradas utilizando uma interface preparada para o leitor de telas.

    As anotações podem ter título e data, ficam protegidas por senha e o complemento também permite cadastrar uma frase secreta para recuperação. Tudo foi pensado para funcionar pelo teclado, com mensagens faladas e sem aquela brincadeira de tentar adivinhar onde foi parar o foco.

    A versão atual também possui traduções para português do Brasil, inglês, espanhol, italiano e francês.

    A versão 1.3.0 acrescenta um corretor ortográfico acessível em tempo real, com aviso sonoro, sugestões de correção e opções para ignorar ou adicionar palavras ao dicionário local. Também permite exportar e importar cópias de segurança criptografadas do diário.

    Para instalar, basta baixar o arquivo, abri-lo com o NVDA em execução e confirmar a instalação do complemento:

    Baixar o Diário para NVDA 1.3.0

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    Diário Acessível para Windows

    Para quem prefere utilizar o diário como um programa independente, sem depender diretamente do NVDA ou do DOSVOX, também existe o Diário Acessível para Windows. Ele permite criar, ler, editar e excluir entradas, mantém o conteúdo protegido por senha e frase de recuperação e ainda conta com um corretor ortográfico acessível em tempo real, com aviso sonoro, sugestões de palavras e dicionário local.

    O programa também consegue importar as entradas já criadas pelo complemento para NVDA, evitando que as anotações antigas fiquem abandonadas em algum setealem digital. Tudo funciona localmente no computador, sem enviar o conteúdo do diário para a internet.

    Estão disponíveis duas versões: o instalador, que coloca o programa na pasta adequada do Windows e cria um atalho na área de trabalho, e a versão portátil, que pode ser executada diretamente de qualquer pasta ou pendrive:

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    DiarioVox para DOSVOX

    O segundo programa é o DiarioVox, desenvolvido por mim em parceria com Gabriel Schuck.

    Ele segue o jeito tradicional de funcionamento do DOSVOX: menus falados, navegação pelas setas, letras de atalho e ajuda pelo F1. Os textos são escritos no Edivox e as entradas mais longas podem ser abertas no Levox.

    Também é possível adicionar, listar, ler, editar e excluir entradas. O conteúdo fica protegido por senha, com a possibilidade de cadastrar uma frase secreta para criar uma nova senha caso a anterior seja esquecida.

    O programa utiliza mensagens gravadas em WAV e, quando alguma gravação não estiver disponível, recorre automaticamente ao sintetizador do DOSVOX. Assim, ele continua utilizável mesmo se algum arquivo sonoro resolver viajar para setealem.

    O DiarioVox pode ser baixado aqui:

    Baixar o DiarioVox para DOSVOX

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    Dois programas, a mesma proposta

    Os dois diários foram criados com a mesma intenção: oferecer uma maneira realmente acessível de escrever, guardar lembranças e organizar pensamentos, sem obrigar o usuário a negociar com botões misteriosos ou interfaces que parecem ter sido desenhadas durante uma queda de energia.

    Quem utiliza NVDA pode instalar o complemento. Quem prefere o DOSVOX pode utilizar o DiarioVox. E quem utiliza os dois sistemas pode experimentar ambos e escolher aquele que combinar melhor com sua rotina.

    Depois disso, é só começar a escrever.

    Colocar as coisas para fora.

    Ou para dentro do diário.

    Enfim, vocês entenderam,aaa…

    Um abraço e até a próxima!

    Fernando