Tempo de leitura: 23 minutosOlá amigos e leitores dessa coisa aqui!
Depois de viajarmos pela história da internet, chegou a hora de voltar ainda mais no tempo. Muito mais. Tão mais que, no começo dessa história, não havia tomada, tela, teclado, mouse, Windows, Linux, vírus, atualização obrigatória nem técnico dizendo que o problema era o usuário.
Havia pedras, riscos, contas, engrenagens e uma necessidade que continua exatamente a mesma: tirar parte do trabalho da cabeça humana e passá-lo para alguma ferramenta.
Hoje chamamos de computador uma máquina capaz de receber dados, seguir instruções, processá-los, guardar informações e apresentar resultados. Mas ele não nasceu pronto. Foi sendo montado ao longo de milhares de anos, peça por peça e ideia por ideia. Aliás, durante muito tempo, “computador” nem sequer era uma máquina: era uma pessoa.
Então ajustem as engrenagens, confiram as válvulas e não me perguntem onde fica a tecla Enter do ábaco, porque vamos sair das primeiras contas de madeira e chegar aos computadores quânticos. Se tudo der certo, voltaremos ao presente sem cair num erro de divisão por zero ou num portal para setealém,aaa.
Antes do computador, a conta
Muito antes da escrita, seres humanos já precisavam contar animais, alimentos, dias, dívidas e provavelmente quantas vezes alguém havia prometido devolver uma ferramenta e não devolveu. Dedos ajudavam, mas só até certo ponto. Vieram então pedras, marcas em ossos, nós em cordas e tábuas de contagem.
O ábaco não foi inventado de uma vez por uma única pessoa. Diferentes formas de contar com pedras, fichas ou contas móveis apareceram em várias culturas. Os instrumentos mais antigos provavelmente eram superfícies com linhas ou sulcos; os modelos com contas presas em hastes, que hoje reconhecemos imediatamente, vieram depois.
O princípio é simples e genial: cada posição representa uma ordem numérica — unidades, dezenas, centenas e assim por diante. Ao mover as contas, a pessoa registra valores e executa operações sem precisar conservar tudo mentalmente. O ábaco não calcula sozinho; ele organiza o cálculo e reduz a carga de memória de quem o usa. É, portanto, uma ferramenta de computação, mesmo não sendo automática.
Uma de suas versões mais conhecidas é o sorobã japonês, normalmente com uma conta acima da barra central e quatro abaixo em cada haste. Ele também se tornou muito conhecido entre pessoas cegas, inclusive em versões adaptadas para que as contas não se desloquem acidentalmente durante o uso. O Smithsonian mantém uma coleção e uma explicação sobre o sorobã.
E aqui entra uma confissão histórica de enorme relevância para a humanidade: eu, que sou cego, mexo com computador desde 1996 e já me meti com servidores, gravações e outras tranqueiras tecnológicas, nunca aprendi a usar o sorobã direito,aaa. Portanto, se me largarem na Antiguidade com um ábaco e pedirem uma raiz quadrada, talvez seja mais seguro esperar inventarem a calculadora.
Anticítera: o computador que passou dois mil anos no fundo do mar
Entre os séculos II e I antes de Cristo, artesãos e estudiosos gregos construíram uma máquina tão sofisticada que, quando seus restos foram reconhecidos no início do século XX, muita gente teve dificuldade para acreditar que ela realmente fosse antiga.
Era o Mecanismo de Anticítera, frequentemente chamado de primeiro computador analógico conhecido. Ele era uma espécie de calculadora astronômica movida à mão, formada por dezenas de engrenagens de bronze. Ao girar uma manivela, o usuário podia acompanhar calendários, movimentos do Sol e da Lua, ciclos astronômicos e previsões de eclipses. Há evidências de que também indicava ciclos dos jogos pan-helênicos, entre eles os relacionados às Olimpíadas.
Mas por que “Anticítera”? Não é o nome do inventor nem de uma deusa grega da informática. Anticítera é uma pequena ilha da Grécia, situada entre Creta e a ilha de Citera, também chamada Kythira. O nome é geralmente entendido como “diante de Citera” ou “oposta a Citera”. O mecanismo recebeu esse nome porque foi encontrado nos destroços de um navio naufragado perto da ilha.
Mergulhadores de esponjas descobriram o naufrágio em 1900, e os objetos foram recuperados entre 1900 e 1901. Em 1902, percebeu-se que um dos blocos corroídos continha uma roda dentada. Hoje restam 82 fragmentos, estudados com radiografias, tomografia computadorizada e modelos tridimensionais. A ironia é bonita: precisamos de computadores modernos para compreender completamente um computador com mais de dois mil anos.
Ele é chamado de analógico porque representava grandezas físicas contínuas — como posições e ciclos celestes — por meio das posições e relações entre engrenagens. Não trabalhava com bits, programas armazenados ou números binários. Mesmo assim, incorporava um modelo matemático do céu numa máquina capaz de produzir previsões. Era quase um pequeno cosmos dentro de uma caixa.
Segundo uma revisão científica sobre o conhecimento atual do mecanismo, ele é a calculadora mecânica mais antiga conhecida. Pesquisadores da University College London também o descrevem como o mais complexo objeto de engenharia preservado da Antiguidade.
E não, a máquina real não localizava fendas temporais como no cinema. Se localizasse, algum grego provavelmente teria avançado até hoje, visto a quantidade de senhas que precisamos decorar e voltado correndo para o século II antes de Cristo,aaa.
Engrenagens para fazer contas
Durante muitos séculos, o cálculo continuou dependendo principalmente de pessoas, tabelas e instrumentos como o ábaco. A partir do século XVII, porém, apareceram máquinas mecânicas capazes de executar operações de modo mais automático.
Em 1642, o francês Blaise Pascal começou a desenvolver a Pascalina, uma calculadora de rodas dentadas criada para ajudar seu pai no trabalho com impostos. Ela somava e subtraía. Algumas décadas depois, Gottfried Wilhelm Leibniz desenvolveu uma máquina que também podia multiplicar e dividir, usando um mecanismo conhecido como cilindro escalonado.
Essas máquinas eram limitadas, caras e difíceis de fabricar, mas apresentavam uma ideia decisiva: uma sequência bem planejada de movimentos físicos podia realizar uma operação matemática. A conta começava a sair dos dedos e a entrar no mecanismo.
Também no século XVII surgiram os logaritmos de John Napier e a régua de cálculo, usada por cientistas e engenheiros durante mais de trezentos anos. Ela não era um computador automático, mas transformava multiplicações e divisões em deslocamentos sobre escalas. Engenheiros ainda mandaram foguetes ao espaço usando réguas de cálculo; portanto, respeito com a velha régua antes que ela nos mande para o invvvvérno.
O tear que ajudou a inventar o programa
No início do século XIX, uma inovação da indústria têxtil forneceu uma peça fundamental para a futura informática. Em 1801, Joseph-Marie Jacquard apresentou um tear controlado por cartões perfurados.
Os furos dos cartões determinavam quais fios seriam levantados e, portanto, qual desenho apareceria no tecido. Trocando a sequência de cartões, trocava-se o padrão produzido pela mesma máquina. Em outras palavras, o equipamento permanecia; as instruções mudavam.
Aquilo ainda não era programação no sentido moderno, mas a semelhança é impossível de ignorar. Os cartões formavam uma espécie de programa físico reutilizável. O Computer History Museum explica como o tear de Jacquard armazenava instruções nos padrões de furos.
Assim, uma das ideias que levariam ao computador não nasceu num laboratório de eletrônica. Nasceu num tear. Antes de programarmos máquinas para escrever textos, tocar música ou gerar imagens, já havia máquinas “lendo” cartões para tecer flores.
Charles Babbage projeta um computador; Ada percebe o tamanho da ideia
Na década de 1820, o matemático inglês Charles Babbage começou a projetar a Máquina Diferencial. Seu objetivo era produzir tabelas matemáticas com maior rapidez e menos erros. Naquele tempo, essas tabelas eram calculadas e copiadas por pessoas; um número errado podia se espalhar por cálculos de navegação, astronomia e engenharia.
A Máquina Diferencial era especializada. Depois, Babbage imaginou algo muito mais ambicioso: a Máquina Analítica. Ela teria uma unidade de processamento, que ele chamou de “moinho”; uma memória, chamada de “armazém”; entrada de dados e instruções por cartões perfurados; e mecanismos para produzir resultados. Também previa repetições e decisões condicionais.
Ou seja: embora fosse inteiramente mecânica, sua organização já lembrava espantosamente a de um computador de uso geral. O problema é que a tecnologia de fabricação, o dinheiro e a própria personalidade brigona de Babbage não ajudaram. A máquina completa nunca foi construída em sua época.
Foi então que entrou nessa história Ada Lovelace. Em 1843, ela traduziu um texto do engenheiro italiano Luigi Menabrea sobre a Máquina Analítica e acrescentou notas muito maiores que o artigo original. Nelas, descreveu uma sequência para a máquina calcular números de Bernoulli — frequentemente considerada o primeiro algoritmo publicado destinado a uma máquina.
Mais importante ainda: Ada percebeu que números podiam representar coisas além de quantidades. Se sons, letras ou outros símbolos fossem codificados numericamente, uma máquina poderia manipulá-los conforme regras. Ela chegou a imaginar que o equipamento talvez compusesse música. É uma visão notável porque antecipa o computador não apenas como calculadora, mas como máquina de tratar informação, cerca de cem anos antes de essas ideias começarem a aparecer em máquinas reais. Ou eu deveria dizer: se Ada tivesse sido levada a sério, talvez a história do computador tivesse começado a andar bem antes — embora construir o equipamento com a mecânica disponível naquele tempo ainda fosse outro invvvvérno.
O Computer History Museum apresenta a história das máquinas de Babbage e também conserva as notas e a contribuição de Ada Lovelace.
Os cartões entram nos escritórios
No fim do século XIX, os cartões perfurados deixaram os teares e entraram no processamento de dados. O censo dos Estados Unidos de 1880 levou anos para ser tabulado, e a população crescia tão rapidamente que havia o risco de o censo seguinte chegar antes de terminarem o anterior. Um belo travamento administrativo, sem nem sequer haver um botão para reiniciar.
Herman Hollerith criou então um sistema eletromecânico no qual cada cartão representava uma pessoa e os furos codificavam informações como idade, sexo e estado civil. Pinos atravessavam os furos, fechavam circuitos elétricos e faziam os contadores avançarem. O sistema venceu uma competição e foi utilizado no censo de 1890, acelerando enormemente a tabulação.
A empresa de Hollerith participaria mais tarde de uma fusão que deu origem à Computing-Tabulating-Recording Company, renomeada em 1924 como International Business Machines: a IBM. O Bureau do Censo dos Estados Unidos explica detalhadamente o funcionamento da máquina de Hollerith.
Os cartões perfurados sobreviveriam por muitas décadas. Serviram para guardar dados e programas, alimentando computadores em pilhas que não podiam cair nem ser embaralhadas. Quem reclama de perder um arquivo hoje deve imaginar perder um programa porque alguém tropeçou na caixa,aaa.
Quando “computador” era profissão
Antes de a palavra designar principalmente uma máquina, computador era a pessoa que fazia cálculos. Universidades, observatórios, exércitos e empresas mantinham equipes de computadores humanos. Muitas dessas pessoas eram mulheres, especialmente durante a Segunda Guerra Mundial e nos primeiros programas espaciais.
Elas calculavam trajetórias, tabelas balísticas, consumo de combustível e resultados de experiências, primeiro à mão e depois com calculadoras mecânicas. A NASA conta a história de suas equipes de computadores humanos, sem as quais as primeiras experiências com foguetes e várias missões espaciais não teriam sido possíveis.
Quando as máquinas eletrônicas chegaram, o nome do trabalho passou para o equipamento. Não deixa de ser curioso: primeiro criamos ferramentas para ajudar os computadores humanos; depois passamos a chamar as próprias ferramentas de computadores.
A guerra dos “primeiros computadores”
Perguntar qual foi o primeiro computador parece simples, mas é uma pergunta com mais versões que certos sistemas operacionais. Primeiro computador mecânico? Automático? Digital? Eletrônico? Programável? De uso geral? Com programa armazenado na memória?
Dependendo dos adjetivos, muda o vencedor.
Em 1941, o alemão Konrad Zuse concluiu o Z3, uma máquina eletromecânica binária controlada por programa, construída com relés. Era programável, mas não eletrônica e tinha limitações quanto ao uso geral.
Durante a Segunda Guerra Mundial, o britânico Colossus, projetado principalmente por Tommy Flowers, usou milhares de válvulas eletrônicas para ajudar a decifrar mensagens alemãs protegidas pela cifra Lorenz. Entrou em operação em 1944. Era digital, eletrônico e programável, mas especializado em criptoanálise, não uma máquina de uso geral. Seu trabalho permaneceu secreto durante décadas.
Nos Estados Unidos, o ENIAC, criado por John Mauchly e J. Presper Eckert, foi apresentado publicamente em 1946. Usava cerca de 18 mil válvulas, ocupava uma sala enorme, consumia muita energia e podia ser reconfigurado para diferentes cálculos. É normalmente descrito como o primeiro computador eletrônico digital programável de uso geral. Suas primeiras programadoras foram seis mulheres, cujo trabalho passou muito tempo sem o devido reconhecimento.
A programação inicial do ENIAC exigia cabos e chaves. Não era exatamente abrir um editor, escrever meia dúzia de linhas e reclamar da mensagem de erro. Reprogramá-lo podia levar dias.
Em 1948, a Manchester Baby tornou-se a primeira máquina eletrônica digital a executar um programa armazenado em sua própria memória. Essa ideia — guardar instruções e dados eletronicamente — é a base prática do computador moderno. Em vez de reconstruir a máquina para cada tarefa, bastava carregar outro programa.
Por isso, em vez de coroar um único campeão, é melhor dar uma taça para cada categoria. O próprio Computer History Museum chama essa disputa de uma busca interminável pelos “primeiros”. O National Museum of Computing explica o lugar do Colossus, enquanto a Universidade da Pensilvânia apresenta o ENIAC e a Universidade de Manchester conta a história da Baby.
Válvulas, transistores e chips: o computador começa a encolher
Os primeiros computadores eletrônicos usavam válvulas. Elas podiam funcionar como interruptores e amplificadores, mas eram grandes, consumiam muita eletricidade, produziam calor e falhavam com frequência. As salas cheias de equipamentos das décadas de 1940 e 1950 eram poderosas para a época, mas estavam muito longe de caber sobre uma mesa.
Em dezembro de 1947, John Bardeen e Walter Brattain, trabalhando sob a supervisão de William Shockley nos Bell Labs, demonstraram o primeiro transistor funcional. O transistor também pode amplificar sinais e agir como uma chave, mas é muito menor, mais eficiente e mais confiável que uma válvula. Ele se tornaria o tijolo básico da eletrônica moderna.
O passo seguinte foi juntar vários componentes no mesmo pedaço de material semicondutor. Em 1958, Jack Kilby demonstrou um circuito integrado; em 1959, Robert Noyce desenvolveu uma solução monolítica mais adequada à fabricação em grande escala. Kilby e Noyce são reconhecidos como coinventores do circuito integrado, o famoso chip.
Em vez de ligar transistores individualmente, passou a ser possível fabricar muitos deles juntos. Depois vieram milhares, milhões e bilhões. Computadores ficaram menores, mais rápidos, mais baratos e mais confiáveis.
Em 1971, a Intel apresentou comercialmente o 4004, frequentemente reconhecido como o primeiro microprocessador comercial. Ele reunia as funções centrais de processamento num único chip. Tinha cerca de 2.300 transistores — um número minúsculo perto dos processadores atuais, mas revolucionário naquele momento. O Computer History Museum conta como o 4004 condensou a CPU num chip.
A partir daí, aquela máquina que antes ocupava uma sala começou a caminhar em direção à mesa, à mochila, ao bolso e, hoje, a relógios, carros, televisores, eletrodomésticos e objetos nos quais às vezes nem percebemos que há um computador.
O computador se torna pessoal
Durante as décadas de 1950 e 1960, computadores ainda eram principalmente grandes equipamentos de governos, universidades e empresas. Os mainframes atendiam muitos usuários e processavam enormes volumes de dados. Depois vieram os minicomputadores, menores e relativamente mais acessíveis — embora “mini”, naquela época, pudesse continuar significando um armário bem nutrido.
O microprocessador abriu caminho para os microcomputadores. Em 1975, o Altair 8800 apareceu como um kit voltado a entusiastas. Em suas configurações iniciais, a interação era feita por chaves e luzes no painel. Foi para o Altair que Bill Gates e Paul Allen forneceram uma versão da linguagem BASIC.
Em 1977, máquinas como Apple II, Commodore PET e TRS-80 ajudaram a levar o computador para escolas, pequenos negócios e residências. Em 1981, a IBM lançou o IBM PC 5150, com processador Intel 8088 e o sistema PC-DOS, fornecido pela Microsoft e irmão do MS-DOS. A arquitetura foi amplamente copiada e criou a grande família dos “PCs compatíveis” que ainda deixa descendentes espalhados por nossas mesas.
Interfaces gráficas, janelas, ícones e mouse foram desenvolvidos em pesquisas anteriores e ganharam visibilidade comercial em máquinas como o Xerox Alto, o Apple Macintosh e, depois, os PCs com Microsoft Windows. O usuário já não precisava conversar com o computador apenas por cartões, chaves ou linhas de comando.
O armazenamento também mudou: cartões e fitas deram lugar a discos magnéticos, disquetes, discos rígidos, CDs, DVDs, memórias flash e SSDs. As redes ligaram as máquinas; a internet ligou as redes; a Web facilitou o acesso à informação. Como já fizemos uma viagem inteira pela história da internet, não vou reinstalar aquele artigo dentro deste, ou daqui a pouco precisaremos de mais memória RAM,aaa.
Dos cartuchos e fitas cassete ao Core i9
Dizer apenas que o computador “ficou pessoal” esconde uma evolução das grandes. Entre o Altair dos anos 1970 e um PC atual, não mudou somente a velocidade do processador. Mudaram a maneira de guardar programas, a quantidade de memória, as telas, os sons, os sistemas operacionais e até a ideia do que se espera que um computador faça.
Os primeiros micros domésticos eram, em sua maioria, máquinas de 8 bits. Modelos como Apple II, TRS-80, Atari 400 e 800, Commodore 64, ZX Spectrum e os computadores do padrão MSX tinham poucos quilobytes de memória. Muitos já ligavam diretamente num interpretador BASIC gravado em ROM. Em vez de apenas usar programas prontos, era comum o dono copiar listagens publicadas em livros e revistas, digitar linha por linha e descobrir, depois de meia hora, que havia trocado uma vírgula por um ponto em algum lugar. Nascia ali uma forma doméstica e bastante eficiente de tortura informática,aaa.
Os programas podiam vir em cartuchos, fitas cassete ou disquetes. O cartucho continha chips de memória ROM e começava a funcionar quase imediatamente: era encaixar, ligar e usar. Em compensação, era mais caro de fabricar e tinha capacidade limitada. A fita cassete era barata e fácil de encontrar, mas armazenava os dados como sinais de áudio. O micro precisava ouvir aqueles chiados e assobios, transformar tudo novamente em bits e torcer para que o volume, o cabeçote e o alinhamento colaborassem. O disquete era mais rápido e permitia gravar e apagar arquivos com facilidade, mas o leitor ainda custava caro nos primeiros anos.
É curioso lembrar que, durante algum tempo, a fronteira entre computador e videogame era bem menos definida. Atari, Commodore e MSX podiam receber cartuchos como um console, mas também tinham teclado, BASIC, gravadores de fita, unidades de disquete e impressoras. Serviam para jogar, programar, estudar, escrever e administrar pequenos negócios. O computador doméstico era quase um laboratório que entrava pela televisão da sala.
Na metade dos anos 1980, a geração popularmente chamada de 16 bits — muitas vezes equipada com processadores 16/32 bits, como o Motorola 68000 — trouxe gráficos, som e interfaces mais sofisticadas. Apple Macintosh, Commodore Amiga e Atari ST ajudaram a popularizar janelas, mouse, editoração eletrônica, produção musical e recursos multimídia. Enquanto isso, os descendentes do IBM PC cresciam em escritórios e residências, impulsionados pela enorme quantidade de fabricantes, placas, periféricos e programas compatíveis.
Dentro dos PCs, formou-se uma família de processadores que atravessaria décadas. O IBM PC original usava o Intel 8088, parente do 8086. Depois vieram o 80286, conhecido simplesmente como 286; o 80386, ou 386; e o 80486, o velho 486. O 286 ampliou a capacidade de memória e trouxe o modo protegido; o 386 consolidou os 32 bits; e o 486 integrou recursos como memória cache e, nos modelos DX, a unidade de ponto flutuante no próprio processador.
O próximo deveria se chamar 80586, mas números não podiam ser protegidos como marca com a facilidade desejada. A Intel então escolheu o nome Pentium. Vieram Pentium, Pentium MMX, Pentium II, III e 4, acompanhados de outras linhas e de uma concorrência cada vez mais importante da AMD, com famílias como K6 e Athlon. O Computer History Museum mostra como o 8086, criado quase como uma solução provisória, deu origem à duradoura arquitetura x86.
Essa sequência de nomes pode dar a impressão de que cada processador apenas corria mais depressa que o anterior. Durante muitos anos, o número em megahertz e depois em gigahertz realmente foi uma grande peça de propaganda. Só que aumentar indefinidamente a frequência passou a produzir calor e consumir energia demais. A indústria começou a ganhar desempenho de outras maneiras: melhorando a arquitetura interna, aumentando as memórias cache, executando mais de uma instrução ao mesmo tempo e colocando dois, quatro, oito ou mais núcleos dentro do mesmo processador.
Também ocorreu a transição dos 32 para os 64 bits, que permitiu trabalhar com espaços de memória muito maiores e registradores mais largos. A AMD teve papel decisivo ao criar a extensão x86-64, depois adotada também pela Intel. Assim, os PCs preservaram uma longa compatibilidade com programas antigos enquanto aprendiam truques novos — uma espécie de máquina do tempo que, por algum milagre, não foi parar em setealém.
Nos anos 2000, a Intel substituiu gradualmente o Pentium como sua principal marca de alto desempenho pela família Core. Apareceram Core 2 Duo, Core 2 Quad e, depois, as linhas Core i3, i5, i7 e i9. É importante explicar: i3, i5, i7 e i9 não representam simplesmente a terceira, a quinta, a sétima e a nona geração. São faixas de produto dentro de determinadas gerações. Um i7 novo pode superar com folga um i9 antigo, porque entram na conta arquitetura, geração, quantidade de núcleos, consumo, refrigeração e o tipo de tarefa.
O Core i9 apareceu em 2017 como categoria de desempenho elevado. Do outro lado, a AMD voltou a aumentar fortemente a concorrência com a família Ryzen, também dividida em faixas como Ryzen 3, 5, 7 e 9. Portanto, contar a evolução “até o i9” é uma boa forma de dar a dimensão da viagem, mas o i9 não é o último degrau de uma escada única nem trabalha sozinho no planeta dos processadores.
Enquanto as CPUs evoluíam, a memória RAM saiu dos quilobytes para os megabytes e depois para os gigabytes. A fita cassete cedeu espaço ao disquete; o disquete, ao disco rígido; e o disco rígido, cada vez mais, ao SSD. Telas de texto viraram interfaces gráficas; monitores monocromáticos ganharam milhões de cores; bipes deram lugar a placas capazes de reproduzir música, vozes e gravações completas; placas de vídeo se tornaram processadores poderosos por conta própria.
Um PC moderno pode reunir CPU com vários núcleos, GPU, controladores de memória, recursos de segurança e até unidades destinadas à inteligência artificial. Ainda chamamos tudo de “computador pessoal”, mas aquele micro de cartucho e o PC com Core i9 ou Ryzen 9 são parentes tão distantes que talvez precisem fazer um exame de DNA eletrônico para confirmar a família,aaa.
E no Brasil? Do UNIVAC ao computador que fala português
Antes de seguirmos para o celular e a nuvem, precisamos trazer essa história para cá. O computador não apareceu no Brasil já montado numa loja, com doze prestações sem juros e um vendedor tentando empurrar antivírus junto.
Segundo a história reunida pela Divisão de Ciência da Computação do ITA, o primeiro computador importado pelo Brasil foi um UNIVAC 120, adquirido pela Prefeitura de São Paulo em 1957. Sua tarefa principal era ajudar o Departamento de Águas e Esgotos a calcular o consumo e emitir contas. A máquina usava 4.500 válvulas, custou cerca de 100 mil dólares e realizava 12 mil adições ou subtrações por minuto. Hoje até uma calculadora de bolso ri desses números, mas, em 1957, aquilo era uma usina de contas.
Em 1961, quatro alunos do Instituto Tecnológico de Aeronáutica construíram o Zezinho. Era um equipamento didático, feito para demonstrar como a informação era processada. Usava aproximadamente 1.500 transistores e diodos produzidos no Brasil. Não era um computador comercial de uso geral, mas entrou para a história como o primeiro computador não comercial transistorizado totalmente projetado e construído no país.
Onze anos depois, em 1972, professores e estudantes da Escola Politécnica da USP apresentaram o Patinho Feio. O apelido nasceu no clima de disputa entre grupos de pesquisa que tentavam demonstrar que o país podia construir um minicomputador: aquela máquina experimental seria o patinho que um dia poderia se transformar em cisne.
Feio ou não, ele virou um marco. Foi projetado e construído no país, serviu para formar engenheiros e ajudou a consolidar a pesquisa em arquitetura de computadores na USP. A experiência abriu caminho para o G-10, cujo hardware ficou a cargo da USP e o software foi desenvolvido pela PUC-Rio, e para projetos industriais seguintes. O Jornal da USP conta como o Patinho Feio nasceu dentro de uma disciplina de pós-graduação e deixou descendentes na pesquisa e na indústria.
Em 1974 foi fundada a Cobra — Computadores e Sistemas Brasileiros, reunindo governo, capital nacional e participação da empresa britânica Ferranti. A empresa nasceu num contexto em que a Marinha desejava reduzir a dependência externa dos sistemas instalados em suas fragatas. Depois passou a fornecer equipamentos para bancos, empresas e órgãos públicos. Da fábrica da Cobra saíram linhas como C-500 e C-400; em 1980, o Cobra 530 foi apresentado como computador de porte médio projetado por brasileiros. A atual BB Tecnologia e Serviços preserva uma linha do tempo da antiga Cobra.
Os microcomputadores começaram a aparecer nas vitrines brasileiras no início da década de 1980. O D-8000, da Dismac, chegou em 1980. Em 1982 veio o CP-500, da Prológica, compatível com o TRS-80. Tinha processador Z80, memória contada em quilobytes e, dependendo da configuração, usava fita cassete ou disquete. O grupo PET de Computação da Universidade Federal de Campina Grande relembra a história e o funcionamento do CP-500.
Também ficaram conhecidos os micros TK, da Microdigital, inspirados nos Sinclair; os compatíveis com Apple II; e, a partir de 1985, os modelos do padrão MSX, como o Expert, da Gradiente, e o HotBit, da Sharp. Esses, sim, ajudam a explicar a lembrança do “computador a cartucho”: recebiam jogos e outros programas em cartuchos, mas também podiam trabalhar com fita cassete e disquete. Para muita gente, foram ao mesmo tempo videogame, computador de estudo, instrumento musical improvisado e porta de entrada para a programação em BASIC.
Parte dessa indústria cresceu sob a chamada reserva de mercado. A política vinha sendo construída desde os anos 1970 e ganhou forma legal mais ampla com a Lei nº 7.232, de 1984. Em várias áreas, a produção e a comercialização eram reservadas a empresas consideradas nacionais, e a importação de equipamentos enfrentava restrições.
A ideia era criar competência tecnológica, formar profissionais, desenvolver fabricantes locais e reduzir a dependência estrangeira. E houve resultados: surgiram empresas, periféricos, programas, cursos e equipes de engenharia. Mas a proteção também teve um lado bem menos bonito. Muitos produtos custavam caro, chegavam atrasados em relação ao exterior e eram compatíveis — para não dizer clonados em certos casos — com projetos estrangeiros. Importar uma novidade podia exigir dinheiro, paciência, burocracia e talvez um contrabandista com boa orientação geográfica,aa.
É simplista dizer que a reserva foi apenas maravilhosa ou apenas desastrosa. Ela ajudou a formar conhecimento e uma indústria que provavelmente não surgiria da mesma maneira sem proteção, mas também reduziu a concorrência e manteve consumidores afastados de tecnologias mais recentes. A abertura começou no início dos anos 1990 e foi consolidada pela Lei nº 8.248, de 1991, com o encerramento das principais restrições até 1992.
Com a abertura, os PCs compatíveis com a arquitetura IBM e processadores 286, 386, 486 e Pentium dominaram o mercado. Algumas fabricantes nacionais desapareceram; outras passaram a montar equipamentos, vender serviços ou trabalhar em nichos. Marcas como Itautec, CCE, Gradiente e, mais tarde, Positivo fizeram parte de diferentes fases desse mercado. Componentes continuaram vindo de várias partes do mundo, enquanto montagem, integração, software, assistência e pesquisa eram realizados no país.
Nos anos 1990 e 2000, a queda gradual dos preços, o crédito, os computadores montados por pequenas lojas, os cursos de informática, as escolas, as lan houses e a chegada da internet levaram o PC a muito mais casas. Foi nesse período que comecei a mexer com computador, em 1996. Portanto, acompanhei pessoalmente uma parte dessa passagem: dos micros em que cada megabyte precisava ser respeitado até máquinas com gigabytes de RAM, SSDs e processadores de vários núcleos.
Para nós, pessoas cegas, a evolução brasileira tem um capítulo especial. Em 1993, no Núcleo de Computação Eletrônica da UFRJ, o estudante cego Marcelo Pimentel e o professor José Antonio dos Santos Borges começaram o trabalho que daria origem ao DOSVOX. Naquele tempo, sintetizadores importados custavam milhares de dólares, frequentemente falavam apenas inglês e placas de som ainda eram caras. A solução precisou usar eletrônica acessível, gravações e software desenvolvido aqui.
Aquela caixinha ligada à LPT-1, a antiga porta da impressora, não continha propriamente uma placa de som como as que depois se tornaram comuns. Dentro dela havia um conversor digital-analógico muito simples, baseado numa rede de resistores chamada R-2R. O computador enviava valores digitais pela porta paralela; o circuito os transformava em sinal de áudio; e um pequeno amplificador permitia ligar diretamente um fone de ouvido. Assim, o DOSVOX podia reproduzir letras, sílabas e mensagens previamente gravadas e, depois, combiná-las para produzir fala em português.
As primeiras unidades foram montadas em pequenas caixas originalmente destinadas a micromodems e, mais tarde, passaram a ser fabricadas pela LayCab como sintetizadores de baixo custo. Ainda tenho uma dessas caixinhas guardada e funcionando — uma pequena peça da história da acessibilidade brasileira conectável à porta da impressora,aaa.
O DOSVOX não foi apenas um leitor de telas tradicional. Ele criou um ambiente falado com editor de textos, correio eletrônico, ferramentas de arquivos, jogos e muitos outros programas. Isso permitiu que milhares de brasileiros cegos usassem um PC em português com muito mais independência. O próprio projeto mantém a história detalhada de sua criação desde 1993.
Quando comecei, em 1996, leitores de tela e sistemas falados já eram a diferença entre haver um computador sobre a mesa e realmente poder usá-lo. Depois vieram novas versões do Windows, sintetizadores melhores, Virtual Vision, JAWS, NVDA e muitas mudanças na acessibilidade. Nem todas foram para a frente — certas atualizações parecem gostar de dar uma ré só para testar nossa paciência —, mas a transformação foi enorme.
Assim, o Brasil não apenas recebeu computadores estrangeiros. Também projetou máquinas, criou fábricas, copiou e adaptou padrões, formou engenheiros, desenvolveu sistemas e protagonizou experiências próprias. E, com o DOSVOX, começou a ajudar o computador pessoal a falar português para quem precisava ouvi-lo.
Da mesa para o bolso — e da sala para a nuvem
Nas décadas seguintes, o computador deixou de ser apenas “o aparelho chamado computador”. Notebooks reuniram numa peça o que antes ocupava uma mesa. Celulares incorporaram processadores cada vez mais poderosos, armazenamento, sensores, câmeras e conexão permanente.
O smartphone não nasceu com o iPhone, mas o modelo apresentado pela Apple em 2007 ajudou a consolidar a combinação de telefone, computador de bolso, tela sensível ao toque e acesso completo à internet. Hoje carregamos no bolso uma máquina imensamente mais poderosa que os computadores que ajudaram a levar seres humanos à Lua.
Ao mesmo tempo, parte do processamento e do armazenamento voltou a ocupar enormes salas — agora chamadas de data centers. A diferença é que acessamos esses recursos pela rede, como serviços de nuvem. O “computador” moderno pode ser o aparelho em nossa mão, um servidor do outro lado do país ou milhares de máquinas trabalhando juntas.
Processadores gráficos, as GPUs, criados para acelerar imagens, mostraram-se excelentes para executar muitos cálculos em paralelo. Eles impulsionaram simulações científicas, jogos, processamento de vídeo e a atual onda de inteligência artificial. Os sistemas de IA que geram texto, imagem, voz e música não são uma nova espécie mágica de computador: rodam sobre a longa linhagem de transistores, chips, memórias, redes e programas que acabamos de percorrer.
Aliás, neste ponto da história já fazemos algo que Ada Lovelace imaginou em 1843: usamos números dentro de máquinas para representar e manipular palavras, imagens e música. Ela provavelmente acharia fascinante. Babbage talvez perguntasse quem aprovou o orçamento.
E então chegamos ao computador quântico
Todo computador citado até aqui — do microcomputador antigo ao celular, ao servidor e ao supercomputador — é hoje chamado de computador clássico. No fundo, ele representa informação em bits.
Um bit pode valer 0 ou 1. Fisicamente, isso pode corresponder a níveis de tensão, cargas elétricas, regiões magnetizadas ou outros estados distinguíveis. Bilhões de transistores funcionam como chaves minúsculas e, combinados em portas lógicas, realizam operações. Textos, músicas, vídeos e programas acabam codificados em enormes sequências de zeros e uns.
O computador quântico trabalha com qubits, os bits quânticos. Um qubit também tem estados básicos que chamamos de 0 e 1, mas, antes de ser medido, pode estar numa superposição desses estados. Isso não significa simplesmente que ele guardou dois bits comuns ao mesmo tempo. Seu estado é descrito por amplitudes — números que determinam as probabilidades dos resultados possíveis e também como esses resultados podem interferir entre si.
Quando medimos o qubit, obtemos um resultado clássico: 0 ou 1. A superposição desaparece naquela medição. Portanto, não adianta colocar todas as respostas possíveis numa superposição e abrir a caixa esperando que saia apenas a correta com um lacinho. Se o algoritmo for mal construído, sai uma resposta aleatória e ainda posa de mistério quântico.
Superposição, emaranhamento e interferência
Três ideias ajudam a entender uma computação quântica:
Superposição: permite representar combinações de estados. Com vários qubits, o sistema pode ser descrito por amplitudes associadas a muitas configurações possíveis.
Emaranhamento: faz com que os estados de dois ou mais qubits sejam descritos em conjunto, com correlações que não podem ser explicadas tratando cada qubit separadamente. Isso não permite enviar mensagens mais rápidas que a luz, apesar do que talvez estejam vendendo na esquina de setealém.
Interferência: é o grande truque computacional. Assim como ondas podem se reforçar ou se cancelar, as amplitudes quânticas também interferem. Um algoritmo quântico organiza operações para aumentar a probabilidade dos resultados úteis e reduzir a dos resultados indesejados.
As operações são feitas por portas quânticas, equivalentes distantes das portas lógicas clássicas. Elas alteram as amplitudes e criam emaranhamento. No fim, os qubits são medidos, e o cálculo normalmente precisa ser repetido muitas vezes para revelar a distribuição dos resultados.
Esse detalhe corrige uma explicação popular, porém enganosa: um computador quântico não “experimenta todas as respostas e depois escolhe a certa”. Um conjunto de n qubits é descrito por 2n amplitudes, mas não podemos ler todas elas diretamente. A medição devolve apenas um resultado. A vantagem só aparece quando existe um algoritmo capaz de usar a interferência para fazer a informação desejada emergir.
O NIST apresenta uma boa introdução à superposição, ao emaranhamento e à medição.
De que é feito um qubit?
Um qubit não é obrigatoriamente uma peça específica. Ele pode ser construído com diferentes sistemas físicos: circuitos supercondutores, íons aprisionados, átomos neutros, fótons, spins de elétrons e outras tecnologias. Cada abordagem tem vantagens e dificuldades.
Alguns computadores quânticos supercondutores precisam operar em refrigeradores de diluição, a temperaturas próximas do zero absoluto. É por isso que certas fotografias mostram aquelas estruturas douradas em forma de lustre futurista. O processador quântico propriamente dito pode ser pequeno; o equipamento necessário para resfriá-lo, controlá-lo e protegê-lo do ambiente é que ocupa um belo espaço.
E nenhum deles trabalha sozinho. Há computadores clássicos controlando pulsos, preparando operações, recebendo medições e processando resultados. O futuro mais provável não é o quântico expulsar o clássico da sala, mas ambos trabalharem juntos, com o processador quântico atuando como acelerador para tarefas específicas — mais ou menos como uma GPU não substituiu a CPU.
Para que ele serve — e para que não serve
Computadores quânticos não são mais rápidos em tudo. Eles não prometem abrir o editor de texto instantaneamente, melhorar o volume do rádio nem fazer o Windows terminar uma atualização antes de resolver instalar outra.
A expectativa é que sejam especialmente úteis em alguns tipos de problema, como:
- simular moléculas, materiais e fenômenos que já são quânticos por natureza;
- resolver certas formas de fatoração e problemas matemáticos relacionados à criptografia;
- acelerar algumas buscas e cálculos algébricos;
- ajudar em determinadas tarefas de otimização, dependendo do algoritmo e do hardware;
- trabalhar em sistemas híbridos, dividindo etapas com supercomputadores clássicos.
A história teórica moderna começou a ganhar forma no início dos anos 1980. Richard Feynman argumentou que sistemas quânticos seriam melhor simulados por máquinas que também obedecessem à mecânica quântica. Em 1985, David Deutsch descreveu um modelo de computador quântico universal. Em 1994, Peter Shor apresentou um algoritmo quântico eficiente para fatorar números inteiros e calcular logaritmos discretos — problemas ligados à segurança de sistemas criptográficos amplamente usados.
Isso não significa que alguém possa hoje apontar um notebook quântico para qualquer senha e assistir ao cadeado derreter. Para executar o algoritmo de Shor contra chaves criptográficas reais, seria necessário um computador quântico de grande escala, tolerante a falhas e com muitos qubits lógicos confiáveis. Essa máquina ainda não existe. Mesmo assim, a possibilidade futura já levou ao desenvolvimento e à adoção de criptografia pós-quântica.
O grande inimigo: o próprio mundo
Qubits são extremamente frágeis. Calor, vibração, radiação, imperfeições de fabricação e outras interações com o ambiente introduzem ruído. O estado quântico perde coerência, e os erros se acumulam.
Num computador clássico, podemos copiar bits e guardar cópias extras para corrigir falhas. No mundo quântico, não é possível simplesmente copiar um estado desconhecido, e medi-lo diretamente destrói a superposição. A correção quântica de erros precisa distribuir a informação de um qubit lógico entre vários qubits físicos e detectar erros sem revelar o conteúdo que se quer preservar.
Por isso, contar apenas quantos qubits uma máquina possui pode enganar. Mil qubits físicos ruidosos não equivalem necessariamente a mil qubits úteis. Importam também a qualidade das operações, o tempo de coerência, a conectividade, a taxa de erros e a capacidade de formar qubits lógicos protegidos.
Em 2026, computadores quânticos são reais, podem ser acessados inclusive pela internet e já executam experimentos importantes. Mas os equipamentos disponíveis continuam sendo máquinas especializadas, limitadas e sujeitas a ruído. A construção de sistemas grandes e plenamente tolerantes a falhas ainda é um desafio de pesquisa e engenharia. O Departamento de Energia dos Estados Unidos resume o estágio atual como o de protótipos pequenos e ruidosos, enquanto equipes de pesquisa avançam na correção de erros.
Portanto, o computador quântico não é a “próxima geração do PC” que colocaremos sobre a mesa para aposentar todos os demais. Ele é outro tipo de ferramenta, destinado a certos problemas. O computador clássico continuará fazendo quase tudo que fazemos hoje; o quântico poderá assumir partes muito específicas de cálculos que, para as máquinas comuns, seriam impraticáveis.
Uma invenção feita por milhares de mãos
A história do computador não tem um único inventor nem uma linha reta. O ábaco organizou números. Anticítera transformou ciclos astronômicos em engrenagens. Pascal e Leibniz automatizaram operações. Jacquard guardou instruções em cartões. Babbage desenhou uma máquina de uso geral. Ada Lovelace percebeu que ela poderia manipular símbolos. Hollerith levou cartões e eletricidade ao processamento de dados. Computadores humanos fizeram os cálculos que prepararam o caminho para as máquinas. Zuse, Flowers, Mauchly, Eckert, as programadoras do ENIAC, Williams, Kilburn e muitos outros construíram diferentes partes do computador moderno.
No Brasil, UNIVAC, Zezinho, Patinho Feio, Cobra, os micros nacionais e o DOSVOX contam outra parte dessa viagem: a de um país que recebeu tecnologia estrangeira, mas também pesquisou, fabricou, adaptou e criou suas próprias respostas.
Depois, válvulas viraram transistores; transistores se juntaram em circuitos integrados; CPUs entraram em chips; computadores saíram das salas e chegaram às mesas; das mesas foram para as mochilas e bolsos; e, conectados em rede, voltaram a ocupar salas imensas nos data centers.
Agora tentamos fazer a própria mecânica quântica processar informação.
Do movimento de uma conta num ábaco à interferência das amplitudes de um qubit, o princípio mais profundo continua parecido: representar alguma coisa do mundo, estabelecer regras e deixar um mecanismo trabalhar sobre essa representação.
O que mudou foi o mecanismo. Primeiro, dedos e pedras. Depois, contas, engrenagens, cartões, relés, válvulas, transistores e chips. Hoje, estados quânticos.
E eu continuo sem saber usar o sorobã direito,aaa.
Um abração e até a próxima… Não vou contar sobre o que vai ser!
Fernando