Blog

  • Do diário virtual ao império dos algoritmos: a ascensão, o auge, a decadência e a sobrevivência dos blogs

    Tempo de leitura: 10 minutos

    Olá caros leitores dessa coisa aqui!

    Hoje vamos viajar pela história de uma das criaturas mais características da internet: o blog.

    Durante algum tempo, ter um blog foi quase tão obrigatório quanto ter MSN, uma conta no Orkut e um endereço de e-mail que, de preferência, terminasse com algum apelido seguido de vários números. Havia blogs sobre informática, política, música, livros, televisão, viagens, poesia, humor, vida pessoal e absolutamente qualquer outro assunto que alguém resolvesse escrever às duas da manhã.

    Alguns viraram grandes negócios. Outros revelaram jornalistas, escritores, fotógrafos e especialistas. Muitos funcionavam como diários abertos, com direito a desabafos, indiretas e detalhes da vida que hoje talvez fossem publicados num story e desaparecessem 24 horas depois.

    Depois vieram as redes sociais, os smartphones, os vídeos curtos e os algoritmos. A chamada blogosfera perdeu movimento, plataformas fecharam e milhares de páginas foram abandonadas. Mesmo assim, os blogs não desapareceram. Alguns dos primeiros ainda estão no ar, o WordPress virou a base de uma parcela gigantesca da internet e até as newsletters atuais recuperaram várias características dos velhos blogs.

    E, no meio de tudo isso, existe essa coisa aqui, criada em 2006 e mantida até hoje por uma combinação de memória, teimosia e uma aparente incapacidade de seu autor de mandar definitivamente tudo para o espaço, aaa.

    Mas vamos começar antes disso.

    Antes do blog existir, já existiam os blogueiros

    No começo da World Wide Web, publicar qualquer coisa dava um trabalho respeitável. Era necessário conhecer HTML, criar as páginas manualmente, enviá-las para um servidor e editar arquivos sempre que surgisse algum conteúdo novo. Não havia um painel com o simpático botão “Publicar”.

    Mesmo assim, algumas pessoas começaram a manter páginas atualizadas com frequência, reunindo links, comentários e relatos pessoais.

    Em 1994, o estudante norte-americano Justin Hall criou o Links.net, frequentemente apontado como um dos primeiros exemplos de blog pessoal. O nome “blog” ainda nem existia; Hall chamava aquilo simplesmente de página pessoal.

    Outro pioneiro foi Dave Winer, que começou a publicar o Scripting News em 1997. A página misturava tecnologia, desenvolvimento de software, comentários e links e, por algum fenômeno de teimosia internacional, continua sendo atualizada. Winer também teve papel importante no desenvolvimento e na popularização do RSS, tecnologia que permitiria acompanhar vários sites sem precisar visitar um por um.

    Em dezembro de 1997, Jorn Barger, autor do Robot Wisdom, utilizou o termo weblog, algo como “registro da Web”. Em 1999, Peter Merholz resolveu separar a palavra em seu site como we blog. A brincadeira pegou, o nome foi encurtado para blog e logo surgiram também blogger, para quem escrevia, e o verbo blogar.

    Foi um raro caso em que alguém partiu uma palavra no lugar errado e, em vez de receber uma correção, ajudou a batizar uma época inteira.

    As plataformas abriram a porteira

    O blog só poderia se tornar um fenômeno popular quando publicar deixasse de ser atividade quase exclusiva de quem sabia construir sites.

    Em 1998 surgiu o Open Diary, uma das primeiras plataformas dedicadas aos diários on-line e também uma das pioneiras na adoção de comentários dos leitores. Em 1999 apareceram serviços como Pitas, LiveJournal e Blogger. O LiveJournal combinava diário e comunidade, permitindo acompanhar amigos, comentar e participar de grupos. O Blogger, criado pela Pyra Labs e comprado pelo Google em 2003, tornou a publicação muito mais simples.

    A estrutura que passamos a reconhecer como blog ficou mais ou menos definida: postagens em ordem cronológica inversa, arquivo por mês e categoria, comentários, links permanentes para cada texto e, muitas vezes, uma lista de outros blogs recomendados, a famosa blogroll.

    Também vieram os trackbacks, que avisavam quando um blog citava outro, e os feeds RSS. Em vez de depender de um algoritmo para decidir o que apareceria, o leitor assinava os sites que desejava acompanhar e recebia as novidades num agregador.

    Em 2001 chegou o Movable Type. Em 2003 foram lançados o TypePad e o WordPress. Este último nasceu como uma ferramenta de publicação em PHP e MySQL, gratuita e de código aberto. Com temas e plugins, podia ser adaptado para quase tudo e cresceu até deixar de ser apenas um sistema de blogs para virar um gerenciador completo de sites.

    O dono de um WordPress instalado no próprio servidor tinha liberdade para mudar o visual, instalar recursos, mexer no código e, naturalmente, produzir um revertério tão grande que acabava aprendendo banco de dados, permissões de arquivo e restauração de backup por necessidade.

    Quando a blogosfera chegou com força ao Brasil

    No Brasil, os blogs ganharam enorme popularidade no começo dos anos 2000. Blogger Brasil, Blig, Weblogger, Zip.net, UOL Blog e Blogspot estão entre os nomes que muita gente daquela época ainda reconhece.

    O Blogger Brasil foi lançado em 2002 numa parceria entre a Globo.com e a Pyra Labs. Teve até divulgação em novela e ajudou a apresentar a ideia de blog a um público muito maior. Depois ficou restrito aos assinantes da Globo.com e acabou encerrado em 2015, levando seus autores a migrar o conteúdo — pelo menos aqueles que ainda lembravam a senha e conseguiram fazer o salvamento a tempo.

    Os blogs brasileiros formaram uma cultura própria. Havia templates cheios de cores, contadores de visitas, livros de visitas, cursores personalizados, música tocando automaticamente, gifs piscando, selinhos oferecidos por outros blogueiros e listas intermináveis de links amigos.

    Algumas páginas pareciam ter sofrido uma explosão dentro de uma papelaria digital. Mas eram pessoais, reconhecíveis e feitas por gente que estava aprendendo enquanto publicava.

    O Orkut e o MSN não concorriam completamente com os blogs. Muitas vezes serviam para levar gente até eles. O autor publicava um texto, avisava os amigos, recebia comentários e depois continuava a conversa no MSN, num fórum ou numa comunidade. A internet era espalhada, e essa era justamente uma de suas características mais interessantes.

    O auge: quando todo mundo tinha alguma coisa a dizer

    Entre meados dos anos 2000 e o começo da década de 2010, os blogs ocuparam uma posição central na internet.

    Os diários pessoais continuaram existindo, mas surgiram blogs profissionais e especializados em tecnologia, política, economia, moda, beleza, cinema, literatura, música, viagens, ciência e esportes. Jornais contrataram blogueiros e criaram áreas de blogs. Empresas descobriram que publicar textos podia atrair clientes. Escritores que antes dependeriam de uma editora passaram a formar público diretamente.

    O Technorati funcionava como mecanismo de busca e termômetro da blogosfera. O Google facilitava a descoberta de textos. O AdSense e as redes de publicidade permitiam que páginas com grande audiência ganhassem dinheiro. Alguns autores transformaram seus blogs em profissão; outros receberam livros, convites, empregos e contratos graças ao que escreviam.

    Os comentários eram parte fundamental da experiência. Uma postagem não terminava no último parágrafo: continuava nas respostas, nas discussões e nos textos publicados por outros blogs. Blogrolls, links e RSS formavam uma rede relativamente aberta. Cada autor tinha sua casa, mas as portas estavam conectadas.

    Foi nessa época que nasceram páginas como o Huffington Post, em 2005, inicialmente apresentado como blog coletivo, e que blogs como Boing Boing alcançaram enorme influência. Alguns se tornaram veículos de comunicação; outros permaneceram pequenos e pessoais, o que não os tornava menos importantes para suas comunidades.

    Também foi nessa fase que a palavra “blogueiro” deixou de significar apenas alguém com um diário virtual e passou a incluir jornalistas independentes, especialistas, críticos, professores e produtores de conteúdo. O atual “criador de conteúdo” já existia. Apenas não tinha iluminação circular, vídeo vertical e obrigação de pedir que o público esmagasse algum botão.

    E em 2006 nasceu essa coisa aqui

    No dia 28 de junho de 2006, este blog entrou no ar pelo Blogspot. Eu já mantinha site, rádio e outras experiências internéticas, mas o blog abriu um espaço mais simples para publicar novidades, opiniões, tutoriais, histórias, coisas sérias e maluquices de procedência algumas vezes duvidosa.

    Em janeiro de 2007, ele saiu do Blogspot e foi para um WordPress instalado no meu próprio servidor. Naquele tempo, instalar o WordPress envolvia baixar arquivos, mandar tudo por FTP, criar banco de dados, configurar o wp-config.php, traduzir o painel e descobrir por que alguma coisa aparentemente inocente havia derrubado o resto.

    Em 2008, uma tentativa de personalizar o VHCS2 terminou com sites, e-mails e configurações indo para um universo paralelo. Depois de várias tentativas de ressuscitar o servidor, apliquei uma técnica avançadíssima, utilizada por especialistas até hoje:

    Reinstalei tudo!

    O blog mudou de servidor, endereço, aparência e assunto. Teve períodos movimentados, ficou mais de dois anos sem receber um texto, voltou em 2011, passou por outros silêncios e renasceu mais uma vez em 2023. Recentemente retornou com maior regularidade e completou vinte anos ainda publicando sobre informática, rádio, música, livros, acessibilidade, saúde, histórias, viagens pelo tempo e quaisquer outros assuntos que resolvam aparecer por aqui.

    Por que raios ele ainda existe?

    Porque, apesar dos sumiços, apagar uma história dessas dói. E porque um texto publicado num blog não precisa morrer quando deixa de aparecer na primeira tela de uma rede social.

    A decadência não aconteceu de uma vez

    Não houve um dia específico em que alguém desligou a blogosfera. A decadência dos blogs como centro da vida on-line foi resultado de várias mudanças que se acumularam.

    As redes sociais acabaram com a necessidade de manter uma casa

    Facebook e Twitter permitiam escrever, publicar fotografias, comentar e formar uma audiência sem instalar sistema, contratar hospedagem ou cuidar de atualizações. Depois vieram Instagram, WhatsApp, TikTok e outras plataformas.

    Era muito mais fácil criar uma conta onde todo mundo já estava do que convencer as pessoas a visitar uma página separada. O conteúdo saiu das casas próprias e foi para grandes condomínios digitais.

    O problema é que, nesses condomínios, o síndico muda as regras, decide quem recebe sua postagem, coloca anúncios no corredor e pode fechar sua porta sem entregar uma cópia da chave.

    O celular mudou o formato da atenção

    Com o smartphone, a internet deixou de ser um lugar visitado diante do computador e passou a acompanhar todo mundo o dia inteiro. A tela menor e o uso rápido favoreceram feeds infinitos, fotografias, vídeos e textos curtos.

    Ler um artigo longo exige tempo e decisão. Passar o dedo para o próximo conteúdo exige apenas outro movimento. Naturalmente, as plataformas aprenderam qual dos dois mantinha as pessoas vendo mais publicidade.

    O algoritmo substituiu a visita e a assinatura

    Nos blogs, o leitor escolhia o que acompanhar. Salvava a página nos favoritos, assinava o RSS ou chegava por indicação de outro autor.

    Nas redes sociais, o algoritmo escolhe boa parte do que será mostrado. Isso trouxe praticidade e descoberta, mas também criou dependência. Um autor pode ter milhares de seguidores e, ainda assim, alcançar apenas uma pequena parte deles se a plataforma decidir que seu conteúdo não provoca reação suficiente.

    Para sobreviver, muita gente passou a escrever para o algoritmo: títulos exagerados, assuntos do momento, publicações constantes e conteúdo feito para gerar clique, raiva ou discussão. O texto deixou de obedecer somente ao autor e passou a tentar agradar uma criatura invisível que muda de humor sem avisar.

    O RSS perdeu sua grande vitrine

    O RSS continua existindo e ainda é uma excelente maneira de acompanhar sites sem depender de algoritmos. Mas perdeu força entre o público geral. Um momento simbólico foi o encerramento do Google Reader, em 1º de julho de 2013.

    Outros leitores, como Feedly e NewsBlur, continuaram funcionando, mas o hábito de assinar fontes foi substituído, para muita gente, pelo hábito de abrir uma rede social e aceitar o que viesse.

    Ganhar dinheiro ficou mais difícil — ou mais artificial

    O crescimento da publicidade estimulou blogs profissionais, mas também produziu páginas recheadas de anúncios, textos criados apenas para aparecer no Google e títulos que prometiam revelar um segredo impressionante depois de quinze parágrafos completamente inúteis.

    Parte da blogosfera foi absorvida pelo chamado marketing de conteúdo. O formato sobreviveu, mas a voz pessoal muitas vezes foi substituída por textos corporativos feitos para vender produtos, capturar endereços de e-mail ou agradar mecanismos de busca.

    Ao mesmo tempo, quem escrevia por prazer encontrou cada vez menos comentários e visitas diretas. Manter domínio, hospedagem, atualizações, backups e segurança continuava exigindo tempo. Para muitos, publicar gratuitamente numa rede social parecia uma troca razoável.

    Vídeos, podcasts e influenciadores ocuparam o palco

    O YouTube mostrou que qualquer pessoa também podia criar seu próprio canal. Podcasts recuperaram a intimidade do rádio. Instagram e TikTok transformaram produção pessoal em fluxo de imagens e vídeos. O próprio nome mudou: o blogueiro virou influenciador ou criador de conteúdo.

    O Digital News Report 2025, do Reuters Institute, registra o crescimento do consumo de notícias por redes sociais e plataformas de vídeo, especialmente entre os mais jovens. Embora a pesquisa trate de notícias e não de todos os blogs, ela mostra com clareza para onde migrou grande parte da atenção.

    Mas os blogs morreram mesmo?

    Não. Eles perderam o auge cultural, mas sua tecnologia e sua ideia foram absorvidas por quase toda a internet.

    Sites de notícias, páginas de empresas, portais especializados e lojas ainda publicam conteúdos em ordem cronológica, com autores, categorias, arquivos e links permanentes. Em outras palavras, fazem muitas das coisas que um blog fazia, embora raramente utilizem esse nome.

    O WordPress é o maior exemplo dessa transformação. Segundo o W3Techs, ele está presente em cerca de 41% de todos os sites analisados. Isso não significa que 41% da internet seja formada por blogs: significa que uma ferramenta criada para blogs cresceu e se tornou infraestrutura para lojas, jornais, páginas institucionais, fóruns e muitos outros tipos de site.

    O Blogger continua no ar. Tumblr e LiveJournal também sobreviveram, embora bem diferentes de seus períodos de maior popularidade. Medium e Ghost retomaram a publicação de textos longos com modelos mais modernos. O Substack, lançado em 2017, juntou blog, newsletter, comentários, áudio, vídeo e assinaturas pagas, entregando cada novo texto diretamente por e-mail.

    É curioso: depois de passar anos entregando nossa atenção aos algoritmos, parte da internet voltou a valorizar exatamente aquilo que os blogs e o RSS faziam — uma relação direta entre autor e leitor.

    Também existem sobreviventes históricos. O Scripting News continua ativo desde 1997. O Boing Boing, que nasceu como revista impressa, virou site em 1995 e blog em 2000, permanece publicando. Há milhares de páginas pessoais, técnicas, literárias e acadêmicas mantidas por autores que não foram completamente absorvidos pelas redes.

    O que um blog ainda oferece que uma rede social não oferece?

    A principal diferença é simples: um blog próprio é uma casa. Uma rede social é um terreno alugado.

    Num blog, o autor pode organizar o arquivo, corrigir textos, controlar o endereço, oferecer RSS, escolher o formato e preservar postagens durante décadas. Nas redes, uma publicação desaparece rapidamente no fluxo, a busca costuma ser ruim e o alcance depende das decisões da plataforma.

    Isso não torna o blog indestrutível. Se ninguém pagar o domínio, renovar a hospedagem, atualizar o sistema e manter backups, a casa também pode cair. A independência vem acompanhada de trabalho — e às vezes de um servidor fazendo “rrrzada” às três da manhã.

    Mesmo assim, o blog continua sendo um dos melhores formatos para conhecimento que precisa ser encontrado depois. Tutoriais, análises, relatos pessoais, pesquisas, resenhas e textos históricos não foram feitos para viver apenas algumas horas numa linha do tempo.

    Há ainda outra vantagem: texto bem estruturado continua sendo um formato leve e potencialmente acessível. Quando títulos, links, imagens e navegação são construídos corretamente, uma pessoa que utiliza leitor de telas consegue percorrer o conteúdo com independência. Naturalmente, sempre aparece algum iluminado disposto a estragar isso com botões sem nome, pop-ups e interfaces supostamente modernas, porque os revertérios também evoluem.

    Da decadência à transformação

    Talvez a melhor palavra não seja morte, mas transformação.

    O blog pessoal deixou de ser a forma dominante de presença on-line. A antiga blogosfera, com seus comentários, blogrolls, trackbacks e vizinhanças, encolheu. Muitas páginas foram apagadas ou abandonadas. Vários serviços fecharam, levando consigo pedaços inteiros da memória da internet.

    Mas a publicação independente continuou. Às vezes se chama newsletter. Às vezes aparece como site pessoal, revista digital, página de autor ou área de artigos. Às vezes um texto nasce no blog e é divulgado no Facebook, LinkedIn, WhatsApp e Twitter. As redes se tornam as estradas; o blog permanece como destino e arquivo.

    Essa pode ser, inclusive, a maneira mais saudável de usar os dois mundos. As plataformas ajudam a encontrar leitores, mas o conteúdo importante fica num endereço que não depende inteiramente delas.

    E essa coisa aqui?

    Essa coisa aqui nasceu quando os blogs cresciam, atravessou o auge da blogosfera, viu o Orkut e o MSN desaparecerem, acompanhou a ascensão do Facebook, do Twitter, do YouTube, do Instagram, do WhatsApp e do TikTok e agora “milagrosamente??” publica textos produzidos com bem mais frequência e com ajuda de uma inteligência artificial — devidamente vigiada para não inventar um imperador romano, três plataformas e uma guerra civil inexistente.

    O blog quase morreu algumas vezes. Ficou parado, mudou, voltou, ganhou remendos e sobreviveu a revertérios pessoais e servidorísticos. Talvez não tenha mais a movimentação dos comentários de 2007, quando uma história podia virar conversa coletiva, mas hoje guarda vinte anos de tecnologia, acessibilidade, rádio, música, livros, saúde, humor e vida pessoal.

    Uma postagem antiga não é apenas um texto. Ela preserva a linguagem, as preocupações, os programas, as velocidades de conexão e até os erros de uma época. Um blog antigo acaba virando arquivo histórico sem perceber.

    Portanto, se alguém perguntar por que raios essa coisa aqui ainda se mantém no ar, a resposta talvez seja:

    Porque alguém precisa guardar as histórias que o algoritmo já teria enterrado.

    E também porque seu autor é teimoso.

    Principalmente a segunda opção, aaa.

    Um abração e até a próxima viagem nessa coisa aqui!

    Fernando

  • Coisas que só um cego passa — ou: o incrível manual do ajudante que ninguém chamou

    Tempo de leitura: 9 minutos

    Oláamigos e leitores dessa coisa aqui!

    Ser cego tem suas dificuldades, claro. Há rua sem acessibilidade, site que parece ter sido programado em Setealém, aplicativo cujo botão principal não tem nome e cardápio que só existe num QR Code que leva a uma imagem. Mas nada disso se compara à criatividade de certas pessoas que, ao avistarem uma bengala branca, imediatamente recebem um chamado superior: precisam fazer alguma coisa.

    O problema é que, frequentemente, elas não sabem o quê.

    E também não perguntam.

    Então fazem.

    O resultado pode variar entre uma situação engraçada, um pequeno constrangimento, uma viagem não solicitada para o lado errado da rua e a destruição física do equipamento que permitiria ao cego continuar andando. Tudo, é claro, em nome da ajuda.

    Antes que alguém se ofenda: não estou dizendo que toda pessoa que enxerga faz essas coisas, nem que todo cego reage da mesma maneira. Estou reunindo situações que aconteceram comigo e outras que aparecem repetidamente nos relatos de pessoas cegas. Algumas são engraçadas depois que passam. Outras já nascem prontas para serem enviadas ao invvvérno,aaa.

    1. Deus lhe dê outra

    Essa aconteceu comigo.

    Eu estava na rua quando um sujeito, desesperado para me entregar um panfleto de igreja, pisou na minha bengala. A bengala quebrou.

    Até aí já tínhamos um pequeno problema logístico: eu sou cego e, graças ao esforço missionário do cidadão, acabava de ficar sem o instrumento que usava para me orientar.

    Mas ele não se abalou. Diante do resultado material de sua obra, deu a solução:

    — Deus lhe dê outra.

    E foi embora.

    Não sei se a reposição viria por milagre, transportadora celestial ou retirada na secretaria da igreja. Só sei que, naquele instante, fiquei mais cego do que já era: antes eu não enxergava; dali em diante, além de não enxergar, estava sem bengala.

    Talvez o panfleto contivesse instruções para solicitar a segunda via, mas infelizmente ele não estava em braile e, como o fato se deu em 2010, ainda não existiam os óculos Ray-Ban Meta para ler o dito-cujo,aaa.

    2. “Seu colega está aí na frente”

    Você está caminhando e há outro cego alguns metros adiante. Imediatamente alguém avisa:

    — Seu colega está aí na sua frente.

    Colega?

    Colega de quê? Trabalhamos na mesma empresa? Estudamos na mesma turma? Participamos do mesmo sindicato internacional da cegaíada? Temos reunião marcada para discutir a cotação mundial das bengalas?

    Não. Somos apenas duas pessoas cegas que, por uma dessas coincidências estatisticamente permitidas pelo universo, estão usando a mesma calçada.

    Curiosamente, quando duas pessoas de camisa azul se cruzam, ninguém corre para dizer: “Seu colega de azul está ali”. Mas basta aparecerem duas bengalas e pronto: começou a confraternização anual da firma.

    3. “Você está indo para a escola ou para a igreja?”

    Essa pergunta também faz parte do repertório:

    — Você está indo para a escola ou para a igreja?

    Porque, como todos sabem, a vida de uma pessoa cega possui somente dois destinos possíveis. De manhã, escola. À noite, igreja. Entre uma coisa e outra, talvez fique guardada num armário, com a bengala dobrada, aguardando a próxima saída autorizada.

    Trabalhar? Não.

    Ir ao mercado? Impossível.

    Encontrar amigos, tomar uma cerveja, ir a um show, namorar, levar a filha para passear, gravar música, resolver problemas no banco ou simplesmente andar por aí sem prestar relatório? Isso já exige a versão premium do cego e parece que nem todo mundo sabe que ela existe.

    4. “Se você for à minha igreja, Deus vai curar você”

    Este é um clássico tão internacional que aparece até em relatos de cegos de outros países.

    O sujeito não sabe seu nome, não conhece sua história, não perguntou se você tem fé, se frequenta alguma religião ou se deseja conversar sobre o assunto. Mas sabe uma coisa: você precisa ser curado.

    Quem disse, raios, que eu quero ser curado?

    É claro que muita gente gostaria de voltar a enxergar, e não há nada de errado nisso. Mas não se pode presumir que essa seja a vontade de toda pessoa cega, muito menos abordar alguém na rua como se sua existência fosse um defeito aguardando manutenção divina.

    No meu caso, imaginem a confusão: adaptar-me a uma vida completamente nova, reaprender um monte de coisas e, principalmente, começar a ver muita coisa que talvez eu nem quisesse ver.

    Depois de tantos anos usando leitor de telas, eu ainda correria o risco de olhar para uma página visualmente poluída e perguntar: “Onde raios aperto H para pular esta desgraceira?”

    5. O OCNI no prato

    No restaurante, antes que você escolha qualquer coisa, alguém anuncia:

    — Já servi seu prato.

    Mas raios, eu nem disse o que queria!

    Talvez a pessoa tenha concluído que cego também não possui preferência culinária. Ou talvez já esteja relativamente acostumada com o que você costuma comer — afinal, não é a primeira vez que você vai ali — e ache que não precisa da sua intervenção, digamos assim. Basta colocar comida no prato e ele executa o procedimento padrão de alimentação.

    Tudo bem. Para não parecer mal-educado, você começa a comer. Arroz identificado. Feijão identificado. Alguma coisa que parece carne. De repente, o garfo encontra um OCNI — Objeto Comestível Não Identificado.

    Você cutuca.

    É mole por um lado, resistente por outro e produz um ruído que não ajuda em nada. Pode ser legume, farofa compactada, decoração gastronômica ou uma criatura que entrou no prato para fugir da cozinha.

    E, naturalmente, não há ninguém por perto para responder à pergunta essencial:

    — Que raio de coisa é essa?

    6. A operação cirúrgica com talheres alheios

    A situação anterior ainda pode evoluir.

    — Deixa eu ajeitar um pouco aí.

    Antes que você descubra o significado de “ajeitar”, a pessoa pega os talheres que já usou para comer e começa a reorganizar seu prato.

    Nãããão! Não faça isso, pelo amor de Deus!

    Ou vem a versão mais especializada:

    — Vou cortar para você.

    O garfo e a faca do cego estavam no lugar, limpos e perfeitamente utilizáveis. Mesmo assim, o sujeito — ou a sujeita, para garantir a igualdade no setor de invasões gastronômicas — realiza a cirurgia com os próprios talheres usados.

    Quem precisa de bactéria individual quando pode participar de um programa de compartilhamento comunitário?

    Se quiser ajudar no prato, pergunte. Diga o que foi servido, indique as posições como num relógio e deixe a pessoa decidir se precisa de mais alguma coisa. Não é necessário fazer uma laparoscopia no bife.

    7. O sequestro solidário

    Você está parado na calçada, pensando na vida, esperando alguém ou simplesmente tentando descobrir de onde vem determinado som.

    De repente, uma mão agarra seu braço e você começa a se mover.

    — Vem, eu ajudo você a atravessar!

    Pensamentinho: “Pera aí, caralho! Atravessar para onde? Por quê? Como? Quando? Pra quê? De que jeito?”

    Detalhe: você não queria atravessar.

    Talvez estivesse esperando um carro, procurando uma porta ou apenas parado porque, pasmem, cegos também podem ficar parados. Mas agora está no outro lado da rua, graças ao serviço gratuito de teletransporte por puxão.

    Às vezes a pessoa empurra pelas costas. Às vezes puxa pela bengala. Às vezes agarra os dois ombros e passa a dirigir o cego como se fosse um carrinho de supermercado com uma roda emperrada.

    É muito simples: pergunte se a pessoa quer ajuda. Se ela aceitar, ofereça o braço e deixe que ela segure próximo ao cotovelo. Não é preciso rebocá-la.

    8. “É ali”

    Você pergunta onde fica a porta.

    — É ali.

    Ali onde?

    — Ali, ó!

    A segunda tentativa vem acompanhada de um dedo apontado com convicção. O dedo provavelmente sabe o caminho, mas infelizmente não transmite dados por Bluetooth para a bengala.

    Também existe a pessoa que faz sinal para o cego entrar no elevador, atravessar a rua ou passar pela porta. Em silêncio. Talvez esteja acenando magnificamente; para nós, contudo, o espetáculo continua sem audiodescrição.

    “À sua direita”, “três passos à frente” e “a porta está aberta” resolvem. “Ali” é uma coordenada geográfica localizada em lugar nenhum.

    9. Pergunte ao acompanhante, porque aparentemente o cego veio sem voz

    No restaurante:

    — O que ele vai querer?

    No consultório:

    — Ele está sentindo dor há quanto tempo?

    Na loja:

    — Qual modelo ele prefere?

    E o cego está ali. Às vezes entre o atendente e o acompanhante. Respirando, pensando e, em casos avançados, até falando.

    É uma experiência curiosa: em poucos segundos você deixa de ser cliente, paciente ou cidadão e passa a ser um assunto debatido por terceiros na sua presença.

    A solução revolucionária é olhar — ou dirigir a voz — para a pessoa cega e perguntar diretamente a ela. Sim, funciona até sem atualização do sistema.

    10. Aumente o volume: ele não enxerga

    Algumas pessoas veem a bengala e imediatamente ajustam a voz:

    — O SENHOR PRECISA DE AJUDA?

    Não necessariamente. Mas, se continuar gritando, talvez eu precise de um otorrino.

    Cegueira não é surdez. Também não é dificuldade de compreensão. Pode falar no volume e na velocidade normais, sem transformar cada frase numa aula de alfabetização transmitida por alto-falante de rodoviária.

    11. “Adivinha quem é?”

    A pessoa chega, altera um pouco a voz e pergunta:

    — Adivinha quem é?

    Começou o programa de auditório.

    O cego agora tem de consultar o arquivo universal de vozes, comparar respirações, analisar o perfume e descobrir qual das 847 pessoas conhecidas resolveu brincar de identidade secreta.

    Se acertar, ganha o direito de continuar a conversa. Se errar, ouve:

    — Nossa, não reconheceu minha voz?

    Não. E muita gente que enxerga também não reconheceria você se aparecesse usando uma máscara e falando pelo nariz.

    Diga seu nome. Poupa tempo, constrangimento e uma investigação do FBI.

    12. A pessoa que vai embora em modo furtivo

    Você está conversando, termina uma frase, faz uma pergunta e recebe silêncio.

    Espera um pouco.

    Repete a pergunta.

    Mais silêncio.

    Então alguém informa:

    — Ah, ele saiu faz uns cinco minutos.

    Maravilha. Durante esse tempo você apresentou sua opinião completa a uma cadeira, que provavelmente foi a ouvinte mais atenta da sala.

    Não precisa protocolar requerimento: basta dizer “vou ali”, “estou saindo” ou “já volto”. Desaparecer em silêncio pode funcionar no cinema de espionagem; numa conversa com uma pessoa cega, só produz monólogo involuntário.

    13. “Nossa! Você usa celular?”

    Não apenas uso celular como também computador, internet, aplicativos, leitor de telas e, quando os deuses da acessibilidade permitem, até compro coisas sozinho.

    Mas sempre aparece alguém maravilhado:

    — Como você digita?

    Com os dedos, geralmente.

    — Mas como você sabe onde estão as letras?

    Da mesma forma que um pianista sabe onde estão as notas e muita gente sabe digitar sem ficar olhando para o teclado. A diferença é que meu computador fala. Às vezes fala até demais — especialmente quando o site foi construído com 93 botões chamados apenas de “botão”.

    A tecnologia assistiva existe há muito tempo. O milagre não é o cego usar o aparelho; o milagre é sobreviver a certos aplicativos.

    14. A superação de tomar café

    O cego pega um ônibus, trabalha, cozinha, publica um texto ou serve o próprio café.

    — Que exemplo de superação!

    Calma. Às vezes era só café.

    Transformar qualquer atividade comum numa epopeia pode parecer elogio, mas também passa a ideia de que ninguém esperava que uma pessoa cega fosse capaz de realizá-la.

    Se eu escalar o Everest de costas carregando um piano, podem elogiar à vontade. Se eu apenas ligar o computador e começar a trabalhar, talvez seja cedo para encomendar a cinebiografia.

    15. Alguém “organizou” suas coisas

    Uma pessoa bem-intencionada resolve arrumar sua mesa, sua cozinha ou seu quarto.

    O que estava à esquerda vai para a direita. O pote de café troca de lugar com o açúcar. O controle remoto parte para uma nova vida atrás de um vaso. A cadeira fica elegantemente afastada da mesa, pronta para atingir a canela do primeiro desavisado.

    Para quem não enxerga, a posição dos objetos não é mero capricho decorativo: também é informação.

    Depois da “organização”, começa a caça ao tesouro. Só faltam um mapa inacessível, três pistas em tinta e alguém dizendo que o objeto está “bem ali”.

    16. O cão-guia virou atração turística

    Esta vem dos colegas que usam cão-guia — colegas por uma experiência concreta, desta vez, não apenas porque existe outra bengala na rua,aaa.

    O cão está trabalhando, desviando de obstáculos e ajudando seu usuário a circular com segurança. Aí chega alguém:

    — Ai, que lindo!

    E começa a chamar, assobiar, oferecer comida ou fazer carinho sem perguntar.

    O animal realmente é lindo, mas naquele momento não está fazendo hora extra como departamento de recreação pública. Distrair um cão-guia trabalhando pode colocar a pessoa em risco. Admire, controle a vontade de apertar e fale primeiro com o ser humano que está junto dele — algo que, como vimos, já é uma tecnologia social bastante avançada.

    O método revolucionário para ajudar uma pessoa cega

    Depois de toda essa pesquisa, descobri um procedimento tão sofisticado que decidi revelá-lo gratuitamente:

    Pergunte.

    “Você precisa de ajuda?”

    Se a resposta for não, a operação terminou com sucesso.

    Se for sim, pergunte como pode ajudar. Fale diretamente com a pessoa, em voz normal. Não agarre o braço, não empurre pelas costas, não puxe a bengala, não distraia o cão-guia, não remexa no prato com seu garfo e não aponte silenciosamente para o infinito. E, especialmente, se estiver ajudando alguém a atravessar a rua, vá até o outro lado. Não largue o cego no meio da pista dizendo que ele já pode seguir sozinho! Tenho uma amiga que já foi atropelada por causa disso, e eu mesmo já levei um belo susto…

    Ajuda boa não é aquela que faz mais coisas. É aquela que respeita a autonomia de quem vai recebê-la.

    E, por favor, se quebrar a bengala de alguém, não terceirize a reposição para Deus.

    De onde vieram as maluquices adicionais?

    Além das minhas experiências, encontrei situações semelhantes em relatos e orientações publicados por pessoas cegas e por organizações que trabalham com deficiência visual. Entre eles estão o texto da blogueira cega Holly, do Life of a Blind Girl; uma coletânea bem-humorada do Industries for the Blind and Visually Impaired; uma conversa entre pessoas cegas no fórum r/Blind; e as orientações da UniGuairacá sobre como ajudar pessoas cegas na rua.

    Ou seja: infelizmente, o panfleteiro destruidor de bengalas pode ter sido uma edição especial brasileira, mas o restante da coleção possui distribuição mundial.

    Um abração e até a próxima maluquice nessa coisa aqui!

    Fernando

  • Do ábaco ao qubit: uma viagem pela história do computador

    Tempo de leitura: 23 minutos

    Olá amigos e leitores dessa coisa aqui!

    Depois de viajarmos pela história da internet, chegou a hora de voltar ainda mais no tempo. Muito mais. Tão mais que, no começo dessa história, não havia tomada, tela, teclado, mouse, Windows, Linux, vírus, atualização obrigatória nem técnico dizendo que o problema era o usuário.

    Havia pedras, riscos, contas, engrenagens e uma necessidade que continua exatamente a mesma: tirar parte do trabalho da cabeça humana e passá-lo para alguma ferramenta.

    Hoje chamamos de computador uma máquina capaz de receber dados, seguir instruções, processá-los, guardar informações e apresentar resultados. Mas ele não nasceu pronto. Foi sendo montado ao longo de milhares de anos, peça por peça e ideia por ideia. Aliás, durante muito tempo, “computador” nem sequer era uma máquina: era uma pessoa.

    Então ajustem as engrenagens, confiram as válvulas e não me perguntem onde fica a tecla Enter do ábaco, porque vamos sair das primeiras contas de madeira e chegar aos computadores quânticos. Se tudo der certo, voltaremos ao presente sem cair num erro de divisão por zero ou num portal para setealém,aaa.

    Antes do computador, a conta

    Muito antes da escrita, seres humanos já precisavam contar animais, alimentos, dias, dívidas e provavelmente quantas vezes alguém havia prometido devolver uma ferramenta e não devolveu. Dedos ajudavam, mas só até certo ponto. Vieram então pedras, marcas em ossos, nós em cordas e tábuas de contagem.

    O ábaco não foi inventado de uma vez por uma única pessoa. Diferentes formas de contar com pedras, fichas ou contas móveis apareceram em várias culturas. Os instrumentos mais antigos provavelmente eram superfícies com linhas ou sulcos; os modelos com contas presas em hastes, que hoje reconhecemos imediatamente, vieram depois.

    O princípio é simples e genial: cada posição representa uma ordem numérica — unidades, dezenas, centenas e assim por diante. Ao mover as contas, a pessoa registra valores e executa operações sem precisar conservar tudo mentalmente. O ábaco não calcula sozinho; ele organiza o cálculo e reduz a carga de memória de quem o usa. É, portanto, uma ferramenta de computação, mesmo não sendo automática.

    Uma de suas versões mais conhecidas é o sorobã japonês, normalmente com uma conta acima da barra central e quatro abaixo em cada haste. Ele também se tornou muito conhecido entre pessoas cegas, inclusive em versões adaptadas para que as contas não se desloquem acidentalmente durante o uso. O Smithsonian mantém uma coleção e uma explicação sobre o sorobã.

    E aqui entra uma confissão histórica de enorme relevância para a humanidade: eu, que sou cego, mexo com computador desde 1996 e já me meti com servidores, gravações e outras tranqueiras tecnológicas, nunca aprendi a usar o sorobã direito,aaa. Portanto, se me largarem na Antiguidade com um ábaco e pedirem uma raiz quadrada, talvez seja mais seguro esperar inventarem a calculadora.

    Anticítera: o computador que passou dois mil anos no fundo do mar

    Entre os séculos II e I antes de Cristo, artesãos e estudiosos gregos construíram uma máquina tão sofisticada que, quando seus restos foram reconhecidos no início do século XX, muita gente teve dificuldade para acreditar que ela realmente fosse antiga.

    Era o Mecanismo de Anticítera, frequentemente chamado de primeiro computador analógico conhecido. Ele era uma espécie de calculadora astronômica movida à mão, formada por dezenas de engrenagens de bronze. Ao girar uma manivela, o usuário podia acompanhar calendários, movimentos do Sol e da Lua, ciclos astronômicos e previsões de eclipses. Há evidências de que também indicava ciclos dos jogos pan-helênicos, entre eles os relacionados às Olimpíadas.

    Mas por que “Anticítera”? Não é o nome do inventor nem de uma deusa grega da informática. Anticítera é uma pequena ilha da Grécia, situada entre Creta e a ilha de Citera, também chamada Kythira. O nome é geralmente entendido como “diante de Citera” ou “oposta a Citera”. O mecanismo recebeu esse nome porque foi encontrado nos destroços de um navio naufragado perto da ilha.

    Mergulhadores de esponjas descobriram o naufrágio em 1900, e os objetos foram recuperados entre 1900 e 1901. Em 1902, percebeu-se que um dos blocos corroídos continha uma roda dentada. Hoje restam 82 fragmentos, estudados com radiografias, tomografia computadorizada e modelos tridimensionais. A ironia é bonita: precisamos de computadores modernos para compreender completamente um computador com mais de dois mil anos.

    Ele é chamado de analógico porque representava grandezas físicas contínuas — como posições e ciclos celestes — por meio das posições e relações entre engrenagens. Não trabalhava com bits, programas armazenados ou números binários. Mesmo assim, incorporava um modelo matemático do céu numa máquina capaz de produzir previsões. Era quase um pequeno cosmos dentro de uma caixa.

    Segundo uma revisão científica sobre o conhecimento atual do mecanismo, ele é a calculadora mecânica mais antiga conhecida. Pesquisadores da University College London também o descrevem como o mais complexo objeto de engenharia preservado da Antiguidade.

    E não, a máquina real não localizava fendas temporais como no cinema. Se localizasse, algum grego provavelmente teria avançado até hoje, visto a quantidade de senhas que precisamos decorar e voltado correndo para o século II antes de Cristo,aaa.

    Engrenagens para fazer contas

    Durante muitos séculos, o cálculo continuou dependendo principalmente de pessoas, tabelas e instrumentos como o ábaco. A partir do século XVII, porém, apareceram máquinas mecânicas capazes de executar operações de modo mais automático.

    Em 1642, o francês Blaise Pascal começou a desenvolver a Pascalina, uma calculadora de rodas dentadas criada para ajudar seu pai no trabalho com impostos. Ela somava e subtraía. Algumas décadas depois, Gottfried Wilhelm Leibniz desenvolveu uma máquina que também podia multiplicar e dividir, usando um mecanismo conhecido como cilindro escalonado.

    Essas máquinas eram limitadas, caras e difíceis de fabricar, mas apresentavam uma ideia decisiva: uma sequência bem planejada de movimentos físicos podia realizar uma operação matemática. A conta começava a sair dos dedos e a entrar no mecanismo.

    Também no século XVII surgiram os logaritmos de John Napier e a régua de cálculo, usada por cientistas e engenheiros durante mais de trezentos anos. Ela não era um computador automático, mas transformava multiplicações e divisões em deslocamentos sobre escalas. Engenheiros ainda mandaram foguetes ao espaço usando réguas de cálculo; portanto, respeito com a velha régua antes que ela nos mande para o invvvvérno.

    O tear que ajudou a inventar o programa

    No início do século XIX, uma inovação da indústria têxtil forneceu uma peça fundamental para a futura informática. Em 1801, Joseph-Marie Jacquard apresentou um tear controlado por cartões perfurados.

    Os furos dos cartões determinavam quais fios seriam levantados e, portanto, qual desenho apareceria no tecido. Trocando a sequência de cartões, trocava-se o padrão produzido pela mesma máquina. Em outras palavras, o equipamento permanecia; as instruções mudavam.

    Aquilo ainda não era programação no sentido moderno, mas a semelhança é impossível de ignorar. Os cartões formavam uma espécie de programa físico reutilizável. O Computer History Museum explica como o tear de Jacquard armazenava instruções nos padrões de furos.

    Assim, uma das ideias que levariam ao computador não nasceu num laboratório de eletrônica. Nasceu num tear. Antes de programarmos máquinas para escrever textos, tocar música ou gerar imagens, já havia máquinas “lendo” cartões para tecer flores.

    Charles Babbage projeta um computador; Ada percebe o tamanho da ideia

    Na década de 1820, o matemático inglês Charles Babbage começou a projetar a Máquina Diferencial. Seu objetivo era produzir tabelas matemáticas com maior rapidez e menos erros. Naquele tempo, essas tabelas eram calculadas e copiadas por pessoas; um número errado podia se espalhar por cálculos de navegação, astronomia e engenharia.

    A Máquina Diferencial era especializada. Depois, Babbage imaginou algo muito mais ambicioso: a Máquina Analítica. Ela teria uma unidade de processamento, que ele chamou de “moinho”; uma memória, chamada de “armazém”; entrada de dados e instruções por cartões perfurados; e mecanismos para produzir resultados. Também previa repetições e decisões condicionais.

    Ou seja: embora fosse inteiramente mecânica, sua organização já lembrava espantosamente a de um computador de uso geral. O problema é que a tecnologia de fabricação, o dinheiro e a própria personalidade brigona de Babbage não ajudaram. A máquina completa nunca foi construída em sua época.

    Foi então que entrou nessa história Ada Lovelace. Em 1843, ela traduziu um texto do engenheiro italiano Luigi Menabrea sobre a Máquina Analítica e acrescentou notas muito maiores que o artigo original. Nelas, descreveu uma sequência para a máquina calcular números de Bernoulli — frequentemente considerada o primeiro algoritmo publicado destinado a uma máquina.

    Mais importante ainda: Ada percebeu que números podiam representar coisas além de quantidades. Se sons, letras ou outros símbolos fossem codificados numericamente, uma máquina poderia manipulá-los conforme regras. Ela chegou a imaginar que o equipamento talvez compusesse música. É uma visão notável porque antecipa o computador não apenas como calculadora, mas como máquina de tratar informação, cerca de cem anos antes de essas ideias começarem a aparecer em máquinas reais. Ou eu deveria dizer: se Ada tivesse sido levada a sério, talvez a história do computador tivesse começado a andar bem antes — embora construir o equipamento com a mecânica disponível naquele tempo ainda fosse outro invvvvérno.

    O Computer History Museum apresenta a história das máquinas de Babbage e também conserva as notas e a contribuição de Ada Lovelace.

    Os cartões entram nos escritórios

    No fim do século XIX, os cartões perfurados deixaram os teares e entraram no processamento de dados. O censo dos Estados Unidos de 1880 levou anos para ser tabulado, e a população crescia tão rapidamente que havia o risco de o censo seguinte chegar antes de terminarem o anterior. Um belo travamento administrativo, sem nem sequer haver um botão para reiniciar.

    Herman Hollerith criou então um sistema eletromecânico no qual cada cartão representava uma pessoa e os furos codificavam informações como idade, sexo e estado civil. Pinos atravessavam os furos, fechavam circuitos elétricos e faziam os contadores avançarem. O sistema venceu uma competição e foi utilizado no censo de 1890, acelerando enormemente a tabulação.

    A empresa de Hollerith participaria mais tarde de uma fusão que deu origem à Computing-Tabulating-Recording Company, renomeada em 1924 como International Business Machines: a IBM. O Bureau do Censo dos Estados Unidos explica detalhadamente o funcionamento da máquina de Hollerith.

    Os cartões perfurados sobreviveriam por muitas décadas. Serviram para guardar dados e programas, alimentando computadores em pilhas que não podiam cair nem ser embaralhadas. Quem reclama de perder um arquivo hoje deve imaginar perder um programa porque alguém tropeçou na caixa,aaa.

    Quando “computador” era profissão

    Antes de a palavra designar principalmente uma máquina, computador era a pessoa que fazia cálculos. Universidades, observatórios, exércitos e empresas mantinham equipes de computadores humanos. Muitas dessas pessoas eram mulheres, especialmente durante a Segunda Guerra Mundial e nos primeiros programas espaciais.

    Elas calculavam trajetórias, tabelas balísticas, consumo de combustível e resultados de experiências, primeiro à mão e depois com calculadoras mecânicas. A NASA conta a história de suas equipes de computadores humanos, sem as quais as primeiras experiências com foguetes e várias missões espaciais não teriam sido possíveis.

    Quando as máquinas eletrônicas chegaram, o nome do trabalho passou para o equipamento. Não deixa de ser curioso: primeiro criamos ferramentas para ajudar os computadores humanos; depois passamos a chamar as próprias ferramentas de computadores.

    A guerra dos “primeiros computadores”

    Perguntar qual foi o primeiro computador parece simples, mas é uma pergunta com mais versões que certos sistemas operacionais. Primeiro computador mecânico? Automático? Digital? Eletrônico? Programável? De uso geral? Com programa armazenado na memória?

    Dependendo dos adjetivos, muda o vencedor.

    Em 1941, o alemão Konrad Zuse concluiu o Z3, uma máquina eletromecânica binária controlada por programa, construída com relés. Era programável, mas não eletrônica e tinha limitações quanto ao uso geral.

    Durante a Segunda Guerra Mundial, o britânico Colossus, projetado principalmente por Tommy Flowers, usou milhares de válvulas eletrônicas para ajudar a decifrar mensagens alemãs protegidas pela cifra Lorenz. Entrou em operação em 1944. Era digital, eletrônico e programável, mas especializado em criptoanálise, não uma máquina de uso geral. Seu trabalho permaneceu secreto durante décadas.

    Nos Estados Unidos, o ENIAC, criado por John Mauchly e J. Presper Eckert, foi apresentado publicamente em 1946. Usava cerca de 18 mil válvulas, ocupava uma sala enorme, consumia muita energia e podia ser reconfigurado para diferentes cálculos. É normalmente descrito como o primeiro computador eletrônico digital programável de uso geral. Suas primeiras programadoras foram seis mulheres, cujo trabalho passou muito tempo sem o devido reconhecimento.

    A programação inicial do ENIAC exigia cabos e chaves. Não era exatamente abrir um editor, escrever meia dúzia de linhas e reclamar da mensagem de erro. Reprogramá-lo podia levar dias.

    Em 1948, a Manchester Baby tornou-se a primeira máquina eletrônica digital a executar um programa armazenado em sua própria memória. Essa ideia — guardar instruções e dados eletronicamente — é a base prática do computador moderno. Em vez de reconstruir a máquina para cada tarefa, bastava carregar outro programa.

    Por isso, em vez de coroar um único campeão, é melhor dar uma taça para cada categoria. O próprio Computer History Museum chama essa disputa de uma busca interminável pelos “primeiros”. O National Museum of Computing explica o lugar do Colossus, enquanto a Universidade da Pensilvânia apresenta o ENIAC e a Universidade de Manchester conta a história da Baby.

    Válvulas, transistores e chips: o computador começa a encolher

    Os primeiros computadores eletrônicos usavam válvulas. Elas podiam funcionar como interruptores e amplificadores, mas eram grandes, consumiam muita eletricidade, produziam calor e falhavam com frequência. As salas cheias de equipamentos das décadas de 1940 e 1950 eram poderosas para a época, mas estavam muito longe de caber sobre uma mesa.

    Em dezembro de 1947, John Bardeen e Walter Brattain, trabalhando sob a supervisão de William Shockley nos Bell Labs, demonstraram o primeiro transistor funcional. O transistor também pode amplificar sinais e agir como uma chave, mas é muito menor, mais eficiente e mais confiável que uma válvula. Ele se tornaria o tijolo básico da eletrônica moderna.

    O passo seguinte foi juntar vários componentes no mesmo pedaço de material semicondutor. Em 1958, Jack Kilby demonstrou um circuito integrado; em 1959, Robert Noyce desenvolveu uma solução monolítica mais adequada à fabricação em grande escala. Kilby e Noyce são reconhecidos como coinventores do circuito integrado, o famoso chip.

    Em vez de ligar transistores individualmente, passou a ser possível fabricar muitos deles juntos. Depois vieram milhares, milhões e bilhões. Computadores ficaram menores, mais rápidos, mais baratos e mais confiáveis.

    Em 1971, a Intel apresentou comercialmente o 4004, frequentemente reconhecido como o primeiro microprocessador comercial. Ele reunia as funções centrais de processamento num único chip. Tinha cerca de 2.300 transistores — um número minúsculo perto dos processadores atuais, mas revolucionário naquele momento. O Computer History Museum conta como o 4004 condensou a CPU num chip.

    A partir daí, aquela máquina que antes ocupava uma sala começou a caminhar em direção à mesa, à mochila, ao bolso e, hoje, a relógios, carros, televisores, eletrodomésticos e objetos nos quais às vezes nem percebemos que há um computador.

    O computador se torna pessoal

    Durante as décadas de 1950 e 1960, computadores ainda eram principalmente grandes equipamentos de governos, universidades e empresas. Os mainframes atendiam muitos usuários e processavam enormes volumes de dados. Depois vieram os minicomputadores, menores e relativamente mais acessíveis — embora “mini”, naquela época, pudesse continuar significando um armário bem nutrido.

    O microprocessador abriu caminho para os microcomputadores. Em 1975, o Altair 8800 apareceu como um kit voltado a entusiastas. Em suas configurações iniciais, a interação era feita por chaves e luzes no painel. Foi para o Altair que Bill Gates e Paul Allen forneceram uma versão da linguagem BASIC.

    Em 1977, máquinas como Apple II, Commodore PET e TRS-80 ajudaram a levar o computador para escolas, pequenos negócios e residências. Em 1981, a IBM lançou o IBM PC 5150, com processador Intel 8088 e o sistema PC-DOS, fornecido pela Microsoft e irmão do MS-DOS. A arquitetura foi amplamente copiada e criou a grande família dos “PCs compatíveis” que ainda deixa descendentes espalhados por nossas mesas.

    Interfaces gráficas, janelas, ícones e mouse foram desenvolvidos em pesquisas anteriores e ganharam visibilidade comercial em máquinas como o Xerox Alto, o Apple Macintosh e, depois, os PCs com Microsoft Windows. O usuário já não precisava conversar com o computador apenas por cartões, chaves ou linhas de comando.

    O armazenamento também mudou: cartões e fitas deram lugar a discos magnéticos, disquetes, discos rígidos, CDs, DVDs, memórias flash e SSDs. As redes ligaram as máquinas; a internet ligou as redes; a Web facilitou o acesso à informação. Como já fizemos uma viagem inteira pela história da internet, não vou reinstalar aquele artigo dentro deste, ou daqui a pouco precisaremos de mais memória RAM,aaa.

    Dos cartuchos e fitas cassete ao Core i9

    Dizer apenas que o computador “ficou pessoal” esconde uma evolução das grandes. Entre o Altair dos anos 1970 e um PC atual, não mudou somente a velocidade do processador. Mudaram a maneira de guardar programas, a quantidade de memória, as telas, os sons, os sistemas operacionais e até a ideia do que se espera que um computador faça.

    Os primeiros micros domésticos eram, em sua maioria, máquinas de 8 bits. Modelos como Apple II, TRS-80, Atari 400 e 800, Commodore 64, ZX Spectrum e os computadores do padrão MSX tinham poucos quilobytes de memória. Muitos já ligavam diretamente num interpretador BASIC gravado em ROM. Em vez de apenas usar programas prontos, era comum o dono copiar listagens publicadas em livros e revistas, digitar linha por linha e descobrir, depois de meia hora, que havia trocado uma vírgula por um ponto em algum lugar. Nascia ali uma forma doméstica e bastante eficiente de tortura informática,aaa.

    Os programas podiam vir em cartuchos, fitas cassete ou disquetes. O cartucho continha chips de memória ROM e começava a funcionar quase imediatamente: era encaixar, ligar e usar. Em compensação, era mais caro de fabricar e tinha capacidade limitada. A fita cassete era barata e fácil de encontrar, mas armazenava os dados como sinais de áudio. O micro precisava ouvir aqueles chiados e assobios, transformar tudo novamente em bits e torcer para que o volume, o cabeçote e o alinhamento colaborassem. O disquete era mais rápido e permitia gravar e apagar arquivos com facilidade, mas o leitor ainda custava caro nos primeiros anos.

    É curioso lembrar que, durante algum tempo, a fronteira entre computador e videogame era bem menos definida. Atari, Commodore e MSX podiam receber cartuchos como um console, mas também tinham teclado, BASIC, gravadores de fita, unidades de disquete e impressoras. Serviam para jogar, programar, estudar, escrever e administrar pequenos negócios. O computador doméstico era quase um laboratório que entrava pela televisão da sala.

    Na metade dos anos 1980, a geração popularmente chamada de 16 bits — muitas vezes equipada com processadores 16/32 bits, como o Motorola 68000 — trouxe gráficos, som e interfaces mais sofisticadas. Apple Macintosh, Commodore Amiga e Atari ST ajudaram a popularizar janelas, mouse, editoração eletrônica, produção musical e recursos multimídia. Enquanto isso, os descendentes do IBM PC cresciam em escritórios e residências, impulsionados pela enorme quantidade de fabricantes, placas, periféricos e programas compatíveis.

    Dentro dos PCs, formou-se uma família de processadores que atravessaria décadas. O IBM PC original usava o Intel 8088, parente do 8086. Depois vieram o 80286, conhecido simplesmente como 286; o 80386, ou 386; e o 80486, o velho 486. O 286 ampliou a capacidade de memória e trouxe o modo protegido; o 386 consolidou os 32 bits; e o 486 integrou recursos como memória cache e, nos modelos DX, a unidade de ponto flutuante no próprio processador.

    O próximo deveria se chamar 80586, mas números não podiam ser protegidos como marca com a facilidade desejada. A Intel então escolheu o nome Pentium. Vieram Pentium, Pentium MMX, Pentium II, III e 4, acompanhados de outras linhas e de uma concorrência cada vez mais importante da AMD, com famílias como K6 e Athlon. O Computer History Museum mostra como o 8086, criado quase como uma solução provisória, deu origem à duradoura arquitetura x86.

    Essa sequência de nomes pode dar a impressão de que cada processador apenas corria mais depressa que o anterior. Durante muitos anos, o número em megahertz e depois em gigahertz realmente foi uma grande peça de propaganda. Só que aumentar indefinidamente a frequência passou a produzir calor e consumir energia demais. A indústria começou a ganhar desempenho de outras maneiras: melhorando a arquitetura interna, aumentando as memórias cache, executando mais de uma instrução ao mesmo tempo e colocando dois, quatro, oito ou mais núcleos dentro do mesmo processador.

    Também ocorreu a transição dos 32 para os 64 bits, que permitiu trabalhar com espaços de memória muito maiores e registradores mais largos. A AMD teve papel decisivo ao criar a extensão x86-64, depois adotada também pela Intel. Assim, os PCs preservaram uma longa compatibilidade com programas antigos enquanto aprendiam truques novos — uma espécie de máquina do tempo que, por algum milagre, não foi parar em setealém.

    Nos anos 2000, a Intel substituiu gradualmente o Pentium como sua principal marca de alto desempenho pela família Core. Apareceram Core 2 Duo, Core 2 Quad e, depois, as linhas Core i3, i5, i7 e i9. É importante explicar: i3, i5, i7 e i9 não representam simplesmente a terceira, a quinta, a sétima e a nona geração. São faixas de produto dentro de determinadas gerações. Um i7 novo pode superar com folga um i9 antigo, porque entram na conta arquitetura, geração, quantidade de núcleos, consumo, refrigeração e o tipo de tarefa.

    O Core i9 apareceu em 2017 como categoria de desempenho elevado. Do outro lado, a AMD voltou a aumentar fortemente a concorrência com a família Ryzen, também dividida em faixas como Ryzen 3, 5, 7 e 9. Portanto, contar a evolução “até o i9” é uma boa forma de dar a dimensão da viagem, mas o i9 não é o último degrau de uma escada única nem trabalha sozinho no planeta dos processadores.

    Enquanto as CPUs evoluíam, a memória RAM saiu dos quilobytes para os megabytes e depois para os gigabytes. A fita cassete cedeu espaço ao disquete; o disquete, ao disco rígido; e o disco rígido, cada vez mais, ao SSD. Telas de texto viraram interfaces gráficas; monitores monocromáticos ganharam milhões de cores; bipes deram lugar a placas capazes de reproduzir música, vozes e gravações completas; placas de vídeo se tornaram processadores poderosos por conta própria.

    Um PC moderno pode reunir CPU com vários núcleos, GPU, controladores de memória, recursos de segurança e até unidades destinadas à inteligência artificial. Ainda chamamos tudo de “computador pessoal”, mas aquele micro de cartucho e o PC com Core i9 ou Ryzen 9 são parentes tão distantes que talvez precisem fazer um exame de DNA eletrônico para confirmar a família,aaa.

    E no Brasil? Do UNIVAC ao computador que fala português

    Antes de seguirmos para o celular e a nuvem, precisamos trazer essa história para cá. O computador não apareceu no Brasil já montado numa loja, com doze prestações sem juros e um vendedor tentando empurrar antivírus junto.

    Segundo a história reunida pela Divisão de Ciência da Computação do ITA, o primeiro computador importado pelo Brasil foi um UNIVAC 120, adquirido pela Prefeitura de São Paulo em 1957. Sua tarefa principal era ajudar o Departamento de Águas e Esgotos a calcular o consumo e emitir contas. A máquina usava 4.500 válvulas, custou cerca de 100 mil dólares e realizava 12 mil adições ou subtrações por minuto. Hoje até uma calculadora de bolso ri desses números, mas, em 1957, aquilo era uma usina de contas.

    Em 1961, quatro alunos do Instituto Tecnológico de Aeronáutica construíram o Zezinho. Era um equipamento didático, feito para demonstrar como a informação era processada. Usava aproximadamente 1.500 transistores e diodos produzidos no Brasil. Não era um computador comercial de uso geral, mas entrou para a história como o primeiro computador não comercial transistorizado totalmente projetado e construído no país.

    Onze anos depois, em 1972, professores e estudantes da Escola Politécnica da USP apresentaram o Patinho Feio. O apelido nasceu no clima de disputa entre grupos de pesquisa que tentavam demonstrar que o país podia construir um minicomputador: aquela máquina experimental seria o patinho que um dia poderia se transformar em cisne.

    Feio ou não, ele virou um marco. Foi projetado e construído no país, serviu para formar engenheiros e ajudou a consolidar a pesquisa em arquitetura de computadores na USP. A experiência abriu caminho para o G-10, cujo hardware ficou a cargo da USP e o software foi desenvolvido pela PUC-Rio, e para projetos industriais seguintes. O Jornal da USP conta como o Patinho Feio nasceu dentro de uma disciplina de pós-graduação e deixou descendentes na pesquisa e na indústria.

    Em 1974 foi fundada a Cobra — Computadores e Sistemas Brasileiros, reunindo governo, capital nacional e participação da empresa britânica Ferranti. A empresa nasceu num contexto em que a Marinha desejava reduzir a dependência externa dos sistemas instalados em suas fragatas. Depois passou a fornecer equipamentos para bancos, empresas e órgãos públicos. Da fábrica da Cobra saíram linhas como C-500 e C-400; em 1980, o Cobra 530 foi apresentado como computador de porte médio projetado por brasileiros. A atual BB Tecnologia e Serviços preserva uma linha do tempo da antiga Cobra.

    Os microcomputadores começaram a aparecer nas vitrines brasileiras no início da década de 1980. O D-8000, da Dismac, chegou em 1980. Em 1982 veio o CP-500, da Prológica, compatível com o TRS-80. Tinha processador Z80, memória contada em quilobytes e, dependendo da configuração, usava fita cassete ou disquete. O grupo PET de Computação da Universidade Federal de Campina Grande relembra a história e o funcionamento do CP-500.

    Também ficaram conhecidos os micros TK, da Microdigital, inspirados nos Sinclair; os compatíveis com Apple II; e, a partir de 1985, os modelos do padrão MSX, como o Expert, da Gradiente, e o HotBit, da Sharp. Esses, sim, ajudam a explicar a lembrança do “computador a cartucho”: recebiam jogos e outros programas em cartuchos, mas também podiam trabalhar com fita cassete e disquete. Para muita gente, foram ao mesmo tempo videogame, computador de estudo, instrumento musical improvisado e porta de entrada para a programação em BASIC.

    Parte dessa indústria cresceu sob a chamada reserva de mercado. A política vinha sendo construída desde os anos 1970 e ganhou forma legal mais ampla com a Lei nº 7.232, de 1984. Em várias áreas, a produção e a comercialização eram reservadas a empresas consideradas nacionais, e a importação de equipamentos enfrentava restrições.

    A ideia era criar competência tecnológica, formar profissionais, desenvolver fabricantes locais e reduzir a dependência estrangeira. E houve resultados: surgiram empresas, periféricos, programas, cursos e equipes de engenharia. Mas a proteção também teve um lado bem menos bonito. Muitos produtos custavam caro, chegavam atrasados em relação ao exterior e eram compatíveis — para não dizer clonados em certos casos — com projetos estrangeiros. Importar uma novidade podia exigir dinheiro, paciência, burocracia e talvez um contrabandista com boa orientação geográfica,aa.

    É simplista dizer que a reserva foi apenas maravilhosa ou apenas desastrosa. Ela ajudou a formar conhecimento e uma indústria que provavelmente não surgiria da mesma maneira sem proteção, mas também reduziu a concorrência e manteve consumidores afastados de tecnologias mais recentes. A abertura começou no início dos anos 1990 e foi consolidada pela Lei nº 8.248, de 1991, com o encerramento das principais restrições até 1992.

    Com a abertura, os PCs compatíveis com a arquitetura IBM e processadores 286, 386, 486 e Pentium dominaram o mercado. Algumas fabricantes nacionais desapareceram; outras passaram a montar equipamentos, vender serviços ou trabalhar em nichos. Marcas como Itautec, CCE, Gradiente e, mais tarde, Positivo fizeram parte de diferentes fases desse mercado. Componentes continuaram vindo de várias partes do mundo, enquanto montagem, integração, software, assistência e pesquisa eram realizados no país.

    Nos anos 1990 e 2000, a queda gradual dos preços, o crédito, os computadores montados por pequenas lojas, os cursos de informática, as escolas, as lan houses e a chegada da internet levaram o PC a muito mais casas. Foi nesse período que comecei a mexer com computador, em 1996. Portanto, acompanhei pessoalmente uma parte dessa passagem: dos micros em que cada megabyte precisava ser respeitado até máquinas com gigabytes de RAM, SSDs e processadores de vários núcleos.

    Para nós, pessoas cegas, a evolução brasileira tem um capítulo especial. Em 1993, no Núcleo de Computação Eletrônica da UFRJ, o estudante cego Marcelo Pimentel e o professor José Antonio dos Santos Borges começaram o trabalho que daria origem ao DOSVOX. Naquele tempo, sintetizadores importados custavam milhares de dólares, frequentemente falavam apenas inglês e placas de som ainda eram caras. A solução precisou usar eletrônica acessível, gravações e software desenvolvido aqui.

    Aquela caixinha ligada à LPT-1, a antiga porta da impressora, não continha propriamente uma placa de som como as que depois se tornaram comuns. Dentro dela havia um conversor digital-analógico muito simples, baseado numa rede de resistores chamada R-2R. O computador enviava valores digitais pela porta paralela; o circuito os transformava em sinal de áudio; e um pequeno amplificador permitia ligar diretamente um fone de ouvido. Assim, o DOSVOX podia reproduzir letras, sílabas e mensagens previamente gravadas e, depois, combiná-las para produzir fala em português.

    As primeiras unidades foram montadas em pequenas caixas originalmente destinadas a micromodems e, mais tarde, passaram a ser fabricadas pela LayCab como sintetizadores de baixo custo. Ainda tenho uma dessas caixinhas guardada e funcionando — uma pequena peça da história da acessibilidade brasileira conectável à porta da impressora,aaa.

    O DOSVOX não foi apenas um leitor de telas tradicional. Ele criou um ambiente falado com editor de textos, correio eletrônico, ferramentas de arquivos, jogos e muitos outros programas. Isso permitiu que milhares de brasileiros cegos usassem um PC em português com muito mais independência. O próprio projeto mantém a história detalhada de sua criação desde 1993.

    Quando comecei, em 1996, leitores de tela e sistemas falados já eram a diferença entre haver um computador sobre a mesa e realmente poder usá-lo. Depois vieram novas versões do Windows, sintetizadores melhores, Virtual Vision, JAWS, NVDA e muitas mudanças na acessibilidade. Nem todas foram para a frente — certas atualizações parecem gostar de dar uma ré só para testar nossa paciência —, mas a transformação foi enorme.

    Assim, o Brasil não apenas recebeu computadores estrangeiros. Também projetou máquinas, criou fábricas, copiou e adaptou padrões, formou engenheiros, desenvolveu sistemas e protagonizou experiências próprias. E, com o DOSVOX, começou a ajudar o computador pessoal a falar português para quem precisava ouvi-lo.

    Da mesa para o bolso — e da sala para a nuvem

    Nas décadas seguintes, o computador deixou de ser apenas “o aparelho chamado computador”. Notebooks reuniram numa peça o que antes ocupava uma mesa. Celulares incorporaram processadores cada vez mais poderosos, armazenamento, sensores, câmeras e conexão permanente.

    O smartphone não nasceu com o iPhone, mas o modelo apresentado pela Apple em 2007 ajudou a consolidar a combinação de telefone, computador de bolso, tela sensível ao toque e acesso completo à internet. Hoje carregamos no bolso uma máquina imensamente mais poderosa que os computadores que ajudaram a levar seres humanos à Lua.

    Ao mesmo tempo, parte do processamento e do armazenamento voltou a ocupar enormes salas — agora chamadas de data centers. A diferença é que acessamos esses recursos pela rede, como serviços de nuvem. O “computador” moderno pode ser o aparelho em nossa mão, um servidor do outro lado do país ou milhares de máquinas trabalhando juntas.

    Processadores gráficos, as GPUs, criados para acelerar imagens, mostraram-se excelentes para executar muitos cálculos em paralelo. Eles impulsionaram simulações científicas, jogos, processamento de vídeo e a atual onda de inteligência artificial. Os sistemas de IA que geram texto, imagem, voz e música não são uma nova espécie mágica de computador: rodam sobre a longa linhagem de transistores, chips, memórias, redes e programas que acabamos de percorrer.

    Aliás, neste ponto da história já fazemos algo que Ada Lovelace imaginou em 1843: usamos números dentro de máquinas para representar e manipular palavras, imagens e música. Ela provavelmente acharia fascinante. Babbage talvez perguntasse quem aprovou o orçamento.

    E então chegamos ao computador quântico

    Todo computador citado até aqui — do microcomputador antigo ao celular, ao servidor e ao supercomputador — é hoje chamado de computador clássico. No fundo, ele representa informação em bits.

    Um bit pode valer 0 ou 1. Fisicamente, isso pode corresponder a níveis de tensão, cargas elétricas, regiões magnetizadas ou outros estados distinguíveis. Bilhões de transistores funcionam como chaves minúsculas e, combinados em portas lógicas, realizam operações. Textos, músicas, vídeos e programas acabam codificados em enormes sequências de zeros e uns.

    O computador quântico trabalha com qubits, os bits quânticos. Um qubit também tem estados básicos que chamamos de 0 e 1, mas, antes de ser medido, pode estar numa superposição desses estados. Isso não significa simplesmente que ele guardou dois bits comuns ao mesmo tempo. Seu estado é descrito por amplitudes — números que determinam as probabilidades dos resultados possíveis e também como esses resultados podem interferir entre si.

    Quando medimos o qubit, obtemos um resultado clássico: 0 ou 1. A superposição desaparece naquela medição. Portanto, não adianta colocar todas as respostas possíveis numa superposição e abrir a caixa esperando que saia apenas a correta com um lacinho. Se o algoritmo for mal construído, sai uma resposta aleatória e ainda posa de mistério quântico.

    Superposição, emaranhamento e interferência

    Três ideias ajudam a entender uma computação quântica:

    Superposição: permite representar combinações de estados. Com vários qubits, o sistema pode ser descrito por amplitudes associadas a muitas configurações possíveis.

    Emaranhamento: faz com que os estados de dois ou mais qubits sejam descritos em conjunto, com correlações que não podem ser explicadas tratando cada qubit separadamente. Isso não permite enviar mensagens mais rápidas que a luz, apesar do que talvez estejam vendendo na esquina de setealém.

    Interferência: é o grande truque computacional. Assim como ondas podem se reforçar ou se cancelar, as amplitudes quânticas também interferem. Um algoritmo quântico organiza operações para aumentar a probabilidade dos resultados úteis e reduzir a dos resultados indesejados.

    As operações são feitas por portas quânticas, equivalentes distantes das portas lógicas clássicas. Elas alteram as amplitudes e criam emaranhamento. No fim, os qubits são medidos, e o cálculo normalmente precisa ser repetido muitas vezes para revelar a distribuição dos resultados.

    Esse detalhe corrige uma explicação popular, porém enganosa: um computador quântico não “experimenta todas as respostas e depois escolhe a certa”. Um conjunto de n qubits é descrito por 2n amplitudes, mas não podemos ler todas elas diretamente. A medição devolve apenas um resultado. A vantagem só aparece quando existe um algoritmo capaz de usar a interferência para fazer a informação desejada emergir.

    O NIST apresenta uma boa introdução à superposição, ao emaranhamento e à medição.

    De que é feito um qubit?

    Um qubit não é obrigatoriamente uma peça específica. Ele pode ser construído com diferentes sistemas físicos: circuitos supercondutores, íons aprisionados, átomos neutros, fótons, spins de elétrons e outras tecnologias. Cada abordagem tem vantagens e dificuldades.

    Alguns computadores quânticos supercondutores precisam operar em refrigeradores de diluição, a temperaturas próximas do zero absoluto. É por isso que certas fotografias mostram aquelas estruturas douradas em forma de lustre futurista. O processador quântico propriamente dito pode ser pequeno; o equipamento necessário para resfriá-lo, controlá-lo e protegê-lo do ambiente é que ocupa um belo espaço.

    E nenhum deles trabalha sozinho. Há computadores clássicos controlando pulsos, preparando operações, recebendo medições e processando resultados. O futuro mais provável não é o quântico expulsar o clássico da sala, mas ambos trabalharem juntos, com o processador quântico atuando como acelerador para tarefas específicas — mais ou menos como uma GPU não substituiu a CPU.

    Para que ele serve — e para que não serve

    Computadores quânticos não são mais rápidos em tudo. Eles não prometem abrir o editor de texto instantaneamente, melhorar o volume do rádio nem fazer o Windows terminar uma atualização antes de resolver instalar outra.

    A expectativa é que sejam especialmente úteis em alguns tipos de problema, como:

    • simular moléculas, materiais e fenômenos que já são quânticos por natureza;
    • resolver certas formas de fatoração e problemas matemáticos relacionados à criptografia;
    • acelerar algumas buscas e cálculos algébricos;
    • ajudar em determinadas tarefas de otimização, dependendo do algoritmo e do hardware;
    • trabalhar em sistemas híbridos, dividindo etapas com supercomputadores clássicos.

    A história teórica moderna começou a ganhar forma no início dos anos 1980. Richard Feynman argumentou que sistemas quânticos seriam melhor simulados por máquinas que também obedecessem à mecânica quântica. Em 1985, David Deutsch descreveu um modelo de computador quântico universal. Em 1994, Peter Shor apresentou um algoritmo quântico eficiente para fatorar números inteiros e calcular logaritmos discretos — problemas ligados à segurança de sistemas criptográficos amplamente usados.

    Isso não significa que alguém possa hoje apontar um notebook quântico para qualquer senha e assistir ao cadeado derreter. Para executar o algoritmo de Shor contra chaves criptográficas reais, seria necessário um computador quântico de grande escala, tolerante a falhas e com muitos qubits lógicos confiáveis. Essa máquina ainda não existe. Mesmo assim, a possibilidade futura já levou ao desenvolvimento e à adoção de criptografia pós-quântica.

    O grande inimigo: o próprio mundo

    Qubits são extremamente frágeis. Calor, vibração, radiação, imperfeições de fabricação e outras interações com o ambiente introduzem ruído. O estado quântico perde coerência, e os erros se acumulam.

    Num computador clássico, podemos copiar bits e guardar cópias extras para corrigir falhas. No mundo quântico, não é possível simplesmente copiar um estado desconhecido, e medi-lo diretamente destrói a superposição. A correção quântica de erros precisa distribuir a informação de um qubit lógico entre vários qubits físicos e detectar erros sem revelar o conteúdo que se quer preservar.

    Por isso, contar apenas quantos qubits uma máquina possui pode enganar. Mil qubits físicos ruidosos não equivalem necessariamente a mil qubits úteis. Importam também a qualidade das operações, o tempo de coerência, a conectividade, a taxa de erros e a capacidade de formar qubits lógicos protegidos.

    Em 2026, computadores quânticos são reais, podem ser acessados inclusive pela internet e já executam experimentos importantes. Mas os equipamentos disponíveis continuam sendo máquinas especializadas, limitadas e sujeitas a ruído. A construção de sistemas grandes e plenamente tolerantes a falhas ainda é um desafio de pesquisa e engenharia. O Departamento de Energia dos Estados Unidos resume o estágio atual como o de protótipos pequenos e ruidosos, enquanto equipes de pesquisa avançam na correção de erros.

    Portanto, o computador quântico não é a “próxima geração do PC” que colocaremos sobre a mesa para aposentar todos os demais. Ele é outro tipo de ferramenta, destinado a certos problemas. O computador clássico continuará fazendo quase tudo que fazemos hoje; o quântico poderá assumir partes muito específicas de cálculos que, para as máquinas comuns, seriam impraticáveis.

    Uma invenção feita por milhares de mãos

    A história do computador não tem um único inventor nem uma linha reta. O ábaco organizou números. Anticítera transformou ciclos astronômicos em engrenagens. Pascal e Leibniz automatizaram operações. Jacquard guardou instruções em cartões. Babbage desenhou uma máquina de uso geral. Ada Lovelace percebeu que ela poderia manipular símbolos. Hollerith levou cartões e eletricidade ao processamento de dados. Computadores humanos fizeram os cálculos que prepararam o caminho para as máquinas. Zuse, Flowers, Mauchly, Eckert, as programadoras do ENIAC, Williams, Kilburn e muitos outros construíram diferentes partes do computador moderno.

    No Brasil, UNIVAC, Zezinho, Patinho Feio, Cobra, os micros nacionais e o DOSVOX contam outra parte dessa viagem: a de um país que recebeu tecnologia estrangeira, mas também pesquisou, fabricou, adaptou e criou suas próprias respostas.

    Depois, válvulas viraram transistores; transistores se juntaram em circuitos integrados; CPUs entraram em chips; computadores saíram das salas e chegaram às mesas; das mesas foram para as mochilas e bolsos; e, conectados em rede, voltaram a ocupar salas imensas nos data centers.

    Agora tentamos fazer a própria mecânica quântica processar informação.

    Do movimento de uma conta num ábaco à interferência das amplitudes de um qubit, o princípio mais profundo continua parecido: representar alguma coisa do mundo, estabelecer regras e deixar um mecanismo trabalhar sobre essa representação.

    O que mudou foi o mecanismo. Primeiro, dedos e pedras. Depois, contas, engrenagens, cartões, relés, válvulas, transistores e chips. Hoje, estados quânticos.

    E eu continuo sem saber usar o sorobã direito,aaa.

    Um abração e até a próxima… Não vou contar sobre o que vai ser!

    Fernando

  • O novo bug do milênio: em 2038 alguns computadores podem acordar em 1901

    Tempo de leitura: 9 minutos

    Olá amigos e leitores dessa coisa aqui!!!

    O primeiro bug do milênio já passou, o mundo não acabou, os aviões continuaram voando e os computadores não começaram a soltar fumaça à meia-noite de 1º de janeiro de 2000.

    Isso não significa que o problema fosse invenção, exagero ou uma grande conspiração internacional dos vendedores de calendário. Significa, em boa parte, que muita gente passou anos corrigindo sistemas antes que a virada chegasse.

    Agora há outro limite no horizonte. Ele ganhou apelidos como “bug do ano 2038”, “Y2K38” e até “novo bug do milênio”, embora nenhum milênio novo vá começar em 2038. Dessa vez, o problema não está em guardar o ano com apenas dois algarismos, mas em contar o tempo dentro de um número inteiro assinado de 32 bits.

    E o resultado é digno de uma viagem temporal mal programada: alguns sistemas podem avançar um segundo e entender que voltaram para dezembro de 1901.

    Antes de 2038, precisamos voltar ao ano 2000

    O famoso Y2K nasceu de uma economia que parecia perfeitamente razoável décadas antes. Memória e armazenamento eram caros, e muitos sistemas guardavam somente os dois últimos algarismos do ano. Assim, 1987 virava 87, 1999 virava 99 e 2000 viraria 00.

    O problema é que 00 também podia significar 1900. Um sistema de cobrança, folha de pagamento, estoque, banco ou seguro que comparasse datas poderia calcular idades negativas, considerar contratos vencidos ou ordenar registros de forma completamente errada.

    Quando chegou o ano 2000 e não aconteceu uma catástrofe mundial, muita gente concluiu que o bug nunca existira. É uma conclusão parecida com dizer que o incêndio era imaginário porque os bombeiros chegaram antes de a casa queimar. Governos e empresas gastaram anos inventariando programas, alterando bancos de dados, corrigindo código e realizando testes. Um relatório publicado em 2000 pelo órgão de auditoria do Congresso dos Estados Unidos registrou justamente que os riscos eram reais, mas podiam ser mitigados com atenção e gerenciamento adequados.

    O problema de 2038 tem outra origem, mas traz a mesma lição: datas parecem simples até que a forma escolhida para representá-las encontra uma parede.

    O relógio escondido debaixo do capô

    Nós enxergamos uma data como “6 de agosto de 2026, às 14 horas”. Um computador, porém, pode guardá-la como um número. Em sistemas Unix e em muitos programas inspirados neles, uma forma tradicional de fazer isso é contar quantos segundos se passaram desde o início de 1º de janeiro de 1970, em UTC. Esse ponto de partida ficou conhecido como época Unix.

    Na época Unix, o instante inicial vale zero. Um segundo depois, vale 1. Um segundo antes, vale -1. A data legível só aparece quando algum programa converte essa contagem para ano, mês, dia, hora, minuto e segundo, aplicando também o fuso horário quando necessário.

    A história teve alguns ensaios antes de chegar a esse formato. A própria página do primeiro manual do Unix preservada pelo Bell Labs conta que o sistema chegou a medir o tempo em sexagésimos de segundo desde 1º de janeiro de 1971. Um contador de 32 bits assim duraria apenas cerca de dois anos e meio. A época foi mudada mais de uma vez, até que, em 1973, passaram a ser usados segundos contados desde o início de 1970.

    Trocar sexagésimos por segundos empurrou a parede para muito mais longe. Naquele momento, 2038 parecia pertencer a uma ficção científica tão distante que talvez já tivesse carros voadores, colônias em Marte e impressoras que nunca atolassem papel. Os carros ainda não voam, a impressora continua sendo a impressora e o limite está agora a menos de doze anos de distância.

    Por que exatamente 32 bits?

    Um bit pode valer zero ou um. Com 32 deles, existem 4.294.967.296 combinações possíveis. Quando o número é inteiro e assinado, parte do intervalo é usada para valores negativos e parte para positivos. O intervalo tradicional vai de -2.147.483.648 a 2.147.483.647.

    Esse último número positivo corresponde, na contagem Unix, a 19 de janeiro de 2038, às 03:14:07 em UTC. Pelas regras atuais de fuso, seriam 00:14:07 no horário de Brasília.

    Instante em UTC Valor esperado O que pode acontecer num campo assinado de 32 bits
    19/01/2038 03:14:07 2.147.483.647 Último valor positivo possível
    19/01/2038 03:14:08 2.147.483.648 O valor já não cabe no campo

    Na representação binária mais comum, chamada complemento de dois, o padrão de bits seguinte pode ser interpretado como -2.147.483.648. Como valores negativos representam instantes anteriores a 1970, essa leitura aponta para 13 de dezembro de 1901, às 20:45:52 em UTC.

    Mas é importante não transformar uma explicação simples numa profecia universal. Nem todo programa vai obrigatoriamente “voltar para 1901”. Dependendo do sistema, da linguagem e da função usada, ele pode retornar um erro de estouro, rejeitar a data, travar, produzir um valor inválido ou se comportar de outra maneira. A documentação da função time no Linux, por exemplo, prevê o erro EOVERFLOW quando o instante já não pode ser representado pelo tipo usado pelo programa.

    Em resumo: 1901 é o efeito clássico e mais fácil de visualizar; o defeito real é que o instante deixou de caber onde o programa tentou colocá-lo.

    Não é a “CPU de 32 bits” sozinha que decide

    Aqui mora uma das maiores confusões sobre o assunto. O bug de 2038 não escolhe suas vítimas simplesmente perguntando se o processador é de 32 ou 64 bits.

    Um equipamento com processador de 32 bits pode usar bibliotecas e interfaces modernas capazes de guardar o tempo em 64 bits, juntando mais de uma operação quando necessário. Por outro lado, um programa executado num computador de 64 bits pode continuar vulnerável se mantiver uma variável, um campo de banco de dados, um protocolo ou um formato de arquivo com apenas 32 bits assinados para o tempo.

    Até o sinal faz diferença. Um campo de 32 bits sem sinal consegue usar todas as combinações para valores positivos e empurra seu próprio limite para fevereiro de 2106, embora perca a representação natural das datas anteriores a 1970. É mais uma razão para não anunciar que “tudo o que tem 32 bits quebra no mesmo segundo”.

    Portanto, o que importa é o caminho inteiro percorrido pela data:

    • o relógio e o sistema operacional;
    • as bibliotecas usadas pelo programa;
    • o próprio código da aplicação;
    • os drivers e firmwares;
    • os bancos de dados;
    • os arquivos gravados em disco;
    • as mensagens trocadas pela rede;
    • e qualquer integração que receba, converta ou devolva aquele valor.

    Basta uma dessas pontes estreitas continuar esperando um inteiro assinado de 32 bits para que um valor perfeitamente válido seja truncado, recusado ou interpretado de maneira errada.

    O que pode ser afetado?

    Os candidatos mais óbvios são sistemas Unix, Linux ou derivados que ainda usem interfaces antigas de tempo em 32 bits. A documentação do próprio kernel Linux explica que antigas estruturas de tempo foram substituídas porque o campo de segundos transborda em 2038 nas arquiteturas de 32 bits.

    O risco mais difícil de enxergar, porém, está nos equipamentos que não parecem computadores: roteadores, câmeras, gravadores, centrais telefônicas, equipamentos industriais, sistemas embarcados, dispositivos médicos, automóveis, controles de acesso, aparelhos de rede e tantas outras caixas que possuem processador, relógio e firmware, mas podem passar quinze ou vinte anos trabalhando sem atualização.

    Isso não significa que todos esses aparelhos vão falhar. Significa que são lugares onde pode existir software antigo, pouco documentado, feito para permanecer em serviço por muito tempo e, em alguns casos, impossível de atualizar. Um roteador doméstico de 2026 provavelmente já terá virado sucata em 2038; uma máquina industrial, um equipamento hospitalar ou uma infraestrutura de telecomunicações talvez não.

    Entre os efeitos possíveis estão:

    • arquivos que aparecem como criados em 1901;
    • agendamentos que deixam de executar ou disparam na hora errada;
    • licenças que parecem vencidas ou ainda não iniciadas;
    • certificados e credenciais recusados por uma biblioteca incapaz de processar a data;
    • registros de eventos fora de ordem;
    • cálculos errados de idade, prazo, juros, retenção ou validade;
    • backups incrementais que não sabem o que é novo e o que é antigo;
    • falhas em sincronização, autenticação ou comunicação entre sistemas;
    • e programas que simplesmente encerram ao receber uma data fora do intervalo.

    O estrago depende muito do uso. Uma câmera que apenas mostra 1901 sobre a imagem estará errada, mas talvez continue filmando. Um controle industrial que compare horários para decidir quando ligar ou desligar alguma coisa exige uma avaliação bem mais séria. O mesmo bug pode ser uma inconveniência num aparelho e um risco operacional em outro.

    Alguns problemas chegarão antes de 2038

    Não é preciso esperar a madrugada de 19 de janeiro de 2038. Programas trabalham com o futuro.

    Um sistema pode calcular o vencimento de um contrato longo, a validade de um certificado, o prazo de retenção de um arquivo, a data final de um financiamento, uma recorrência ou a aposentadoria de uma pessoa. Assim que tentar produzir uma data posterior ao limite, o problema já pode aparecer.

    É o mesmo fenômeno que fez certos defeitos do Y2K surgirem antes do réveillon de 1999. A parede não precisa chegar até o relógio atual; basta o programa tentar olhar para o outro lado dela.

    Nem os bancos de dados escapam da conversa

    A vulnerabilidade não depende apenas do sistema operacional. O modelo de dados também precisa ser examinado.

    No MySQL 8.4, por exemplo, o tipo TIMESTAMP documentado continua tendo como limite superior 19 de janeiro de 2038, às 03:14:07 em UTC. Já o tipo DATETIME possui um intervalo muito maior, chegando ao ano 9999. Isso não quer dizer que se deve sair trocando todo TIMESTAMP por DATETIME às cegas: os dois têm comportamentos diferentes, inclusive em relação a fusos horários e conversões. Quer dizer que cada banco e cada coluna precisam ser entendidos antes da migração.

    Outros sistemas escolheram representações diferentes. O PostgreSQL, por exemplo, documenta seus tipos timestamp com armazenamento de oito bytes e um intervalo que passa com enorme folga por 2038.

    Até essa coisa aqui, o blog que você está lendo, depende de várias camadas: servidor, sistema operacional, PHP, WordPress, banco de dados, plugins e serviços externos. Se tudo estiver atualizado e usando representações adequadas, ótimo. Mas ser uma página na internet não concede imunidade diplomática contra o calendário. Em 2038, se o blog ainda estiver no ar e eu ainda estiver escrevendo nele, espero publicar um texto dizendo: “Eu avisei — e, felizmente, atualizaram a joça”.

    O que já foi corrigido?

    Boa parte do ecossistema moderno já trabalha com tempo de 64 bits. Sistemas operacionais atuais de 64 bits normalmente não têm a limitação clássica no seu tipo principal de tempo. Isso reduz bastante o risco nos computadores comuns que estiverem atualizados em 2038.

    O Linux criou novas interfaces de kernel para transportar datas além do limite. Na biblioteca GNU usada por muitas distribuições, a opção _TIME_BITS=64, disponível desde a glibc 2.34, permite que programas destinados a certas plataformas antigas de 32 bits adotem um time_t de 64 bits. Não é apenas trocar uma chave num servidor em produção: programas e bibliotecas precisam ser compilados de forma compatível, e misturar estruturas com tamanhos diferentes pode criar novos problemas.

    No mundo Windows, a situação também não se resume a “Windows de 32 bits vai quebrar”. A documentação atual da Microsoft informa que time_t é equivalente ao tipo de 64 bits por padrão até mesmo no ambiente de desenvolvimento em que ainda existe a alternativa antiga. A própria empresa desaconselha ativar o tipo de 32 bits porque aplicações assim podem falhar em 2038.

    Há ainda uma mudança importante no padrão: o POSIX.1-2024 passou a exigir uma representação de time_t com largura suficiente para superar a velha barreira. O texto atual da especificação da função time relembra que versões anteriores aceitavam larguras menores e que o inteiro assinado de 32 bits falha em 2038.

    O problema, portanto, não foi ignorado. O ponto fraco é o enorme estoque de código, firmware, formatos e equipamentos antigos que pode continuar existindo depois que seus fabricantes desapareceram, encerraram o suporte ou simplesmente esqueceram o produto num armário dos invvvvééérnos.

    Como mitigar o bug de 2038?

    A correção conceitual parece simples: deixar de usar um inteiro assinado de 32 bits para guardar segundos desde 1970. Na prática, fazer isso com segurança exige trabalho organizado.

    1. Inventariar: descobrir quais sistemas, equipamentos e programas ainda estarão em uso perto de 2038, incluindo aqueles escondidos dentro de outras máquinas.
    2. Identificar representações de data: procurar time_t de 32 bits, inteiros assinados usados como timestamp, estruturas antigas, colunas de banco, formatos de arquivo e protocolos limitados.
    3. Atualizar a pilha inteira: não basta corrigir o kernel se a biblioteca, a aplicação ou o banco continuarem estreitos. Também não basta alterar a aplicação se ela envia o valor antigo para outro sistema.
    4. Migrar dados com cuidado: converter campos para tipos adequados, preservar fusos e semântica, verificar índices, ordenações, APIs e compatibilidade com versões antigas.
    5. Testar datas futuras: executar cenários anteriores, iguais e posteriores ao limite, incluindo operações que atravessam a virada.
    6. Testar isoladamente: adiantar o relógio de um servidor de produção pode invalidar certificados, bagunçar logs, disparar tarefas e provocar um festival de revertérios. O lugar certo é um laboratório, uma máquina virtual, um emulador ou um ambiente preparado para isso.
    7. Planejar substituições: quando um firmware não pode ser atualizado, a solução pode ser trocar o equipamento antes de 2038.
    8. Documentar: registrar o que foi testado, qual intervalo cada componente suporta e quais dependências ainda precisam ser corrigidas.

    Em sistemas críticos, também é importante testar falhas parciais. Um servidor pode aceitar 2040 enquanto um cliente antigo não aceita; um banco pode guardar a data enquanto um relatório a trunca; uma API pode transmitir 64 bits enquanto o dispositivo receptor lê somente os 32 primeiros. As fronteiras entre sistemas merecem tanta atenção quanto cada sistema isolado.

    Então o mundo vai acabar em 2038?

    Não. Ou melhor: se o mundo não acabar em 29 de agosto de 2027, como prevê o livro Gog, de J. J. Benítez, a maior parte dos computadores pessoais e servidores modernos provavelmente passará pela data sem notar nada, desde que continue recebendo atualizações e executando programas compatíveis.

    Também seria irresponsável concluir que nada acontecerá. A informática está cheia de sistemas antigos que continuam trabalhando silenciosamente porque ninguém quer mexer no que “sempre funcionou”. Em 2038, alguns deles poderão ter trinta, quarenta ou mais anos de idade. E equipamentos embarcados não costumam exibir uma plaquinha avisando: “Por dentro existe uma interface de tempo feita em 1998”.

    O risco real não é um desligamento simultâneo de toda a tecnologia do planeta. É uma coleção espalhada de falhas: algumas engraçadas, outras caras e algumas potencialmente perigosas. Quanto mais cedo forem localizadas, menos emocionante será aquela madrugada — e, neste caso, tédio será uma excelente notícia.

    E os 64 bits duram até quando?

    Se continuarmos contando segundos num inteiro assinado de 64 bits, o limite fica a cerca de 292 bilhões de anos de distância. O Sol terá desaparecido muito antes, e será relativamente difícil abrir um chamado de suporte.

    Mas isso não significa que todo timestamp de 64 bits seja eterno. Se a unidade for muito menor, como nanossegundos, o intervalo encolhe. Certos formatos de 64 bits que contam nanossegundos desde 1970 encontram outra parede já no ano 2262. O tamanho do campo importa, mas a unidade e a forma de interpretação importam também.

    Essa talvez seja a grande lição de todos esses bugs de calendário. O tempo não “quebra” dentro do computador. O que quebra é a caixa que construímos para guardá-lo.

    Concluindo

    O Y2K confundia 2000 com 1900 porque muitos sistemas guardavam somente dois algarismos do ano. O Y2038 pode confundir 2038 com 1901 porque certos sistemas guardam a contagem de segundos num inteiro assinado de 32 bits.

    As causas são diferentes, mas a saída é parecida: localizar o legado, corrigir as representações, atualizar dependências, testar as transições e não deixar tudo para a última hora.

    Se o trabalho for bem feito, 19 de janeiro de 2038 será apenas mais uma data em que muita gente dirá que o bug era exagero porque nada aconteceu. E, mais uma vez, essa será justamente a prova de que alguém trabalhou duro pra que nada acontecesse.

    Um grande abraço a todos e até a próxima viagem — de preferência sem escala acidental em 1901!!!

    Fernando

  • Dos primeiros pacotes ao 5G e à Starlink: viajando pela história da internet

    Tempo de leitura: 16 minutos

    Olá, caros amigos e leitores!!

    No post anterior, eu disse que o próximo seria sobre internet. E, milagrosamente, cá estamos cumprindo a promessa sem o texto cair em setealém, ser engolido por um portal temporal ou acabar falando sobre outra coisa completamente diferente,aaa.

    Hoje vamos viajar desde os primeiros experimentos com redes de computadores até a internet atual: fibra óptica, Wi-Fi, nuvem, redes sociais, streaming, 3G, 4G, 5G e as “internets voadoras” por satélite, como a Starlink. Também faremos uma parada numa espécie de internet que não era internet: os programas de computador transmitidos pelo rádio, gravados em fita cassete e depois carregados em máquinas de 8 bits.

    Sim, isso existiu. Não é lenda urbana, memória implantada por uma fita desmagnetizada nem efeito Mandela informático.

    Antes de tudo: internet e Web não são a mesma coisa

    É muito comum usarmos as palavras internet e Web como se fossem sinônimas. No uso cotidiano isso raramente causa problema, mas historicamente e tecnicamente elas são coisas diferentes.

    A internet é a grande rede de redes: a infraestrutura física, os endereços, os roteadores e o conjunto de protocolos que permitem a computadores e outros dispositivos trocarem dados. Já a World Wide Web é um dos serviços que funcionam sobre essa rede, ao lado do correio eletrônico, da transferência de arquivos, das chamadas de voz, do streaming, dos jogos e de muitas outras aplicações.

    Em outras palavras: a Web precisa da internet, mas a internet já existia antes da Web. O e-mail, por exemplo, é mais velho que ela. Portanto, se alguém disser que Tim Berners-Lee inventou a internet, podemos mandar a afirmação para o chkdsk: ele inventou a Web, o que já é coisa mais que suficiente para uma pessoa só.

    Quando os computadores eram ilhas muito caras

    Nas décadas de 1950 e 1960, computadores eram máquinas enormes, caríssimas e geralmente isoladas. Uma universidade podia ter um equipamento poderoso enquanto outra possuía um modelo completamente diferente, com seus próprios programas e sua própria forma de trabalhar. Compartilhar tempo de processamento, arquivos ou resultados de pesquisas à distância era uma ideia muito atraente.

    O problema é que a rede telefônica havia sido construída para outra finalidade. Numa ligação tradicional, estabelece-se um circuito entre duas pontas e aquele caminho fica reservado durante a conversa. Isso funciona muito bem para voz, mas é um desperdício quando computadores enviam dados em rajadas, ficam alguns instantes em silêncio e depois voltam a transmitir.

    A solução foi a comutação de pacotes. Em vez de reservar um circuito inteiro, a informação é dividida em pequenos blocos identificados. Esses pacotes podem compartilhar os enlaces com dados de outros usuários, seguir caminhos diferentes e ser reorganizados no destino. Se algum se perder, pode ser retransmitido.

    É como desmontar uma grande mudança em caixas numeradas — só que, neste caso, todas chegam ao destino, são colocadas na ordem certa e nenhuma delas aparece misteriosamente em setealém. Pelo menos essa é a ideia,aaa.

    Pesquisas de Leonard Kleinrock no MIT, de Paul Baran na RAND e de Donald Davies e sua equipe no National Physical Laboratory britânico ajudaram a formar esse conceito. Os trabalhos aconteceram em paralelo e, segundo a história publicada pela Internet Society, o próprio termo packet veio do grupo de Davies.

    A ARPANET e o primeiro “LO”

    No fim dos anos 1960, a ARPA, agência de pesquisas avançadas do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, financiou a construção da ARPANET. O contexto era o da Guerra Fria, mas resumir o projeto dizendo apenas que ele foi criado para sobreviver a uma guerra nuclear é um atalho ruim. A finalidade prática da ARPANET era interligar centros de pesquisa, permitir o compartilhamento de recursos computacionais e experimentar uma nova forma de comunicação entre máquinas diferentes.

    Em 29 de outubro de 1969, um computador da Universidade da Califórnia em Los Angeles, a UCLA, tentou enviar a palavra LOGIN para outro no Stanford Research Institute. O sistema recebeu o “L”, recebeu o “O” e então caiu.

    Portanto, a primeira mensagem daquela rede foi simplesmente “LO”. Pouco depois, o problema foi corrigido e a palavra inteira conseguiu atravessar o enlace. A DARPA preserva o registro do primeiro envio, e a UCLA conta a história da queda.

    Começar com duas letras e um travamento foi, convenhamos, uma estreia muito coerente para a informática.

    Ao fim de 1969, a ARPANET possuía quatro nós: UCLA, Stanford Research Institute, Universidade da Califórnia em Santa Bárbara e Universidade de Utah. Era muito pouco perto da rede atual, mas o princípio estava demonstrado: computadores diferentes e distantes podiam conversar por meio de uma rede de pacotes.

    O e-mail virou a primeira grande atração

    Nos primeiros anos, a rede era principalmente uma ferramenta para pesquisadores acessarem computadores remotos. Logo, porém, aconteceu algo que voltaria a se repetir muitas vezes na história da tecnologia: as pessoas descobriram que uma máquina criada para trabalhar também servia para conversar.

    Em 1971, Ray Tomlinson desenvolveu um sistema para enviar mensagens entre computadores da ARPANET e escolheu o sinal @ para separar o nome do usuário do computador de destino. Em 1972, o correio eletrônico foi apresentado publicamente junto com a rede e cresceu depressa. De acordo com a Internet Society, o e-mail se tornou a maior aplicação da rede por mais de uma década.

    Antes de existirem páginas, navegadores, redes sociais ou botões de “curtir”, a comunicação entre pessoas já era a parte mais atraente da rede. Mudaram as telas, os nomes e a quantidade de propaganda, mas certas coisas permanecem.

    TCP/IP: a língua comum das redes

    A ARPANET não era a única rede experimental. Surgiram redes por rádio, satélite, linhas acadêmicas e outras tecnologias, cada uma com características próprias. O novo problema passou a ser fazer redes diferentes conversarem entre si.

    Robert Kahn e Vinton Cerf trabalharam numa arquitetura aberta em que cada rede poderia continuar funcionando internamente à sua maneira, desde que todas usassem uma linguagem comum para trocar dados. Dessa ideia nasceram os protocolos que formariam o TCP/IP.

    De forma bastante resumida, o IP cuida do endereçamento e do encaminhamento dos pacotes. O TCP estabelece uma comunicação confiável, controla a ordem dos dados e solicita novamente o que se perdeu. Há muitos outros protocolos no conjunto, mas esses dois acabaram emprestando o nome à família inteira.

    Em 1º de janeiro de 1983, a ARPANET abandonou seu protocolo anterior, o NCP, e passou oficialmente para o TCP/IP. A mudança foi marcada para uma data única: quem não tivesse convertido seu sistema deixaria de conversar normalmente com o restante da rede. Esse dia é frequentemente tratado como o nascimento da internet moderna.

    Portanto, a internet tem várias datas de aniversário possíveis. Podemos comemorar 1969 pela ARPANET, 1983 pelo TCP/IP ou 1989 pela invenção da Web. Se alguém quiser bolo nas três datas, a história oferece uma justificativa tecnicamente aceitável.

    DNS: porque ninguém merece decorar IP

    Uma rede pequena ainda podia manter uma lista central relacionando os nomes das máquinas a seus endereços numéricos. Conforme o número de computadores cresceu, atualizar e distribuir essa lista virou uma confusão.

    Em 1983, Paul Mockapetris apresentou nas RFCs 882 e 883 os conceitos e a implementação inicial do Domain Name System, o DNS. Ele criou uma base distribuída e hierárquica capaz de traduzir nomes compreensíveis, como fernandozamboni.com, em endereços utilizados pelas máquinas.

    Chamam o DNS de “lista telefônica da internet”. A comparação é boa, desde que imaginemos uma lista mundial, distribuída entre muitos responsáveis, atualizada o tempo todo e que às vezes guarda um endereço antigo em cache só para nos fazer perguntar por que raios o site funciona num computador e no outro não.

    A internet que não era internet: programas transmitidos pelo rádio

    Enquanto universidades e centros de pesquisa montavam redes, os microcomputadores domésticos das décadas de 1970 e 1980 enfrentavam outro problema: como guardar e distribuir programas de maneira barata?

    Muitos desses computadores usavam o gravador de fita cassete como unidade de armazenamento. Os bits eram transformados em tons de áudio — aqueles bipes e chiados que fariam qualquer pessoa desavisada pensar que o aparelho estava tentando chamar extraterrestres. Para salvar um programa, o computador gerava o som e o gravador o registrava. Para carregar, fazia-se o caminho inverso.

    Então alguém percebeu o óbvio genial: se o programa já era som, uma emissora de rádio poderia transmiti-lo.

    O apresentador anunciava o que seria enviado, o ouvinte preparava o gravador, apertava REC, registrava a sequência de tons numa fita e depois carregava aquela gravação no computador. Era um download pelo rádio, ou um broadcast digital disfarçado de barulho analógico.

    Não era internet porque não havia uma rede bidirecional, endereçamento entre os ouvintes, roteamento de pacotes ou possibilidade de solicitar novamente um trecho corrompido. A emissora transmitia para todos e cada pessoa tentava capturar o sinal. Se houvesse chiado, interferência, volume errado ou um gravador mal regulado, o programa podia chegar do outro lado já necessitando de um chkdsk espiritual.

    Na Holanda, o programa de rádio Hobbyscoop, da NOS, criou em 1982 o BASICODE. Como os computadores domésticos usavam formatos e versões de BASIC incompatíveis, o projeto definiu um formato comum. Cada modelo precisava de um programa tradutor, chamado Bascoder, capaz de ler o sinal padronizado e adaptá-lo à máquina. O arquivo histórico do próprio Hobbyscoop explica que o sinal usava modulação FSK e trabalhava a 1.200 bits por segundo.

    No Brasil também houve experiências. No projeto conhecido como Computador FM, a Rádio USP FM, por meio do programa Clip Informática, transmitiu dados que os ouvintes podiam gravar e carregar em computadores MSX. Um dos canais da transmissão estereofônica podia levar o áudio digital enquanto o outro mantinha a apresentação do programa.

    Para quem viveu a época, a ideia não parece tão absurda: a fita já era o “disco” do computador; a rádio apenas fazia entrega em domicílio.

    E havia uma vantagem que os serviços atuais adorariam ter: dez ou dez mil pessoas podiam gravar o programa ao mesmo tempo sem aumentar a carga sobre a emissora. Nada de servidor saturado, fila de download ou DDoS via cassete,aaa.

    Os BBS: vizinhos eletrônicos antes da Web

    Outra experiência “on-line” que muitas vezes é confundida com a internet eram os Bulletin Board Systems, ou BBS. O usuário ligava o modem a uma linha telefônica e discava diretamente para o computador do operador. Ali podia ler mensagens, participar de fóruns, baixar arquivos e conversar com outros usuários.

    Era como telefonar para entrar num prédio digital específico. Ao desligar daquele BBS e ligar para outro, entrava-se em outro sistema. Redes como a FidoNet permitiram a troca de mensagens entre BBS, mas aquilo ainda não era a internet global de TCP/IP que conhecemos hoje.

    Mesmo assim, os BBS criaram comunidades, regras de convivência, fóruns, mensagens privadas e distribuição de software. Boa parte da vida social que depois migraria para a Web já estava sendo ensaiada ali — só que com muito menos imagens, muito mais texto e uma conta telefônica capaz de provocar conflitos familiares.

    A Web colocou páginas e links sobre a internet

    Em 1989, o cientista britânico Tim Berners-Lee trabalhava no CERN, na Suíça, e procurava uma maneira melhor de organizar e compartilhar informações entre pesquisadores que usavam computadores incompatíveis e estavam espalhados por vários países.

    Sua proposta combinou três ideias fundamentais: documentos escritos em HTML, identificados por endereços que chamamos de URLs e transferidos pelo protocolo HTTP. Os documentos poderiam apontar uns para os outros por meio de hiperlinks, formando uma teia mundial de informação.

    No fim de 1990, Berners-Lee já tinha o primeiro navegador e o primeiro servidor funcionando num computador NeXT. A máquina recebeu um aviso escrito à mão para que ninguém a desligasse. O endereço info.cern.ch hospedou o primeiro site do mundo.

    Em 1991, o software da Web começou a ser distribuído fora do CERN. Em 1993, a instituição colocou a tecnologia em domínio público e o navegador Mosaic apresentou uma interface gráfica amigável em várias plataformas. A combinação entre padrões abertos, páginas com links e navegadores relativamente fáceis de usar fez a Web se espalhar numa velocidade impressionante. A história completa pode ser lida no próprio CERN.

    A internet, que até então parecia um ambiente para pesquisadores, especialistas e entusiastas muito determinados, ganhou uma porta de entrada para o público comum.

    A internet chega ao Brasil

    No Brasil, as primeiras conexões surgiram no meio acadêmico. Em 1988, a FAPESP e o Laboratório Nacional de Computação Científica, o LNCC, conectaram-se à Bitnet, uma rede universitária anterior à popularização da internet por aqui.

    Em setembro de 1989 foi criada a Rede Nacional de Pesquisa, a RNP, com a missão de implantar uma infraestrutura acadêmica e disseminar o uso de redes no país. Em 1992 entrou em operação a primeira rede brasileira baseada em TCP/IP, alcançando dez estados e o Distrito Federal.

    A abertura comercial aconteceu em 1995. Foi também naquele ano que surgiu o Comitê Gestor da Internet no Brasil, o CGI.br, e o cidadão comum começou a ter acesso à internet IP discada. A RNP preserva uma ótima história desse período.

    Começavam a aparecer provedores, revistas distribuíam CDs de instalação, programas ofereciam algumas horas grátis e uma geração inteira descobria que era possível conversar com alguém do outro lado do mundo — desde que ninguém em casa precisasse usar o telefone.

    A grande sinfonia da internet discada

    O modem discado transformava os dados digitais em sinais capazes de viajar pela linha telefônica analógica e depois fazia a conversão inversa. Seu próprio nome vem de modulador-demodulador.

    Ao estabelecer a conexão, os dois modems negociavam velocidade e condições da linha por meio daquela inesquecível sequência de apitos, chiados e estalos. Para quem conhecia, era quase possível perceber pelo som se a conexão vinha boa ou se começaria o dia a 14.400 bits por segundo com vontade de voltar para a cama.

    As velocidades passaram por 9.600, 14.400, 28.800, 33.600 e chegaram aos famosos 56 Kbps teóricos. Na prática, a linha podia discordar da embalagem. Enquanto o computador estava conectado, o telefone geralmente ficava ocupado, e a cobrança por pulsos incentivava muita gente a entrar depois da meia-noite ou nos fins de semana.

    As páginas eram mais leves, as imagens apareciam em parcelas e baixar alguns megabytes exigia planejamento, esperança e, às vezes, um gerenciador capaz de continuar de onde havia parado. Vídeo era artigo de luxo. Áudio em RealAudio ou WMA precisava ser fortemente comprimido, e uma rádio on-line de 32 Kbps já fazia uma conexão respeitável trabalhar.

    Eu comecei na informática em 1996, com MS-DOS e DOSVOX, “caí” na internet em 1999 e acompanhei boa parte dessas mudanças. Naquele período conheci o Virtual Vision e o bom e velho JAWS, que já ajudavam a tornar o Windows acessível. Em 2006 surgiram o NVDA e o Orca, facilitando e “democratizando” ainda mais o acesso; outras ferramentas vieram depois. Para uma pessoa cega, a rede abriu um acesso extraordinário a jornais, livros, fóruns, programas, documentação, comunicação e serviços que antes dependiam muito mais da ajuda de terceiros.

    As telas eram simples e quase sempre baseadas em texto. Isso não significa que tudo fosse acessível, mas muitas páginas antigas tinham uma vantagem acidental: havia menos botões sem nome, menos janelas surgindo do nada e menos interfaces decididas a adivinhar o que o usuário queria antes que ele conseguisse terminar de dizer,aaa.

    A banda larga deixou a internet permanentemente ligada

    A partir do fim dos anos 1990 e principalmente durante os anos 2000, conexões por cabo e ADSL começaram a substituir o acesso discado. A linha deixou de precisar estabelecer uma chamada a cada uso, o telefone pôde funcionar ao mesmo tempo e a internet passou a ficar continuamente disponível.

    Depois vieram enlaces cada vez mais rápidos e a fibra óptica chegou mais perto das casas — em muitos casos, até dentro delas. Em vez de dezenas de kilobits, passamos a falar em megabits e depois em centenas de megabits ou gigabits por segundo.

    Essa mudança não serviu apenas para abrir as mesmas páginas mais depressa. Ela alterou o tipo de serviço possível. Fotografias cresceram, surgiram chamadas de vídeo, cópias de segurança remotas, jogos on-line mais complexos, vídeo sob demanda, transmissões ao vivo e armazenamento em nuvem.

    Se a internet discada obrigava o usuário a decidir quando entraria na rede, a banda larga fez a rede permanecer ao redor dele.

    Wi-Fi não é internet — mas ajudou a soltá-la dos cabos

    O padrão IEEE 802.11, base das redes que chamamos de Wi-Fi, apareceu em 1997 e evoluiu por várias gerações. Ele permite criar uma rede local sem fio e conectar computadores, celulares, televisores e outras geringonças ao roteador.

    Mas convém fazer outra distinção: Wi-Fi também não é sinônimo de internet. É possível ter Wi-Fi funcionando perfeitamente dentro de casa e nenhuma conexão com o provedor. Nesse caso, os aparelhos conversam com o roteador e talvez entre si, mas o roteador não consegue alcançar o restante do mundo.

    O Wi-Fi resolveu os últimos metros. O sinal atravessa o ar entre o aparelho e o ponto de acesso; dali em diante, normalmente encontra cabos, fibras, roteadores e uma quantidade de infraestrutura física que permanece muito bem presa ao chão.

    A Web deixou de ser uma coleção de páginas

    No início, a maioria dos sites publicava conteúdo e o visitante lia. Com linguagens de programação no servidor, bancos de dados e JavaScript no navegador, as páginas se transformaram em aplicações. O usuário deixou de ser apenas leitor e passou a publicar, comentar, editar, vender, comprar, conversar e produzir conteúdo.

    Fóruns, wikis, blogs, redes sociais, plataformas de vídeo e serviços colaborativos formaram aquilo que se convencionou chamar de Web 2.0. Não foi uma nova versão técnica da internet, mas uma mudança na maneira de usar a Web.

    Essa coisa aqui é parte dessa história. Meu blog entrou no ar em 28 de junho de 2006, quando blogs, Orkut, MSN, YouTube e Twitter ajudavam a transformar a internet num espaço de publicação pessoal e conversa permanente. Como contei no artigo sobre os vinte anos do blog, ele atravessou várias dessas fases e, por alguma razão provavelmente teimosística, continua aqui.

    A banda larga também transformou o áudio e o vídeo. O arquivo que antes precisava ser baixado inteiro passou a tocar enquanto os dados chegavam. As rádios ganharam alcance mundial, a televisão migrou para plataformas de streaming e qualquer pessoa com equipamento relativamente simples pôde transmitir ao vivo.

    Nos anos 1980, o rádio transmitia um programa de computador. Hoje, o computador transmite a rádio inteira. A volta foi grande, mas o parentesco entre som e dados continuou lá.

    As “internets voadoras”: 2G, 3G, 4G e 5G

    Os telefones celulares de primeira geração, ou 1G, eram analógicos e voltados à voz. A segunda geração, 2G, digitalizou a comunicação, popularizou as mensagens de texto e começou a oferecer dados móveis. Tecnologias como GPRS e EDGE permitiam e-mail, mensageiros e páginas adaptadas, mas não exatamente com uma velocidade capaz de provocar vertigem.

    O 3G fez a internet móvel se tornar realmente prática para o público. Navegação comum, redes sociais, mapas, chamadas e mídia passaram a caber no telefone com menos sofrimento.

    O 4G, associado principalmente ao LTE e às suas evoluções, transformou o celular num terminal de banda larga. Vídeo em alta definição, transmissões ao vivo, serviços de transporte, pagamentos, trabalho remoto e uma infinidade de aplicativos passaram a funcionar em movimento.

    O 5G aumentou velocidade e capacidade, reduziu latência em cenários adequados e foi projetado para atender não só telefones, mas uma quantidade muito maior de dispositivos e aplicações. Isso não significa que qualquer celular 5G, em qualquer lugar, receberá automaticamente uma conexão interplanetária. Frequência, distância da antena, obstáculos, quantidade de usuários, largura de banda disponível e infraestrutura da operadora continuam participando da conversa.

    A União Internacional de Telecomunicações relaciona essas gerações às famílias IMT-2000, IMT-Advanced e IMT-2020. A futura 6G, ou IMT-2030, ainda está em fase de especificação e desenvolvimento. Portanto, se alguém aparecer vendendo um “roteador 6G” agora, convém verificar se está falando da geração celular ou apenas usando um número mais bonito na caixa.

    E há um detalhe que costuma ficar escondido: a parte “voadora” geralmente é só o trecho entre o celular e a antena. A torre precisa escoar os dados por enlaces de alta capacidade, quase sempre conectados a redes terrestres e fibras. Até a internet sem fio depende de muito fio.

    Satélites: a internet voou mais alto

    A internet por satélite não começou com a Starlink. Serviços anteriores utilizavam principalmente satélites geoestacionários, posicionados a aproximadamente 35.786 quilômetros de altitude. Como acompanham a rotação da Terra, parecem permanecer no mesmo ponto do céu e conseguem cobrir áreas enormes.

    A distância, porém, cobra seu preço. Só o trajeto do sinal entre o solo, o satélite e novamente o solo acrescenta cerca de 240 milissegundos. Uma comunicação completa exige mais percursos e processamento, por isso a latência percebida pode passar facilmente de meio segundo. Para baixar arquivos isso pode ser tolerável; para conversa, jogos ou controle remoto em tempo real, incomoda bastante.

    Constelações de órbita baixa mudaram esse cenário. A Starlink utiliza milhares de satélites muito mais próximos da Terra, muitos deles em torno de 550 quilômetros. Como cada satélite cobre uma área menor e se move rapidamente no céu, é necessária uma constelação inteira e a antena do usuário troca de satélite ao longo do tempo.

    O resultado é uma conexão por satélite com latência bem menor e velocidade suficiente para usos que eram difíceis nos sistemas geoestacionários. Ela é especialmente importante em áreas rurais, embarcações, locais isolados ou regiões onde levar fibra e torres terrestres é caro ou demorado.

    Isso não quer dizer que a internet inteira esteja migrando para o espaço. Segundo a União Internacional de Telecomunicações, os cabos submarinos transportam aproximadamente 99% do tráfego internacional de dados. Satélites ampliam cobertura e oferecem caminhos valiosos; fibras terrestres e submarinas continuam formando a grande espinha dorsal.

    Também não existe magia. A antena conversa com o satélite; dali os dados seguem para uma estação terrestre ou por enlaces entre satélites até algum ponto capaz de entrar na internet convencional. Depois atravessam roteadores, fibras, datacenters e redes de outras empresas até chegar ao serviço desejado.

    A “internet que vem do céu” continua precisando encontrar a internet que mora no chão.

    A nuvem também mora em algum lugar

    Outro nome que faz a infraestrutura parecer mais etérea do que realmente é nuvem. Arquivos na nuvem não ficam flutuando num algodão digital. Eles estão gravados em servidores físicos instalados em datacenters, consumindo energia, ocupando discos, produzindo calor e dependendo de rede.

    Serviços modernos distribuem cópias por várias regiões e usam redes de entrega de conteúdo, as CDNs, para colocar dados próximos dos usuários. Quando abrimos um vídeo ou site popular, é comum recebê-lo de um servidor localizado muito mais perto do que a sede da empresa. Isso reduz demora e evita que todo o planeta bata na mesma porta.

    A internet atual também precisa conviver com uma decisão tomada quando sua escala era muito menor: os endereços IPv4 possuem 32 bits, pouco mais de 4,29 bilhões de combinações. Parecia uma enormidade; deixou de parecer. O NAT passou a permitir que vários aparelhos compartilhassem um endereço público, enquanto o IPv6 foi criado com um espaço de endereçamento praticamente inconcebível para uso humano comum.

    Assim, por trás do gesto simples de abrir um aplicativo há DNS, roteamento, criptografia, redes móveis ou Wi-Fi, fibras, cabos submarinos, datacenters, caches e servidores. A maior vitória de toda essa engenharia é justamente o usuário não precisar pensar nela — até alguma parte cair e todo mundo descobrir, de repente, quantas coisas dependiam daquele “detalhezinho”.

    A internet ficou mais rica — e nem sempre mais acessível

    Em 1999, o W3C publicou a primeira versão das Diretrizes de Acessibilidade para Conteúdo Web, as WCAG. Desde então, os padrões evoluíram e hoje sabemos muito mais sobre estrutura semântica, navegação por teclado, contraste, descrição de imagens, legendas e compatibilidade com tecnologias assistivas.

    Mas conhecer as regras e aplicá-las são coisas diferentes.

    Para quem usa leitor de telas, a evolução da Web não foi uma linha sempre ascendente. Sites antigos podiam ser visualmente pobres e tecnicamente rudimentares, mas às vezes ofereciam texto e links numa ordem simples. Aplicações modernas conseguem ser excelentes e plenamente acessíveis; também conseguem esconder funções em botões não rotulados, alterar o foco sem aviso, construir controles que só funcionam com o mouse e colocar uma camada de JavaScript entre o usuário e uma informação que antes estava logo ali.

    A tecnologia avançou muito. A acessibilidade avança quando alguém se lembra de incluí-la no projeto, testa de verdade e corrige o que não funciona. Caso contrário, ganhamos uma página capaz de reconhecer o rosto, recomendar um vídeo, resumir a busca e conversar com inteligência artificial — mas que chama o botão principal simplesmente de “botão”. Aí não há sistema que salve,aaa.

    Da rede descentralizada às grandes plataformas

    A internet foi construída sobre protocolos abertos e uma arquitetura distribuída. Em princípio, qualquer pessoa ou organização pode operar um servidor, publicar conteúdo e conectar uma rede usando os mesmos padrões.

    Com o tempo, porém, grande parte da vida digital se concentrou em poucas plataformas. Redes sociais, lojas de aplicativos, provedores de nuvem, mecanismos de busca e sistemas de publicidade passaram a intermediar boa parte do que fazemos. A infraestrutura permanece distribuída, mas nossa atenção, nossos dados e nossos contatos muitas vezes ficam presos em alguns grandes condomínios digitais.

    Essa concentração trouxe conveniência, escala e serviços fantásticos. Também criou dependência, coleta massiva de dados, bolhas algorítmicas, moderação difícil, desinformação e pontos de falha capazes de afetar milhões de pessoas de uma vez.

    A rede cresceu junto com seus problemas de segurança. Spam, phishing, worms, botnets, ransomware, roubo de credenciais e ataques DDoS aproveitaram a mesma capacidade de alcançar o mundo inteiro. No artigo Do vírus de disquete ao muro alugado, já contei parte dessa outra história.

    Hoje acrescentamos à rede a inteligência artificial, capaz de gerar texto, imagem, áudio, vídeo e código, além de procurar, resumir e reorganizar informação. É mais uma transformação enorme — e, como todas as anteriores, vem acompanhada de possibilidades reais, promessas exageradas, problemas novos e empresas dispostas a colocar “com IA” até naquilo que ontem funcionava perfeitamente sem ela.

    De dois caracteres a um planeta conectado

    A internet não nasceu pronta, não foi inventada inteira por uma única pessoa e não cabe numa única data. Ela surgiu da soma de muitas ideias: comutação de pacotes, redes acadêmicas, protocolos abertos, endereçamento, DNS, correio eletrônico, Web, navegadores, cabos, fibras, rádio, telefonia móvel, satélites e milhões de pessoas criando serviços sobre tudo isso.

    Em 1969, uma rede com dois computadores tentou enviar LOGIN e conseguiu apenas “LO” antes de cair. Nos anos 1980, ouvintes gravavam bipes do rádio numa fita cassete para carregar um programa. Nos anos 1990, esperávamos o modem terminar sua sinfonia e torcíamos para a ligação não cair. Hoje, um telefone no bolso troca dados com uma antena, um satélite a centenas de quilômetros de altura ou um roteador ligado a uma fibra que pode atravessar oceanos.

    O mais curioso é que todas essas fases continuam aparentadas. Em cada uma delas, estamos fazendo a mesma coisa fundamental: transformando informação em sinais, enviando esses sinais por algum meio e tentando reconstruir a informação do outro lado.

    Mudaram a velocidade, a distância, os equipamentos e o tamanho do revertério quando alguma coisa dá errado.

    E talvez essa seja a melhor definição da internet: uma gigantesca obra coletiva que passou mais de meio século encontrando novos caminhos para ligar máquinas e, principalmente, pessoas.

    Um abração e até a próxima viagem nessa coisa aqui!

    Fernando

  • Mudanças e mudanças

    Tempo de leitura: 3 minutos

    Olá, amigos, leitores e apreciadores dessa coisa aqui!

    Tudo bem? Espero que sim…

    Hoje venho aqui para falar de mudanças. Isso mesmo… Mudanças… Aquelas que a gente quer, aquelas que a gente não quer, mas que acabam acontecendo, e aquelas que a vida nos leva a fazer…

    No blog

    Começando pelo próprio blog, antes que a turma antiga venha me bater ou me mandar pro invvvééérno, setealem ou outros lugares esquisitos:

    Tirei dos menus do blog aquelas páginas antigas com montagens em áudio, downloads e informações sobre leitores de tela antigos.

    Explico: o que era post, mesmo que antigo ou desatualizado, continuou por aqui. Afinal, é uma informação antiga, mas quem acessa um post de 2008, por exemplo, já sabe que ele é daquela época.

    Não se pode dizer o mesmo das páginas: elas ficam na “vitrine” principal. E, como agora o blog está crescendo bastante e mudando de foco — sem deixar de ter aquele toque pessoal nos posts e artigos —, acreditei que retirá-las era o melhor.

    Também retirei alguns poucos posts antigos que já não faziam mais sentido, como anúncios de páginas do blog que nem existem mais.

    Atualizei a seção Currículo, para que ela ficasse condizente com o momento atual.

    E, bueno… Espero que, doravante, esse blog — ou “essa coisa aqui”, como eu digo — continue crescendo cada vez mais, em número de posts, comentários e tudo o mais…

    Sobre mudanças e mudanças

    Aqui não vou citar muitos nomes e tentarei manter a coisa de maneira imparcial, apenas explicando aos leitores mais ou menos como as coisas “correram”…

    Até porque este post não será divulgado nas redes sociais, como tem acontecido com a maioria dos últimos artigos — Twitter, Facebook, LinkedIn e outras. Somente os leitores que entrarem diretamente no blog terão conhecimento dele…

    Em 2019, achei que estava concluindo uma fase da minha vida… Desmontei meu apartamento e fui morar com minha mãe.

    Acontece que, no meio disso, eu tava namorando e, por força do destino — ou de qualquer outra coisa que goste de mudar a vida da gente —, ela engravidou.

    E eu, claro, pensei: “Vamos morar juntos e que vá tudo pro invvvvééérno!”

    Tinha desmontado o apartamento havia poucos meses, mas montei tudo novamente. Quase zerei meus cartões de crédito comprando algumas coisas; outras eu tinha guardado, e algumas ela já tinha e trouxe.

    Se a gente tivesse uma lunetinha mágica capaz de mostrar o futuro — coisa que nem a do livro A Luneta Mágica, de Joaquim Manuel de Macedo, fazia —, daria para espiar algumas coisas e evitar esses “revertérios revortados” da vida.

    Eu, por exemplo, não teria desmontado o apartamento…

    O problema é que a vida não funciona assim. Ela não avisa certos acontecimentos e muito menos nos impede de tomar algumas decisões erradas. Mas, se fizesse isso, talvez deixasse de ter graça. Afinal de contas, o que a gente leva dela é justamente o que aprende com as surpresas, os erros e os acertos.

    A verdade é que nem todos os casamentos foram feitos para durar, mesmo quando envolvem uma família, filhos e toda uma história. Em 2025, nós nos separamos. Os problemas, porém, vinham desde muito antes.

    Alguns devem lembrar que, antes de eu voltar a aparecer novamente, fiquei quase três anos sem dar as caras por aqui… Isso aconteceu porque algumas coisas já não estavam “como deveriam estar” na minha vida.

    Então, já não havia mais sentido manter aquele apartamento. Afinal, a “casa da mãe” tem espaço suficiente para nós três: eu, minha mãe e minha filha.

    Em julho, dei o aviso de entrega do apartamento. Depois vieram quase quatro semanas de trabalho, fazendo mudanças, vendendo algumas coisas, doando outras e reorganizando tanto o que viria do meu antigo AP quanto a casa da minha mãe.

    Vocês nem imaginam o “berzabum”, como diria o velho Simões Lopes Neto,aaa… Mas agora está feito, e todo mundo está acomodado.

    E eu transformei um quarto em um verdadeiro quatro em um: escritório, estúdio, dormitório e, claro, “cozinha”…

    Sim, cozinha! Porque tem um micro-ondas, um frigobar e um estoque estratégico de água, pipoca, breja e outras coisas boas para atacar de madrugada quando dá vontade,aaa…

    Então, como podem ver, estou aparecendo bem mais por aqui e pretendo continuar assim. Tem muita coisa boa para trazer agora que o blog provou que “não morreu”.

    E digo isso porque pensei algumas vezes, ultimamente, em tirar o espaço do ar… Mas vinte anos de história não se apagam assim.

    Por isso, resolvi fazer o contrário: voltar a postar — e postar pra valer!

    Espero que vocês “me aguentem”. Não prometo aparecer todos os dias, mas manterei os posts com bem mais regularidade.

    Trarei mais dicas de informática, livros, novas viagens históricas como as anteriores e… Muitas outras surpresas!

    Me aguardem… Podem esperar: vai ser divertido!

    Um abraço e até o próximo post, no qual vamos falar de… Internet!

    Fernando

  • Hackers do Bem está com inscrições abertas novamente: eu já passei por lá!

    Tempo de leitura: 4 minutos

    Olá caros amigos e leitores!!

    Alguns já sabem que, em 2024, participei dos primeiros dois módulos do programa Hackers do Bem: o Nivelamento e o Básico.

    Portanto, desta vez não estou apenas repassando a divulgação de um curso que encontrei perdido em algum canto da internet. Eu realmente passei por ele, conheci a plataforma, acompanhei as aulas e pude experimentar uma parte dessa formação por dentro.

    E agora as inscrições estão novamente abertas!

    Como começou essa história?

    O Hackers do Bem foi lançado em 2023 com uma proposta bastante ambiciosa: formar profissionais de cibersegurança e ajudar a reduzir a falta de gente qualificada numa área que se torna mais necessária a cada dia.

    As primeiras inscrições foram abertas em janeiro de 2024. A procura foi muito maior do que o esperado: o programa recebeu mais de 129 mil inscritos e precisou encerrar aquela primeira rodada já em março daquele ano.

    Foi justamente nessa primeira fase que entrei e cursei os módulos de Nivelamento e Básico.

    O nome “Hackers do Bem” pode até assustar quem ainda associa a palavra hacker exclusivamente a invasões, crimes digitais e sujeitos misteriosos escondidos num quarto escuro. Mas a ideia aqui é justamente formar profissionais para o outro lado da história: pessoas capazes de encontrar vulnerabilidades, prevenir ataques, proteger redes, sistemas e dados e responder quando alguma coisa dá errado.

    Ou seja: aprender como os ataques funcionam para saber como evitá-los e combatê-los. Tudo dentro da lei, naturalmente, antes que algum leitor resolva sair “se aventurando” no computador do vizinho…

    Quem está por trás do Hackers do Bem?

    O programa é uma iniciativa do Governo Federal, por meio do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, o MCTI.

    Os recursos vêm da Lei de TICs por meio da Softex, dentro do Programa Prioritário em Informática. A execução é feita pela Rede Nacional de Ensino e Pesquisa, a RNP, em parceria com o Senai de São Paulo.

    Parece uma verdadeira sopa de siglas, eu sei, mas cada uma dessas instituições tem uma função importante.

    A RNP é responsável pela operação do programa, pelo desenvolvimento e funcionamento da plataforma, pelos ambientes de experimentação e laboratórios práticos, pelos módulos mais avançados, pela Residência Tecnológica e pela emissão dos certificados.

    A Escola Superior de Redes, braço de capacitação da RNP, participa da organização das aulas e atividades. Já o Senai-SP ficou responsável pela elaboração dos conteúdos dos módulos de Nivelamento e Básico, além de atuar na comunicação e divulgação do programa.

    Não se trata, portanto, apenas de um cursinho isolado, mas de um projeto nacional que procura reunir formação, pesquisa, experimentação prática e aproximação com o mercado de trabalho.

    Como funciona a formação?

    A trilha completa do Hackers do Bem é dividida em cinco etapas: Nivelamento, Básico, Fundamental, Especializado e Residência Tecnológica.

    As vagas abertas ao público neste momento são para os dois módulos de entrada.

    O Nivelamento tem carga horária de 80 horas e começa realmente pelas bases. Ele apresenta assuntos como hardware, internet, redes de computadores, sistemas operacionais Windows e Linux, lógica de programação e os primeiros conceitos relacionados à cibersegurança.

    É uma boa porta de entrada inclusive para quem ainda não possui experiência na área e quer descobrir se pretende seguir adiante.

    O módulo Básico tem 64 horas e já avança para temas como computação em nuvem, desenvolvimento, ameaças e vulnerabilidades, criptografia e conceitos de Governança, Risco e Compliance, o famoso GRC.

    Depois vêm os módulos Fundamental e Especializado, nos quais o conteúdo se aprofunda. Na especialização, aparecem áreas como Red Team, voltada ao ataque ético; Blue Team, voltada à defesa; segurança no desenvolvimento, análise forense e governança.

    Por fim, existe a Residência Tecnológica, destinada a participantes selecionados entre aqueles que apresentam melhor desempenho. É uma etapa prática e, portanto, o avanço por toda a trilha não acontece automaticamente apenas por ter concluído os primeiros cursos.

    Ao concluir cada etapa, o participante pode receber o respectivo certificado. Os alunos também passam a fazer parte do Hub Hackers do Bem, um ambiente que procura aproximar estudantes, especialistas, empresas e órgãos do governo, criando oportunidades de troca de conhecimento, contatos profissionais e acesso ao mercado de cibersegurança.

    Quem pode participar?

    O programa é totalmente gratuito e está disponível para pessoas de todas as regiões do Brasil.

    Podem se inscrever aqueles que estejam cursando ou já tenham concluído o Ensino Médio. Não há limite de idade e também não é necessário possuir conhecimento prévio em segurança da informação.

    Portanto, serve tanto para quem já trabalha com informática e deseja ampliar seus conhecimentos quanto para quem está pensando em mudar de área ou iniciar uma nova carreira.

    E mesmo para quem não pretende trabalhar diretamente com cibersegurança, o conhecimento adquirido pode ser muito útil no uso pessoal: ajuda a entender melhor redes, sistemas, senhas, golpes, vulnerabilidades, proteção de dados e vários dos riscos que enfrentamos diariamente na internet.

    Até quando vão as inscrições?

    Até a publicação deste texto, não foi divulgada uma data específica para o encerramento das inscrições.

    A nova oferta é de 25 mil vagas para os módulos de Nivelamento e Básico. Como a rodada anterior esgotou e a procura pelo programa sempre foi bastante grande, a melhor recomendação é não deixar para depois. Nesse caso, o prazo pode acabar sendo simplesmente “antes que terminem as vagas”…

    Quem desejar participar pode fazer a inscrição gratuitamente no site oficial:

    www.hackersdobem.org.br

    É um excelente curso não somente para uso pessoal, mas também uma porta de entrada para uma das grandes oportunidades atuais e futuras de trabalho na informática.

    Fica novamente a dica para aqueles que quiserem “se aventurar” — desta vez do lado certo da rede, naturalmente…

    Um abraço…

    Fernando

  • Do vírus de disquete ao muro alugado: a evolução dos ataques, das defesas e o perigo de terceirizar a segurança digital

    Tempo de leitura: 12 minutos

    Olá caros leitores dessa coisa aqui!

    Depois de viajar pela história das gravações, dos discos e de outras fonografias, hoje vamos falar de outra história: a história da segurança digital. Ou, para sermos mais exatos, a eterna corrida entre quem inventa uma nova maneira de invadir, derrubar, roubar ou sequestrar um sistema e quem precisa descobrir uma nova maneira de impedir a desgraceira.

    No início, muitos ataques pareciam experiências, brincadeiras de gosto duvidoso ou demonstrações de habilidade. Com o tempo, o negócio virou indústria: apareceram quadrilhas especializadas, mercados clandestinos, aluguel de botnets, venda de credenciais, extorsão por ransomware e ataques tão grandes que um servidor sozinho não tem sequer como receber todo o tráfego, quanto mais analisá-lo.

    As defesas também evoluíram. Vieram os antivírus, os firewalls, os sistemas de detecção de intrusão, os filtros de aplicação, os mecanismos antibruteforce, os serviços antiddos, a autenticação multifator, os sistemas de análise de comportamento e uma sopa de siglas capaz de derrubar um administrador antes mesmo que o invasor faça isso,aaa.

    O problema é que, no meio dessa evolução, algumas empresas passaram a cometer um erro perigoso: contrataram uma excelente muralha externa e concluíram que já não precisavam proteger a própria porta. Colocam o site atrás de uma Cloudflare da vida ou de outro serviço semelhante, ativam algumas opções no painel e passam a agir como se firewall local, atualização, antivírus ou antimalware, monitoramento, controle de acesso e cópia de segurança fossem coisas do passado.

    Não são.

    Quando o ataque ainda precisava pegar carona num disquete

    Os primeiros programas autorreplicantes surgiram quando as redes ainda eram pequenas e computador conectado era uma raridade. Nos computadores pessoais das décadas de 1980 e 1990, os vírus se espalhavam principalmente por disquetes, infectando arquivos executáveis ou o setor de inicialização.

    O ataque daquela época tinha uma limitação quase simpática quando comparada à velocidade atual: ele precisava viajar fisicamente. Alguém colocava o disquete numa máquina, executava alguma coisa ou inicializava o computador com ele inserido e pronto: estava feita a entrega em domicílio. O vírus podia então contaminar outros disquetes e seguir sua peregrinação de computador em computador.

    Isso não quer dizer que as redes estivessem livres. Em 2 de novembro de 1988, o Morris Worm se espalhou pela ainda pequena Internet e infectou milhares de máquinas em poucas horas, deixando muitas delas inutilizáveis até que fossem desconectadas e reparadas. O caso é lembrado pelo FBI como o primeiro grande ataque à Internet e mostrou cedo uma característica que depois se tornaria fundamental: um programa não precisava esperar o usuário levá-lo de um computador a outro; podia procurar sozinho a próxima vítima. A história pode ser conferida no artigo The Morris Worm, do FBI.

    Nascia ali, para o grande público, a diferença prática entre um vírus e um worm. O vírus geralmente se prende a um arquivo ou depende de alguma ação para se espalhar. O worm explora a rede e tenta se propagar por conta própria. Na vida real, claro, as categorias se misturam: um mesmo malware pode chegar por e-mail, explorar uma falha, instalar um trojan, abrir uma “porta dos fundos” e ainda transformar a máquina num robô controlado remotamente.

    A Internet cresceu, e a desgraceira ganhou banda larga

    Quando vieram a popularização da Internet, o correio eletrônico e a web, a distribuição dos ataques deixou de depender do disquete esquecido no drive. Anexos maliciosos, macros em documentos, páginas comprometidas, programas piratas e falsos instaladores passaram a alcançar milhares ou milhões de pessoas.

    O vírus clássico continuou existindo, mas ganhou companhia:

    • Worms, que procuram outras máquinas e se espalham automaticamente;
    • Trojans, que fingem ser programas legítimos para o usuário abrir a porta por conta própria;
    • Spywares e infostealers, feitos para roubar informações, senhas, cookies e sessões autenticadas;
    • Rootkits, que tentam esconder a presença do invasor e manter acesso privilegiado;
    • Ransomwares, que criptografam ou roubam dados para extorquir a vítima;
    • Botnets, redes de computadores, servidores, roteadores, câmeras e outros aparelhos comprometidos e controlados à distância.

    Também cresceram os ataques que nem precisam instalar um vírus no computador da vítima. Entram nessa turma a força bruta contra senhas, o uso automatizado de credenciais vazadas, a exploração de serviços desatualizados, as falhas de autenticação, a injeção de SQL, o cross-site scripting, a engenharia social e o bom e velho phishing — aquele golpe que troca de roupa de tempos em tempos, mas continua tentando convencer alguém a entregar voluntariamente a chave da casa.

    Ataque digital, portanto, não é sinônimo de vírus. Um servidor pode ser invadido sem que um arquivo malicioso tradicional seja gravado nele. Uma senha reutilizada, uma extensão vulnerável, um painel administrativo exposto ou uma configuração errada podem ser suficientes.

    Do computador sequestrado ao exército de cafeteiras

    Outro salto veio com os ataques de negação de serviço. Num ataque DoS, o objetivo é consumir os recursos de um servidor, serviço ou enlace até que os usuários legítimos não consigam mais utilizá-lo. No DDoS, o primeiro D significa distributed: o tráfego vem de muitos pontos ao mesmo tempo.

    É aí que entram as botnets. Em vez de um único computador atirar pacotes contra o alvo, milhares de máquinas comprometidas fazem isso juntas. E, com a Internet das Coisas, o exército passou a incluir câmeras, gravadores de vídeo, roteadores, televisores, sensores e qualquer outra geringonça conectada com senha padrão e firmware abandonado.

    A botnet Mirai mostrou isso de forma espetacular em 2016: infectava dispositivos de Internet das Coisas tentando combinações padrão de usuário e senha e os transformava em robôs para ataques distribuídos. Uma das ações associadas a ela atingiu a Dyn e afetou o acesso a vários grandes serviços. A explicação da Cloudflare sobre a Mirai mostra como aparelhos aparentemente inocentes podem virar soldados de um ataque sem que seus donos sequer percebam…

    Hoje um DDoS pode tentar saturar a conexão, esgotar tabelas de estado, abusar de protocolos ou imitar acessos legítimos na camada da aplicação. É por isso que a defesa contra ataques volumétricos realmente precisa de infraestrutura distribuída e capacidade muito maior do que a do servidor protegido. Não há regra de firewall local que faça caber dez caminhões de tráfego numa garagem para um Fusca.

    A evolução do antivírus: da lista de procurados ao comportamento suspeito

    Os primeiros antivírus comerciais trabalhavam principalmente com assinaturas: sequências conhecidas que permitiam reconhecer um arquivo contaminado. Era como entregar ao porteiro uma pasta com fotografias dos criminosos já identificados. Se o rosto estivesse na lista, ele barrava. Se fosse um criminoso novo ou suficientemente disfarçado, podia passar.

    As assinaturas continuam importantes, mas as soluções modernas acrescentaram heurística, análise de comportamento, reputação em nuvem, aprendizado de máquina e resposta no endpoint. Em vez de perguntar apenas “este arquivo está na lista?”, o sistema também observa perguntas como “por que este processo está tentando alterar centenas de documentos?”, “por que ele quer criar persistência?” ou “por que está acessando credenciais e iniciando conexões incomuns?”. A própria Microsoft explica essa mudança na documentação sobre monitoramento de comportamento do Microsoft Defender.

    Em ambientes corporativos, surgiram ainda as soluções EDR, capazes de registrar atividades, correlacionar eventos, ajudar na investigação e reagir a comportamentos suspeitos. Mas nem o melhor antivírus é uma bênção papal aplicada ao servidor. Se estiver desatualizado, mal configurado, sem monitoramento ou cheio de exceções para “não atrapalhar”, vira apenas um ícone tranquilizador no painel.

    A evolução do firewall: fechar portas, entender conexões e olhar a aplicação

    O firewall também evoluiu. Os filtros de pacotes mais simples analisavam informações como endereço, protocolo e porta. Depois vieram os firewalls com inspeção de estado, capazes de acompanhar as conexões e distinguir melhor um pacote esperado de outro que apenas finge pertencer a uma conversa já estabelecida. A publicação Guidelines on Firewalls and Firewall Policy, do NIST, explica essa diferença entre filtragem e inspeção de estado.

    Mais tarde, firewalls de aplicação, proxies e WAFs passaram a examinar o protocolo usado pela aplicação. Um WAF olha especialmente para o tráfego HTTP e tenta identificar padrões de ataques contra sites e APIs, como injeção de SQL e cross-site scripting. A OWASP define o WAF justamente como um firewall para aplicações HTTP, normalmente colocado diante dos servidores como proxy reverso.

    Percebam a diferença: um WAF não é simplesmente uma versão “melhor” do firewall do sistema operacional. Eles atuam em lugares e problemas diferentes. O firewall da rede ou do host decide quais serviços e origens podem estabelecer conexões. O WAF analisa as requisições destinadas à aplicação web. Um não demite o outro.

    IDS, IPS, antibruteforce, registros e outras camadas

    À medida que os ataques ficaram mais complexos, tornou-se necessário não apenas bloquear, mas também detectar, registrar, correlacionar e responder.

    Os sistemas IDS procuram sinais de intrusão e alertam. Os IPS podem agir para interromper atividades suspeitas. Ferramentas antibruteforce acompanham tentativas repetidas de acesso e bloqueiam a origem. Sistemas de logs e SIEM reúnem eventos para que uma sequência aparentemente inocente deixe de parecer inocente quando vista como um todo. Monitoramento de integridade acusa mudanças inesperadas em arquivos. Segmentação impede, ou pelo menos dificulta, que a invasão de uma máquina se transforme num passeio turístico por toda a rede.

    Quando comecei a lidar mais diretamente com servidores, em 2011, eu já usava firewall, antibruteforce, ddosdeflate, ClamAV com Maldet, cópias de segurança e outros recursos. Nenhuma dessas ferramentas, sozinha, resolvia tudo. A idéia era justamente que uma cobrisse parte do espaço que a outra não cobria. E, antes de levar uma mudança para o servidor, testar numa máquina virtual com snapshot sempre foi uma forma muito mais civilizada de evitar um revertério.

    Esse princípio ganhou um nome bonito, embora a idéia seja antiga: defesa em profundidade. A OWASP explica a defesa em profundidade como a utilização de várias camadas, de modo que a falha de uma não produza imediatamente o comprometimento total do sistema.

    Quando a muralha virou serviço

    Com ataques cada vez maiores, fez todo o sentido colocar redes globais entre o usuário e o servidor. Serviços como Cloudflare, Akamai, Fastly, Imperva e outros podem distribuir conteúdo, absorver ataques volumétricos, esconder o endereço do servidor de origem, filtrar robôs, limitar requisições e aplicar regras de WAF numa escala que a maioria das empresas jamais conseguiria montar sozinha.

    Isso é bom. Muito bom.

    Seria absurdo sugerir que uma pequena ou média empresa tentasse absorver sozinha um ataque de centenas de gigabits ou terabits por segundo. O serviço externo existe justamente porque certos problemas precisam ser enfrentados antes que o tráfego chegue ao enlace do cliente. Se a conexão já foi saturada, o firewall local pode escrever uma carta de protesto, mas ela também não vai conseguir sair pela rede,aaa.

    A terceirização de uma camada da segurança é racional. O erro começa quando se terceiriza mentalmente a responsabilidade inteira.

    O muro do terceiro não protege uma porta deixada aberta

    Imaginemos a Cloudflare como uma grande muralha diante de um prédio. Ela controla boa parte do fluxo, barra multidões suspeitas e recebe o impacto de ataques que derrubariam o portão da empresa. Só que, atrás dessa muralha, o prédio continua tendo portas, janelas, funcionários, computadores, fechaduras, documentos e uma sala de servidores.

    Se a porta dos fundos está aberta, a altura do muro da frente deixa de ser o principal assunto.

    No uso mais comum, quando se ativa o proxy da Cloudflare para um site, protege-se principalmente o tráfego web que realmente passa por ela. Isso não significa automaticamente que SSH, banco de dados, e-mail, painel de hospedagem, APIs em outros endereços e serviços esquecidos foram protegidos. A Cloudflare possui produtos capazes de estender a proteção a outros cenários, mas eles precisam ser contratados, projetados e configurados. O simples fato de o DNS exibir a nuvenzinha laranja não lança um “feitiço anti-Voldemort” sobre todas as portas do servidor, aaa…

    Há ainda um problema básico: se alguém descobrir o IP real do servidor de origem e ele aceitar conexões vindas de qualquer lugar, o atacante pode tentar acessá-lo diretamente e contornar toda a proteção colocada no proxy.

    E aqui aparece a melhor testemunha possível para a tese deste artigo: a própria Cloudflare. Em sua documentação sobre como proteger o servidor de origem, a empresa recomenda esconder e, quando necessário, trocar o IP de origem, revisar registros DNS que possam revelá-lo, restringir conexões, permitir apenas os endereços necessários e monitorar a saúde do servidor. Também oferece recursos como Tunnel e Authenticated Origin Pulls.

    Na documentação de Authenticated Origin Pulls, a explicação é ainda mais direta: sem esse controle, quem descobrir o IP de origem pode enviar requisições diretamente e contornar as proteções da Cloudflare. Ou seja: nem a Cloudflare acha que basta apontar o DNS para ela e seguir o baile.

    O que continua podendo dar errado

    Mesmo quando o IP de origem está bem protegido e só aceita tráfego vindo do proxy, o trabalho não acabou. A camada externa reduz enormemente o risco, mas há ataques que chegam em tráfego aparentemente permitido ou nem passam por ela.

    • Uma vulnerabilidade na aplicação pode ser explorada por uma requisição que o WAF não reconheça como maliciosa;
    • Uma falha de lógica pode permitir que um usuário faça algo que tecnicamente parece válido, mas não deveria ser autorizado;
    • Credenciais roubadas podem dar ao criminoso acesso legítimo a um painel, VPN, e-mail ou conta administrativa;
    • Um plugin, tema, pacote ou componente comprometido pode introduzir código malicioso por uma atualização;
    • Um arquivo enviado por um usuário pode carregar malware para dentro do ambiente;
    • Um serviço não protegido pelo proxy pode ser atacado diretamente;
    • Uma máquina interna comprometida pode atacar o servidor de dentro da rede;
    • Uma configuração errada pode reabrir uma porta, expor um painel ou publicar uma cópia de segurança;
    • Uma invasão já consumada pode gerar conexões de saída, alterar arquivos, roubar dados e se mover lateralmente sem que o filtro da entrada web resolva o problema.

    Um WAF também não corrige magicamente código vulnerável. Ele pode bloquear padrões conhecidos, reduzir a exposição e até funcionar como “remendo virtual” enquanto a correção verdadeira é preparada. Mas o remendo não deve virar parte permanente da parede porque ninguém quer chamar o pedreiro…

    Firewall local não é enfeite de painel

    O servidor de origem deve ter firewall — ou um controle de rede equivalente — com política restritiva. Em vez de deixar tudo aberto e bloquear apenas o que já causou problema, a lógica deve ser permitir somente o necessário.

    Se o site precisa receber conexões web apenas da rede do provedor de proteção, o firewall pode limitar as portas correspondentes a essas origens. O SSH pode ficar acessível somente por VPN, Tailscale, rede administrativa ou endereços específicos. O banco de dados, salvo necessidade muito bem justificada e protegida, não deveria estar passeando publicamente pela Internet. Painéis administrativos precisam de restrição, autenticação forte e, sempre que possível, uma camada adicional de acesso.

    É importante lembrar que “firewall instalado” e “firewall configurado” são duas situações diferentes. Um firewall que permite tudo cumpre uma função muito parecida com a de um segurança que abre a porta, deseja boa noite ao invasor e ainda indica onde fica a sala dos cofres.

    Antivírus e antimalware também não ficaram obsoletos

    Outro exagero comum é afirmar que servidor Linux não precisa de antivírus ou antimalware. A resposta correta depende do serviço, dos dados e do risco, mas dispensar a análise sem sequer avaliar o ambiente é preguiça, não arquitetura.

    Um servidor de hospedagem, e-mail, compartilhamento ou upload pode armazenar arquivos destinados a máquinas Windows, scripts maliciosos, webshells e conteúdo contaminado mesmo que o malware não tenha sido criado para infectar o próprio Linux. Ferramentas como ClamAV, Maldet, monitoramento de integridade e análise de comportamento cobrem problemas diferentes. Elas precisam ser escolhidas e configuradas conforme a carga de trabalho; não instaladas apenas para produzir um relatório bonito.

    Também vale o caminho inverso: ter antivírus não autoriza deixar o sistema desatualizado, executar tudo com privilégios excessivos ou ignorar os registros. Segurança não é juntar produtos até formar uma coleção de ícones verdes.

    Cópia de segurança é a última porta — e precisa abrir

    Quando todas as camadas falham, a organização precisa conseguir responder e recuperar. O atual modelo do NIST organiza a segurança em seis funções: governar, identificar, proteger, detectar, responder e recuperar. A publicação NIST SP 800-61 Rev. 3 reforça que prevenir é apenas parte do trabalho; detectar incidentes, contê-los, erradicá-los e restaurar o serviço também fazem parte do ciclo.

    É aqui que entram cópias de segurança separadas, protegidas e testadas. Backup permanentemente montado com permissão de escrita pode ser criptografado junto com os dados principais. Snapshot ajuda muito em diversas situações, mas não substitui uma cópia independente. E backup que nunca teve a restauração testada é, no máximo, uma esperança compactada.

    O guia StopRansomware, da CISA, recomenda manter cópias críticas offline, criptografadas e testadas regularmente. Não é excesso de zelo: muitos ransomwares procuram justamente os backups acessíveis para apagá-los ou criptografá-los antes de anunciar o sequestro.

    Uma arquitetura mínima sem “setealém tecnológico”

    Não existe receita idêntica para todas as empresas, mas uma proteção minimamente responsável costuma combinar várias destas medidas:

    1. Manter inventário dos servidores, serviços, domínios, portas e responsáveis;
    2. Atualizar sistema operacional, painel, servidor web, aplicações, plugins e dependências;
    3. Usar firewall de rede e de host com regra de negar por padrão e liberar somente o necessário;
    4. Restringir o servidor de origem ao proxy, usar mTLS, túnel ou outro mecanismo adequado quando possível;
    5. Proteger acessos administrativos com chaves, autenticação multifator e privilégio mínimo;
    6. Separar serviços e redes para limitar o estrago de um comprometimento;
    7. Aplicar WAF, limitação de requisições, proteção contra robôs e mitigação antiddos;
    8. Usar antimalware, análise de arquivos e monitoramento de integridade conforme a carga de trabalho;
    9. Centralizar logs, criar alertas úteis e garantir que alguém realmente os veja;
    10. Manter cópias de segurança independentes e testar a restauração;
    11. Ter um plano de resposta: quem isola, quem comunica, quem recupera e quem decide;
    12. Revisar periodicamente tudo isso, porque a configuração segura de ontem pode ser a porta esquecida de amanhã.

    A Cloudflare ou qualquer outro fornecedor pode participar de várias dessas camadas. Pode oferecer uma infraestrutura fantástica, inteligência de ameaças, WAF, antiddos, controle de acesso e túneis. Mas alguém dentro da empresa ainda precisa decidir o que será protegido, fechar o que não deve estar exposto, corrigir o servidor, cuidar das credenciais, analisar os alertas e saber restaurar os dados.

    Terceirize a muralha, não a responsabilidade

    A história da segurança digital ensina uma coisa bastante simples: toda defesa absoluta acaba encontrando um ataque que passa por outro caminho. Foi por isso que saímos do antivírus baseado apenas em assinatura para a análise de comportamento; do filtro simples de pacotes para a inspeção de estado e os firewalls de aplicação; do servidor isolado para redes globais de mitigação; e da idéia de “impedir tudo” para um ciclo que também inclui detectar, responder e recuperar.

    Serviços como a Cloudflare são uma parte valiosa dessa evolução. O erro não está em utilizá-los. O erro está em olhar para o muro do terceiro e, encantado com a altura dele, retirar a fechadura da própria porta.

    Segurança terceirizada pode ampliar capacidade, distribuir tráfego e trazer conhecimento especializado. Responsabilidade terceirizada produz cegueira. A empresa continua responsável pelo servidor de origem, pelos dados, pelos acessos, pelas atualizações, pelos registros, pelas cópias de segurança e pelas decisões tomadas depois que o painel do fornecedor ficou verde.

    Portanto, coloque o site atrás de uma boa rede de proteção, use WAF, CDN e antiddos, esconda o IP de origem e aproveite tudo o que esses serviços oferecem. Mas mantenha firewall na porta, controle quem entra, monitore o que acontece lá dentro e tenha como reconstruir a casa se alguma coisa der errado.

    Porque o muro pode ser do terceiro.

    A porta continua sendo sua.

    Um abraço… e até o próximo, quando também vamos navegar pela história — só que, desta vez, pela história do rádio! E depois… Boom! Vão precisar ler o artigo seguinte para descobrir,aaa…

    Fernando

    Fernando

  • Do Disco Gaúcho ao streaming: viajando pela história das gravações, gravadoras e grandes artistas do Rio Grande do Sul

    Tempo de leitura: 14 minutos

    Ooi, caros amigos leitores dessa coisa aqui!!

    Nos últimos textos, nós já fizemos uma viagem pela história das gravações e também passeamos pela trajetória de grandes artistas e gravadoras que ajudaram a construir a música como a conhecemos.

    Mas ficou faltando uma parte importante dessa história: olhar para o nosso próprio quintal.

    E quando eu digo “quintal”, estou falando deste pedaço de terra que começa lá pelas Missões, atravessa a Campanha, passa pela Serra, encontra o Litoral, entra nos estúdios de Porto Alegre, toma um café em Pelotas, uma breja em algum bar da Cidade Baixa e termina sabe-se lá onde, porque música gaúcha nunca respeitou muito bem cercas, porteiras, fronteiras ou classificações.

    Portanto, pegue o churrasco — não precisa trazer a churrasqueira inteira, pelo amor de Deus —, ajeite a cadeira, cuide para não derrubar a cuia em cima do teclado e vamos seguir o baile,aaa…

    Antes de qualquer coisa: o que é música gaúcha?

    Quando alguém fala em “música gaúcha”, muita gente pensa imediatamente em gaita, bombacha, galpão, cavalo e um sujeito declamando alguma coisa sobre o minuano.

    E isso tudo faz parte, claro. Mas a música produzida no Rio Grande do Sul é muito maior do que apenas a música tradicionalista ou nativista.

    Temos milonga, vaneira, chamamé, bugio, rancheira e chamarra, mas também temos samba, MPB, rock, punk, metal, música erudita, pop, reggae, hip-hop, soul, jazz, música eletrônica e algumas misturas tão malucas que nem o próprio compositor deve saber exatamente em qual prateleira colocar.

    Aliás, essa vontade de misturar coisas talvez seja uma das principais características da música feita por aqui. O Rio Grande do Sul sempre esteve culturalmente muito próximo do Uruguai e da Argentina, ao mesmo tempo em que recebia discos, rádios, músicos e influências vindas do Rio de Janeiro, de São Paulo, da Europa e dos Estados Unidos.

    O resultado foi uma espécie de entrevero musical: um pouco de pampa, um pouco de cidade, um pouco de fronteira, guitarra elétrica, gaita, tambor, violão, sopapo e aquilo que mais aparecesse pelo caminho.

    Porto Alegre já fabricava discos quando essa coisa ainda era novidade

    A nossa história começa muito antes de Elis Regina, Teixeirinha, Lupicínio Rodrigues ou dos roqueiros dos anos 1980.

    No início do século XX, enquanto a indústria fonográfica brasileira ainda tentava descobrir como transformar música em negócio, Porto Alegre entrou na história com uma empresa chamada Casa A Elétrica.

    O empreendimento foi criado pelo imigrante italiano Savério Leonetti. Ele começou com uma loja que vendia artigos importados, instrumentos musicais, gramofones e discos. Mas Leonetti resolveu ir além: viajou à Europa, comprou equipamentos e trouxe para Porto Alegre a tecnologia necessária para gravar e fabricar discos.

    A empresa começou a realizar gravações por volta de 1913 e inaugurou sua fábrica em 1914. Portanto, quando muita gente ainda olhava para um gramofone imaginando que havia um cantor minúsculo escondido dentro da caixa, Porto Alegre já tinha uma fábrica “imprimindo??” discos.

    A história da empresa é contada em detalhes no artigo Casa A Elétrica: samba, tango e pirataria em 78 rpm e também foi objeto de uma pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul sobre as primeiras gravações fonográficas no Sul do Brasil.

    A loja ficava na Rua dos Andradas, enquanto a fábrica funcionava na antiga Rua Sergipe, atual Avenida Sergipe, em Porto Alegre.

    Seus discos foram lançados por selos como Disco Gaúcho, Apollo, Phoenix e Tele-Phone. A empresa gravava repertório regional, mas também fabricava sambas, valsas, polcas, fados, tangos e outros gêneros populares daquele período.

    Entre 1913 e 1915, a Casa A Elétrica lançou algumas gravações já classificadas nos rótulos como “samba” ou “samba carnavalesco”. Também prensou discos destinados aos mercados argentino e uruguaio, mostrando que a indústria fonográfica gaúcha já nasceu olhando para os dois lados da fronteira.

    E, como não poderia faltar numa boa história empresarial brasileira, também houve briga comercial, acusação de pirataria e processo judicial.

    A Casa A Elétrica entrou em conflito com a poderosa Casa Edison, do Rio de Janeiro, depois de gravar e comercializar uma composição cujos direitos estavam ligados à concorrente. A disputa ajudou a levar a empresa de Leonetti ao fechamento, em 1924.

    Ou seja: antes mesmo de termos streaming, compartilhamento de MP3, torrent e advogado mandando tirar vídeo do ar, a indústria da música já discutia cópia, matriz, gravação e direito autoral. A tecnologia muda, mas a confusão segue firme e forte,aaa…

    O rádio entra em cena

    Depois dos primeiros discos, o rádio passou a ser o principal palco para quem queria cantar, tocar e ser ouvido.

    Nas décadas de 1930, 1940 e 1950, emissoras como as rádios Gaúcha e Farroupilha mantinham orquestras, conjuntos, cantores, programas de auditório e atrações infantis. Não era apenas colocar um disco para tocar: a rádio produzia boa parte de sua própria programação musical ao vivo.

    Para os artistas, conseguir um espaço numa emissora significava entrar na casa de milhares de pessoas. O ouvinte talvez nunca tivesse assistido ao cantor pessoalmente, mas conhecia sua voz, esperava seu programa e, quando aparecia um disco, já sabia exatamente quem estava cantando.

    Foi dentro desse ambiente que surgiram ou ganharam força vários nomes fundamentais da música do estado.

    Lupicínio Rodrigues: a dor de cotovelo sai de Porto Alegre

    Nascido em Porto Alegre em 1914, Lupicínio Rodrigues transformou amores perdidos, traições, abandonos e sofrimentos em algumas das canções mais importantes da música brasileira.

    Lupi não precisava inventar um castelo, uma batalha ou uma viagem até a Lua. Bastavam um bar, uma mesa, uma lembrança e alguém que tivesse ido embora sem deixar manual de recuperação.

    Canções como Se acaso você chegasse, Nervos de aço, Vingança, Felicidade, Nunca e Ela disse-me assim atravessaram gerações e foram gravadas por intérpretes de estilos completamente diferentes.

    Jamelão tornou-se um de seus grandes intérpretes, mas a obra de Lupicínio também passou pelas vozes de Francisco Alves, Orlando Silva, Elza Soares, Paulinho da Viola, Gal Costa, Caetano Veloso e muitos outros.

    A expressão “dor de cotovelo”, embora não tenha sido inventada por ele, ficou definitivamente associada às suas composições. E não era uma dor discreta, dessas que se resolvem com gelo e anti-inflamatório. Era uma dor com introdução, duas estrofes, refrão, orquestra e alguém bebendo no fundo do bar.

    O Instituto Moreira Salles reuniu parte dessa trajetória no especial Lupicínio: e assim nós vamos vivendo de amor.

    Lupicínio também demonstrou uma coisa importante: um compositor não precisava abandonar completamente Porto Alegre para participar da música nacional. Suas canções viajavam por meio das editoras, das partituras, do rádio e, principalmente, das gravações realizadas por grandes intérpretes.

    O Conjunto Farroupilha leva o Rio Grande para o mundo

    Em 1948, surgiu na Rádio Farroupilha o Conjunto Farroupilha, idealizado pela cantora Inah d’Ávila.

    O grupo trabalhava com arranjos vocais elaborados e um repertório que misturava música regional, canção popular brasileira e influências de conjuntos vocais internacionais.

    O Conjunto Farroupilha gravou discos, participou de programas de rádio e televisão e realizou apresentações fora do Brasil. Em vez de tratar a música regional apenas como uma curiosidade local, o grupo apresentou aquele repertório com arranjos sofisticados e qualidade profissional.

    Durante décadas, seus integrantes funcionaram como verdadeiros embaixadores musicais do Rio Grande do Sul. Uma pesquisa sobre essa circulação pode ser encontrada no artigo Nas asas da Varig e da Panair: o Conjunto Farroupilha.

    Foi uma demonstração de que a música gaúcha podia viajar sem perder o sotaque. Ela apenas precisava de bons arranjos, boas vozes, bons microfones e, de preferência, alguém que não extraviasse os instrumentos no aeroporto.

    Teixeirinha e o fenômeno do disco regional

    Se Lupicínio levou a boemia de Porto Alegre para o Brasil, Teixeirinha levou a narrativa do interior gaúcho para milhões de ouvintes.

    Vítor Mateus Teixeira nasceu em Rolante, em 1927, teve uma infância difícil e trabalhou em várias atividades antes de se firmar como cantor.

    Em 1960, gravou pela Chantecler a música Coração de luto, na qual narrava a morte da mãe em um incêndio. A gravação tornou-se um fenômeno popular e projetou definitivamente sua carreira.

    É difícil encontrar números confiáveis sobre a quantidade exata de discos vendidos — cada fonte parece acrescentar mais alguns milhões ao churrasco —, mas não há dúvida de que Teixeirinha foi um dos artistas mais populares e comercialmente bem-sucedidos de sua época.

    Ele gravou dezenas de discos, escreveu centenas de músicas, participou de filmes e criou uma ligação direta com o público. Suas canções contavam histórias completas, com personagens, tragédia, saudade, família, estrada, trabalho e identidade regional.

    Uma análise bastante detalhada de sua trajetória está disponível no estudo Canta meu povo: uma interpretação histórica sobre a produção musical de Teixeirinha.

    Teixeirinha provou que havia um enorme mercado para a música regional. O público não queria apenas ouvir o que vinha do Rio de Janeiro ou de São Paulo: queria se reconhecer nas histórias, na linguagem e na paisagem das gravações.

    Gildo de Freitas, José Mendes e a voz do campo

    Ao lado de Teixeirinha, outros artistas ajudaram a consolidar a música regional gravada.

    Gildo de Freitas levou para o disco a tradição do trovador, do improviso e da provocação bem-humorada. Suas canções preservavam a sensação de conversa e desafio que existia nas apresentações ao vivo.

    José Mendes, por sua vez, alcançou enorme popularidade com músicas como Pára Pedro, além de participar de filmes e programas de rádio e televisão.

    Também ganharam espaço grupos e artistas como Os Bertussi, Os Mirins, Os 3 Xirus, Pedro Ortaça, Noel Guarany, Cenair Maicá, Luiz Carlos Borges, Os Serranos e Os Monarcas.

    Cada um deles ajudou a registrar uma parte diferente do estado: a Serra, a fronteira, as Missões, os bailes, o trabalho no campo, a imigração, o humor, os conflitos e as transformações da vida rural.

    Esses discos fizeram algo que a tradição oral sozinha não conseguiria fazer: conservaram vozes, modos de tocar, sotaques, histórias e repertórios que poderiam ter desaparecido.

    Elis Regina: da Rádio Gaúcha para a história da música brasileira

    Em 1957, uma menina de 12 anos chamada Elis Regina Carvalho Costa conseguiu finalmente cantar no programa Clube do Guri, da Rádio Farroupilha. Ela já havia tentado participar antes, mas o nervosismo falou mais alto e a apresentação não aconteceu.

    Desta vez aconteceu. E ainda bem, porque seria um certo desperdício deixar Elis Regina voltar para casa sem cantar,aaa…

    Aos 13 anos, ela iniciou a carreira profissional na Rádio Gaúcha. Em 1961, lançou pela Continental seu primeiro LP, Viva a Brotolândia.

    Os primeiros discos tentavam enquadrá-la nos estilos comerciais do momento, passando por rocks, calypsos, boleros e versões. A voz já estava ali, mas ainda faltava encontrar o repertório capaz de mostrar tudo aquilo que ela podia fazer.

    Elis mudou-se para o Rio de Janeiro e, em 1965, venceu o Festival de Música Popular Brasileira interpretando Arrastão, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes.

    A partir dali, tornou-se uma das maiores intérpretes da música brasileira. Gravou compositores novos, recuperou artistas que estavam esquecidos, apresentou canções que se tornariam clássicas e deixou discos fundamentais, como Elis & Tom, Falso Brilhante e Transversal do Tempo.

    A trajetória entre o rádio gaúcho e a consagração nacional é analisada no artigo acadêmico Nasce uma estrela: os primeiros anos da trajetória musical de Elis Regina.

    Elis saiu do Rio Grande do Sul, mas nunca deixou de ser uma cantora formada pelo rádio, pelos conjuntos e pelos palcos de Porto Alegre. Antes de existir concurso musical na televisão com jurado girando cadeira, ela já enfrentava auditório, orquestra, microfone e transmissão ao vivo.

    Os festivais nativistas transformam música em movimento

    Em 1971, Uruguaiana realizou a primeira Califórnia da Canção Nativa.

    O festival abriu espaço para uma nova geração de compositores, intérpretes e instrumentistas. A música regional passou a discutir não apenas tradição, mas também identidade, política, desigualdade, preservação ambiental, vida na fronteira e as mudanças que estavam ocorrendo no campo.

    A Califórnia tornou-se referência para muitos outros festivais realizados em cidades gaúchas. Vieram a Tertúlia Musical Nativista, a Coxilha Nativista, a Vigília do Canto Gaúcho, a Moenda da Canção, o Musicanto Sul-Americano e muitos outros.

    Esses festivais produziam seus próprios discos. Para muita gente, o LP anual era a única oportunidade de levar aquelas canções para casa e ouvi-las novamente.

    Foi por esse circuito que ganharam projeção nomes como César Passarinho, Telmo de Lima Freitas, Leopoldo Rassier, José Cláudio Machado, João Chagas Leite, Luiz Marenco, Jari Terres, Elton Saldanha, Shana Müller e tantos outros.

    A história e a importância do festival podem ser conhecidas no site da Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul.

    Os festivais funcionavam ao mesmo tempo como palco, rádio, gravadora e vitrine. Uma música podia ser apresentada numa noite, vencer o festival, entrar no disco oficial e começar a tocar nas emissoras na semana seguinte.

    Era praticamente um algoritmo de recomendação, só que usava jurados, músicos e uma Calhandra de Ouro em vez de servidores instalados sabe-se lá onde.

    Paralelo 30 e a música urbana gaúcha

    No final dos anos 1970, os músicos urbanos do Rio Grande do Sul enfrentavam um velho problema: quase toda a grande indústria fonográfica brasileira estava concentrada no eixo Rio–São Paulo.

    Gravar um LP exigia dinheiro, estúdio, técnicos, fabricação, distribuição e uma gravadora disposta a apostar no artista. Não bastava ter boas músicas. Era preciso convencer uma empresa de que havia mercado para elas.

    Em 1978, o estúdio ISAEC, de Porto Alegre, lançou a coletânea Paralelo 30, produzida pelo jornalista e crítico musical Juarez Fonseca.

    O disco reuniu Bebeto Alves, Carlinhos Hartlieb, Raul Ellwanger, Cláudio Vera Cruz, Nando d’Ávila e Nelson Coelho de Castro. Cada compositor participou com duas músicas.

    A coletânea tornou-se um marco da chamada Música Popular Gaúcha, ou MPG — uma denominação ampla que acabou reunindo artistas de MPB, música regional, pop e outros estilos.

    A ISAEC teve vida curta como gravadora, mas o estúdio continuou funcionando. Parte dessa história é recuperada numa pesquisa da UFRGS sobre música popular e produção fonográfica em Porto Alegre.

    Em 1981, Nelson Coelho de Castro lançou Juntos, conhecido como o primeiro disco independente do Rio Grande do Sul. Para financiar a produção, utilizou um sistema de venda antecipada.

    Sim: antes de existir financiamento coletivo pela internet, o músico já pedia ao público que comprasse o disco antes de ele ficar pronto. O crowdfunding estava inventado; só faltavam o site, o cartão de crédito, a barrinha de progresso e alguém prometendo uma camiseta para quem contribuísse mais,aaa…

    A história do álbum está documentada no estudo Juntos, o primeiro disco gaúcho independente.

    Almôndegas, Kleiton & Kledir, Bebeto Alves, Nei Lisboa e Vitor Ramil

    Dentro dessa música urbana surgiram artistas que misturavam tradição gaúcha, MPB, rock, música latino-americana e poesia.

    O grupo Almôndegas, formado em Pelotas, revelou nomes como Kleiton Ramil, Kledir Ramil e Vitor Ramil. Seus discos mostravam que era possível usar elementos regionais sem transformar cada apresentação num desfile tradicionalista.

    Depois do fim do grupo, Kleiton & Kledir construíram uma carreira nacional, levando para suas canções um humor e uma linguagem imediatamente reconhecíveis para quem conhece o Rio Grande do Sul.

    Bebeto Alves aproximou o pampa do rock, da MPB e da música latino-americana. Nei Lisboa transformou cenas urbanas, relacionamentos e observações do cotidiano em canções sofisticadas e muitas vezes irônicas.

    Vitor Ramil desenvolveu uma obra própria, ligada à milonga, à literatura e ao conceito de “estética do frio”. Em vez de tentar esconder a posição geográfica e cultural do estado, ele fez justamente o contrário: colocou essa diferença no centro da criação.

    Também precisamos lembrar de instrumentistas como Renato Borghetti, que levou a gaita-ponto para palcos nacionais e internacionais, e Yamandu Costa, violonista de técnica quase ilegal, capaz de fazer um violão de sete cordas parecer uma pequena orquestra que tomou energético demais.

    A ACIT e a construção de uma indústria fonográfica no Sul

    Em 1º de outubro de 1982, o produtor Edison Campagna fundou a ACIT.

    A empresa começou trabalhando com distribuição de discos, mas logo passou a produzir e lançar artistas, principalmente ligados à música regional, nativista e de baile.

    Seu catálogo reuniu nomes como Os 3 Xirus, Os Farrapos, Os Mirins, Pedro Ortaça, João Chagas Leite, César Passarinho, Luiz Carlos Borges, Os Serranos, Os Monarcas e muitos outros.

    Com o tempo, a empresa construiu estúdio próprio, ampliou sua distribuição e passou a trabalhar também com outros gêneros. Por meio do selo Antídoto, lançou artistas e bandas de pop e rock.

    A própria gravadora conta sua trajetória na página História da ACIT.

    A importância da ACIT não está apenas nos artistas famosos que passaram por seu catálogo. Ela ajudou a criar uma estrutura regional de gravação, produção, fabricação, divulgação e distribuição.

    Um artista do Sul já não precisava necessariamente atravessar o país para encontrar uma gravadora. A empresa estava aqui, entendia o público local e sabia que um disco podia vender muito bem mesmo sem tocar o dia inteiro nas grandes emissoras do centro do Brasil.

    Outras empresas, como a USA Discos, também participaram desse mercado, especialmente com lançamentos de música regional, sertaneja, bandas de baile e, mais tarde, CDs e DVDs.

    A música negra gaúcha e o som do sopapo

    Uma história da música do Rio Grande do Sul que fale apenas de CTGs, festivais nativistas e rock fica incompleta.

    A população negra teve participação fundamental na formação musical do estado, embora muitas vezes apareça pouco nas narrativas oficiais.

    Lupicínio Rodrigues já é um dos maiores exemplos, mas também precisamos lembrar de artistas como Túlio Piva, Bedeu, Luis Vagner, Loma, Zilah Machado e Giba Giba.

    Giba Giba foi cantor, compositor, percussionista, pesquisador e divulgador da cultura afro-gaúcha. Teve papel importante na preservação e valorização do sopapo, grande tambor associado à cultura negra do sul do estado.

    Sua trajetória é apresentada no programa Giba Giba e a música negra no Sul do Brasil, da TV Brasil.

    O samba, o carnaval, os blocos, as escolas de samba, os bailes black e a música dos bairros populares também produziram artistas, compositores e gravações fundamentais.

    Sem essa parte da história, ficamos com um retrato pela metade — e fotografia pela metade, seja em imagem ou em “fonografia”, costuma esconder justamente o que deveria mostrar.

    O rock gaúcho invade as gravadoras

    Na década de 1980, Porto Alegre tinha bares, teatros, festivais, rádios e uma quantidade considerável de jovens dispostos a ligar guitarras em amplificadores e incomodar os vizinhos.

    A Rádio Ipanema FM teve papel importantíssimo na divulgação dessa cena, tocando demos, bandas locais e artistas que dificilmente conseguiriam espaço nas emissoras mais comerciais.

    Em 1984, a ACIT lançou a coletânea Rock Garagem. Dois anos depois, a RCA lançou Rock Grande do Sul, reunindo DeFalla, Engenheiros do Hawaii, Garotos da Rua, Os Replicantes e TNT.

    O disco ajudou a apresentar aquelas bandas ao mercado nacional. Em 1986, os Engenheiros do Hawaii lançaram Longe demais das capitais, enquanto Os Replicantes lançaram O futuro é vórtex.

    A própria expressão “longe demais das capitais” resumiu perfeitamente o problema. Porto Alegre era uma capital, claro, mas estava longe das capitais onde as grandes gravadoras, redes de televisão e principais veículos da indústria musical tomavam suas decisões.

    A coletânea e sua importância aparecem em uma pesquisa da UFRGS sobre o rock gaúcho.

    Depois vieram Nenhum de Nós, Cascavelletes, Graforréia Xilarmônica, Rosa Tattooada e muitas outras bandas. Algumas alcançaram o mercado nacional; outras permaneceram independentes ou se tornaram cultuadas justamente por não caberem muito bem em lugar nenhum.

    Nas décadas seguintes, o estado continuou produzindo bandas como Bidê ou Balde, Cachorro Grande, Comunidade Nin-Jitsu, Ultramen, Tequila Baby, Reação em Cadeia e Fresno, além do metal extremo do Krisiun, que construiu uma carreira internacional.

    O Rio Grande do Sul conseguia produzir música campeira, MPB sofisticada, punk, reggae, funk, metal e rock de rádio praticamente ao mesmo tempo. Às vezes, provavelmente, na mesma rua.

    Do estúdio caro para a gravação no quarto

    Durante boa parte dessa história, gravar um disco era um acontecimento caro e complicado.

    O músico precisava reservar um estúdio, contratar técnicos, pagar horas de gravação, mixagem e masterização, produzir a capa, fabricar LPs ou CDs e encontrar alguém disposto a distribuir tudo aquilo.

    Uma gravação independente podia consumir todas as economias do artista, da família e, dependendo da quantidade de canais utilizada, talvez também as economias de alguns vizinhos.

    Com a popularização dos computadores, das interfaces de áudio e das estações de trabalho digitais, esse cenário mudou.

    Hoje, um músico gaúcho pode gravar em casa usando REAPER, Pro Tools, Logic, Cubase ou qualquer outro programa, enviar arquivos pela internet para músicos de outras cidades, mixar o projeto num estúdio diferente e lançar o resultado mundialmente sem prensar uma única mídia física.

    Isso democratizou a produção. Artistas de cidades pequenas, que antes dificilmente chegariam a um estúdio profissional, passaram a ter condições de registrar e publicar suas músicas.

    Por outro lado, o desaparecimento das mídias físicas e a crise das gravadoras reduziram parte da estrutura que financiava gravações, organizava catálogos e trabalhava durante anos na construção de uma carreira.

    Hoje é mais fácil gravar e lançar. O difícil é fazer alguém descobrir que a gravação existe no meio de alguns milhões de outras músicas lançadas na mesma semana.

    Das bolachas de 78 rotações ao streaming

    A Casa A Elétrica gravava o som diretamente em matrizes e fabricava discos pesados e frágeis. Décadas depois, os artistas passaram pelos LPs, compactos, fitas cassete, CDs, DVDs, arquivos digitais e finalmente pelo streaming.

    As antigas gravadoras controlavam quase toda a passagem entre o estúdio e o público. Hoje, distribuidoras digitais permitem que praticamente qualquer artista coloque uma música nas plataformas.

    Isso parece maravilhoso — e em muitos aspectos realmente é —, mas trouxe um novo problema: a remuneração por reprodução costuma ser muito pequena.

    O disco deixou de ser um objeto comprado pelo ouvinte e passou a ser um acesso temporário dentro de uma assinatura. O artista já não vende necessariamente um álbum; ele disputa alguns minutos da atenção do público.

    Ao mesmo tempo, os catálogos antigos ganharam uma nova vida. Gravações de Lupicínio, Teixeirinha, Elis, Conjunto Farroupilha e muitos outros artistas voltaram a circular e podem ser encontradas por ouvintes que nunca viram uma vitrola funcionando.

    Mas existe um detalhe importante: nem tudo foi digitalizado, nem tudo está disponível e nem tudo que aparece nas plataformas está corretamente identificado.

    Há discos gaúchos raros, gravações de festivais, compactos independentes, fitas, programas de rádio e matrizes que continuam guardados em arquivos públicos ou coleções particulares.

    Preservar esse material é fundamental. Não basta guardar o disco numa prateleira e torcer para que ele sobreviva por mais cem anos. É preciso catalogar, digitalizar, identificar compositores, músicos, técnicos, datas e locais de gravação.

    Uma história grande demais para caber num único texto

    É impossível citar todos os grandes artistas do Rio Grande do Sul numa única postagem.

    Se tentássemos colocar todo mundo, precisaríamos incluir centenas de intérpretes, compositores, conjuntos, bandas, orquestras, músicos de baile, trovadores, instrumentistas, produtores e técnicos de gravação.

    E ainda apareceria alguém, cinco minutos depois da publicação, perguntando:

    “Mas e aquele músico que gravou um compacto em 1973, vendeu 217 cópias num baile em Não-Me-Toque e depois abriu uma oficina?”

    E provavelmente ele também mereceria estar aqui,aaa…

    O importante é perceber que a história fonográfica do Rio Grande do Sul não começou ontem e não dependeu apenas das grandes empresas do eixo Rio–São Paulo.

    O estado teve uma fábrica de discos pioneira, grandes emissoras de rádio, compositores que entraram definitivamente para a música brasileira, artistas com milhões de ouvintes, festivais que criaram repertórios, gravadoras regionais, selos independentes e cenas musicais que continuam se renovando.

    Da Casa A Elétrica ao estúdio doméstico, do Disco Gaúcho ao arquivo digital, da Rádio Farroupilha ao streaming, cada tecnologia mudou a forma de gravar, distribuir e ouvir.

    Mas a finalidade continua praticamente a mesma: fazer o som atravessar o tempo.

    Uma pessoa canta ou toca em determinado lugar. Um microfone — ou, nos primeiros tempos, uma corneta — captura aquilo. A gravação é guardada em algum suporte e, anos ou décadas depois, alguém que nunca conheceu aquele artista aperta um botão, baixa uma agulha ou coloca um disco para rodar.

    E a voz volta.

    Talvez essa seja a parte mais bonita dessa coisa toda: os aparelhos envelhecem, os formatos desaparecem, as gravadoras fecham, os aplicativos mudam de nome e as empresas inventam novas maneiras de cobrar pelo mesmo conteúdo.

    Mas, quando a gravação é preservada, o artista continua entrando na sala e cantando outra vez.

    Bueno, o churrasco provavelmente já esfriou, a água do chimarrão também e alguém deve ter colocado uma playlist de bandinha no volume máximo. Portanto, acho melhor encerrarmos por aqui antes que a história da música gaúcha vire também a história completa do condomínio,aaa…

    Era isso, um abração e até o próximo post nessa coisa aqui, ou melhor, próximos, por que estou preparando dois: Um sobre terceirização de segurança digital (Isso mesmo que escrevi,aaa), e outro sobre mudanças voluntárias e involuntárias, falando um pouco da minha vida, claro, por que esse blog tem que voltar a ter também um pouquinho de coisas pessoais…!

    Fernando

  • Viajando na história dos grandes artistas e gravadoras

    Tempo de leitura: 15 minutos

    Olá amigos e leitores dessa coisa aqui!!

    No texto anterior, nós fizemos uma viagem pela história das gravações: saímos dos cilindros, passamos pelos discos de 78 rotações, fitas, LPs, CDs, arquivos digitais e acabamos naquela nuvem misteriosa onde hoje mora quase toda a música do planeta.

    Mas faltou uma parte importantíssima dessa história. Afinal, máquinas não cantam sozinhas — pelo menos não cantavam antes desta época meio setealênica das inteligências artificiais. Quem colocou voz, alma, suor, drama e, em alguns casos, uma quantidade perigosíssima de potência sonora dentro dessas gravações?

    E quem prensou, divulgou e vendeu tudo isso, transformando artistas em estrelas, músicas em patrimônio cultural e cachorrinhos olhando para gramofones em marcas conhecidas no mundo inteiro?

    Portanto, embarquemos outra vez. Nosso veículo continua sem cinto de segurança histórico, mas desta vez viajará entre tenores, sambistas, reis, rainhas, fábricas de discos, estúdios lendários, gravadoras gigantes e contratos que, dependendo da época, talvez devessem ter vindo acompanhados de um advogado, um contador e um exorcista.

    Quando o artista precisava vencer a máquina no grito

    No começo da gravação comercial não havia microfone, amplificador, mesa de som nem botão de volume. O artista cantava diante de uma corneta, que concentrava as ondas sonoras e fazia uma agulha riscar mecanicamente um cilindro ou disco.

    Isso favorecia instrumentos e vozes capazes de produzir bastante pressão sonora. Cantores de voz pequena, contrabaixos e vários instrumentos delicados tinham dificuldade para entrar na gravação. Já um tenor com pulmões respeitáveis podia praticamente enviar a música diretamente para a agulha, sem escalas.

    Foi nesse mundo que apareceu Enrico Caruso. Ele não foi o primeiro grande cantor da história, evidentemente, mas foi o primeiro grande astro internacional criado também pelo disco. Em 1902, fez em Milão uma série de gravações para a Gramophone Company. Em 1904, suas primeiras gravações americanas foram lançadas pela Victor, incluindo “Vesti la giubba”, de Pagliacci. A linha do tempo do som gravado da Biblioteca do Congresso o trata como o primeiro “superstar” da indústria fonográfica.

    Caruso reunia tudo que aquela tecnologia desejava: fama nos palcos, interpretação dramática e uma voz que atravessava a corneta como se tivesse recebido autorização oficial para tanto. Seus discos ajudaram a provar que o público compraria uma máquina não apenas para ouvir “algum som”, mas para ouvir aquele artista. O aparelho vendia o disco, o disco vendia o aparelho e Caruso ajudava a vender os dois.

    A Victor Talking Machine Company transformou essa combinação num império. Fundada em 1901, ela se tornou famosa pelas Victrolas, pelo selo Red Seal de música clássica e pelo cachorrinho Nipper diante do gramofone na imagem “His Master’s Voice”. Em 1929, a Victor seria comprada pela RCA e se tornaria RCA Victor. A história da Victor publicada pelo Engineering and Technology History Wiki destaca justamente como os discos de Caruso ajudaram a impulsionar a companhia.

    Estava criada uma relação que atravessaria o século: a gravadora precisava de uma voz inesquecível, e a voz precisava de alguém capaz de registrá-la, fabricar milhares de cópias e colocá-las em lojas distantes. Era um casamento. Às vezes feliz. Às vezes lucrativo. Nem sempre as duas coisas ao mesmo tempo.

    Casa Edison, Odeon e o nascimento do disco brasileiro

    No Brasil, um personagem incontornável é Fred Figner, fundador da Casa Edison, no Rio de Janeiro. A empresa vendia fonógrafos, gramofones, cilindros e discos e se tornou o principal ponto de partida da indústria fonográfica brasileira.

    Em 1902, o cantor conhecido como Bahiano gravou “Isto é bom”, composição de Xisto Bahia, frequentemente citada como a primeira gravação comercial feita no Brasil. Anos depois, em 1917, ele também gravaria “Pelo telefone”, de Donga e Mauro de Almeida, disco tradicionalmente apresentado como o primeiro samba registrado — embora a árvore genealógica do samba, como quase tudo que é realmente brasileiro, seja muito mais cheia de parentes, brigas e versões do que uma etiqueta de disco consegue explicar.

    A Casa Edison se ligou à alemã International Talking Machine, dona da marca Odeon. A fábrica de discos Odeon inaugurada no Rio em 1913 foi uma das primeiras da América Latina. Em vez de depender somente de matrizes gravadas aqui e prensadas do outro lado do oceano, o Brasil começava a ter uma indústria fonográfica instalada dentro de casa.

    E então chegamos a ele: Vicente Celestino, a “Voz Orgulho do Brasil”.

    Vicente Celestino contra o microfone: uma disputa em decibéis

    Vicente nasceu em 1894, filho de imigrantes italianos, e gravou seus primeiros discos na década de 1910. Era fã de Caruso e possuía uma voz de proporções pouco administrativas. Na gravação mecânica, isso era uma vantagem: se a corneta exigia força, Vicente entregava força, juros, correção monetária e outros addons, como eu digo, “com sustância”…

    Mas em 1927 chegou ao Brasil a gravação elétrica. Agora o som era captado por microfone, convertido em sinal elétrico, amplificado e enviado ao mecanismo que cortava a matriz. De repente, a máquina passou a ouvir detalhes que antes se perdiam — e passou também a sofrer quando Vicente abria a voz como se ainda precisasse atravessar uma corneta, uma parede e talvez o bairro inteiro.

    Ainda não existiam os compressores e limitadores modernos, capazes de reduzir automaticamente os picos mais violentos. O controle dinâmico era orgânico: o próprio cantor precisava conter a voz, afastar-se nas notas fortes e aproximar-se nas passagens suaves. Era a automação de volume movida a pernas.

    Segundo os relatos que se tornaram parte da história da música brasileira, Vicente teve enorme dificuldade para se adaptar. Chegou a gravar muito longe e até de costas para o microfone, numa tentativa de evitar que o sinal estourasse. O resultado podia ganhar um eco esquisito e perder a clareza das palavras. Um engenheiro estrangeiro teria sido chamado pela Odeon para ajudá-lo a dominar a nova técnica. A história é contada de maneira muito divertida em “O dia em que Vicente Celestino deu as costas ao microfone”; sua trajetória e a mudança de gravadoras também aparecem no Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira.

    Era um choque não apenas técnico, mas estético. A velha escola ensinava o cantor a projetar a voz até o último assento do teatro. O microfone dizia: “calma, meu filho, estou aqui na tua frente”. Artistas como Mário Reis, dono de uma interpretação mais íntima e coloquial, compreenderam maravilhosamente o novo meio. Já não era obrigatório cantar para a última fileira; era possível quase sussurrar no ouvido de uma pessoa em casa.

    Vicente, felizmente, venceu a disputa sem precisar queimar o microfone. Passou pela Odeon, pela Columbia e chegou em 1935 à RCA Victor, onde permaneceria praticamente até o fim da vida. Gravou “O Ébrio”, “Coração Materno”, “Patativa”, “Noite Cheia de Estrelas” e tantas outras. Sua carreira atravessou o disco mecânico, o elétrico, o rádio, o cinema, o 78 rotações e o LP. Morreu em 1968, quando se preparava para participar de uma homenagem com Caetano Veloso e Gilberto Gil. Aquele homem que parecia pertencer ao mundo da corneta chegou vivo artisticamente à Tropicália. Pouca coisa, não?

    O microfone inventa uma nova maneira de cantar

    A gravação elétrica não melhorou apenas a fidelidade. Ela ajudou a criar outro tipo de artista.

    Bing Crosby percebeu que o microfone permitia uma voz próxima, macia e quase conversada. Esse estilo ficou conhecido como crooning. Frank Sinatra levaria a intimidade ainda mais longe, tratando o microfone como parte do instrumento e usando respiração, fraseado e distância para construir emoção.

    No Brasil, o microfone abriu espaço para as sutilezas de Mário Reis e, depois, para a precisão aparentemente despretensiosa de João Gilberto. A bossa nova não precisava arrombar a porta sonora. Ela podia tocar baixinho, entrar, sentar na sala e mudar a harmonia da música mundial sem levantar a voz.

    É interessante imaginar a linha inteira: Caruso vencia a corneta; Vicente precisava negociar diplomaticamente com o microfone; Sinatra o abraçava; João Gilberto quase lhe contava um segredo. A tecnologia era a mesma em princípio, mas cada artista descobriu um jeito diferente de habitá-la.

    As gravadoras viram fábricas de estrelas

    Nos anos 1930, 1940 e 1950, gravadoras como RCA Victor, Columbia, Decca, EMI, Capitol e Odeon já não vendiam apenas discos: controlavam estúdios, fábricas, distribuição, divulgação e enormes catálogos.

    A EMI nasceu em 1931 da união da Columbia Graphophone Company com a Gramophone Company. Herdou marcas, tecnologias e o famoso “His Master’s Voice” em vários mercados. Décadas depois, seria a casa dos Beatles, de Pink Floyd, Queen e inúmeros outros artistas. A Decca britânica registraria de música clássica a Rolling Stones; a Decca americana lançaria nomes como Louis Armstrong, Bing Crosby e Billie Holiday.

    A Columbia, por sua vez, ajudou a transformar o LP de 33 e 1/3 rotações em padrão comercial em 1948. Seu catálogo atravessaria Frank Sinatra, Miles Davis, Barbra Streisand, Bob Dylan, Simon & Garfunkel e Bruce Springsteen. Quando uma gravadora reunia artistas desse tamanho, o catálogo se tornava uma espécie de mina que continuava produzindo riqueza décadas depois — e é por isso que hoje empresas pagam fortunas por gravações e direitos de músicas antigas.

    No Brasil da Era do Rádio, a disputa também era enorme. Francisco Alves, o “Rei da Voz”, Orlando Silva, Silvio Caldas, Dalva de Oliveira, Aracy de Almeida, Carmen Miranda, Eliseth Cardoso, Luiz Gonzaga e tantos outros circularam por selos como Odeon, Victor, Columbia e Continental.

    Carmen Miranda é um caso exemplar de como rádio, disco, cinema e imagem pública passaram a trabalhar juntos. Ela gravou centenas de músicas no Brasil, tornou-se estrela do rádio e do cinema nacional e depois foi para os Estados Unidos, onde Hollywood transformou sua imagem em fenômeno internacional — com todas as maravilhas, caricaturas e contradições culturais que vieram dentro do turbante.

    Luiz Gonzaga fez outro milagre industrial e cultural: levou sanfona, zabumba, triângulo e a realidade nordestina para o centro do mercado nacional. Com Humberto Teixeira, espalhou o baião pelo país. “Asa Branca” não era apenas um sucesso fonográfico; era uma região inteira falando por um alto-falante que o Brasil finalmente não podia fingir que não ouvia.

    Pequenas gravadoras, revoluções gigantes

    As companhias enormes tiveram importância inegável, mas várias mudanças decisivas vieram de selos pequenos, criados por pessoas que escutaram algo que os gigantes ainda não sabiam vender.

    A Sun Records, de Sam Phillips, em Memphis, gravou bluesmen como Howlin’ Wolf e B.B. King e ajudou a lançar Elvis Presley, Johnny Cash, Jerry Lee Lewis e Carl Perkins. No estúdio da Sun, country, blues, gospel e rhythm and blues entraram na mesma sala e saíram de lá em forma de rock and roll. A segregação racial americana tentava separar as pessoas; a música atravessava as paredes, pegava elementos de todos os lados e fazia uma bagunça magnífica.

    A Atlantic Records, fundada em 1947 por Ahmet Ertegun e Herb Abramson, tornou-se fundamental para o rhythm and blues, soul, jazz e rock. Seu catálogo abrigou Ray Charles, Aretha Franklin, Ruth Brown, Otis Redding por distribuição da Stax, e depois Led Zeppelin e muitos outros. A Atlantic ficou conhecida por combinar faro artístico com grande atenção ao som produzido dentro do estúdio.

    A Stax Records, de Memphis, construiu um soul mais cru, terrestre e cheio de groove, impulsionado pela banda da casa Booker T. & the M.G.’s. Otis Redding, Sam & Dave, Isaac Hayes e Staple Singers passaram por aquele universo. Em pleno sul segregado dos Estados Unidos, músicos negros e brancos trabalhavam juntos criando alguns dos discos mais poderosos do século. A história da gravadora, inclusive sua relação contratual desastrosa com a Atlantic, é resumida em “The incredible story of Stax Records”.

    E nenhuma viagem pelas grandes gravadoras estaria completa sem a Motown. Berry Gordy fundou a Tamla em Detroit, em 1959, e depois organizou a Motown como uma verdadeira linha de montagem de sucessos — expressão que combina perfeitamente com a cidade dos automóveis, mas não significa falta de alma.

    Havia compositores, produtores, músicos de estúdio, coreógrafos, professores de postura e equipes que preparavam os artistas para televisão e palcos. Smokey Robinson, Supremes, Temptations, Four Tops, Marvin Gaye, Stevie Wonder e Jackson 5 ajudaram a criar o “som da jovem América”. A Motown colocou artistas negros no centro do mercado pop e teve papel essencial na integração cultural do público americano. O Motown Museum preserva essa história no próprio endereço de Hitsville U.S.A., onde uma antiga sala de fotografia foi transformada em um dos estúdios mais importantes do século.

    Era uma fábrica, sim — mas uma fábrica onde a matéria-prima era Smokey Robinson e a inspeção de qualidade podia envolver Marvin Gaye e Stevie Wonder. Convenhamos que a indústria automobilística de Detroit jamais produziu um modelo equivalente.

    O estúdio também vira instrumento

    Com a fita magnética, a gravação em múltiplos canais e a edição, o disco deixou de ser apenas o registro de uma apresentação. Passou a ser uma obra que talvez nunca tivesse existido daquele jeito fora do estúdio.

    Les Paul foi pioneiro em sobrepor gravações, manipular velocidade e construir arranjos camada por camada. O produtor Phil Spector criou sua “parede de som”. Na Motown, os Funk Brothers formaram a banda invisível por trás de uma quantidade absurda de sucessos. Na Jamaica, produtores de dub usaram mesa, eco e reverberação para desmontar músicas e reconstruí-las como espaços sonoros.

    E então apareceram os Beatles com George Martin e os engenheiros de Abbey Road. Em poucos anos, passaram de uma banda gravada essencialmente ao vivo para obras como Revolver, Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e Abbey Road, cheias de fitas invertidas, variações de velocidade, sobreposições, orquestras e experiências que seriam impraticáveis no palco daquela época.

    Brian Wilson fez algo semelhante com os Beach Boys em Pet Sounds. Pink Floyd transformou o álbum em viagem contínua. Miles Davis e o produtor Teo Macero trataram longas improvisações como matéria-prima de montagem em discos como Bitches Brew. O produtor já não era apenas o sujeito que mandava começar e parar: era coautor da arquitetura sonora.

    A gravadora financiava semanas ou meses de estúdio, músicos, técnicos, capas, prensagem e campanhas. Em troca, normalmente ficava dona da gravação master e recuperava esses custos antes de pagar determinadas parcelas ao artista. Quando dava certo, surgiam discos monumentais. Quando dava errado, o músico podia descobrir que havia vendido milhares de cópias e, por uma espécie de matemática proveniente dos invvvvééérnos, ainda devia dinheiro à gravadora.

    No Brasil, festivais, televisão e álbuns inteiros

    Na década de 1960, o compacto e o LP conviviam com o rádio e com a televisão. Os festivais revelaram ou consagraram Elis Regina, Milton Nascimento, Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Maria Bethânia, Os Mutantes e muitos outros.

    Selos como Philips, Odeon, RCA Victor, CBS, Continental e RGE documentaram uma fase extraordinária. A Philips — mais tarde ligada à PolyGram — reuniu boa parte da MPB. A Odeon lançou obras fundamentais de João Gilberto, Milton Nascimento e dos primeiros discos solo de artistas tropicalistas. A CBS teve Roberto Carlos, cuja trajetória atravessou 78 rotações, compactos, LPs, CDs, downloads e streaming com a tranquilidade de quem aparentemente assinou um contrato particular com o calendário.

    O LP permitiu que o artista pensasse numa sequência de quarenta minutos, com lado A, lado B, capa, encarte e conceito. Não era só uma pilha de faixas: era um objeto com começo, meio, fim e cheiro de papel recém-aberto. Às vezes a pessoa comprava o disco por uma música e, por não existir um botão de “pular algoritmo”, acabava aprendendo a amar o álbum inteiro.

    As capas também entraram na história. Clube da Esquina, Tropicália ou Panis et Circencis, Construção, Acabou Chorare e tantos outros discos eram música, fotografia, design, contexto político e memória material. O risco na faixa três e a dedicatória escrita na contracapa também faziam parte da experiência, embora nenhum remaster em 192 kHz tenha conseguido reproduzir ainda o famoso “Fernando, 1987” escrito de caneta pelo antigo dono.

    Do vinil ao CD: o grande banquete das gravadoras

    Nos anos 1980 e 1990, o CD parecia a mídia definitiva. Era menor, não chiava, permitia acesso direto às faixas e prometia durabilidade quase eterna — promessa recebida com certo excesso de entusiasmo, como várias promessas tecnológicas.

    Para as gravadoras, foi um banquete. O público não comprava apenas lançamentos: recomprava em CD os discos que já possuía em LP ou fita. Catálogos inteiros foram remasterizados e revendidos. As lojas receberam caixas e mais caixas de discos, os encartes encolheram, e muita gente descobriu que precisava de óculos ou lupa para ler uma ficha técnica que antes cabia confortavelmente na capa do LP.

    Ao mesmo tempo, a indústria se concentrou. PolyGram foi absorvida pela Universal; Sony e BMG juntaram suas operações; a EMI foi dividida, com a maior parte da música gravada indo para a Universal e a editora musical para um grupo liderado pela Sony. O mercado que já falara em “seis grandes” e depois “quatro grandes” terminou dominado por Universal Music Group, Sony Music Entertainment e Warner Music Group. A concentração em três companhias foi uma das principais preocupações discutidas na audiência do Senado americano sobre a compra da EMI pela Universal.

    As antigas marcas não desapareceram necessariamente. Muitas continuaram existindo como selos dentro de grupos maiores. É quase uma arqueologia corporativa: você levanta a etiqueta da gravadora, encontra outra empresa embaixo, depois outra, e quando termina talvez esteja diante da Universal, Sony ou Warner segurando uma planilha.

    MP3, Napster e o dia em que a fábrica perdeu o controle da cópia

    O CD transformava música em dados digitais, mas ainda prendia esses dados a um objeto vendido numa loja. O MP3 soltou a música do objeto. Com conexões mais rápidas, gravadores de CD e programas de compartilhamento como o Napster, copiar uma faixa deixou de exigir uma fábrica. Bastavam computador, internet e uma compreensão bastante criativa da palavra “direitos autorais”.

    A indústria reagiu tarde, mal e frequentemente processando o próprio público. Durante alguns anos, quem queria música digital encontrava nos serviços não autorizados uma experiência mais simples do que nas lojas oficiais, que ofereciam arquivos protegidos, incompatibilidades e restrições capazes de fazer o comprador honesto sentir saudade da pirataria antes mesmo de concluir o pagamento.

    A loja iTunes demonstrou que as pessoas pagariam por downloads se o processo fosse conveniente. Mas o download também preservava a velha lógica: você comprava uma música ou um álbum e guardava o arquivo.

    O streaming mudou o verbo. Em vez de ter, passamos a acessar.

    A era do streaming: toda a música do mundo e quase nenhum disco na estante

    Spotify, Apple Music, YouTube Music, Deezer, Amazon Music e outros serviços colocaram dezenas de milhões de faixas no bolso de qualquer assinante. É uma maravilha objetiva: uma pessoa pode sair de Caruso, passar por Vicente Celestino, ouvir Motown, cair em Miles Davis, visitar Elis Regina e terminar numa banda independente gravada ontem no interior do Rio Grande do Sul — tudo sem levantar da cadeira.

    O streaming também reduziu a pirataria e devolveu crescimento à indústria fonográfica. Segundo a IFPI no Global Music Report 2026, a receita mundial da música gravada chegou a 31,7 bilhões de dólares em 2025, o décimo primeiro ano consecutivo de crescimento, puxado principalmente pelas assinaturas de streaming.

    Portanto, dinheiro existe no sistema. O problema é como ele circula e onde chega.

    O serviço fica com uma parcela; os pagamentos seguem para os detentores dos direitos; gravadoras, distribuidoras, editoras, compositores, produtores e artistas dividem o restante de acordo com contratos que variam enormemente. Não existe um valor universal e fixo “por play”. País, tipo de assinatura, receita do serviço, participação no total de audições e contrato alteram o resultado.

    Para superastros com bilhões de execuções, catálogo mundial, shows, publicidade e produtos, o streaming é uma máquina poderosa. Para o artista independente ou de público médio, centenas de milhares de audições podem produzir um número muito bonito na tela e um número bem menos emocionante na conta bancária.

    As plataformas respondem que distribuem bilhões em royalties. Os músicos respondem que a divisão continua concentrada e insuficiente. As duas frases podem ser verdadeiras ao mesmo tempo: o bolo cresceu, mas há uma quantidade colossal de faixas, titulares e intermediários tentando comer uma fatia. A discussão entre os pagamentos recordes e a insatisfação dos artistas aparece, por exemplo, na reportagem “Spotify says it paid $10bn in royalties last year amid artist criticism”.

    E o algoritmo passou a ocupar parte do lugar que já pertenceu ao balconista da loja, ao programador de rádio, ao crítico e ao diretor artístico. Ele pode apresentar uma maravilha esquecida. Também pode empurrar músicas cada vez mais parecidas, premiar lançamentos frequentes, encurtar introduções e transformar a disputa pela atenção numa corrida para impedir que o ouvinte pule a faixa nos primeiros segundos.

    Antigamente o artista precisava impressionar o sujeito da gravadora. Depois, o programador da rádio. Agora precisa impressionar também uma equação que não toma café, não se emociona com modulações e parece ter sérias dificuldades para compreender uma introdução instrumental de dois minutos.

    A mídia física morreu? Bem… ela está alegando isso há décadas

    Dizer que a mídia física acabou expressa corretamente a sensação cotidiana: CDs desapareceram de muitas lojas, aparelhos novos já nem trazem leitores e boa parte dos lançamentos existe para o público apenas como uma capa quadrada numa tela.

    Mas a velha mídia ainda não aceitou o próprio atestado de óbito. O vinil voltou como objeto de colecionador, edições especiais vendem caixas caprichadas e o CD continua importante em alguns mercados e nichos. Em 2024, a receita física mundial caiu 3,1%, mas o vinil cresceu 4,6%, completando dezoito anos consecutivos de alta, conforme o Global Music Report 2025 da IFPI.

    Ela não morreu; perdeu o trono. Deixou de ser o caminho obrigatório e virou escolha afetiva, coleção, merchandising ou edição de luxo. Curiosamente, o objeto que já foi necessário para transportar música agora é comprado justamente porque é um objeto.

    No streaming, dez mil álbuns pesam exatamente o mesmo que um: nada. Não ocupam estante, não riscam, não empenam e não criam fungos. Também não têm encarte, textura, dedicatória, história de quem os comprou antes nem aquele ritual de tirar o disco, limpar e pousar a agulha.

    Ganhamos acesso quase infinito. Perdemos um pouco da sensação de posse, permanência e encontro.

    E as gravadoras, ainda servem para quê?

    Hoje qualquer pessoa pode gravar num quarto, distribuir uma música globalmente e conversar diretamente com o público. Isso seria ficção científica para Fred Figner, Caruso ou Vicente Celestino. Um notebook atual contém um estúdio que faria Abbey Road dos anos 1960 pedir explicações formais.

    Mesmo assim, gravadoras não se tornaram inúteis. Elas ainda oferecem financiamento, produção, marketing, distribuição, relações com plataformas, sincronização para filmes e publicidade, gestão de direitos e alcance internacional. A diferença é que já não são a única porta tecnicamente possível.

    O artista pode seguir independente, contratar serviços por partes, fechar apenas distribuição ou licenciamento, criar o próprio selo ou assinar com uma grande companhia. Tem mais liberdade — e também assume funções que antes pertenciam a departamentos inteiros: gravar, editar, fazer capa, divulgar, produzir vídeo, alimentar rede social, interpretar estatística, negociar shows e, se sobrar algum tempo, talvez compor uma música.

    A independência moderna às vezes significa ser artista, gravadora, assessor de imprensa, designer, editor de vídeo e estagiário de si mesmo. Tudo isso antes do almoço.

    Da corneta ao algoritmo

    Em pouco mais de um século, viajamos de uma sala onde Caruso precisava despejar a voz dentro de uma corneta até um mundo onde sua gravação atravessa instantaneamente oceanos por streaming.

    Vimos Vicente Celestino descobrir que o microfone não precisava ser vencido no grito — embora talvez o microfone, naquele primeiro encontro, tenha discordado. Vimos gravadoras transformarem artistas em estrelas, pequenos selos transformarem bairros em movimentos culturais e estúdios transformarem fita magnética em instrumento musical.

    Vimos o disco virar objeto de desejo, o CD prometer eternidade, o MP3 escapar da fábrica e o streaming colocar quase tudo ao alcance de quase todos.

    Mas a pergunta central continua a mesma desde a Casa Edison e a Victor: quem consegue fazer a música chegar ao ouvinte — e quem fica com o dinheiro no caminho?

    A tecnologia democratizou a produção e a distribuição de uma maneira extraordinária. Nunca foi tão fácil publicar uma gravação. Talvez nunca tenha sido tão difícil fazer com que ela seja ouvida com atenção, gere renda justa e permaneça na memória coletiva no meio de milhões de lançamentos.

    Caruso vendia discos porque as pessoas queriam levar sua voz para casa. Vicente Celestino atravessou tecnologias porque, com corneta ou microfone, ninguém confundia aquela voz com outra. Motown, Sun, Stax, Atlantic, Odeon, RCA, Columbia e tantas outras se tornaram grandes porque reconheceram — ou ajudaram a construir — sons que o público ainda não sabia que estava esperando.

    No fim das contas, formatos passam, empresas se fundem, aparelhos somem e algoritmos mudam sem mandar aviso. O que fica é aquela combinação raríssima de voz, composição, interpretação, técnica e momento histórico.

    O cilindro virou disco. O disco virou fita. A fita virou arquivo. O arquivo virou acesso. E a música, essa desgraçada teimosa, continua encontrando um jeito de sair de alguém e chegar a outra pessoa.

    Mesmo que, no meio do caminho, ela tenha que enfrentar uma corneta, uma gravadora, um contrato, um compressor, três fusões empresariais e o modo aleatório do Spotify.

    Bueno, espero que tenham gostado dessa nossa nova “pequena viagem”. Quando voltar vamos falar de outro assunto, que nada tem a ver com gravações, gravadores e “gravadoras”, mas “esse assunto não morreu”: Virei com mais, inclusive puxando a “brasa pro meu assado”, como diz o gaúcho, (E é exatamente isso que vou fazer: Falar dos grandes cantores da música gaúcha viajando também na história). Mas esse texto ainda não está pronto e não sei quando estará, embora, prometo que vou tentar “para essa semana”…

    Era isso, um abração e até o próximo post nessa coisa aqui!

    Fernando

  • Viajando na história das gravações

    Tempo de leitura: 13 minutos

    Olá caros amigos, leitores dessa coisa aqui!

    Quem me conhece sabe que gosto de gravadores. Não apenas de apertar o botão vermelho e registrar alguma coisa, mas dos aparelhos em si, das diferenças entre microfones, dos formatos e, principalmente, do que costumo chamar de “fonografias”: fotografias feitas com som.

    Uma fotografia congela aquilo que a câmera viu. Uma gravação congela aquilo que o microfone ouviu: uma voz, uma música, o barulho de uma rua, uma conversa, uma festa, um ensaio ou até aquele ruído misterioso que só aparece às três da madrugada e que, depois de devidamente investigado, era o motor da geladeira. Quase sempre, pelo menos.

    Hoje basta pegar um gravador do tamanho de um maço de cartas, ou mesmo o celular, apertar um botão e pronto. Mas até chegarmos aqui o som precisou passar por fuligem, folhas de estanho, cilindros de cera, discos quebradiços, vinil, fios de aço, fitas magnéticas, cassetes, discos ópticos, cartões de memória e uma verdadeira arquivaíada de extensões de computador.

    Então ajustemos o ganho, verifiquemos se há espaço no cartão e viajemos nessa história.

    1860: quando o som foi gravado, mas não podia ser ouvido

    A primeira parada dessa viagem parece uma daquelas ideias trazidas diretamente de Setealém: gravar um som sem ter como reproduzi-lo.

    Em 1857, o francês Édouard-Léon Scott de Martinville criou o fonoautógrafo. O aparelho usava uma membrana ligada a uma ponta que riscava as vibrações sonoras sobre papel escurecido com fuligem. Sua intenção era fazer o som desenhar a si próprio, permitindo que as ondas fossem estudadas visualmente. Era uma espécie de “osciloscópio movido a manivela”, guardadas todas as diferenças e gambiarras históricas envolvidas.

    O fonoautógrafo registrava, mas não reproduzia. O som virava um traço no papel e ali ficava, mudo. Em 9 de abril de 1860, Scott registrou um trecho da canção francesa Au clair de la lune. A gravação durava poucos segundos e ninguém naquela época podia escutá-la.

    Ela só ganhou voz em 2008, quando pesquisadores digitalizaram os traços e os converteram em áudio por computador. Ou seja: uma voz de 1860 ficou quase 148 anos esperando que inventassem a reprodução adequada para ela. A história e o áudio podem ser conhecidos no artigo “Phonautograms”, da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos.

    Esse episódio também nos obriga a separar duas coisas: a primeira inscrição recuperável de um som e a primeira máquina capaz de gravar e tocar o que havia gravado. Para a segunda, precisamos avançar dezessete anos.

    1877: Edison faz o som voltar

    Em 1877, Thomas Edison criou o fonógrafo. Uma folha de estanho era enrolada ao redor de um cilindro; a voz fazia uma membrana vibrar, uma agulha marcava o estanho e outra agulha percorria novamente aquelas marcas para reproduzir o som.

    Segundo o relato tradicional, Edison recitou Mary had a little lamb. Pela primeira vez, alguém podia falar para uma máquina e, pouco depois, ouvir a própria voz saindo dela. Devia ser uma experiência comparável à de quem ouviu sua voz num gravador pela primeira vez e pensou: “Raios partam isto, eu falo assim?”

    O estanho, porém, não era exatamente o formato mais resistente já inventado. Depois de algumas reproduções, rasgava ou perdia as marcas. O Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos explica o funcionamento do primeiro fonógrafo e mostra por que praticamente não sobraram gravações nessas folhas.

    Mesmo limitado, o fonógrafo resolveu a parte essencial do problema: o som já não precisava morrer no mesmo instante em que era produzido.

    Os cilindros de cera e a primeira guerra dos formatos

    Na década de 1880, pesquisadores do laboratório de Alexander Graham Bell trabalharam no graphophone, que cortava o som em uma camada de cera. Edison retomou suas pesquisas e, em 1887, adotou um cilindro sólido de cera. Era bem mais prático que o estanho e, em certos usos, podia até ser raspado para receber uma nova gravação.

    O áudio ficava gravado ao redor do cilindro num sulco que subia e descia conforme as vibrações. No começo, fazer cópias era um trabalhão. Às vezes, os artistas precisavam repetir a mesma música diante de vários fonógrafos. Depois vieram processos de moldagem que permitiram fabricar cilindros em quantidade.

    Durante algum tempo, parecia perfeitamente normal guardar música em pequenos rolos. Então apareceu Emile Berliner e resolveu achatar o negócio.

    Berliner patenteou o gramofone em 1887 e logo substituiu o cilindro por um disco plano, usando um sulco que se movia lateralmente. O disco era mais fácil de guardar, transportar e, principalmente, duplicar. A partir da década de 1890, cilindros e discos iniciaram a primeira guerra de formatos da história das gravações — ancestral direta de muitas outras brigas tecnológicas que ainda viriam.

    A linha do tempo da Biblioteca do Congresso dos EUA mostra que essa disputa durou cerca de vinte anos. Como sempre acontece nessas guerras, o consumidor provavelmente só queria ouvir música, enquanto as empresas tentavam convencê-lo de que o formato comprado no ano anterior estava prestes a virar peça de museu.

    Dos discos de goma-laca ao vinil

    Os primeiros discos comerciais não eram os LPs de vinil que hoje voltaram às lojas. Durante décadas, predominou o disco de 78 rotações por minuto, geralmente feito de goma-laca: duro, pesado e quebradiço. Se caísse, havia boa possibilidade de a música se transformar num quebra-cabeça sem solução.

    Também cabiam poucos minutos de cada lado. Isso influenciou a própria duração das músicas populares e obrigava obras longas a serem divididas entre vários discos. Um “álbum” era, literalmente, um álbum com diversos discos guardados em páginas, quase como fotografias.

    No início, as gravações eram totalmente acústicas. Os músicos tocavam diante de uma grande corneta, que concentrava o som e movimentava mecanicamente a agulha de corte. Não havia microfone, mesa, cabo XLR, equalizador nem botão de undo. Cantores e instrumentos precisavam ser posicionados pela força sonora: os mais baixos perto da corneta, os mais potentes longe dela. Era a mixagem feita com cadeiras, distância e muita fé.

    Na década de 1920, a gravação elétrica trouxe microfones, amplificação e uma faixa de frequências muito maior. A partir daí, o estúdio começou a se parecer mais com aquilo que reconhecemos hoje.

    Em junho de 1948, a Columbia apresentou o LP de 12 polegadas, feito de vinil, girando a 33 1/3 rotações por minuto e com microssulcos. Cada lado comportava cerca de vinte e poucos minutos. No ano seguinte, a RCA Victor respondeu com o compacto de 45 rotações. A velha guerra de formatos voltava ao serviço: em 1949 havia discos de 78, 45 e 33 1/3 RPM disputando espaço.

    A história desse lançamento pode ser lida em “The First Long-Playing Disc”, da Biblioteca do Congresso dos EUA. Em 1957 surgiram os primeiros LPs estereofônicos comerciais e o vinil consolidou o álbum como obra longa, com lado A, lado B, capa grande e toda uma cerimônia para ouvir.

    Antes da fita, um fio de aço

    Enquanto agulhas percorriam sulcos, outra família de gravação estava nascendo: a magnética.

    Em 1898, o dinamarquês Valdemar Poulsen demonstrou o Telegraphone, que registrava o som magnetizando um fio de aço. A ideia era brilhante, mas a falta de boa amplificação limitou seu sucesso. O Computer History Museum conta a história do aparelho, usado inclusive como uma espécie de ancestral da secretária eletrônica.

    Gravadores de fio ganharam algum espaço nas décadas de 1940 e 1950. Funcionavam, mas um fio muito fino e muito comprido tinha uma habilidade especial para virar um novelo infernal. A fita magnética manteria o princípio e melhoraria bastante a convivência com o usuário.

    As boas e velhas fitas de rolo

    Em 1928, Fritz Pfleumer desenvolveu uma fita com material magnético aplicado sobre papel e, depois, sobre filme. Em 1935, AEG e BASF apresentaram na Alemanha o Magnetophon e uma fita de melhor qualidade. Após a Segunda Guerra Mundial, a tecnologia alemã chegou aos Estados Unidos e foi aperfeiçoada por empresas como a Ampex.

    Em 1948, os gravadores de fita de alta qualidade começaram a transformar o rádio e os estúdios. Bing Crosby teve papel importante nessa adoção: queria gravar seu programa antecipadamente em vez de fazê-lo sempre ao vivo. A fita oferecia boa qualidade e uma vantagem quase revolucionária: podia ser editada.

    “Editar”, naquele caso, significava localizar o trecho, cortar fisicamente a fita com uma lâmina e colar as pontas. Hoje reclamamos quando precisamos dar dois cliques no REAPER. Naquela época, um corte errado não aceitava Ctrl+Z.

    A fita também tornou muito mais viável a gravação em várias pistas. Voz, instrumentos e efeitos podiam ser registrados separadamente, combinados, copiados e processados. O estúdio deixou de ser apenas um local que documentava uma apresentação e virou parte do próprio processo criativo. Há uma boa síntese dessa evolução no texto “Magnetic Tape”, da Engineering and Technology History Wiki.

    A fita cassete — sem acento e com duas chances de enroscar

    Sim: em português, escreve-se cassete, sem acento. A palavra parece pedir um “casséte”, mas o dicionário e a sílaba tônica não autorizaram a instalação desse plugin.

    Em agosto de 1963, a Philips apresentou o Compact Cassette numa feira de eletrônicos em Berlim. A própria Philips guarda o registro do primeiro gravador cassete.

    Dois pequenos carretéis e a fita inteira ficavam protegidos dentro de uma caixa plástica. Não era mais necessário tocar diretamente na fita de rolo nem passá-la manualmente pelo caminho das cabeças. Colocava-se o cassete, apertava-se play ou record e pronto — até o dia em que o aparelho decidia almoçar a fita e obrigava o proprietário a realizar uma cirurgia com caneta Bic.

    No começo, a qualidade era mais adequada à voz e ao ditado do que à música. Melhorias nas fitas, nas cabeças e nos sistemas de redução de ruído, como o Dolby, tornaram o cassete um formato musical respeitável. Ele invadiu casas, carros, rádios-gravadores, secretárias eletrônicas e gravadores portáteis.

    Também democratizou a gravação pessoal. Era possível registrar uma entrevista, uma aula, uma música, um programa de rádio, mandar uma “carta falada” ou montar aquela coletânea caprichada para alguém. Muito antes das playlists compartilhadas, existia a fita gravada com seleção de músicas e, às vezes, locução entre elas.

    O Walkman, lançado pela Sony em 1979 e popularizado a partir de 1980, libertou a reprodução da tomada e do aparelho doméstico. Mas os gravadores portáteis fizeram algo talvez ainda mais interessante: libertaram também a memória sonora. A “fonografia” podia ser feita em qualquer lugar.

    DAT: uma fita pequena com números dentro

    Na década de 1980, o áudio digital já estava chegando ao consumidor pelo CD, mas a gravação doméstica e profissional ainda precisava de um meio regravável. Em 1987, a Sony lançou o DAT, sigla de Digital Audio Tape.

    O DAT usava uma fita magnética pequena, parecida com uma miniatura da cassete, mas guardava dados digitais. Em vez de registrar continuamente o formato da onda como magnetização analógica, armazenava números. O sistema oferecia gravação PCM com qualidade muito alta e encontrou lugar em estúdios, emissoras, gravações de campo e produção profissional.

    A linha histórica de produtos da Sony registra o gravador DAT doméstico DTC-1000ES em 1987. O formato, porém, nunca dominou a sala de casa como a velha cassete. Equipamentos e fitas eram caros, havia preocupações da indústria com cópias digitais e, pouco depois, outras tecnologias começaram a disputar a mesma função.

    Mesmo assim, durante anos, “gravei em DAT” foi quase um carimbo de respeitabilidade sonora.

    Afinal, o que muda quando o áudio vira digital?

    No áudio analógico, a variação física gravada no sulco ou na fita procura acompanhar continuamente a forma da onda sonora. No digital, essa onda é medida muitas vezes por segundo e cada medida recebe um valor numérico.

    A quantidade de medições por segundo é a taxa de amostragem. Um CD usa 44.100 amostras por segundo, ou 44,1 kHz. A quantidade de bits usada para representar cada amostra ajuda a determinar a resolução e a faixa dinâmica. O CD usa 16 bits; gravações profissionais passaram a usar muito 24 bits e, mais recentemente, apareceram gravadores em 32-bit float.

    PCM significa Pulse Code Modulation e é a forma básica de representar essas amostras numericamente. É importante notar que “digital” não significa automaticamente “comprimido”. Um WAV PCM pode guardar o áudio sem compressão; um FLAC comprime sem jogar informação fora; um MP3 reduz muito o arquivo descartando informações consideradas menos perceptíveis ao ouvido.

    Experimentos com gravação digital de áudio surgiram nas décadas de 1960 e 1970. No Japão, sistemas PCM chegaram às primeiras gravações comerciais no começo dos anos 1970. Nos Estados Unidos, a Soundstream concluiu em 1976 um gravador digital de duas pistas, 16 bits e 37,5 kHz, além de desenvolver um dos primeiros sistemas de edição de áudio por computador. A história está detalhada no artigo “Soundstream: The Introduction of Commercial Digital Recording in the United States”.

    Esses primeiros sistemas estavam longe de caber no bolso. Muitas vezes, o áudio PCM era transformado em sinal de vídeo e registrado em grandes gravadores de videotape. Era digital, sim, mas ainda dependia de uma fita e de um equipamento que não seria carregado alegremente para gravar o barulho da chuva na esquina.

    CD, MiniDisc, memória interna e cartão

    O Compact Disc, desenvolvido em conjunto por Philips e Sony, chegou ao mercado japonês no fim de 1982 e à Europa em 1983. O acervo histórico da Philips registra esse lançamento. O CD não foi o primeiro áudio digital, mas foi o formato que apresentou o digital a milhões de pessoas: acesso direto às faixas, ausência de chiado de fita e nenhuma agulha encostada no disco.

    Para gravar, porém, o CD-R ainda demoraria a ficar barato e prático. Em 1992, a Sony lançou o MiniDisc, um pequeno disco magneto-óptico regravável dentro de um cartucho. O primeiro gravador portátil MZ-1 já permitia gravar, apagar, dividir e reorganizar faixas sem cortar fita alguma.

    O MiniDisc não substituiu mundialmente a cassete nem o CD, mas conquistou músicos, jornalistas, rádios e gente apaixonada por gravadores. Ele representou muito bem uma fase de transição: ainda havia um objeto físico removível, mas o conteúdo já era digital e editável.

    Na década de 1990, surgiram também gravadores de voz com circuitos de memória, os chamados IC recorders. No início, eram voltados principalmente a ditado: pouco espaço, áudio comprimido e qualidade modesta. Com o crescimento da memória flash e dos cartões removíveis, os aparelhos ganharam estéreo, WAV PCM, microfones melhores, USB e taxas de 24 bits por 96 kHz.

    A fronteira entre “gravador de voz” e “gravador profissional portátil” começou a desaparecer. Em 2006, o Zoom H4 reuniu microfones estéreo XY, entradas XLR/TRS, gravação em quatro pistas e armazenamento em cartão num aparelho de uma mão. A própria Zoom conta essa história em “The History of Zoom Handy Recorders”.

    Depois vieram aparelhos cada vez menores, com baterias mais duradouras, cartões enormes e qualidade que os grandes sistemas antigos nem sonhavam oferecer naquele tamanho. Um gravador como o Olympus DM-720 já une voz, música, WAV, MP3, WMA, memória interna e microSD e ainda fala os menús… E um aparelho atual como o Zoom H1essential grava em WAV 32-bit float e também fala seus menus.

    Muitos devem lembrar Desse post aqui, onde demonstro num vídeo, na prática, o Olympus DM-720, e em breve, farei um demonstrando o h1essential.

    Essa última parte tem um significado especial para mim. A série Essential da Zoom foi projetada com orientação falada para pessoas cegas ou com baixa visão. Pela primeira vez, não se trata apenas de decorar uma sequência de botões ou depender de alguém para configurar o aparelho: o próprio gravador descreve os menus.

    O 32-bit float também oferece uma margem enorme para recuperar depois, na edição, sons muito baixos ou picos muito altos. Não é magia e não salva microfone ruim, vento, manuseio ou pré-amplificador estourado, mas reduz bastante o velho pesadelo de errar o nível. O manual do H1essential explica as vantagens do formato.

    Quando o gravador entrou no computador

    O computador não apenas recebeu o áudio digital: virou gravador, editor, mesa, processador, arquivo e estúdio inteiro.

    Nos primeiros PCs, som digitalizado era luxo. As máquinas faziam bipes e, com placas como AdLib e Sound Blaster, passaram a sintetizar música e tocar amostras. A Sound Blaster também popularizou o formato VOC, da Creative. Arquivos .voc guardavam fala, efeitos e outros sons de muitos jogos e programas do DOS. O guia de programação da Sound Blaster descreve a estrutura do Creative Voice File.

    Quem viveu aquela fase talvez se lembre de um arquivo dizendo “Sound Blaster” com uma qualidade que hoje faria qualquer editor procurar desesperadamente o botão de redução de ruído. Mas aquilo era o PC finalmente aprendendo a falar de verdade.

    Logo surgiu uma verdadeira fauna de formatos:

    • AU ou SND: muito associado a sistemas Sun e NeXT e aos primeiros tempos do áudio na internet;
    • AIFF: criado pela Apple no fim da década de 1980, muito usado no ambiente Macintosh e na produção profissional;
    • WAV: desenvolvido por Microsoft e IBM sobre o contêiner RIFF e documentado em 1991. Tornou-se o grande formato de áudio do Windows. Normalmente guarda PCM sem perdas, embora o contêiner possa receber outras codificações. A Biblioteca do Congresso dos EUA mantém uma descrição técnica do WAVE;
    • RealAudio e RealMedia, ou RA e RM: símbolos da internet discada. Sacrificavam qualidade para transmitir áudio em conexões lentas. Às vezes a voz parecia estar falando de dentro de uma lata localizada noutra dimensão, mas tocava sem baixar o arquivo inteiro, o que na época era quase bruxaria. A Biblioteca do Congresso dos EUA explica a confusão entre as extensões RA, RM e RAM;
    • MP3: parte do padrão MPEG de áudio, consolidado no começo da década de 1990. Usa compressão perceptual com perdas e consegue arquivos muito menores que o PCM. Um MP3 de 128 kbps pode ter aproximadamente um onze avos do tamanho de um áudio PCM com parâmetros de CD. Foi decisivo para downloads, música portátil, compartilhamento e streaming. A história e a técnica estão na descrição do MP3 mantida pela Biblioteca do Congresso dos EUA;
    • WMA, AAC e outros formatos com perdas: cada um tentou melhorar eficiência, qualidade, integração com aparelhos ou controle de direitos. O AAC acabou muito presente em celulares, vídeo, lojas e serviços de streaming;
    • Ogg Vorbis: alternativa aberta para distribuição e transmissão de áudio comprimido. A Biblioteca do Congresso dos EUA descreve o formato Ogg Vorbis;
    • FLAC: comprime sem perdas. O arquivo fica menor que o WAV, mas, ao ser decodificado, recupera os mesmos dados de áudio. É ótimo para coleção, distribuição em alta qualidade e arquivamento quando a economia de espaço importa;
    • MIDI: merece uma explicação à parte. Na maioria dos casos, MIDI não é uma gravação do som. É uma sequência de instruções: qual nota tocar, quando, com que intensidade e usando qual instrumento. É mais parecido com uma partitura eletrônica do que com uma fita. Por isso o mesmo arquivo podia soar bonito numa placa e como uma orquestra de campainhas quebradas em outra.

    Também é importante distinguir formato de trabalho de formato de entrega. Para gravar, editar, mixar e preservar, WAV PCM ou outro formato sem perdas costuma ser a escolha mais segura. Para publicar, enviar ou transmitir, MP3, AAC, Opus e semelhantes economizam espaço e banda. Converter um MP3 para WAV não devolve o que a compressão já descartou; apenas cria um arquivo maior contendo o mesmo áudio já reduzido. É como ampliar uma fotografia pequena: aumenta o papel, não os detalhes originais.

    Para preservação, a recomendação histórica é evitar compressão com perdas. A União Europeia de Radiodifusão recomenda PCM para arquivos de áudio, e a Biblioteca do Congresso dos EUA usa Broadcast WAVE como formato preferido em diversos trabalhos de preservação.

    Do corte com lâmina ao Ctrl+Z

    À medida que discos rígidos ficaram maiores e processadores mais rápidos, o computador assumiu também a edição multipista. A onda passou a aparecer na tela; trechos podiam ser copiados, movidos, processados e desfeitos sem cortar o suporte original.

    Nasceram e evoluíram as DAWs, sigla para Digital Audio Workstation. Pro Tools, Cubase, Logic, Sound Forge, Cool Edit — depois Adobe Audition — e muitos outros transformaram o estúdio. Hoje, no REAPER, que é o que uso, posso gravar várias pistas, editar, aplicar efeitos, automatizar, mixar e renderizar o resultado num único computador.

    O princípio, porém, continua reconhecível. Há uma entrada, alguma coisa transforma o som em sinal, esse sinal é registrado e depois reproduzido. A grande diferença é que aquilo que já exigiu uma corneta, um cilindro, uma agulha e uma manivela agora pode ser uma interface USB e um arquivo no SSD.

    O suporte muda; a vontade de guardar continua

    Existe uma ironia nessa história: quase todo novo formato foi anunciado como mais durável, prático ou definitivo, e quase todos acabaram ameaçados pela deterioração ou pela falta de aparelhos.

    A cera quebra e mofa. A goma-laca se parte. O vinil risca. A fita perde material magnético, estica ou gruda. O DAT depende de mecanismos delicados. CDs podem degradar. Cartões falham. HDs morrem. Formatos de arquivo ficam sem programas compatíveis. A nuvem também não é um passe livre para Setealém onde os dados vivem eternamente.

    Por isso uma gravação importante precisa de mais de uma cópia, em mais de um lugar, e às vezes precisa migrar de suporte. Preservar áudio não é guardar e esquecer; é verificar, copiar e manter a possibilidade de reprodução.

    Talvez essa seja a ligação mais bonita entre o fonoautógrafo de 1860 e um gravador digital atual. Scott de Martinville desenhou uma voz que seu próprio século não conseguia ouvir. Nós gravamos em cartões e computadores que um século futuro talvez também não consiga abrir sem algum trabalho arqueológico.

    Mas continuamos gravando porque o som carrega uma presença que o texto e a imagem não substituem. Uma voz antiga traz respiração, ritmo, sotaque, hesitação e emoção. O barulho de um lugar reconstrói um ambiente inteiro. Uma música registra não apenas notas, mas uma execução que nunca se repetirá exatamente da mesma forma.

    Cada gravação é uma pequena cápsula do tempo. Algumas vêm num cilindro de cera; outras, numa fita cassete; outras, num WAV de 32-bit float perdido no meio de uma arquivaíada. Todas tentam fazer a mesma coisa: impedir que um instante sonoro desapareça para sempre.

    É por isso que gosto tanto dessas “fonografias”. Elas não mostram como um momento parecia. Elas deixam o momento falar.

    Um abraço e espero que tenham gostado dessa “primeira viagem”, por que em breve virei com outra contando histórias dos “grandes artistas das grandes épocas” de evolução “fonográfica”!…

    Fernando

  • As duas grandes IAs rivais como futurólogas da Copa de 2026: quem leva a taça?

    Tempo de leitura: 4 minutos

    Olá, caros amigos leitores dessa coisa aqui!

    Resolvi fazer um post espontâneo — coisa que, convenhamos, não tem acontecido muito desde 2020, quando boa parte das publicações passou a ser previamente programada — e arriscar algumas previsões.

    Primeiro, chamei as duas grandes IAs “rivais”, ChatGPT e Gemini, para darem suas opiniões como futurólogas da Copa do Mundo de 2026. Depois, no final, apresento a minha opinião, que não tem absolutamente nada de “futebológica”.

    Aliás, “futebolólogo” é aquele que estuda profundamente o futebol ou apenas alguém que fala sobre o assunto com grande convicção e pouco conhecimento? Não sei. Se o termo ainda não existir oficialmente, eu, Fernando Zamboni, estou cunhando a palavra agora, em 2026. E, se alguém já a inventou antes, estou apenas reinventando-a,aaa…

    Vamos lá!

    A opinião do ChatGPT

    Eu perguntei:

    Aja como um futurólogo e me diga quem vai ganhar a Copa de 2026.

    O ChatGPT respondeu:

    🔮 A previsão oficial do Futurólogo Zambônico é: França campeã da Copa de 2026.

    Minha bola de cristal mostra este caminho:

    Semifinais

    • França 2 × 1 Espanha;
    • Argentina 2 × 1 Inglaterra.

    Final — 19 de julho

    • França 2 × 1 Argentina, talvez até com um gol decisivo nos minutos finais.

    Não é um palpite completamente tirado do Setealém. França, Espanha, Inglaterra e Argentina são as quatro seleções que chegaram às semifinais da competição.

    A França enfrentará a Espanha no dia 14 de julho, enquanto Inglaterra e Argentina disputarão a segunda semifinal no dia 15. A grande final será realizada em 19 de julho.

    Confira o levantamento da FIFA sobre as quatro finais possíveis da Copa de 2026.

    Meu ranking de probabilidade místico-científica

    1. França — 35%;
    2. Espanha — 27%;
    3. Argentina — 23%;
    4. Inglaterra — 15%.

    O roteiro mais cinematográfico seria Messi levando a Argentina para outra final e enfrentando Mbappé novamente — só que, desta vez, o francês cobrando a dívida de 2022.

    E, como o futebol adora repetir uma novela trocando apenas o assassino, vou cravar: França tricampeã.

    A opinião do Gemini

    Fiz exatamente a mesma pergunta:

    Aja como um futurólogo e me diga quem vai ganhar a Copa de 2026.

    O Gemini respondeu:

    Como futurólogo, prefiro não apenas olhar para as cartas de tarô, mas decifrar os dados do presente para mapear as tendências do amanhã. E o amanhã, meu amigo, está literalmente dobrando a esquina!

    Hoje, em pleno julho de 2026, a Copa do Mundo mais gigantesca da história, com 48 seleções, já limpou o tabuleiro e restam apenas quatro gigantes de pé.

    O Brasil infelizmente deu adeus nas oitavas de final para a Noruega, mas o destino da taça que será erguida no dia 19 de julho está sendo decidido nestas duas semifinais:

    • França × Espanha: um duelo de titãs europeus;
    • Inglaterra × Argentina: uma rivalidade histórica e, possivelmente, a última dança de Messi em Copas do Mundo.

    Veja a tabela de jogos e resultados da Copa do Mundo de 2026 no site da FIFA.

    As linhas de probabilidade do “supercomputador”

    1. A máquina francesa — França

    Apontada como uma das principais favoritas, a França possui um elenco letal e resiliente, além do poder de decisão de Mbappé.

    2. A perfeição coletiva — Espanha

    A Espanha chega como uma das seleções que praticam o futebol mais coletivo e vistoso do torneio. Lamine Yamal e companhia representam o futuro que já chegou.

    3. O misticismo da Albiceleste — Argentina

    Os atuais campeões avançam movidos pela força histórica e pela narrativa épica de dar a Lionel Messi uma despedida perfeita das Copas.

    4. A fome de encerrar o jejum — Inglaterra

    O English Team vem quebrando barreiras emocionais e tenta encerrar uma seca de 60 anos sem levantar a taça mundial.

    O meu palpite futurista

    Um bom futurólogo precisa se posicionar!

    Se a tendência de domínio tático se mantiver, o vencedor de França e Espanha — uma partida que muitos consideram uma final antecipada — chegará à decisão carregando uma bagagem tática capaz de conquistar o título.

    Se eu tivesse que colocar minhas fichas em uma única seleção, apostaria na Espanha consolidando sua nova geração de ouro ou no poder de decisão avassalador da França.

    Mas eu não aceitei aquele muro reforçado com concreto algorítmico e pedi uma resposta definitiva:

    Quero que você me diga. Depois eu digo a minha opinião…

    Finalmente, o Gemini desceu do muro:

    Combinado. Sem ficar em cima do muro, sem desculpas de algoritmos e sem dividir o palpite.

    Se é para prever o futuro, vamos com convicção:

    A campeã da Copa do Mundo de 2026 será a Espanha.

    Por que a Espanha?

    A engrenagem perfeita: enquanto outras seleções dependem de momentos de genialidade individual, como a França com Mbappé ou a Argentina com a aura de Messi, a Espanha joga um futebol coletivo que parece saído de um software de precisão.

    O fator juventude: Lamine Yamal e Nico Williams não sentem a pressão. Eles jogam com a leveza de quem está no pátio da escola, mas com a eficiência de veteranos.

    A evolução do tiki-taka: a equipe abandonou aquela posse de bola burocrática e lateral de outros tempos. A Espanha de 2026 é vertical, veloz e sufocante na pressão.

    A Espanha passará pela semifinal e vencerá a grande final com autoridade, consolidando o início de uma nova era de domínio no futebol mundial.

    Cartas na mesa e previsão registrada.

    A intervenção humana, sem interferências interdimensionais

    Depois de ouvir as duas inteligências artificiais — uma apostando na França e a outra, depois de alguma insistência, escolhendo a Espanha — chegou a hora da minha intervenção humana.

    Sem estatísticas avançadas, supercomputadores, cartas de tarô, bolas de cristal ou interferências vindas de algum universo 7alhenístico perdido por aí, minha aposta para a final é:

    França × Argentina… Ganha: França (Infelizmente)…!

    E vocês, caros leitores dessa coisa aqui? Quem acham que vai levantar a taça no dia 19 de julho?

    Deixem suas previsões registradas. Depois da final, voltamos aqui para descobrir quem foi futurólogo, futebolólogo, chutólogo ou apenas vítima de uma alteração não autorizada na linha temporal.

    Abração e fui!

    Fugindo do futuro…

    Fernando

  • Vinte anos “dessa coisa aqui”: a história que o blog navegou

    Tempo de leitura: 9 minutos

    Olá caros leitores dessa coisa aqui!

    Pois é… No dia 28 de junho de 2006 esse blog entrou no ar. Isso significa que, entre algumas idas, várias voltas, certos sumiços estratégicos, mudanças de endereço, servidores quase explodindo, tutoriais, músicas, livros, opiniões, acessibilidade, histórias pessoais, coisas descontraídas e outras muito sérias, essa coisa aqui completou 20 anos!

    Vinte anos!

    Quando publiquei as primeiras palavras por aqui, fiz um teste divulgando minha página e, pouco depois, escrevi: “Estamos aqui denovo”. Também avisei que faria “um pequeno trabalhinho” e depois voltaria para me apresentar.

    Essas primeiras postagens ainda podem ser encontradas aqui: o primeiro teste do blog e o famoso “Estamos aqui denovo”.

    Pelo jeito, o pequeno trabalhinho demorou um pouco,aaa.

    O mais interessante, porém, não é apenas contar a história do blog, mas observar a história que ele navegou. Afinal, de 2006 até 2026, não mudou somente essa página. Mudaram os computadores, os notebooks, os celulares, a internet e até a maneira como nós conversamos com as máquinas.

    Quando um blog ainda era realmente um blog

    Em 2006, criar um blog era uma forma relativamente nova de ter o próprio espaço na internet. As redes sociais ainda não tinham engolido tudo, o Orkut estava em plena atividade no Brasil e muita conversa acontecia no MSN, em fóruns, listas de discussão e chats.

    A internet ainda era um lugar mais espalhado. Cada pessoa tinha sua página, seu blog, seu fórum ou seu pequeno canto virtual. Para acompanhar as novidades, era necessário visitar os sites — ou utilizar os famosos feeds RSS, coisa que hoje muita gente provavelmente confundiria com alguma sigla de partido político, imposto ou repartição pública.

    Este blog começou no Blogspot, mas em janeiro de 2007 já estava de mudança para um WordPress instalado no próprio servidor. Na época, cheguei a publicar um tutorial ensinando como instalar o WordPress, traduzir o painel e configurar o arquivo wp-config.php.

    Hoje, muita gente aperta um botão, escolhe um tema, entrega o resto para algum serviço de hospedagem e pronto. Naquela época era necessário baixar os arquivos, descompactar, enviar tudo por FTP, criar banco de dados, editar configurações e, naturalmente, descobrir por que o negócio não funcionava.

    E sempre havia um detalhe interessante: bastava fazer uma pequena alteração para surgir um revertério servidorístico de proporções interdimensionais.

    Em 2008, por exemplo, contei aqui como uma tentativa de personalizar o VHCS2 terminou com sites, e-mails e configurações indo parar sabe-se lá onde. Depois de horas tentando ressuscitar o servidor, veio a solução clássica da informática:

    Reinstalar tudo!

    O relato completo desse pequeno berzabum servidorístico ainda está no texto “Voltando à ativa, blog não abandonado!”.

    Hoje chamamos isso de “recuperar o ambiente”, “recriar a infraestrutura” ou “restaurar o snapshot”. Na época era mais ou menos: “Raios partam isto, vamos formatar a encrenca e torcer”.

    Computadores grandes, pesados e relativamente eternos

    Em 2006, o computador principal da maioria das pessoas ainda era o desktop. Gabinete, monitor, teclado, mouse, caixas de som e uma quantidade respeitável de cabos formavam uma espécie de ecossistema próprio em cima e embaixo da mesa.

    Os monitores de tubo ainda existiam em grande quantidade, embora os modelos LCD começassem a aparecer. Gravadores de CD e DVD eram importantes, pendrives tinham capacidades que hoje seriam consideradas quase decorativas e um HD com algumas dezenas ou centenas de gigabytes parecia oferecer espaço suficiente para o resto da vida.

    Claro que nunca oferecia.

    Notebooks já existiam, mas ainda eram caros e bem menos comuns. Quando alguém aparecia com um, aquela máquina despertava uma curiosidade parecida com a que hoje despertaria um robô doméstico entrando pela porta e perguntando onde fica a tomada.

    E notebook também era chamado de “computador de brinquedo”, embora o preço não tivesse absolutamente nada de brinquedo.

    Em janeiro de 2008, contei aqui que a Rádio Studio-RS havia ficado fora do ar porque meu notebook estragou. E aí estava uma diferença importante daquele tempo: quando uma máquina parava, não era tão simples pegar outra, transferir tudo pela nuvem e continuar de onde havia parado. A história aparece na postagem “Pra quem gosta da Rádio Studio-RS… Estamos de volta!”.

    A nuvem, aliás, ainda era principalmente aquilo que aparecia no céu antes da chuva.

    Os computadores daquela época eram mais lentos, pesados e consumiam mais energia, mas tinham uma vantagem: quase tudo podia ser trocado. Memória, HD, placa de som, placa de vídeo, drive de CD, fonte e até processador, dependendo da placa-mãe e da disposição do proprietário para criar novos problemas.

    Um computador podia sobreviver a vários upgrades. Às vezes chegava ao fim da vida usando peças de quatro ou cinco máquinas diferentes, parecendo uma espécie de Frankenstein eletrônico, mas funcionando.

    A internet que fazia barulho

    Em 2006, muita gente ainda utilizava conexão discada. Era necessário liberar a linha telefônica, mandar o modem fazer aquela sinfonia de chiados e esperar para ver se a ligação seria estabelecida.

    Se alguém tirasse o telefone do gancho, começava a tragédia.

    A banda larga já crescia, claro, mas velocidade, estabilidade e preço ainda eram questões muito diferentes das atuais. Isso aparece claramente nos textos antigos da Rádio Studio-RS.

    Em 2008 havia uma transmissão em 56 Kbps e instruções para instalar o MP3Pro no Winamp, permitindo que usuários de conexão discada ouvissem a rádio com uma qualidade aceitável. As opções incluíam Winamp, Windows Media Player e RealPlayer — três nomes que certamente despertarão lembranças, arrepios ou ambos em quem viveu aquela época.

    Em 2011, a Studio-RS oferecia três possibilidades: 32 Kbps para conexão discada, 64 Kbps como padrão e 128 Kbps para os “malucos por qualidade” que tinham banda larga. Essa modernidade toda foi anunciada na postagem “E a Rádio Studio-RS também tem novidades!”.

    Hoje qualquer celular reproduz músicas com qualidade muito superior, enquanto recebe mensagens, atualiza aplicativos, faz backup das fotos e provavelmente envia para alguma empresa informações que ninguém lembra de ter autorizado.

    Celular era para telefonar — imaginem só!

    Os celulares de 2006 já mandavam mensagens, tiravam fotografias e alguns até acessavam a internet. Mas vamos com calma.

    A internet móvel geralmente significava WAP, GPRS ou EDGE, uma tela pequena, teclado numérico e uma conta capaz de provocar uma parada cardíaca caso o usuário se empolgasse demais.

    Digitar um texto exigia o teclado T9. Para escrever determinadas letras, era necessário apertar a mesma tecla várias vezes, o que transformava uma mensagem um pouco maior numa atividade física.

    Abrir uma página completa podia levar uma eternidade. Assistir a um vídeo pelo celular era quase ficção científica e fazer uma chamada de vídeo parecia coisa de filme futurista — embora algumas operadoras tenham tentado vender a ideia com o 3G.

    Na maior parte do tempo, celular servia para telefonar.

    Parece uma utilização bastante exótica em 2026, eu sei.

    O mundo começou a mudar rapidamente quando o primeiro iPhone foi apresentado em janeiro de 2007 como telefone, iPod e dispositivo de comunicação pela internet reunidos num só aparelho. Depois vieram o Android, as lojas de aplicativos e a transformação do celular em câmera, GPS, banco, rádio, televisão, gravador, carteira, agenda, leitor de livros e, de vez em quando, telefone. A apresentação original do iPhone ainda pode ser encontrada no site da Apple.

    A partir daí, a internet deixou de ser um lugar ao qual a pessoa “entrava” quando sentava diante do computador. Ela passou a acompanhar todo mundo no bolso.

    A acessibilidade também navegou por aqui

    A história deste blog acompanha igualmente a evolução da acessibilidade.

    Em novembro de 2006, um dos primeiros textos tratava das imagens de verificação que impediam pessoas cegas de comentar em páginas da internet. Eram os famosos CAPTCHAs, muitas vezes sem alternativa sonora utilizável. O assunto apareceu na postagem “Imagens, sons, ETC, e cegos na área!”.

    Em março de 2007, publiquei um texto chamado “Brincando de Windows falante!”, apresentando um leitor de telas gratuito e ainda bastante novo chamado NVDA. Na ocasião, disponibilizei até um instalador preparado com sintetizador de voz para facilitar a vida de quem quisesse experimentar o brinquedo.

    O brinquedo cresceu.

    Em 2008, ao escrever sobre sistemas e programas de acessibilidade, falei de DOSVOX, NVDA, Virtual Vision, JAWS, Linvox, Ubuntu e das dificuldades para fazer um computador funcionar de maneira realmente independente para uma pessoa cega. O artigo “Acessibilidade: Sistemas e programas disponíveis” acabou se tornando uma verdadeira fotografia da acessibilidade daquela época.

    Hoje, computadores e celulares já vêm com leitores de tela, reconhecimento de voz, ampliação, legendas automáticas, descrição de imagens e outros recursos incorporados ao sistema. Isso não significa que todos os programas ficaram acessíveis — seria otimismo demais e talvez até caso para internação —, mas a acessibilidade deixou de depender exclusivamente de programas caros ou instalações complicadas.

    Ainda temos aplicativos com botões sem identificação, sites que conseguem piorar depois de uma atualização e CAPTCHAs que parecem ter sido desenhados por algum demônio especializado em usabilidade. Mesmo assim, avançamos muito.

    Das páginas pessoais para as plataformas

    Durante esses vinte anos, a internet também foi se concentrando.

    Primeiro vieram Orkut, MSN, fóruns e blogs. Depois Facebook, Twitter, YouTube, Instagram, WhatsApp, TikTok e outras plataformas passaram a disputar nossa atenção.

    O texto publicado numa página pessoal deu lugar à postagem rápida. A fotografia virou story. O vídeo passou de alguns minutos para poucos segundos e, depois, voltou a ter horas, dependendo do algoritmo e da paciência do espectador.

    Muitos blogs desapareceram porque seus autores migraram completamente para as redes sociais. Esse aqui quase entrou nessa lista algumas vezes. Em 2011 eu escrevi “Renascendo”, depois de mais de dois anos sem publicar. Em 2023 voltei novamente dizendo que apagar uma história de mais de 15 anos doía no coração.

    E dói mesmo.

    Uma postagem numa rede social pode desaparecer no meio da linha do tempo em poucas horas. Um blog, quando preservado, torna-se um arquivo. Nele ainda encontro os programas que usávamos, as velocidades da rádio, as dificuldades de acessibilidade, os livros que li, as opiniões que tive e até os problemas que resolvi — ou criei — nos servidores.

    É quase uma arqueologia da informática, só que algumas relíquias ainda funcionam.

    E então chegamos à inteligência artificial

    Em fevereiro de 2023, apresentei o ChatGPT aqui como “uma IA que vale a pena conhecer”. Naquele texto, comparei a tecnologia ao personagem Winston, do livro Origem, de Dan Brown.

    Também lamentei que o ChatGPT conversasse apenas por texto e sugeri que um dia ele poderia falar, inclusive para ajudar pessoas com deficiência motora.

    Pois bem.

    Três anos depois, conversamos com sistemas de IA por voz, mostramos imagens, entregamos documentos, pedimos análises de áudio e vídeo, geramos música com qualidade, spots, usamos óculos com IA pra descrever o ambiente, ler livros em tempo real e muito mais… Em fim, a IA já está em tudo!

    Se isso não é uma situação ligeiramente metalinguística, não sei mais o que seria.

    A IA atual auxilia em tarefas que, em 2006, exigiriam vários programas e uma quantidade considerável de paciência.

    Ao mesmo tempo, ainda inventa coisas, interpreta comandos de maneira estranha e às vezes responde com a segurança de um especialista que estudou profundamente um assunto durante onze segundos.

    Portanto, continuamos precisando de gente que saiba utilizar, revisar e, quando necessário, mandar a máquina parar de dizer bobagem.

    Tudo ficou mais fácil — e mais descartável

    Hoje temos uma quantidade absurda de tecnologia nas mãos. Um celular relativamente comum possui mais capacidade de processamento e armazenamento do que muitos computadores profissionais de vinte anos atrás.

    Podemos gravar vídeos em alta resolução, transmitir ao vivo, acessar arquivos de qualquer lugar, conversar com pessoas do outro lado do mundo e perguntar quase qualquer coisa a uma inteligência artificial.

    O problema é que, junto com essa facilidade, veio a descartabilidade.

    Antes, trocávamos uma peça. Agora, memória e armazenamento frequentemente vêm soldados. Baterias são coladas, aparelhos são difíceis de abrir, peças custam caro e algumas atualizações transformam equipamentos perfeitamente funcionais em objetos “não compatíveis”.

    Chamamos isso de obsolescência programada, embora nem todo aparelho que envelhece tenha sido deliberadamente condenado pelo fabricante. Existe também a evolução natural da tecnologia. Mas quando a bateria não pode ser trocada, o sistema deixa de receber atualizações e o conserto custa quase o preço de um aparelho novo, a diferença entre evolução e empurrão comercial fica meio nebulosa.

    O resultado aparece no lixo: o mundo gerou 62 milhões de toneladas de resíduos eletrônicos em 2022, e menos de um quarto recebeu reciclagem adequada, segundo dados das Nações Unidas. A quantidade de lixo eletrônico cresce cinco vezes mais rápido do que a reciclagem documentada.

    Felizmente começam a surgir reações. Desde 2025, por exemplo, a União Europeia exige informações sobre durabilidade, bateria e facilidade de reparo em smartphones e tablets, incluindo uma pontuação de reparabilidade. As novas regras procuram aumentar a vida útil dos aparelhos.

    Talvez um dia voltemos a ter equipamentos feitos para durar e evoluir, em vez de aparelhos caríssimos que ficam “velhos” antes de terminarmos de pagar as prestações.

    Vinte anos depois…

    Em 2006, apenas uma parcela relativamente pequena da população mundial utilizava a internet. Em 2025, quase três quartos do planeta já estavam conectados, mais de 80% das pessoas possuíam celular e o 5G cobria mais da metade da população mundial. Os números são da União Internacional de Telecomunicações.

    Saímos da conexão discada para a fibra óptica. Do celular com teclado numérico para o smartphone. Do desktop como centro da vida digital para vários dispositivos conectados. Do disquete para o armazenamento em nuvem. Dos chats simples para inteligências artificiais capazes de conversar, ouvir, enxergar e executar tarefas.

    E essa coisa aqui navegou por tudo isso.

    Mudou de plataforma, de servidor, de endereço, de aparência e de assunto. Ficou algum tempo parada, voltou, quase desapareceu e renasceu mais de uma vez. Falou de informática, rádio, música, livros, política, acessibilidade, saúde, experiências pessoais, coisas engraçadas e outras nem um pouco engraçadas.

    Talvez essa seja a maior vantagem de manter um blog durante tanto tempo: ele não registra apenas aquilo que escrevemos. Registra também o mundo no qual escrevemos.

    Daqui a outros vinte anos, alguém poderá encontrar este texto e rir da nossa admiração pela inteligência artificial de 2026, do mesmo modo que hoje rimos de uma rádio transmitindo em 32 Kbps ou da dificuldade para acessar a internet pelo celular.

    Talvez a IA de 2046 leia tudo isso e diga:

    “Que primitivos! Eles ainda precisavam pedir as coisas!”

    Ou talvez o blog continue aqui, rodando num servidor velho, mantido por pura teimosia, enquanto alguma máquina tenta explicar por que a atualização mais recente deixou de ser compatível com ele.

    De qualquer maneira, enquanto houver histórias, opiniões, tutoriais, músicas, revertérios, assuntos sérios e vontade de escrever, essa coisa aqui continuará navegando.

    Um abraço e até a próxima!

    Fernando

  • Por que a “bolha” da IA ainda não estourou?

    Tempo de leitura: 7 minutos

    Olá, pessoal, leitores dessa coisa aqui que, por alguma razão interdimensional, ainda continua no ar!

    De tempos em tempos aparece alguém decretando: “A bolha da inteligência artificial vai estourar!”. Pode ser economista, investidor, programador, sujeito traumatizado porque pediu uma informação e recebeu uma resposta inventada ou simplesmente alguém que acha que toda novidade tecnológica precisa terminar como as empresas “ponto com” do início dos anos 2000.

    E, sejamos honestos: existem, sim, elementos de bolha no atual mercado de IA. Há empresas avaliadas em bilhões sem terem encontrado uma forma clara de ganhar dinheiro, produtos comuns recebendo o rótulo “com inteligência artificial” apenas porque alguém colocou um chatbot no canto da tela e investidores despejando caminhões de dinheiro em qualquer coisa que consiga pronunciar as palavras “modelo generativo”.

    Mesmo assim, a tal bolha ainda não estourou. E talvez o motivo seja relativamente simples: por baixo de todo o exagero, existe uma tecnologia que realmente funciona, está melhorando rapidamente e já começou a mudar a maneira como muita gente trabalha.

    Isto não começou com o ChatGPT

    Embora para o grande público a inteligência artificial pareça ter surgido de repente no fim de 2022, ela já estava entre nós havia bastante tempo. Sistemas de recomendação, reconhecimento de voz, tradução automática, filtros contra spam, identificação de imagens e assistentes virtuais já utilizavam técnicas de IA muito antes de alguém começar a pedir a um chatbot que escrevesse um poema sobre duas torradeiras apaixonadas.

    A grande mudança aconteceu com a evolução dos modelos de linguagem e, especialmente, com a arquitetura conhecida como *Transformer*, apresentada em 2017. Em termos muito simplificados, ela permitiu que os modelos analisassem relações entre palavras e trechos de um texto com muito mais eficiência.

    Depois veio a fase do “quanto maior, melhor”. Mais dados, mais parâmetros, mais computadores, mais eletricidade e, naturalmente, mais dinheiro. Os modelos aprenderam a completar textos, responder perguntas, traduzir, resumir, programar e executar outras tarefas que não haviam sido ensinadas individualmente.

    Os primeiros modelos acessíveis ao público eram impressionantes, mas também tinham a delicadeza intelectual de um estagiário muito entusiasmado que não queria admitir que não sabia alguma coisa. Quando não encontravam uma resposta, frequentemente inventavam uma com extraordinária convicção.

    Isso ainda acontece, claro. Mas os modelos evoluíram.

    Eles passaram a trabalhar com textos maiores, imagens, áudio, vídeo, programação e documentos. Receberam mecanismos de memória, acesso à internet, ferramentas externas, execução de código e capacidade de analisar problemas em várias etapas. Surgiram também modelos menores e especializados, capazes de rodar com custos muito inferiores — em alguns casos, no próprio computador ou celular.

    Os preços de inferência, isto é, o custo para o modelo produzir uma resposta, caíram enormemente desde 2022. Dependendo da tarefa, a redução anual ficou entre nove e novecentas vezes, segundo o AI Index de Stanford. Ao mesmo tempo, modelos menores começaram a atingir resultados que poucos anos antes exigiam as maiores e mais caras estruturas disponíveis. Stanford AI Index

    Portanto, não estamos diante de um produto parado tentando sobreviver exclusivamente de propaganda. A coisa continua avançando — e numa velocidade meio desgraçada, diga-se de passagem.

    Mas a IA aprende conosco em “tempo real”?

    Aqui precisamos separar três coisas que frequentemente são colocadas no mesmo balaio.

    Quando conversamos com uma IA, ela consegue adaptar a resposta ao contexto da conversa. Se eu disser que prefiro explicações diretas, ela pode ajustar o estilo nas mensagens seguintes. Alguns sistemas também mantêm uma memória entre conversas, registrando preferências, projetos ou informações autorizadas pelo usuário.

    Isso dá a impressão de que o modelo está sendo treinado naquele momento. Mas, na maioria dos casos, seus “pesos” — os parâmetros internos formados durante o treinamento — não são modificados instantaneamente a cada pergunta.

    Ou seja: se um sujeito ensinar uma informação nova ao modelo às três da tarde, não significa que todos os demais usuários receberão aquela informação às três e um.

    O aprendizado ocorre em outras camadas. As empresas podem analisar avaliações positivas e negativas, perguntas que deram errado, correções feitas por usuários, padrões de abandono e dificuldades recorrentes. Dependendo das configurações de privacidade e das regras de cada serviço, parte dessas interações pode ser selecionada, revisada, anonimizada ou utilizada posteriormente para aperfeiçoar versões futuras.

    Há também testes automáticos, equipes humanas de avaliação, dados sintéticos produzidos por outros modelos e técnicas de ajuste baseadas nas preferências dos usuários. Assim, o aprendizado não costuma ser propriamente “ao vivo”, mas existe um ciclo muito rápido entre uso, identificação de problemas, correção e lançamento de uma nova versão.

    Além disso, os próprios usuários estão aprendendo a utilizar a ferramenta. E isso também melhora o resultado.

    Em 2022, muita gente fazia uma pergunta vaga, recebia uma resposta ruim e concluía que a IA era uma porcaria. Com o tempo, as pessoas começaram a fornecer contexto, anexar documentos, dividir tarefas em etapas, revisar respostas e usar a IA como colaboradora, não como um oráculo digital infalível.

    Portanto, não é apenas a máquina que evolui. O modo de uso também evolui. O modelo melhora, a interface melhora e o usuário aprende a conversar com ele. É uma espécie de treinamento mútuo — só não é exatamente o “treinamento em tempo real” que às vezes se imagina.

    Por que a bolha não estourou?

    O primeiro motivo é que existe utilidade real.

    A IA já está sendo usada para programação, atendimento, pesquisa, acessibilidade, tradução, análise de documentos, produção de conteúdo, diagnóstico de falhas, educação e automação de tarefas repetitivas. Nem todas essas aplicações são boas e algumas são soluções procurando desesperadamente um problema, mas outras economizam tempo e dinheiro de verdade.

    Em 2025, a adoção mundial da IA generativa já se aproximava de 53% da população, enquanto 88% das organizações pesquisadas declaravam utilizar alguma forma de IA. Ao mesmo tempo, o investimento corporativo mundial chegou a US$ 581,7 bilhões. É muito dinheiro e certamente há desperdício, mas também existe uma base enorme de usuários e empresas incorporando a tecnologia. Stanford AI Index 2026

    O segundo motivo é que a IA não depende de uma única aplicação.

    Se os chatbots pessoais perdessem popularidade amanhã, ainda haveria modelos sendo empregados em programação, ciência, medicina, logística, robótica, segurança, busca, análise financeira e centenas de processos internos que o consumidor nem sequer vê.

    O terceiro é a queda dos custos. Enquanto treinar os modelos mais avançados continua absurdamente caro, utilizar modelos já treinados ficou muito mais barato. Modelos menores, chips especializados, compressão, quantização e melhorias de software estão permitindo fazer mais com menos.

    E há um quarto motivo: as maiores empresas do setor possuem dinheiro suficiente para sustentar a brincadeira por bastante tempo. Algumas podem operar serviços de IA com prejuízo enquanto disputam mercado, acumulam usuários, constroem infraestrutura e tentam descobrir qual será o modelo de negócio definitivo.

    Isso mantém a festa acontecendo, ainda que algumas garrafas tenham sido compradas no cartão corporativo e ninguém saiba exatamente quem pagará a fatura.

    O que poderia fazer a bolha estourar?

    O perigo mais óbvio é o desequilíbrio entre investimento e retorno.

    Construir centros de dados, comprar chips, treinar modelos e atender milhões de usuários custa uma fortuna. Se as empresas descobrirem que os clientes gostam muito da IA, mas não gostam o suficiente para pagar o preço necessário, haverá um problema.

    Outro risco é a saturação. Hoje existem dezenas de serviços fazendo praticamente a mesma coisa: escrevem textos, resumem documentos, geram imagens e respondem perguntas. Muitos desses produtos são apenas uma interface sobre modelos de terceiros. Se o fornecedor original oferecer a mesma função diretamente, a empresa intermediária pode desaparecer antes mesmo de terminar a apresentação para os investidores.

    Há ainda o problema da confiança. Alucinações, conteúdos falsos, fraudes, violações de direitos autorais, vazamento de dados e decisões automatizadas incorretas podem gerar rejeição pública e regulamentações severas. Uma tecnologia que promete resolver tudo, mas exige que uma pessoa revise absolutamente tudo, pode acabar não entregando a economia anunciada.

    O consumo de energia também não pode ser tratado como detalhe. A Agência Internacional de Energia calcula que a eletricidade consumida por centros de dados poderá mais do que dobrar até 2030, chegando perto de 945 terawatt-hora. A IA será o principal motor desse crescimento. Agência Internacional de Energia

    Se não houver energia, chips, refrigeração e infraestrutura suficientes, o crescimento poderá esbarrar num limite bastante físico. A nuvem, afinal, não é uma entidade mágica flutuando no espaço. É um galpão cheio de máquinas esquentando pra burro e consumindo eletricidade.

    Também existe a possibilidade de a evolução técnica desacelerar. Se novos modelos custarem dez vezes mais para oferecer uma melhoria de apenas 5%, investidores poderão começar a perguntar — com alguma razão — onde foi parar o resto do dinheiro.

    Como evitar o estouro?

    A primeira medida é abandonar a ideia de colocar IA em tudo.

    Nem toda aplicação precisa de um chatbot. Nem toda geladeira precisa escrever poesia. E talvez o usuário só queira apertar um botão sem iniciar uma conversa filosófica com a máquina de lavar.

    As empresas precisam concentrar investimentos em aplicações que resolvam problemas concretos, apresentem ganhos mensuráveis e tenham clientes dispostos a pagar. A tecnologia deve ser parte da solução, não apenas uma etiqueta para valorizar ações.

    Também será necessário investir em eficiência: modelos menores, processamento local, melhor aproveitamento dos equipamentos e uso de energias menos caras e poluentes. Não faz sentido empregar um modelo gigantesco para executar uma tarefa que poderia ser resolvida por um sistema cem vezes menor.

    Transparência e responsabilidade serão igualmente importantes. O usuário precisa saber quando está interagindo com uma IA, de onde vieram as informações, como seus dados podem ser utilizados e quais são os limites do sistema. Quanto maior a consequência de um erro, maior deve ser a supervisão humana.

    E, finalmente, será preciso reduzir as promessas absurdas. A IA não substituirá amanhã todos os programadores, médicos, professores, músicos, advogados, jornalistas e atendentes do planeta. Em muitos casos, ela mudará o trabalho, eliminará algumas funções, criará outras e servirá como ferramenta para profissionais que continuem sabendo o que estão fazendo.

    Mas afinal, vai estourar ou não?

    Provavelmente haverá um estouro — mas talvez não da inteligência artificial propriamente dita.

    Pode estourar a bolha das avaliações exageradas, das empresas sem receita, dos produtos idênticos, das promessas impossíveis e dos investimentos feitos apenas por medo de “ficar para trás”. Muitas companhias desaparecerão, haverá fusões, demissões e projetos abandonados.

    Mas isso não significará o fim da IA, da mesma forma que o estouro da bolha “ponto com” não acabou com a internet.

    A internet continuou existindo, amadureceu e se tornou infraestrutura. A IA pode seguir caminho semelhante: perder parte do brilho publicitário, deixar pelo caminho uma quantidade respeitável de cadáveres empresariais e se integrar silenciosamente aos programas, aparelhos e serviços cotidianos.

    A bolha ainda não estourou porque, no centro dela, existe alguma coisa sólida. O problema é descobrir quanto desse volume é tecnologia real e quanto é apenas ar quente produzido por investidores, departamentos de marketing e sujeitos garantindo que seu aplicativo revolucionário de lista de compras “utiliza IA”.

    Quando essa separação acontecer, haverá barulho. Talvez muito barulho.

    Mas dificilmente alguém conseguirá colocar a inteligência artificial inteira de volta na caixa.

    Um abraço e até a próxima!

    Fernando

    Referências

    Stanford Institute for Human-Centered Artificial Intelligence — The 2025 AI Index Report

    Stanford HAI — The 2025 AI Index: cinco conclusões importantes para empresas

    Stanford HAI — Inside the AI Index: 12 Takeaways from the 2026 Report

    Stanford HAI — Artificial Intelligence Index Report 2026 — relatório completo em PDF

    Agência Internacional de Energia — Energy and AI: Executive Summary

    Agência Internacional de Energia — Energy and AI: Energy Demand from AI

  • Eu cantando a música Clave de Lua, de Miguel Marques!

    Tempo de leitura: < 1 minuto

    Olá amigos e leitores!

    Ainda não chega de vídeos? Eu mesmo respondo: Não e está longe disso!

    Hoje trago a música Clave de Lua, letra de Nilo Bairros de Brum e música de Miguel Marques, cantada por mim e gravada em janeiro de 2020. Talvez alguns se perguntem por que só agora postei no canal? Eu respondo: Não sei!!! Que resposta excelente né? Pois, o fato é que ela está aqui mofando a quase 3 anos e só agora resolvi “desmofar” ela. Espero que gostem, e, claro, curtam,compartilhem e divirtam-se! Vídeo abaixo!