Categoria: Compartilhando pensamentos

Aqui, eu falo dos meus pensamentos, sentimentos, faço alguns protestos, ETC…

  • Do IRC e do PapoVox ao TikTok: a internet aprendeu a conversar e esqueceu de ficar em silêncio

    Tempo de leitura: 17 minutos

    Boa noite pessoal, tudo bem?

    Aqui tudo… Pra quem pensou que hoje eu não apareceria nessa coisa aqui, quero dizer, no blog, cá estou eu,aaa… E desta vez resolvi falar justamente sobre os lugares em que a humanidade passou as últimas décadas aparecendo, desaparecendo, fazendo amizade, discutindo, namorando, trabalhando, publicando a fotografia do almoço e avisando a 394 pessoas que já chegou em casa.

    A história das conversas pela internet não começou com o Facebook, nem com o WhatsApp e muito menos com o TikTok. Quando essas plataformas chegaram, já existiam comunidades online, apelidos, salas de bate-papo, discussões intermináveis, moderadores, mensagens privadas e até gente se apaixonando por alguém que conhecia apenas por algumas linhas de texto. A tecnologia mudou muito; a vontade humana de encontrar outra pessoa do outro lado mudou bem menos.

    Também não foi uma marcha ordeira em que um sistema substituiu o anterior e todos viveram felizes na versão nova. Algumas plataformas morreram, outras foram abandonadas, várias tiveram suas melhores ideias copiadas e umas poucas viraram nicho, perderam o barulho da multidão e continuaram funcionando teimosamente. O IRC é o melhor exemplo dessa turma que ouve há mais de vinte anos que morreu, mas não comparece ao próprio enterro.

    Sumário

    Voltar ao topo

    Antes da Web: computadores que já queriam conversar

    Muito antes de existir uma página da Web, computadores de universidades e grandes organizações já eram usados para trocar mensagens. Em 1973, no sistema educacional PLATO, da Universidade de Illinois, surgiu o Talkomatic, um dos primeiros ambientes de conversa online para várias pessoas. O detalhe mais curioso é que os participantes viam os caracteres aparecendo enquanto o outro ainda digitava. Não havia tempo para corrigir discretamente aquela palavra errada antes de apertar Enter: o revertério ortográfico acontecia ao vivo.

    Em 1978 apareceu, em Chicago, o CBBS, geralmente reconhecido como o primeiro BBS público acessado por ligação telefônica. BBS era a sigla de Bulletin Board System, ou sistema de quadro de avisos. A pessoa usava um modem para ligar diretamente para outro computador, lia mensagens, deixava respostas, baixava arquivos e participava de uma pequena comunidade. Muitos sistemas aceitavam apenas uma ligação por vez. Era uma rede social em que até a solidão precisava aguardar a linha desocupar.

    A Usenet, concebida em 1979 e colocada em funcionamento no começo dos anos 1980, organizou discussões em grupos temáticos distribuídos entre servidores. Não era um chat em tempo real, mas antecipou fóruns, listas e comunidades: havia assuntos, respostas encadeadas, especialistas generosos, discussões excelentes e brigas monumentais por questões que provavelmente já não importavam três dias depois.

    Em 1980, a CompuServe lançou o CB Simulator, um dos primeiros serviços comerciais de conversa em tempo real amplamente disponíveis. Ele imitava o rádio da Faixa do Cidadão e organizava os participantes em canais. Antes de feed, curtida ou seguidor, portanto, já existia a ideia fundamental: entrar numa sala e descobrir quem estava disposto a conversar.

    Essas experiências provam que a comunidade online é mais antiga do que a própria Web. A Web facilitou o acesso e colocou imagens, links e páginas na festa, mas não inventou a festa.

    Voltar ao topo

    IRC: canais, apelidos e uma invenção que se recusa a morrer

    O Internet Relay Chat, nosso conhecido IRC, foi criado em agosto de 1988 pelo finlandês Jarkko Oikarinen, na Universidade de Oulu. A proposta era simples e poderosa: servidores podiam formar redes, usuários escolhiam apelidos e as conversas aconteciam em canais. Também havia mensagens privadas, operadores, bots e comandos como /join, /nick e /msg.

    Nos anos 1990 e no início dos anos 2000, clientes como o mIRC transformaram o IRC numa cidade mundial feita de texto. Havia canais de cidades, música, informática, jogos, namoro, suporte técnico e mais 597 assuntos. Existiam regras próprias, amizades duradouras, guerras de scripts, disputas por apelidos e os famosos netsplits, quando uma ruptura entre servidores fazia metade da sala desaparecer de repente e voltar depois como se tivesse atravessado uma dobra espacial.

    O IRC tinha algo que as plataformas atuais escondem: ele não era um único site nem pertencia a uma única empresa. É um protocolo documentado, implementado por diversos programas e operado por várias redes independentes. Uma rede específica pode fechar, mas nenhum diretor consegue convocar uma reunião na terça-feira e desligar o IRC inteiro na sexta.

    Ele perdeu a multidão quando os mensageiros, a Web e depois os aplicativos móveis ofereceram cadastro mais simples, histórico automático, fotografias, chamadas, notificações e uma interface menos misteriosa para iniciantes. Virou nicho, principalmente em comunidades técnicas, projetos de software livre, grupos que preferem infraestrutura própria e usuários que gostam de uma conversa sem feed algorítmico. Mas nicho não é sinônimo de morto. Às vezes é apenas um lugar que deixou de ter fila na porta e voltou a permitir que as pessoas se escutem.

    Voltar ao topo

    Os chats brasileiros, o PapoVox e a inclusão que falava

    No Brasil da internet discada, os bate-papos dos grandes portais viraram ponto de encontro. UOL, Terra, BOL, iG e outros organizaram salas por cidade, idade, assunto e intenção. O Bate-Papo UOL, criado em 1996 e ainda existente em 2026, atravessou trinta anos de mudanças. Foi ali, e em serviços parecidos, que o famoso “oi, quer tc?” funcionou como cumprimento, convite e teste de paciência da língua portuguesa.

    Os apelidos davam liberdade para experimentar identidades e conversar com desconhecidos, mas também facilitavam mentira, assédio e golpes. A internet não inventou nem a generosidade nem a picaretagem; apenas deu conexão discada para as duas.

    Nesta história, o PapoVox merece muito mais do que uma menção lateral. Integrado ao DOSVOX como “bate-papo sonoro pela Internet”, ele permitiu que pessoas cegas participassem de conversas online por uma interface concebida para uso pelo teclado e pela voz. Pelo menu de acesso à rede, as teclas R e P levavam o usuário ao programa, que trabalhava com servidores e salas compatíveis. Entre elas esteve o Chat SACI, cujo mesmo conteúdo podia ser acessado pela Web ou pelo PapoVox.

    Isso parece apenas uma solução técnica até lembrarmos do que ela realmente modificava. Uma pessoa cega não precisava ficar ao lado de alguém para saber quem estava na sala, ler uma mensagem ou enviar a sua. Podia entrar sozinha, escolher um apelido, conversar, tirar dúvidas, ajudar outros usuários e formar amizades. O PapoVox não tornou somente o computador mais acessível; tornou acessível uma parte da vida social que estava nascendo dentro dele.

    Ao redor do DOSVOX, chats, listas de discussão e iniciativas como a Rede SACI ajudaram a formar uma comunidade de troca de conhecimento. Mais tarde surgiram até clientes alternativos compatíveis com o estilo do PapoVox, como o AlterPapo. Muito antes de “acessibilidade” virar palavra obrigatória em apresentação de empresa, usuários e desenvolvedores brasileiros já demonstravam que inclusão digital não é colocar uma rampa depois que o prédio ficou pronto: é permitir que todos entrem pela porta principal desde o começo.

    Voltar ao topo

    ICQ, MSN e companhia: a era da lista de contatos

    Os chats públicos colocavam desconhecidos numa sala. Os mensageiros instantâneos mudaram o centro da experiência para a lista pessoal de contatos. O ICQ, lançado em 1996, identificava cada usuário por um número e anunciava mensagens com o inesquecível “uh-oh”. O AIM, da AOL, chegou em 1997. O Yahoo! Pager apareceu em 1998 e depois virou Yahoo! Messenger. Em 1999 foi lançado o MSN Messenger, mais tarde rebatizado como Windows Live Messenger.

    Foi a época do status “ausente” enquanto a pessoa estava rigorosamente presente, dos emoticons personalizados, da webcam de qualidade arqueológica, da música exibida no perfil e da tremida de tela do MSN. O botão “chamar a atenção” servia para avisar que alguém tinha algo urgentíssimo a dizer, geralmente “oi”.

    Esses programas criaram uma espécie de sala privada permanente. A identidade já não era apenas o apelido usado naquela noite: havia uma lista de amigos, um estado de presença e a expectativa de que a pessoa pudesse ser encontrada novamente. Muitas características hoje consideradas normais – indicador de digitação, mensagem offline, envio de arquivo, chamada de voz e grupos – cresceram nesse período.

    Quando o telefone inteligente virou o principal computador de muita gente, os mensageiros presos ao desktop perderam espaço para aplicativos ligados ao número do celular, capazes de receber notificações a qualquer momento. Também pesaram aquisições e decisões empresariais. A Microsoft começou a aposentar o Messenger em 2013 para levar os usuários ao Skype. Em maio de 2025, aposentou o próprio Skype para concentrar seus esforços no Teams. É a cadeia alimentar da informática: um programa engole o outro e, alguns anos depois, descobre que também estava no cardápio.

    O AIM foi encerrado em 2017, o Yahoo! Messenger em 2018 e o ICQ em 26 de junho de 2024. Os programas morreram; a linguagem que eles criaram foi distribuída entre praticamente todos os aplicativos seguintes.

    Voltar ao topo

    Quando a conversa ganhou perfil, amigos e vida pública

    Uma rede social moderna não oferecia apenas conversa. Ela apresentava uma identidade persistente: nome, fotografia, interesses, lista pública de amigos e um mural que continuava existindo mesmo quando o dono saía da internet. O SixDegrees, lançado em 1997, costuma ser apontado como um dos primeiros serviços a reunir perfil e conexões de maneira reconhecível para os padrões atuais.

    Depois vieram Friendster, em 2002, MySpace e LinkedIn, em 2003, e então Orkut e Facebook, em 2004. Cada um combinou de maneira diferente três ingredientes que já existiam: identidade, conteúdo e relacionamento. O que mudou foi a escala. Em vez de entrar numa sala para encontrar pessoas, o usuário montava uma casa digital e esperava visitas.

    O MySpace permitia personalizações tão livres que alguns perfis pareciam ter sofrido uma colisão entre uma loja de letreiros luminosos e 14 aparelhos de som ligados ao mesmo tempo. Isso também fazia parte do encanto: o perfil realmente parecia pertencer ao usuário. O Facebook seguiria pelo caminho oposto, com aparência padronizada e identidade baseada, desde cedo, em relações do mundo real.

    Foi nessa passagem que a internet deixou de ser apenas um lugar ao qual se “entrava” para conversar. Ela começou a funcionar como uma representação pública e permanente da pessoa. Amizades ganharam contagem, popularidade ganhou número e a vida social começou a deixar rastros pesquisáveis.

    Voltar ao topo

    Orkut: o país dos scraps, depoimentos e comunidades

    Para o brasileiro, falar da história das redes sociais sem falar do Orkut seria como contar a história do churrasco e esquecer a carne,aaa… Criado pelo engenheiro turco Orkut Büyükkökten como um projeto experimental do Google, o serviço foi lançado em janeiro de 2004 e encontrou no Brasil e na Índia uma popularidade extraordinária.

    Havia scraps públicos, depoimentos que aguardavam aprovação, álbuns de fotografias, fãs, avaliações de confiabilidade e comunidades para absolutamente tudo. Muitas vezes as comunidades descreviam uma pessoa melhor do que o perfil: “Eu odeio acordar cedo”, “Abro a geladeira para pensar”, “Eu amo minha mãe” e outras declarações fundamentais para a compreensão da natureza humana.

    Mas nenhuma rede vive apenas de lembrança boa. O Orkut sofreu com spam, perfis falsos, golpes, páginas maliciosas e uma evolução que parecia lenta diante do Facebook. Ao mesmo tempo, a internet migrou rapidamente para o celular, as fotografias ganharam importância e o feed contínuo passou a organizar a rotina dos usuários. Quando amigos foram saindo, cada pessoa que ficou encontrou menos motivos para continuar. Esse efeito é cruel: uma rede perde valor justamente porque está perdendo gente, e perde mais gente porque perdeu valor.

    Oficialmente, o Google informou que o crescimento de YouTube, Blogger e Google+ havia ultrapassado o do Orkut e que concentraria recursos nessas outras plataformas. O Orkut foi desligado em 30 de setembro de 2014. O Facebook não o matou sozinho, portanto. Houve mudança de hábitos, atraso em áreas importantes, perda do efeito de rede e, por fim, uma decisão empresarial.

    A ironia é que o Google+ também não conquistou uma comunidade ampla. Diante do baixo uso, da manutenção complexa de suas APIs e de problemas de segurança descobertos numa auditoria, sua versão para consumidores foi encerrada em 2019. O Google trocou parte da atenção dedicada ao Orkut por uma rede que também acabaria no cemitério digital. Nem as empresas gigantes estão imunes a um belo revertério estratégico.

    Voltar ao topo

    Facebook, YouTube e LinkedIn: três maneiras de permanecer

    O Facebook nasceu em 2004 dentro do ambiente universitário, abriu-se progressivamente para o público e transformou o feed de notícias no centro da rede. Em vez de visitar o perfil de cada amigo, a pessoa passou a receber uma corrente de publicações escolhidas e ordenadas pela plataforma. Fotografias, páginas, grupos, eventos, vídeos, jogos, anúncios e o botão de curtir fizeram do “Face” uma espécie de shopping center social.

    Ele permaneceu relevante porque mudou várias vezes e porque a empresa construiu um ecossistema maior. O Facebook comprou o Instagram em 2012 e o WhatsApp em 2014, atravessando a migração do computador para o celular mesmo quando o aplicativo principal deixou de ser novidade para os mais jovens. Sobreviver, nesse mercado, quase nunca significa continuar sendo a mesma coisa.

    O YouTube, criado em 2005, seguiu outra rota. Seu primeiro vídeo, “Me at the zoo”, tinha apenas 19 segundos e mostrava um dos fundadores diante de elefantes. A plataforma transformou o vídeo, antes caro e difícil de distribuir, num objeto social. Surgiram canais, inscrições, comentários, transmissões ao vivo e um sistema de remuneração para criadores. O YouTube virou ao mesmo tempo televisão, arquivo, escola, jukebox, mecanismo de busca e palco. Não é uma rede social no molde clássico, mas seria impossível contar a história da sociabilidade online sem ele.

    O LinkedIn, lançado em 2003, sobreviveu por ocupar uma função clara: identidade profissional, contatos de trabalho, recrutamento, vagas e publicação ligada à carreira. Com o tempo também ganhou feed, vídeos e criadores. Às vezes, é verdade, até trocar a lâmpada do escritório parece render uma reflexão em doze parágrafos sobre liderança, resiliência e propósito, mas a rede continua oferecendo algo que nenhuma das outras entrega exatamente da mesma forma.

    As três plataformas demonstram estratégias diferentes de permanência: o Facebook ampliou e comprou partes do ecossistema; o YouTube tornou-se infraestrutura de vídeo; o LinkedIn preservou um propósito especializado. Nenhuma delas ficou parada esperando que a nostalgia resolvesse o problema.

    Voltar ao topo

    Twitter, Instagram e TikTok: da rede de amigos à rede do algoritmo

    O Twitter, lançado em 2006 e rebatizado como X em 2023, fez da brevidade e do tempo real sua identidade. As pessoas acompanhavam acontecimentos, comentavam televisão, divulgavam links e conversavam em público. Hashtags e retuítes nasceram primeiro dos hábitos dos próprios usuários e depois viraram recursos oficiais. Até hoje muita gente continua dizendo “Twitter”, o que mostra que uma empresa pode trocar a placa, mas não consegue atualizar o vocabulário de todo mundo por decreto.

    O Instagram surgiu em 2010 com uma proposta móvel e visual: fotografar, aplicar filtro e publicar. Mais tarde incorporou vídeos, Stories, mensagens, comércio e Reels. O Snapchat, lançado em 2011, popularizou conteúdo efêmero e os Stories; foi declarado morto muitas vezes, mas permaneceu forte em determinados públicos e viu sua principal invenção ser reproduzida pelos concorrentes.

    O TikTok levou outra mudança ao centro da experiência. A ByteDance lançou o Douyin na China em 2016 e o TikTok no mercado internacional em 2017; em 2018, os usuários do Musical.ly foram integrados à plataforma. O vídeo curto já existia – o Vine havia explorado clipes de seis segundos -, mas o TikTok combinou ferramentas simples de criação, música, tendências e uma recomendação extremamente personalizada.

    A diferença fundamental está na pergunta feita pelo sistema. As primeiras redes queriam saber “quem você conhece?”. O TikTok passou a perguntar “o que consegue prender seu olhar?”. Sua página “Para Você” pode apresentar alguém sem qualquer ligação anterior com o espectador e transformar uma publicação em fenômeno. Instagram e YouTube responderam com Reels e Shorts. A rede social baseada no círculo de amigos deu lugar, em boa parte, à rede de interesses calculados pelo algoritmo.

    Reddit, Tumblr e Pinterest seguiram caminhos próprios, sustentando fóruns, fandoms, textos, imagens e coleções temáticas. Mastodon e Bluesky passaram a experimentar modelos menos centralizados. A internet atual não tem uma única praça: tem um conjunto de bairros, palcos, shoppings e corredores, cada um tentando convencer o visitante a não procurar a saída.

    Essa transformação também criou novos desafios de acessibilidade. Uma fotografia sem texto alternativo, um vídeo sem audiodescrição ou legenda e um botão que o leitor de telas não identifica podem excluir alguém da conversa. O PapoVox já havia ensinado uma lição simples: não basta permitir que uma pessoa entre tecnicamente; ela precisa conseguir participar de verdade.

    Voltar ao topo

    WhatsApp, Telegram e Discord: a sala de bate-papo foi para o bolso

    O WhatsApp, fundado em 2009, reduziu drasticamente a distância entre internet e telefone. O número já estava na agenda, as mensagens chegavam por notificação e não era preciso combinar servidor, sala ou apelido. Depois vieram grupos, mensagens de voz, chamadas, vídeo, Status, Comunidades e Canais. O aplicativo deixou de ser apenas um substituto do SMS e virou infraestrutura cotidiana para família, escola, trabalho, comércio, condomínio e aquele grupo que ninguém lembra quem criou, mas do qual ninguém consegue sair.

    O Telegram, lançado em 2013, combinou conversas entre pessoas com sincronização em vários aparelhos, grandes grupos, canais de transmissão, bots e compartilhamento de arquivos. Tornou-se um híbrido: parte mensageiro, parte comunidade e parte veículo de publicação. O Discord, lançado em 2015 com forte ligação aos jogos, organizou texto, voz e vídeo em servidores e canais, lembrando o IRC com uma interface moderna, histórico persistente e 394 recursos a mais.

    Outras opções, como Signal, Slack e Teams, levaram a mesma lógica para privacidade, trabalho e colaboração. As fronteiras ficaram confusas: um grupo de WhatsApp é uma sala de bate-papo privada; um canal do Telegram se parece com uma publicação; um servidor do Discord funciona como fórum, chat e chamada de voz; e uma rede social também oferece mensagens privadas.

    A maior mudança não foi um recurso específico. Nos tempos da conexão discada, a pessoa “entrava na internet”. Com o celular, a internet passou a acompanhá-la. A sala de bate-papo deixou de ser um destino e virou uma presença no bolso, na mesa de cabeceira e, se ninguém impuser algum limite, até no banheiro.

    Voltar ao topo

    O cemitério digital: quem morreu e por quê

    Plataformas não morrem todas do mesmo jeito. Algumas fecham de uma vez; outras perdem os usuários lentamente; outras continuam online, mas já não possuem o papel cultural que tiveram. Eis alguns túmulos, fantasmas e sobreviventes em estado de assombração:

    • SixDegrees: encerrou sua primeira vida em 2001, quando a ideia de rede social ainda estava à frente da quantidade de pessoas conectadas e do modelo de negócio necessário para sustentá-la.
    • Friendster: cresceu depressa, enfrentou problemas técnicos, perdeu usuários para concorrentes, abandonou o formato de rede social em 2011 e encerrou seus serviços originais em 2015.
    • Orkut: perdeu o efeito de rede, ficou atrás na transição de hábitos e foi encerrado pelo Google em 2014 para concentrar recursos em outros produtos.
    • MSN Messenger, AIM e Yahoo! Messenger: foram atingidos pela migração para o celular, pela concorrência de novos aplicativos e pelas decisões de suas empresas. Saíram de cena entre 2013 e 2018.
    • Vine: teve o aplicativo encerrado em 2017. Dificuldades para reter e remunerar criadores, concorrência e falta de prioridade dentro do Twitter enfraqueceram o serviço, embora seu formato sobrevivesse e dominasse a década seguinte.
    • Google+: não obteve adoção e envolvimento suficientes; a complexidade de manutenção e falhas encontradas nas APIs ajudaram a determinar o fim da versão para consumidores em 2019.
    • ICQ: resistiu muito além de sua época de maior popularidade, mas perdeu relevância diante dos aplicativos móveis e foi desligado em 2024.
    • Skype: ajudou a popularizar chamadas pela internet, recebeu usuários do MSN e acabou aposentado pela Microsoft em 2025, que preferiu concentrar sua comunicação no Teams.
    • MySpace: não morreu oficialmente. Perdeu a liderança para o Facebook depois de problemas de desempenho, excesso de publicidade, mudanças de gestão e uma experiência menos uniforme, mas permaneceu na internet com foco muito menor e mais ligado a entretenimento. É menos cadáver e mais artista que ainda faz show para um público específico.

    Há causas que se repetem. Uma plataforma pode não acompanhar a mudança do computador para o celular; pode ficar lenta ou confusa; pode ser tomada por spam e abuso; pode falhar ao remunerar quem produz conteúdo; pode não encontrar dinheiro para pagar a estrutura; ou pode simplesmente deixar de combinar com a estratégia do proprietário.

    Acima de tudo existe o efeito de rede. Uma rede vazia não é útil, por melhor que seja o programa. Quando os amigos mudam de lugar, a pessoa vai atrás. Em pouco tempo, a migração parece inevitável. Não vence necessariamente a plataforma mais bonita ou tecnicamente superior: vence aquela em que estão as pessoas com quem alguém deseja falar.

    As ideias, porém, quase nunca são enterradas. O vídeo curto do Vine reapareceu no TikTok, no Reels e no Shorts. Os canais do IRC ganharam descendentes no Slack e no Discord. As comunidades do Orkut podem ser reconhecidas em grupos do Facebook, fóruns do Reddit e canais do Telegram. Os recursos do MSN estão espalhados pelos mensageiros atuais. Na internet, programas morrem; hábitos fazem transplante.

    Fica uma lição menos nostálgica: quando todo o conteúdo de uma comunidade vive dentro do terreno de uma empresa, a chave continua pertencendo à empresa. Fotografias, textos e anos de conversa podem desaparecer depois de uma mudança de estratégia. Guardar cópias importantes e manter espaços próprios continua sendo uma prudência bastante moderna.

    Voltar ao topo

    Por que o IRC, os fóruns e os blogs continuam por aí

    O IRC sobrevive porque não depende de uma única marca, é leve, funciona em equipamentos modestos, aceita clientes diferentes, pode ser automatizado e entrega exatamente aquilo que promete: conversa em canais. Para quem quer texto, controle e nenhuma seleção algorítmica, a suposta antiguidade vira vantagem.

    Fóruns também permanecem úteis quando uma comunidade precisa organizar conhecimento por assunto e permitir que uma resposta continue localizável anos depois. Listas de discussão seguem vivas em projetos e grupos especializados. Até BBSs continuam sendo mantidos por entusiastas. Nenhum desses formatos precisa recuperar a multidão para justificar sua existência; basta servir bem à comunidade que ficou.

    E os blogs, naturalmente, continuam por aqui – inclusive esta coisa aqui. Eles perderam parte da conversa rápida para as redes, mas oferecem algo raro: espaço, contexto, arquivo e maior controle sobre o próprio conteúdo. Uma publicação numa rede pode desaparecer no feed em algumas horas. Um artigo bem organizado pode ser encontrado, citado e lido muitos anos depois.

    O futuro provavelmente não eliminará os formatos antigos. Continuará empilhando novidades sobre ideias conhecidas. A sala virou canal; o apelido virou nome de usuário; o mural virou feed; a webcam virou live; o scrap virou comentário; o moderador virou equipe de confiança e segurança; e o velho problema de alguém entrar apenas para incomodar continua funcionando perfeitamente em todas as gerações.

    Voltar ao topo

    Fontes e referências

    Para que esta viagem não dependa apenas da memória afetiva – que costuma melhorar a velocidade da internet discada e diminuir misteriosamente o valor da conta telefônica -, foram consultadas as fontes abaixo:

    Voltar ao topo

    O último alerta: quando conexão vira dependência

    Depois de toda a nostalgia, é preciso chegar à parte menos divertida. Redes sociais e mensageiros podem aproximar famílias, reduzir isolamento, criar redes de apoio, divulgar trabalho, ensinar, divertir e dar voz a pessoas que antes não conseguiam participar do espaço público. A própria história do PapoVox mostra que conexão pode significar autonomia e pertencimento. Portanto, usar muito uma rede não transforma automaticamente alguém em “viciado”, e demonizar toda tecnologia seria tão simplista quanto acreditar que ela resolve tudo.

    O problema começa quando o uso deixa de ser uma escolha razoavelmente controlada e passa a prejudicar sono, trabalho, estudo, relacionamentos, saúde ou bem-estar. Pesquisadores preferem muitas vezes a expressão “uso problemático de redes sociais”, pois nem todo hábito intenso constitui uma dependência clínica. A distinção importante não está apenas no número de horas, mas na perda de controle e nas consequências.

    As plataformas têm interesse econômico em prolongar nossa permanência. Rolagem infinita, reprodução automática, notificações, contadores, sequências diárias, curtidas e recomendações personalizadas reduzem os momentos naturais em que alguém poderia pensar “já chega”. A recompensa é imprevisível: a próxima atualização pode ser banal, engraçada, revoltante ou muito importante. Justamente por não sabermos, continuamos rolando. Não é necessário culpar a pobre dopamina por todos os males da civilização; basta perceber que o produto foi cuidadosamente desenhado para pedir mais atenção.

    A comparação social acrescenta outra armadilha. Cada pessoa conhece os bastidores difíceis da própria vida, mas vê a seleção editada da vida alheia: viagem, promoção, corpo perfeito, relacionamento perfeito e café da manhã que parece ter sido montado por uma equipe de cinema. Comparar nossos dias inteiros com os melhores quinze segundos dos outros é uma disputa matematicamente injusta.

    Há também o medo de ficar por fora, conhecido pela sigla inglesa FOMO. A pessoa teme perder uma notícia, uma piada, um convite ou uma discussão e passa a verificar o aparelho quase sem perceber. Notificações interrompem tarefas, a rolagem invade a hora de dormir e o silêncio começa a causar inquietação. Em vez de usar a rede para saber o que aconteceu, a pessoa sente que precisa estar presente para garantir que alguma coisa aconteça.

    Os estudos exigem cautela. Uma revisão sistemática com 182 estudos encontrou associações pequenas, mas significativas, entre uso de redes sociais, depressão e ansiedade entre jovens. O uso problemático apresentou associação com depressão, ansiedade, problemas de sono e menor bem-estar. Associação não prova que a rede seja a única causa: alguém que já está ansioso ou isolado também pode procurar mais intensamente essas plataformas. A relação pode funcionar nos dois sentidos e variar conforme pessoa, conteúdo, contexto e forma de uso.

    Em 2024, a Organização Mundial da Saúde informou que 11% dos adolescentes pesquisados em 44 países e regiões apresentavam sinais de uso problemático de redes sociais, contra 7% em 2018. O mesmo relatório observou benefícios entre usuários intensos cujo uso não era problemático, como maior apoio de colegas e conexão social. A conclusão sensata não é “rede social faz mal” nem “é tudo exagero”, mas que benefícios e riscos convivem e precisam ser administrados.

    Sinais de que a relação pode estar passando do ponto

    • Abrir o aplicativo automaticamente, sem ter decidido fazer isso.
    • Tentar reduzir o uso repetidas vezes e não conseguir.
    • Ficar irritado, ansioso ou vazio quando não é possível verificar as atualizações.
    • Adiar o sono ou acordar durante a noite para olhar mensagens e feeds.
    • Abandonar atividades, compromissos ou conversas presenciais para continuar conectado.
    • Medir o próprio valor por curtidas, visualizações, seguidores ou respostas.
    • Continuar usando mesmo percebendo piora consistente no humor, no trabalho ou nas relações.

    Como recuperar algum controle

    • Desativar notificações que não sejam realmente necessárias.
    • Definir horários para verificar redes, em vez de responder a cada chamado do aparelho.
    • Evitar levar o celular para a cama e criar um período sem tela antes de dormir.
    • Silenciar grupos, deixar de seguir contas que provocam sofrimento constante e organizar o feed de forma consciente.
    • Trocar parte da rolagem passiva por uma atividade com começo, meio e fim: ler um artigo, conversar diretamente com alguém, ouvir um disco, caminhar ou produzir alguma coisa.
    • Observar o motivo do acesso: informar-se, falar com alguém, fugir de uma emoção difícil ou apenas obedecer ao hábito.
    • Procurar ajuda de um psicólogo ou psiquiatra quando a perda de controle estiver causando sofrimento ou prejuízo. Não há vergonha nisso, e simplesmente apagar um aplicativo pode não resolver a ansiedade, a depressão ou a solidão que alimentavam o uso.

    Não é preciso atirar o telefone no Guaíba, mudar para uma caverna e treinar um pombo-correio. A meta não é voltar a 1988 nem fingir que a vida moderna cabe fora da internet. É devolver à tecnologia seu lugar de ferramenta.

    Dos caracteres do Talkomatic aos vídeos escolhidos pelo TikTok, cada geração encontrou uma maneira nova de responder à mesma vontade: “há alguém aí?”. A melhor resposta continua sendo aquela que aproxima pessoas sem aprisioná-las. As redes devem nos ajudar a encontrar os outros – não fazer com que, no caminho, a gente perca a si mesmo.

    Um abraço e… Até a próxima!

    Fernando

    Voltar ao topo

  • PCD, mas nem tanto? Quando a empresa escolhe a deficiência que “dá menos trabalho”

    Tempo de leitura: 12 minutos

    Olá, amigos e leitores dessa coisa aqui!

    Tudo bem?

    Espero que sim…

    Ontem, lendo a postagem de uma amiga no Facebook, me “inspirei” a tratar deste tema. Afinal, a inclusão não deve ser apenas discutida, mas colocada em prática — especialmente por recrutadores e empresas que condenam o capacitismo em suas palestras, mas acabam reproduzindo-o por conveniência.

    Há poucos dias, publiquei o artigo Em Busca de uma Pessoa de Verdade: O Caos das Plataformas de Emprego no Brasil. Falei dos currículos pulverizados, dos processos intermináveis e das respostas automáticas que chegam tão depressa que às vezes parece que o robô rejeitou o candidato antes mesmo de ele terminar de apertar o botão.

    Mas existe uma camada ainda mais complicada nessa bagunça: o que acontece quando o candidato é uma pessoa com deficiência?

    E vou afunilar um pouco mais a conversa. Quero falar principalmente da pessoa com deficiência visual total — a pessoa cega — e de uma situação que muita gente desse grupo conhece bem: a empresa anuncia uma vaga para PcD, declara amor à diversidade, coloca algumas peças coloridas nas redes sociais e, na hora de contratar, procura a deficiência que exija o mínimo possível de mudança.

    A vaga aceita pessoa com deficiência. Desde que ela continue enxergando a tela, caminhe sem obstáculos, use todos os sistemas exatamente como eles já são e não obrigue ninguém a rever processo algum. Ou seja: aceita-se a diferença, contanto que ela não faça diferença.

    É aqui que a inclusão pode virar uma espécie de cardápio de deficiências. A lei fala em oportunidade; parte do mercado traduz como conveniência.

    Antes que alguém entenda tudo pelo lado errado, deixo uma coisa muito clara: pessoas com visão monocular e pessoas com baixa visão têm direitos legítimos, enfrentam barreiras reais e não estão “tomando” a vaga de ninguém. O problema não é o trabalhador contratado. O problema aparece quando a empresa instrumentaliza uma deficiência considerada mais simples de acomodar apenas para marcar a casinha da cota, sem se comprometer com inclusão de verdade.

    É coisa séria. Mas, como o excesso de linguagem corporativa já causou estragos suficientes por hoje, vamos conversar em português humano.

    Sumário

    Empregabilidade não é apenas conseguir entrar

    A gente costuma falar em empregabilidade como se ela fosse uma característica guardada dentro do candidato: formação, experiência, cursos, comunicação, currículo bem escrito e capacidade de aprender. Tudo isso importa, evidentemente. Mas, para uma pessoa com deficiência, a empregabilidade também depende do mundo ao redor.

    Uma pessoa pode ter estudo, experiência e competência e, ainda assim, ser eliminada por um formulário incompatível com leitor de tela, uma dinâmica visual sem alternativa acessível, um teste cronometrado que não admite adaptação ou um recrutador que decide, em trinta segundos, que “a função não combina com o perfil”. Às vezes o perfil profissional combina perfeitamente. O que não combinou foi a deficiência com a imaginação limitada de quem avaliou.

    Por isso, empregabilidade de PcD precisa envolver pelo menos quatro coisas: acesso à seleção, contratação, condições reais de permanência e possibilidade de crescimento. Colocar alguém para dentro, abandoná-lo num sistema inacessível e depois concluir que “não se adaptou” não é inclusão. É preparar uma experiência para dar errado e culpar a pessoa pelo resultado.

    A deficiência não está apenas no corpo. Ela surge também da interação entre a pessoa e as barreiras. Para quem usa leitor de tela, por exemplo, um sistema bem construído pode tornar uma tarefa perfeitamente executável; um botão sem nome, uma tabela mal estruturada ou uma janela que não recebe foco pode transformar a mesma tarefa num labirinto. A competência do profissional não mudou de uma tela para outra. Mudou a qualidade do ambiente.

    Voltar ao topo

    Os números mostram o tamanho da porta estreita

    A sensação de exclusão não vive apenas nos relatos pessoais. Segundo a PNAD Contínua 2022 divulgada pelo IBGE, a taxa de participação na força de trabalho era de 29,2% entre pessoas com deficiência e de 66,4% entre pessoas sem deficiência. O nível de ocupação era de 26,6% para o primeiro grupo e 60,7% para o segundo.

    Nem mesmo o diploma fecha o abismo. Entre as pessoas com nível superior, 54,7% das que possuíam deficiência participavam da força de trabalho, contra 84,2% das que não possuíam. Portanto, a velha resposta automática de que “falta qualificação” explica uma parte do problema, mas está muito longe de explicar tudo.

    O levantamento também mostrou que aproximadamente 55% das pessoas com deficiência ocupadas estavam na informalidade. O rendimento médio real era de R$ 1.860, enquanto chegava a R$ 2.690 entre trabalhadores sem deficiência.

    Em 2025, a Agência Brasil divulgou resultados do estudo Radar da Inclusão, realizado com 1.230 pessoas com deficiência ou neurodivergentes no fim de 2024. Oito em cada dez participantes empregados consideraram que a maioria das empresas não estava preparada para recebê-los, e 33% disseram que o próprio ambiente de trabalho não era devidamente adaptado.

    Quando uma diferença tão grande continua existindo mesmo entre pessoas escolarizadas, não dá para colocar toda a responsabilidade no currículo. Há algo emperrado também do lado de quem recruta, contrata, compra os sistemas e organiza o trabalho.

    Voltar ao topo

    A Lei de Cotas abriu a porta — mas não terminou o serviço

    A chamada Lei de Cotas existe desde 1991. O artigo 93 da Lei nº 8.213 determina que empresas com cem ou mais empregados preencham de 2% a 5% de seus cargos com pessoas com deficiência ou beneficiários reabilitados, conforme o tamanho do quadro.

    Sem essa obrigação, é bastante provável que a presença de PcDs no mercado formal fosse ainda menor. A lei foi e continua sendo essencial. O problema é esperar que uma porcentagem, sozinha, faça o trabalho inteiro da inclusão.

    Cota conta pessoas. Inclusão precisa considerar pessoas, tarefas, ferramentas, acessibilidade, convivência, remuneração e carreira. A empresa pode preencher o percentual e continuar com processo seletivo inacessível, sistema interno impossível de usar, gestores despreparados e funcionários com deficiência estacionados durante anos no cargo mais baixo.

    A Lei Brasileira de Inclusão é bastante direta: proíbe a discriminação em razão da deficiência nas etapas de recrutamento, seleção, contratação, permanência e ascensão profissional. Também assegura trabalho de livre escolha em ambiente acessível e inclusivo, com igualdade de oportunidades.

    Em outras palavras, não basta convidar a pessoa para a fotografia do Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência. É preciso deixá-la participar da reunião na terça-feira, usar o sistema na quarta, fazer o treinamento na quinta e concorrer à promoção quando ela chegar.

    Voltar ao topo

    O cardápio de deficiências e a procura pelo “PcD conveniente”

    A Lei de Cotas não criou uma tabela dizendo que uma pessoa com determinada deficiência vale mais do que outra. Ainda assim, na prática, algumas empresas estabelecem uma hierarquia informal: primeiro vêm os candidatos cuja contratação aparentemente exige pouca ou nenhuma adaptação; mais abaixo ficam aqueles que obrigariam a organização a rever ferramentas, instalações ou atitudes.

    Um estudo publicado na Revista Brasileira de Educação Especial, baseado em entrevistas com profissionais de RH de doze empresas, encontrou um retrato bastante revelador. Em 42% das empresas pesquisadas, as características da deficiência e o nível de escolaridade estavam entre os principais critérios de seleção. Um dos entrevistados chegou a falar na procura por um “menor grau” de deficiência para que a pessoa pudesse desempenhar o trabalho.

    É uma pesquisa localizada e não autoriza dizer que toda empresa brasileira pensa da mesma maneira. Porém, ela documenta algo que muitos candidatos reconhecem imediatamente: a deficiência deixa de ser uma característica da pessoa e vira um filtro de conveniência organizacional.

    Nesse cenário, uma pessoa com visão monocular pode parecer mais atraente ao empregador porque, em muitas funções, continuará usando interfaces visuais sem adaptações significativas. Uma pessoa com baixa visão pode conseguir trabalhar com ampliação, contraste, iluminação adequada ou ajustes de tela. Já a pessoa cega total normalmente dependerá de leitor de tela, navegação por teclado, documentos acessíveis e sistemas compatíveis.

    A Lei nº 14.126/2021 classificou a visão monocular como deficiência sensorial do tipo visual para todos os efeitos legais. Isso foi uma conquista de direitos e deve ser respeitado. A crítica não é à pessoa monocular nem à sua presença na cota. A crítica é à empresa que pensa assim: “Se ambas contam da mesma forma na planilha, vou escolher aquela que não me obriga a mexer em nada”.

    Quando esse raciocínio comanda o recrutamento, a cota deixa de priorizar quem enfrenta barreiras maiores e passa a premiar quem consegue se aproximar mais do padrão que a organização já considera normal. É a inclusão com uma cláusula escondida: pode ser diferente, mas não muito.

    Voltar ao topo

    Por que a cegueira total assusta tanto o recrutamento?

    Em parte, porque quem nunca conviveu com uma pessoa cega imagina a cegueira a partir do que ele próprio faria se fechasse os olhos naquele instante. Como ele não saberia usar o computador, deslocar-se ou executar a tarefa, conclui que ninguém sem visão saberia.

    O erro está em usar a própria falta de treinamento como régua para medir a capacidade do outro.

    Uma pessoa cega não passa o dia tentando trabalhar como um vidente de olhos fechados. Ela usa técnicas, atalhos, leitores de tela, bengala, orientação e mobilidade, memória espacial e outras estratégias desenvolvidas ao longo da vida ou durante a reabilitação. Em informática, muitas tarefas podem ser realizadas com enorme eficiência pelo teclado. Dependendo da função e do profissional, a voz sintetizada do leitor de tela corre numa velocidade que faz alguém não habituado perguntar se o computador começou a falar em código alienígena,aaa…

    O que assusta a empresa, muitas vezes, não é o custo real da adaptação. É o desconhecido. Ela imagina treinamento permanente, dependência constante, risco jurídico e queda de produtividade antes mesmo de perguntar ao candidato de que ele efetivamente precisa.

    Há adaptações físicas que exigem planejamento e investimento, claro. Mas, no caso de muitos postos administrativos, de atendimento, tecnologia, comunicação, educação e trabalho remoto, boa parte da solução pode estar em algo tão pouco cinematográfico quanto instalar um leitor de tela, garantir atalhos de teclado e corrigir um sistema.

    A Fundação Dorina Nowill, que atua diretamente com empregabilidade de pessoas cegas e com baixa visão, destaca que é possível tornar postos de trabalho acessíveis, inclusive para pessoas cegas. A questão central não é descobrir uma ocupação mitológica “para cegos”, mas analisar competências, tarefas e barreiras concretas.

    Também é importante abandonar alguns extremos. A pessoa cega não é incapaz de tudo nem super-herói capaz de qualquer coisa sem adaptação. É um profissional, com qualificações, limitações, experiências, pontos fortes e pontos fracos — uma descrição surpreendentemente parecida com a de qualquer ser humano.

    Vale acrescentar que cada pessoa desenvolve seus próprios métodos e formas de adaptação. O fato de alguém executar determinada tarefa de uma maneira não significa que todas as outras pessoas cegas precisarão da mesma adaptação.

    Voltar ao topo

    Quando o capacitismo começa antes da entrevista

    Capacitismo é a ideia, explícita ou disfarçada, de que pessoas com deficiência são naturalmente menos capazes. Ele pode aparecer numa ofensa direta, mas costuma circular muito bem vestido, com crachá e vocabulário corporativo.

    A vaga diz que é inclusiva, mas o formulário não funciona com leitor de tela. O teste traz imagens sem descrição. A dinâmica exige interpretar uma apresentação visual que não foi enviada em formato acessível. A entrevista começa com perguntas sobre a deficiência antes de chegar às competências. O candidato informa como trabalha e ouve que “o sistema da empresa talvez não esteja preparado”. Depois recebe uma mensagem dizendo que outro perfil está “mais alinhado”.

    Alinhado com quê?

    Às vezes, com a função. Em muitas outras, com a disposição da empresa de não mudar absolutamente nada.

    O capacitismo também aparece quando a deficiência engole o currículo inteiro. A pessoa pode ter anos de experiência, formação técnica e domínio das ferramentas, mas a entrevista vira uma investigação sobre como vai ao banheiro, almoça, chega ao prédio ou encontra uma cadeira. Perguntas sobre necessidades de adaptação são legítimas quando relacionadas ao trabalho e feitas para remover barreiras. O problema é quando servem apenas para calcular o suposto “trabalho” que aquele corpo dará.

    E há o filtro automático. Se o cadastro pergunta o tipo e o grau da deficiência antes de qualquer avaliação humana, a tecnologia pode facilitar uma triagem discriminatória em escala industrial. O robô não inventa preconceito sozinho; ele apenas executa com enorme eficiência os critérios que alguém configurou.

    O estudo da Revista Brasileira de Educação Especial também alerta que instrumentos padronizados, quando não são adaptados, viram barreiras contra determinados grupos. Tratar todo mundo de modo idêntico num ambiente construído para apenas um tipo de pessoa não produz igualdade. Produz exclusão com aparência de neutralidade.

    Voltar ao topo

    O leitor de tela não é o problema; o sistema inacessível é

    Quando uma empresa descobre que o candidato cego usa NVDA, JAWS, VoiceOver ou outro leitor de tela, pode imaginar que precisa substituir metade do prédio por uma nave espacial. Em muitos casos, o leitor já existe, o profissional já sabe usá-lo e o custo da licença pode até ser zero, como ocorre com o NVDA.

    O grande problema costuma morar nos sistemas corporativos: botões sem identificação, menus que só abrem com o mouse, campos sem rótulo, CAPTCHAs sem alternativa, documentos digitalizados como imagem e programas remotos que transformam a tela em algo que a tecnologia assistiva não consegue interpretar.

    Isso não demonstra incapacidade do trabalhador. Demonstra uma dívida técnica da empresa ou do fornecedor do software.

    É curioso observar que organizações gastam fortunas implantando plataformas, integrações e consultorias, mas tratam acessibilidade como um luxo extravagante. Depois descobrem que corrigir o básico melhora o produto para muita gente: navegação por teclado ajuda usuários com limitações motoras e também quem trabalha com atalhos; rótulos claros beneficiam leitor de tela e reduzem confusão geral; bom contraste atende baixa visão e continua útil quando alguém tenta enxergar a tela sob iluminação ruim.

    Acessibilidade não é instalar uma extensão milagrosa depois que tudo ficou pronto. Ela precisa entrar na escolha do sistema, na compra, no desenvolvimento, nos testes e nos contratos com fornecedores. Se a organização adquire uma ferramenta inacessível e depois elimina o candidato porque ele não consegue usá-la, criou a barreira e puniu a pessoa por encontrá-la.

    Uma revisão sistemática sobre pessoas com deficiência visual em contextos de trabalho concluiu que a produção brasileira ainda é incipiente e permanece muito concentrada na entrada dessas pessoas no mercado, havendo pouca discussão sobre práticas organizacionais específicas de inclusão. Isso diz bastante: ainda estamos brigando para chegar à porta quando já deveríamos conversar também sobre carreira, liderança e poder de decisão.

    Voltar ao topo

    Contratou. E agora?

    A contratação não é a linha de chegada. Às vezes é apenas o começo de outro conjunto de barreiras.

    Há empresas que contratam uma pessoa com deficiência, mas não sabem qual atividade entregar. Para “proteger”, reduzem responsabilidades, deixam o funcionário sem tarefa relevante ou o mantêm num canto profissionalmente esterilizado. Parece gentileza; na prática, impede experiência, desenvolvimento e promoção.

    Também acontece o oposto: entregam as mesmas metas, os mesmos prazos e as mesmas ferramentas inacessíveis, sem remover a barreira, e chamam isso de igualdade. Cobrar resultado é natural. Cobrar que a pessoa vença diariamente um sistema que a empresa se recusa a corrigir é outra coisa.

    A inclusão real pergunta:

    • Quais tarefas fazem parte da função?
    • Quais competências o profissional já possui?
    • Que barreiras existem no ambiente físico e digital?
    • Quais ajustes são necessários e quem será responsável por eles?
    • A equipe e a liderança receberam orientação?
    • Treinamentos, avaliações e oportunidades de promoção são acessíveis?

    É muito mais útil perguntar “do que você precisa para executar esta atividade?” do que decidir antecipadamente “isso não é possível para uma pessoa cega”. A primeira pergunta procura solução. A segunda apenas transforma desconhecimento em sentença.

    Inclusão também não significa gratidão eterna pela oportunidade. O funcionário com deficiência tem direito a salário justo, condições adequadas, cobrança compatível, discordância, promoção e até vontade de procurar outro emprego. Contratá-lo não é caridade empresarial; é uma relação profissional.

    Voltar ao topo

    Como sair da inclusão decorativa

    Não existe botão mágico, palestra anual nem selo colorido capaz de resolver tudo. Mas há um caminho bastante concreto.

    1. Descrever a função pelas atividades essenciais. Em vez de presumir que determinado cargo “não serve” para certa deficiência, é preciso analisar o que realmente deve ser feito.
    2. Tornar a seleção acessível desde o início. Formulários, testes, entrevistas por vídeo, documentos e dinâmicas precisam admitir recursos de acessibilidade e adaptações razoáveis.
    3. Não usar o tipo de deficiência como atalho de triagem. A pergunta correta é se a pessoa consegue desempenhar as funções essenciais com os ajustes necessários.
    4. Testar os sistemas com usuários reais. A logomarca da acessibilidade na apresentação comercial do fornecedor não garante que o botão “Salvar” tenha nome quando o leitor de tela chegar nele.
    5. Preparar liderança e equipe. Não para ensinar uma cartilha de frases perfeitas, mas para desfazer mitos, explicar recursos e criar um canal normal de diálogo.
    6. Planejar carreira, não apenas admissão. A pessoa com deficiência deve acessar treinamentos, projetos, avaliações, bônus e promoções em igualdade de condições.
    7. Ouvir a própria pessoa. Nada sobre nós sem nós também vale na reunião em que a empresa decide qual adaptação comprar.

    E um aviso aos setores de RH: não é preciso conhecer todas as deficiências existentes no planeta antes de contratar a primeira pessoa. É preciso abandonar a certeza de que já se sabe o que ela não consegue fazer, conversar com o candidato, buscar apoio especializado quando necessário e assumir a acessibilidade como parte do trabalho.

    Organizações como a Fundação Dorina Nowill oferecem apoio à empregabilidade de pessoas cegas e com baixa visão e ajudam empresas a desconstruir barreiras. Falta de conhecimento pode ser resolvida. Falta de vontade, infelizmente, não vem com instalador automático.

    Voltar ao topo

    Conclusão: não falta capacidade, falta atravessar a barreira

    Não pretendo afirmar que toda empresa discrimina pessoas cegas nem que todo candidato com visão monocular ou baixa visão encontra facilidade. Cada deficiência produz barreiras diferentes, cada pessoa tem uma história e cada função possui exigências próprias.

    O que precisa ser enfrentado é uma lógica muito específica: a de que a melhor pessoa com deficiência para contratar é aquela cuja presença menos obriga a empresa a mudar.

    Essa lógica parece prática, mas é capacitista. Ela seleciona pela conveniência da estrutura e não pela competência do candidato. Também cria uma disputa injusta entre grupos que deveriam ter seus direitos respeitados, como se a pessoa monocular fosse “PcD demais” para umas coisas e “PcD de menos” para outras, enquanto a pessoa cega fosse aceita no discurso e evitada na contratação.

    A Lei de Cotas é necessária, mas a porcentagem não pode virar teto moral. Cumprir a lei escolhendo apenas os candidatos considerados mais fáceis de acomodar talvez preencha uma planilha; não constrói uma empresa inclusiva.

    Como pessoa com deficiência visual total, não quero que alguém ignore as limitações reais da cegueira. Quero justamente o contrário: que elas sejam analisadas com honestidade, junto das minhas competências, das ferramentas disponíveis e das tarefas concretas do cargo — e não transformadas numa incapacidade genérica antes de eu conseguir demonstrar o que sei.

    A empresa não precisa contratar alguém porque sente pena. Precisa deixar de rejeitá-lo porque sente medo de uma adaptação que nem se deu ao trabalho de conhecer.

    Talvez a verdadeira pergunta da seleção não seja “qual deficiência dá menos trabalho?”. Talvez seja: “que trabalho precisamos fazer para que pessoas diferentes tenham a mesma oportunidade?”.

    Quando essa pergunta entrar de verdade no RH, nos sistemas e na liderança, a inclusão finalmente deixará de ser uma vaga especial e começará a fazer parte do emprego comum.

    Voltar ao topo

    Fontes e leituras recomendadas

    Voltar ao topo

    Um abraço e até a próxima!

    Fernando

  • Do tec-tec do disquete à nuvem: como mudaram nossos arquivos, músicas e memórias

    Tempo de leitura: 17 minutos

    Ooi amigos e leitores!!!

    Tudo bem?

    Espero que sim…

    Outro dia falei por aqui sobre a volta do vinil às prateleiras, aquela mídia grandona que a gente pega, limpa, vira de lado e, se bobear, ainda conversa com a capa.

    Hoje, nessa coisa aqui, vamos continuar falando de coisas que guardam outras coisas. Só que, desta vez, sairemos do tec-tec do disquete, passaremos pelo ronco do gravador de CD, enfiaremos algumas dezenas de músicas num MP3 player de 128 MB, perderemos pelo menos um pendrive numa gaveta e terminaremos olhando para uma nuvem que não molha ninguém, mas que pode levar embora nossas fotos se a senha resolver tirar férias.

    Em poucas décadas, passamos de contar cada quilobyte a carregar terabytes no bolso. Um único arquivo de fotografia produzido por um celular atual não caberia em vários disquetes de 1,44 MB. Um projeto de áudio em WAV poderia exigir uma pequena mudança de endereço. E aquele vídeo que hoje mandamos quase sem pensar talvez precisasse, nos anos 1990, ser transportado numa carreta de disquetes — com escolta armada para proteger a parte 37 do arquivo compactado,aaa…

    Mas essa não é apenas uma história sobre capacidade. É também uma história sobre hábitos, paciência, propriedade, acessibilidade, memória e confiança. Antes, a informação tinha peso, ocupava gaveta e podia cair atrás do armário. Hoje, pode estar disponível em qualquer lugar e, ao mesmo tempo, não sabermos exatamente onde está.

    Não pretendo declarar guerra à nuvem, muito menos fundar o Movimento Internacional pela Volta do Disquete. A ideia é entender o que ganhamos, o que perdemos e por que nenhuma tecnologia, por mais moderna que pareça, dispensa uma coisa antiga chamada cuidado.

    Sumário

    Antes do disquete: quando cinco megabytes ocupavam uma sala

    Para entender o tamanho da revolução, precisamos voltar um pouco além dos computadores pessoais. Durante muito tempo, dados eram registrados em cartões perfurados, fitas magnéticas e equipamentos enormes, caros e nada apropriados para serem carregados na mochila.

    O IBM 305 RAMAC, apresentado em 1956, foi o primeiro computador a usar uma unidade de disco com acesso aleatório. Armazenava aproximadamente 5 MB e ocupava boa parte de uma sala. Cinco megabytes! Hoje há fotografias de celular maiores do que isso, mas, naquela época, conseguir localizar uma informação em segundos, sem percorrer uma fita inteira ou procurar cartões, era uma verdadeira revolução…

    O disquete nasceu dentro desse mundo de máquinas grandes. A IBM começou a desenvolver o formato no fim dos anos 1960 e passou a vender unidades de oito polegadas em 1971. A intenção inicial não era salvar trabalhos escolares nem levar joguinhos para a casa do vizinho: o disco ajudava a carregar instruções e atualizações em computadores de grande porte.

    Depois vieram os formatos menores. O disquete de 5¼ polegadas apareceu em 1976, adequado aos computadores de mesa, e a Sony apresentou unidades de 3½ polegadas em 1981. O modelo rígido por fora e flexível por dentro acabaria se tornando a imagem mais lembrada dos anos 1990.

    A informação, que antes ficava presa a uma máquina ou a um departamento, começava a viajar na mão das pessoas. Era uma espécie de internet de sola de sapato: alguém gravava o arquivo, atravessava o corredor, a rua ou a cidade e o colocava em outro computador. Em inglês, essa circulação física ganhou até o apelido de sneakernet, uma “rede de tênis”.

    Voltar ao topo

    A era prática, limitada e barulhenta dos disquetes

    Quem viveu os anos 1980 e 1990 diante de um computador provavelmente lembra do som inconfundível da unidade tentando ler um disco. O motor girava, a cabeça se movimentava e começava aquele tec-tec-tec que podia significar duas coisas: “estou trabalhando” ou “seu arquivo foi para setealem e não deixou endereço”.

    Houve disquetes de várias dimensões e capacidades, mas o de 3½ polegadas e 1,44 MB virou o grande símbolo da era. A carcaça era rígida, porém o disco magnético lá dentro continuava flexível — daí o nome floppy disk. Uma pequena lingueta permitia bloquear a gravação e proteger o conteúdo contra alterações acidentais. Pelo menos em teoria, porque nenhum mecanismo protegia contra poeira, calor, umidade, campos magnéticos, setores defeituosos ou a vontade do universo de estragar justamente o único disquete sem cópia.

    Cada megabyte contava. Textos simples cabiam com folga, mas imagens, programas e jogos começaram a crescer. Instalar um aplicativo podia exigir uma sequência de discos numerados. A própria versão em disquetes do Windows 95 usava 13 unidades, segundo o histórico publicado pela IBM. Era colocar o disco 1, esperar, trocar pelo 2, esperar, seguir até o 13 e torcer para o último não descobrir naquele exato momento que possuía um setor ilegível.

    As etiquetas também faziam parte do ritual. “Trabalho final”, “Trabalho final mesmo”, “Trabalho final certo” e “Trabalho final agora vai” podiam coexistir na mesma caixa. Se alguém escrevesse por cima, riscasse o nome errado ou simplesmente esquecesse de identificar o conteúdo, começava uma arqueologia doméstica.

    Apesar das limitações, o disquete trouxe independência. Era possível carregar documentos, trocar programas e fazer cópias sem depender de uma rede. A pessoa segurava a mídia, sabia onde ela estava e podia guardá-la. Não era garantia de sobrevivência do arquivo, mas dava uma sensação muito concreta de posse.

    Seu legado sobrevive até hoje num lugar curioso: o botão “Salvar” de muitos programas continua representado pelo desenho de um disquete. Há jovens que nunca usaram um, mas clicam diariamente em sua pequena assombração gráfica. O objeto morreu quase por completo; o ícone conseguiu emprego vitalício.

    Voltar ao topo

    Compactar, dividir e rezar para nenhuma parte falhar

    Quando um arquivo não cabia, havia duas alternativas: desistir ou começar a engenharia. Programas como ARJ, PKZIP, WinZip e, mais tarde, WinRAR reduziam o tamanho dos dados e permitiam dividir um pacote em vários volumes.

    Era perfeitamente possível espalhar um jogo ou programa por cinco, dez ou vinte disquetes. A ideia funcionava bem até surgir a mensagem de erro de CRC, indicando que alguma parte estava corrompida. Se a parte 8 falhasse, as outras dezenove podiam estar impecáveis, perfumadas e emocionalmente preparadas: o arquivo completo continuava inutilizável.

    Essa limitação ensinou, à força, noções que muita gente só foi aprender depois. Era preciso organizar os discos, numerá-los, conferir o conteúdo e manter mais de uma cópia do que realmente importava. Também aprendemos que “tenho o arquivo num disquete” não era sinônimo de “tenho backup”. Se aquela era a única cópia, tínhamos apenas um arquivo morando perigosamente.

    No DOS, ainda havia os nomes no padrão 8.3: até oito caracteres antes do ponto e três depois. Aquele relatório chamado “Versão definitiva e corrigida do trabalho da faculdade” precisava renascer como algo do tipo TRABFIN2.DOC. Era menos poético, mas pelo menos cabia no sistema.

    A compactação não desapareceu. ZIP, RAR, 7z e vários outros formatos continuam úteis para reunir arquivos, reduzir transferências e criar pacotes. O que mudou foi a escala. Hoje dividimos gigabytes para mandar pela internet; naquela época, brigávamos para economizar alguns quilobytes e encaixar o último arquivo no disquete sem precisar expulsar o LEIAME.TXT.

    Voltar ao topo

    A revolução do CD e a arte de queimar discos

    Quando os leitores de CD-ROM se popularizaram, o salto pareceu coisa de outro planeta. O CD havia sido desenvolvido pela Sony e pela Philips para música e chegou comercialmente em 1982. Pouco depois, a tecnologia foi adaptada para armazenar dados de computador.

    Um CD-ROM podia trazer centenas de megabytes. Os CD-R mais comuns acabaram oferecendo 650 ou 700 MB, o equivalente, aproximadamente, a mais de 450 disquetes de 1,44 MB. De repente, enciclopédias inteiras, coleções de programas, jogos com falas e vídeos e instaladores enormes cabiam num único disco.

    É importante separar três parentes que às vezes aparecem misturados na memória:

    • O CD-ROM vinha gravado de fábrica e era apenas para leitura.
    • O CD-R podia ser gravado uma vez. Depois disso, o conteúdo permanecia fixo.
    • O CD-RW podia ser apagado e regravado, embora nem todo aparelho antigo conseguisse lê-lo.

    Quando os gravadores de CD ficaram acessíveis, nasceu outro ritual doméstico: “queimar” CDs. Escolhíamos os arquivos, organizávamos a ordem, calculávamos o espaço, abríamos o Nero ou outro programa e iniciávamos a gravação. A partir daí, convinha não provocar o computador.

    O temido buffer underrun acontecia quando o gravador consumia os dados mais rápido do que o computador conseguia fornecê-los. Como a escrita do CD-R precisava manter um fluxo contínuo, o esvaziamento do buffer podia interromper a gravação e transformar uma mídia virgem num porta-copos brilhante. Tecnologias posteriores passaram a interromper e retomar a escrita, mas, antes disso, gravar no limite da velocidade era quase um exercício respiratório: não abra programa, não mexa no mouse, não espirre perto do gabinete e talvez dê tudo certo.

    Também havia diferença entre gravar um CD de áudio e um CD de dados com arquivos MP3. O primeiro seguia o formato dos aparelhos de som tradicionais e comportava, em geral, 74 ou 80 minutos. O segundo podia reunir muitas horas de música compactada, mas exigia um aparelho compatível com MP3. Mais de uma pessoa produziu uma coletânea maravilhosa e só descobriu no carro que o toca-CDs a considerava um objeto decorativo.

    As caixinhas de acrílico, as capas impressas, as canetas próprias e os estojos com dezenas de discos devolveram à informação uma espécie de cerimônia. O backup tinha nome, cor e lugar na estante. Ao mesmo tempo, CDs arranhavam, camadas de gravação envelheciam e leitores desapareciam dos computadores. A propaganda de “qualidade digital para sempre” esqueceu de combinar o “para sempre” com a física.

    Voltar ao topo

    Zip, DVD e outras pontes entre duas eras

    A evolução do armazenamento não foi uma escadinha organizada na qual uma tecnologia saía educadamente para a próxima entrar. Vários formatos conviveram, disputaram espaço e desapareceram sem esperar o fim da reunião.

    O Zip Drive, lançado pela Iomega em 1994, começou com discos de 100 MB. Era uma enormidade perto do disquete comum e se tornou útil para editoração, imagens, áudio e backups. Também existiram unidades Jaz, discos magneto-ópticos, SuperDisk e outras soluções que prometiam resolver o problema da capacidade.

    O obstáculo era quase sempre o mesmo: para ler a mídia, o outro computador precisava ter a unidade correspondente. O disquete e o CD venceram não apenas pela tecnologia, mas pela ubiquidade. De pouco adiantava carregar 100 MB no bolso e descobrir que, no destino, havia apenas uma entrada de disquete olhando para você com ar de deboche.

    O DVD ampliou bastante a capacidade dos discos ópticos. Um DVD comum de camada simples armazena 4,7 GB; os de camada dupla chegam a cerca de 8,5 GB. Filmes, shows, jogos e grandes coleções de dados passaram a caber num suporte fisicamente parecido com o CD.

    Depois viria o Blu-ray, levando o disco óptico ainda mais longe. No entanto, para o transporte cotidiano de arquivos, a memória flash avançou depressa demais. Enquanto os discos ópticos dependiam de gravação, finalização, cuidado com riscos e uma unidade mecânica, o pendrive oferecia a sedutora possibilidade de copiar, apagar e reutilizar em poucos instantes.

    Esses formatos intermediários deixaram uma lição importante: não basta a mídia estar perfeita; é preciso conservar uma forma de lê-la. Uma caixa de discos impecáveis pode virar uma coleção de espelhos se não houver unidade, cabo, driver ou programa compatível.

    Voltar ao topo

    O MP3 colocou a música dentro do arquivo

    O CD digitalizou a distribuição da música, mas ela ainda continuava presa a um disco. O MP3 mudou essa relação porque transformou a gravação numa unidade pequena, copiável, reorganizável e fácil de transmitir.

    O nome é abreviação de MPEG-1 Audio Layer III. O formato foi padronizado nos anos 1990, e a extensão .mp3 foi escolhida pela equipe do Instituto Fraunhofer em 14 de julho de 1995. A compressão aproveita características da audição humana para representar com menos precisão partes menos perceptíveis do som. Dependendo da configuração, o arquivo pode ficar até dez vezes menor do que o original, com pouca diferença audível para a maioria das pessoas.

    Existe perda de informação, portanto MP3 não é igual a WAV nem a um formato sem perdas como FLAC. Ainda assim, naquele contexto de discos rígidos pequenos e internet discada, reduzir uma música de dezenas de megabytes para poucos megabytes era praticamente abrir uma passagem secreta.

    Vieram os programas para extrair faixas de CDs, os compartilhamentos pela internet, as playlists e os tocadores no computador. A música deixou de seguir obrigatoriamente a ordem do álbum. Podia ser classificada por artista, gênero, humor, década ou pelo método científico conhecido como “joguei tudo nessa pasta e depois eu vejo”, aaa…

    Os primeiros aparelhos portáteis com 32, 64 ou 128 MB parecem minúsculos hoje. Porém, um MP3 player de 128 MB podia carregar algo em torno de trinta músicas com compressão comum na época. Não precisava de fita, não dependia de um disco girando e não pulava quando a pessoa caminhava. Aquilo era ostentação tecnológica de bolso.

    Em 2001, o primeiro iPod chegou com um disco rígido de 5 GB e a promessa de até mil músicas. Não foi o primeiro MP3 player, mas ajudou a popularizar a ideia de carregar uma biblioteca musical inteira. Mais tarde, celulares assumiriam essa função e engoliriam câmera, gravador, agenda, rádio, GPS e mais algumas repartições do universo.

    O MP3 também favoreceu podcasts, audiolivros, gravações pessoais, programas de rádio e materiais de estudo. Ao mesmo tempo, abriu discussões enormes sobre compartilhamento, pirataria, remuneração de artistas e a transformação da música em serviço. A portabilidade cresceu; a velha relação entre objeto, obra e propriedade começou a ficar bem mais complicada.

    Voltar ao topo

    Pendrives e cartões: o armazenamento encolheu e cresceu

    A memória flash, inventada nos anos 1980, permitiu guardar dados sem peças móveis e sem precisar de energia permanente para conservá-los. No ano 2000, a Trek lançou um dispositivo USB de 8 MB chamado ThumbDrive. A capacidade inicial não impressionava diante de um CD, mas a combinação era irresistível: pequeno, regravável, relativamente resistente e conectado diretamente à porta USB.

    Em pouco tempo, os 8 MB viraram 32, 128, 512 MB, depois 1, 4, 16, 64 GB e assim por diante. O objeto menor do que um isqueiro passou a carregar documentos, músicas, sistemas de instalação, vídeos e backups. Também passou a ser esquecido em computadores, lavado dentro do bolso e emprestado para alguém que jurava devolver na terça-feira de um ano ainda não determinado.

    O pendrive eliminou a gravação como cerimônia. Bastava copiar o arquivo — e, de preferência, usar a opção de remover o dispositivo com segurança antes de arrancá-lo como quem puxa o fio de um ventilador. Essa facilidade também ajudou a espalhar programas maliciosos. Durante certo período, conectar um pendrive desconhecido era quase convidar um vírus para tomar café.

    Os cartões de memória fizeram revolução semelhante em câmeras, celulares, gravadores e outros equipamentos. A SD Association foi criada em 2000 pela Panasonic, pela SanDisk e pela Toshiba para desenvolver e promover o padrão SD. Depois vieram SDHC, SDXC, microSD e capacidades que fariam um disquete pedir aposentadoria por humilhação.

    Essas mídias parecem robustas, mas não são arquivos eternos. Podem falhar por desgaste, defeito eletrônico, problemas no controlador, falsificação ou simples desaparecimento físico — especialmente no caso de um microSD, que é pequeno o suficiente para sumir durante um espirro mais decidido.

    Pendrive é excelente para transporte e pode participar de uma estratégia de cópias. Não deveria, porém, ser o único lar de fotografias, documentos ou gravações importantes. Portátil demais também significa perdível demais.

    Voltar ao topo

    HDs externos, SSDs e servidores domésticos

    Enquanto as mídias portáteis encolhiam, nossos arquivos engordavam. Fotografias ganharam resolução, projetos de áudio passaram a reunir dezenas de pistas, vídeos chegaram ao 4K e os programas começaram a ocupar gigabytes sem demonstrar qualquer remorso.

    Os HDs externos ofereceram muita capacidade por um preço relativamente baixo. Um único dispositivo passou a guardar coleções inteiras que antes exigiriam armários de CDs e DVDs. O ponto fraco é mecânico: há pratos girando, cabeças de leitura e componentes sensíveis a quedas, vibrações e desgaste.

    Os SSDs substituem os discos giratórios por memória eletrônica. São rápidos, silenciosos e mais resistentes a impactos, mas não são mágicos. Controladores falham, células se desgastam e um defeito pode tornar muitos dados inacessíveis de uma vez. Trocar HD por SSD melhora bastante o desempenho; não revoga a necessidade de backup.

    Também se popularizaram os NAS e servidores domésticos: computadores ou equipamentos dedicados que armazenam arquivos e os oferecem pela rede. Eles podem funcionar como uma nuvem particular, devolver ao usuário maior controle e centralizar cópias de vários dispositivos.

    Esse controle vem acompanhado de responsabilidade. É preciso pensar em atualizações, senhas, energia, discos, redundância e uma cópia fora do local. RAID pode manter o serviço funcionando quando uma unidade falha, mas não é backup: exclusões acidentais, corrupção, incêndio, roubo e ataques podem atingir o conjunto inteiro.

    Ter um servidor próprio é um pouco como ter a própria casa. Ninguém muda o regulamento do condomínio digital sem avisar, mas, quando uma telha voa, o chamado técnico chega diretamente ao espelho,aaa…

    Voltar ao topo

    A nuvem: o arquivo está em todo lugar e em lugar nenhum

    Guardar dados remotamente não nasceu de uma hora para outra. Antes dos serviços modernos, muita gente já usava servidores, contas de e-mail, FTP e hospedagens como depósitos improvisados. O que mudou foi a escala, a automação e a forma de apresentar essa infraestrutura ao usuário.

    Segundo a definição do NIST, computação em nuvem envolve acesso conveniente e sob demanda, pela rede, a um conjunto compartilhado de recursos configuráveis, como servidores, armazenamento e aplicações. Entre suas características estão o autosserviço, o amplo acesso pela rede, o compartilhamento de recursos e a capacidade de crescer ou diminuir rapidamente.

    O lançamento do Amazon S3, em 2006, foi um dos marcos da infraestrutura moderna de armazenamento em nuvem. Depois, serviços voltados ao público tornaram natural salvar um documento no computador, continuar no celular e compartilhar com outra pessoa sem entregar mídia alguma.

    A conveniência é indiscutível. A nuvem permite sincronização, colaboração, acesso remoto e uma cópia geograficamente distante da nossa casa. Se um notebook for roubado ou um HD parar, os dados remotos podem evitar um desastre.

    Mas nuvem não é ausência de hardware. Os arquivos continuam em equipamentos físicos, dentro de centros de dados, distribuídos e administrados por alguém. A frase “a nuvem é o computador de outra pessoa” é engraçada e contém uma verdade, mas simplifica bastante: normalmente são muitos computadores, redes, sistemas de redundância e camadas de software trabalhando para que não precisemos saber em qual disco está cada pedaço.

    Essa abstração muda nossa percepção. Vemos uma pasta e um ícone, não o servidor. Pagamos por espaço, aceitamos termos de uso e confiamos que a conta continuará acessível. Uma senha esquecida, um bloqueio, uma alteração de preço, o encerramento de um serviço ou uma conexão indisponível podem separar temporária ou definitivamente a pessoa de seus próprios arquivos.

    Também é preciso distinguir sincronização de backup. Se um arquivo for apagado numa pasta sincronizada, a exclusão pode ser enviada a todos os dispositivos. Lixeiras e históricos de versões ajudam, mas possuem regras e prazos. A nuvem pode fazer parte do backup; não é automaticamente um backup só porque há um desenho simpático de algodão na tela.

    Voltar ao topo

    Da posse ao acesso: quando ter deixou de significar guardar

    O disquete, o CD e o pendrive deixavam claro onde estava a cópia. Isso não garantia duração nem direitos ilimitados, mas havia um objeto ou arquivo sob controle direto. Com o streaming e os serviços por assinatura, passamos frequentemente de donos de cópias a usuários de acesso.

    Uma música num CD continuava na estante mesmo que a gravadora mudasse de estratégia. Um MP3 sem proteção podia ser copiado para outro disco e reproduzido em programas diferentes. Já uma faixa disponível num catálogo online pode desaparecer por mudança de contrato, região ou decisão comercial. A assinatura compra conveniência e acesso enquanto determinadas condições existirem; não coloca necessariamente a obra em nosso acervo.

    O mesmo raciocínio vale para filmes, livros, programas e até documentos produzidos dentro de plataformas. Às vezes, o conteúdo pode ser exportado facilmente. Em outras, depende de um formato proprietário ou de uma conta ativa. Por isso, para o que é insubstituível, vale perguntar: consigo baixar uma cópia? Em qual formato? Outro programa consegue abri-la? O que acontece se esse serviço acabar?

    A tangibilidade também não era perfeita. Discos ocupavam espaço, quebravam, riscavam e podiam ser roubados. O arquivo digital permite cópias idênticas, busca rápida e acesso em vários lugares. O problema não está em escolher o novo ou o antigo, e sim em confundir facilidade de acesso com garantia de preservação.

    Talvez tenhamos trocado a gaveta bagunçada por uma bagunça invisível. Antes, procurávamos o CD sem etiqueta. Agora, procuramos saber em qual conta, aplicativo, pasta sincronizada ou “Nova pasta (37)” foi parar o documento.

    Voltar ao topo

    O que essa evolução representou para a acessibilidade

    Para pessoas com deficiência visual, cada fase trouxe liberdade e barreiras ao mesmo tempo. Uma mídia física podia ter organização previsível, mas sua etiqueta escrita a caneta não dizia muita coisa a quem não enxergava. Era possível usar marcação tátil ou braile, mas isso exigia preparação.

    O DOSVOX, iniciado na UFRJ em 1993, é um exemplo importante de como o disquete também ajudou a levar acessibilidade de um computador a outro. O histórico do projeto registra a montagem de uma estrutura de replicação, empacotamento, distribuição e suporte, num período em que baixar centenas de megabytes pela internet doméstica ainda pertencia à ficção científica.

    CDs e DVDs aumentaram enormemente o volume de programas, livros e materiais que podiam circular. Porém, alguns vinham com menus gráficos, apresentações automáticas ou instaladores pouco compatíveis com leitores de tela. A capacidade crescia; a acessibilidade nem sempre acompanhava o pacote.

    O áudio digital abriu possibilidades gigantescas. MP3, audiolivros, podcasts e gravações puderam ser copiados, catalogados e ouvidos sem manipular dezenas de discos. Certos aparelhos simples, com botões físicos previsíveis, eram razoavelmente utilizáveis. Outros escondiam tudo em telinhas e menus sem qualquer retorno falado.

    A nuvem pode aumentar muito a autonomia quando oferece boa navegação por teclado, controles identificados e compatibilidade com leitores de tela. Quando depende de arrastar e soltar, botões sem rótulo, CAPTCHAs problemáticos ou diálogos confusos, a mesma tecnologia vira porteiro de boate digital: o arquivo está ali, mas resolveram não deixar o dono entrar.

    Portanto, acessibilidade não pertence automaticamente a uma mídia. Ela depende da cadeia completa: equipamento, programa, interface, documentação e possibilidade de recuperar os dados. Um sistema moderno e inacessível pode dar menos autonomia do que uma pasta local bem organizada num computador antigo.

    Voltar ao topo

    Uma viagem em números

    As unidades nem sempre são apresentadas da mesma forma pelos fabricantes e pelos sistemas operacionais, portanto os valores abaixo são aproximados. Ainda assim, ajudam a visualizar o tamanho do salto.

    Capacidade aproximada de diferentes mídias e dispositivos comparada ao disquete de 1,44 MB
    Mídia ou dispositivo Capacidade típica citada Equivalência aproximada em disquetes de 1,44 MB
    Disquete de 3½ polegadas 1,44 MB 1
    Zip Disk original 100 MB 69
    CD-R 650 a 700 MB 451 a 486
    DVD de camada simples 4,7 GB Cerca de 3.264
    Primeiro iPod 5 GB Cerca de 3.472
    Unidade de 1 TB 1.000 GB Cerca de 694 mil

    Naturalmente, ninguém trocaria uma unidade de 1 TB por 694 mil disquetes, nem mesmo para montar a maior instalação artística sobre sofrimento digital já produzida. A comparação mostra como aquilo que chamávamos de “muito espaço” mudou em pouquíssimo tempo.

    Também revela outra ironia: quanto maior a capacidade, mais fácil acumular sem organizar. No disquete, apagávamos um arquivo para liberar 50 KB. Num disco de terabytes, guardamos doze cópias do mesmo vídeo porque descobrir qual é a certa parece mais trabalhoso do que comprar outro disco.

    Voltar ao topo

    Como evitar que a memória digital vire fumaça

    Nenhuma mídia é eterna. Disquetes perdem leitura, discos ópticos se degradam, HDs quebram, SSDs falham, pendrives desaparecem e contas online podem se tornar inacessíveis. Preservar não significa encontrar o suporte perfeito; significa manter cópias, verificar e migrar.

    Uma orientação conhecida é a regra 3-2-1, recomendada inclusive pela agência norte-americana de segurança cibernética CISA:

    • manter três cópias dos arquivos importantes;
    • usar dois tipos diferentes de armazenamento;
    • guardar uma cópia fora do local principal.

    Na prática, alguém poderia manter os arquivos no computador, uma cópia num HD externo desconectado e outra num serviço remoto ou na casa de uma pessoa de confiança. Não existe uma combinação única para todos. O importante é evitar que uma queda, exclusão, pane, roubo, incêndio ou ataque leve tudo de uma vez.

    Alguns cuidados simples ajudam bastante:

    1. Organize antes de multiplicar. Pastas por assunto e datas no formato ano-mês-dia facilitam a busca e evitam um oceano de “final-agora-vai-2”.
    2. Não confie numa única mídia. O pendrive que transporta não deve ser a única cópia; o HD de backup não deve ficar permanentemente conectado se isso o expõe às mesmas ameaças.
    3. Teste a restauração. Backup que nunca foi aberto é uma promessa. De tempos em tempos, confira se alguns arquivos podem realmente ser recuperados.
    4. Observe os formatos. Para documentos importantes, mantenha também versões em formatos amplamente aceitos, quando possível. Um arquivo perfeito não ajuda se nenhum programa disponível souber interpretá-lo.
    5. Migre o acervo. Antes de uma mídia ou unidade desaparecer do mercado, copie o conteúdo para tecnologia atual. Preservação digital é manutenção, não embalsamamento.
    6. Proteja o que for sensível. Use criptografia e senhas fortes, mas guarde de maneira segura as informações necessárias à recuperação. Criptografia sem chave é uma excelente proteção contra o próprio dono.
    7. Documente o acervo. Um pequeno arquivo de texto explicando pastas, datas, programas necessários e localização das cópias pode salvar muito tempo no futuro.

    A Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos recomenda não tratar a nuvem como única solução e lembra que mídias digitais precisam ser acompanhadas e transferidas ao longo do tempo. O trabalho não termina quando clicamos em “Salvar”. Na verdade, esse é apenas o momento em que começamos a negociar com o futuro.

    Voltar ao topo

    Conclusão: mudaram as mídias, não mudou a responsabilidade

    Em pouco mais de meio século, saímos de discos de oito polegadas destinados a computadores enormes para serviços capazes de entregar arquivos em segundos a qualquer dispositivo conectado. No caminho, colecionamos disquetes, CDs, DVDs, cartões, pendrives, HDs e algumas extensões de arquivo que ninguém mais consegue abrir.

    Ganhamos capacidade, velocidade, portabilidade e acesso remoto. Perdemos parte da tangibilidade e, em alguns casos, da percepção de posse. Antes, o perigo era o disquete estragar na gaveta. Agora, também precisamos pensar em contas, formatos, sincronização, contratos, interfaces e senhas.

    Não existe motivo para escolher entre nostalgia e conveniência. Podemos gostar do barulho de uma unidade antiga e, ao mesmo tempo, agradecer por não precisar instalar um programa em treze disquetes. Podemos usar a nuvem sem entregar a ela a única cópia das nossas memórias. Podemos ter um servidor próprio sem imaginar que redundância e backup são a mesma coisa.

    O melhor armazenamento não é necessariamente o mais novo, o mais caro ou o que anuncia capacidade com o maior número de zeros. É aquele que faz parte de uma estratégia compreensível, acessível e redundante — e do qual conseguimos recuperar os dados quando o dia resolve acordar com espírito de porco.

    O disquete virou ícone, o CD virou nostalgia, o MP3 virou nome informal para quase qualquer arquivo de música, o pendrive virou morador de gaveta e a nuvem virou destino padrão. As mídias mudam; nossa vontade de guardar lembranças continua a mesma.

    E, da próxima vez que você clicar no desenho de uma nuvem, lembre: em algum lugar existem computadores de verdade, discos de verdade, cabos de verdade e uma conta de energia que certamente também é de verdade,aaa…

    Voltar ao topo

    Fontes e leituras recomendadas

    Voltar ao topo

    Um abraço e até a próxima!

    Fernando

  • Diário acessível para NVDA, Windows e DOSVOX: colocando as coisas para fora — ou para dentro?

    Tempo de leitura: 4 minutos

    Ooi amigos e leitores!!!

    Tudo bem?

    Espero que sim…

    O post anterior mal saiu do forno e eu já venho aqui de novo… Mas, é por uma excelente causa, digamos assim…

    Hoje essa coisa aqui traz não um, mas dois programinhas novos: um diário para quem utiliza o NVDA e outro para quem prefere o bom e velho DOSVOX.

    A ideia é simples: permitir que a pessoa escreva sobre o dia, registre lembranças, organize pensamentos ou simplesmente descarregue aquela confusão que resolveu montar acampamento dentro da cabeça.

    Ou seja: colocar as coisas para fora.

    Embora, pensando bem, a gente esteja colocando tudo para dentro de um diário,aaa…

    Navegação rápida:

    A dificuldade de encontrar programas acessíveis

    Encontrar um programa para escrever um diário parece uma tarefa simples. Basta procurar, instalar e começar a escrever, certo?

    Certíssimo, desde que você enxergue a tela e tenha sorte.

    Para quem utiliza leitor de telas, a história costuma ser um pouco diferente. Existem vários programas de diário, agendas pessoais e aplicativos de anotações, mas muitos deles apresentam botões sem identificação, áreas que não recebem foco pelo teclado, calendários impossíveis de navegar ou janelas nas quais o leitor anuncia coisas extremamente informativas, como “botão”, “botão”, “botão” e, depois de algum esforço, mais um “botão”.

    Pode ser um diário. Pode ser o painel de controle de uma usina nuclear. Nunca saberemos,aaa…

    Outros programas até funcionam parcialmente, mas exigem que a pessoa use o mouse em algum momento, não oferecem retorno falado adequado ou transformam uma tarefa que deveria ser tranquila em mais uma disputa entre o usuário, o teclado e a interface.

    E um diário deveria ser justamente o contrário disso: um lugar simples, reservado e confortável para escrever.

    Voltar ao início

    Colocar as coisas para fora — ou para dentro?

    Escrever um diário não é apenas registrar que acordamos, tomamos café, reclamamos do calor, reclamamos do frio e passamos o restante do dia tentando decidir de qual dos dois reclamar mais.

    Um diário também pode ajudar a organizar pensamentos, reconhecer padrões, guardar momentos importantes e transformar aquela mistura de sentimentos que está rodando no modo liquidificador em frases um pouco mais compreensíveis.

    Às vezes, escrever não resolve o problema. Mas colocar em palavras aquilo que estamos sentindo pode diminuir a sensação de que tudo está acontecendo ao mesmo tempo e sem qualquer ordem.

    Também é possível reler uma entrada antiga e perceber que determinada fase passou, que algumas coisas mudaram ou que aquele problema gigantesco de três meses atrás hoje cabe num parágrafo.

    Naturalmente, um diário não substitui acompanhamento psicológico, psiquiátrico ou qualquer outro cuidado profissional quando ele é necessário. Mas pode ser uma ferramenta complementar bastante útil para o autoconhecimento e para a saúde mental.

    E ele tem uma vantagem importante: está disponível quando surge a vontade de escrever, inclusive às duas e quarenta e sete da madrugada, horário em que os pensamentos costumam promover assembleias extraordinárias sem autorização do proprietário da cabeça.

    Voltar ao início

    Diário para NVDA

    O primeiro programa é um complemento para o NVDA. Ele permite adicionar, listar, ler, editar e excluir entradas utilizando uma interface preparada para o leitor de telas.

    As anotações podem ter título e data, ficam protegidas por senha e o complemento também permite cadastrar uma frase secreta para recuperação. Tudo foi pensado para funcionar pelo teclado, com mensagens faladas e sem aquela brincadeira de tentar adivinhar onde foi parar o foco.

    A versão atual também possui traduções para português do Brasil, inglês, espanhol, italiano e francês.

    A versão 1.3.0 acrescenta um corretor ortográfico acessível em tempo real, com aviso sonoro, sugestões de correção e opções para ignorar ou adicionar palavras ao dicionário local. Também permite exportar e importar cópias de segurança criptografadas do diário.

    Para instalar, basta baixar o arquivo, abri-lo com o NVDA em execução e confirmar a instalação do complemento:

    Baixar o Diário para NVDA 1.3.0

    Voltar ao início

    Diário Acessível para Windows

    Para quem prefere utilizar o diário como um programa independente, sem depender diretamente do NVDA ou do DOSVOX, também existe o Diário Acessível para Windows. Ele permite criar, ler, editar e excluir entradas, mantém o conteúdo protegido por senha e frase de recuperação e ainda conta com um corretor ortográfico acessível em tempo real, com aviso sonoro, sugestões de palavras e dicionário local.

    O programa também consegue importar as entradas já criadas pelo complemento para NVDA, evitando que as anotações antigas fiquem abandonadas em algum setealem digital. Tudo funciona localmente no computador, sem enviar o conteúdo do diário para a internet.

    Estão disponíveis duas versões: o instalador, que coloca o programa na pasta adequada do Windows e cria um atalho na área de trabalho, e a versão portátil, que pode ser executada diretamente de qualquer pasta ou pendrive:

    Voltar ao início

    DiarioVox para DOSVOX

    O segundo programa é o DiarioVox, desenvolvido por mim em parceria com Gabriel Schuck.

    Ele segue o jeito tradicional de funcionamento do DOSVOX: menus falados, navegação pelas setas, letras de atalho e ajuda pelo F1. Os textos são escritos no Edivox e as entradas mais longas podem ser abertas no Levox.

    Também é possível adicionar, listar, ler, editar e excluir entradas. O conteúdo fica protegido por senha, com a possibilidade de cadastrar uma frase secreta para criar uma nova senha caso a anterior seja esquecida.

    O programa utiliza mensagens gravadas em WAV e, quando alguma gravação não estiver disponível, recorre automaticamente ao sintetizador do DOSVOX. Assim, ele continua utilizável mesmo se algum arquivo sonoro resolver viajar para setealem.

    O DiarioVox pode ser baixado aqui:

    Baixar o DiarioVox para DOSVOX

    Voltar ao início

    Dois programas, a mesma proposta

    Os dois diários foram criados com a mesma intenção: oferecer uma maneira realmente acessível de escrever, guardar lembranças e organizar pensamentos, sem obrigar o usuário a negociar com botões misteriosos ou interfaces que parecem ter sido desenhadas durante uma queda de energia.

    Quem utiliza NVDA pode instalar o complemento. Quem prefere o DOSVOX pode utilizar o DiarioVox. E quem utiliza os dois sistemas pode experimentar ambos e escolher aquele que combinar melhor com sua rotina.

    Depois disso, é só começar a escrever.

    Colocar as coisas para fora.

    Ou para dentro do diário.

    Enfim, vocês entenderam,aaa…

    Um abraço e até a próxima!

    Fernando

  • Em Busca de uma Pessoa de Verdade: O Caos das Plataformas de Emprego no Brasil

    Tempo de leitura: 14 minutos

    Olá amigos e leitores dessa coisa aqui!

    Tudo bem?

    Espero que sim…

    Segunda-feira e eu aqui, em vez de fazer um post sério e outro musical, resolvi fazer dois sérios… Mas isso é porque considero o assunto demasiado importante e extremamente negligenciado por algumas das plataformas sobre as quais vamos falar…

    Se tem um troço capaz de testar os limites do juízo de quem está no mercado de trabalho (ou, principalmente, fora dele) em busca de recolocação, esse troço se chama plataforma de recrutamento. Quem nunca olhou para a tela do computador, depois de preencher o quinquagésimo formulário do dia, e se perguntou se o currículo iria um dia parar na mão de uma pessoa de verdade ou se acabou sugado por um robô programado com critérios excludentes tirados diretamente do invvvéérno ou de setealem???

    A sensação que dá é que virou uma verdadeira floresta de sites, portais e sistemas. E o pior: cada um deles se diz o melhor e mais completo, capaz de empregar não sei quantos milhões de criaturas sem nome, com depoimentos felizes demais para este planeta, claro,aaaa… A gente se cadastra em dez lugares diferentes, replica as mesmas informações mil vezes e, no fim, fica sem saber qual plataforma realmente funciona e onde vale a pena gastar a nossa sagrada energia — em alguns casos, o pouco que ainda resta dela…

    Nesse artigo, vamos fazer um raio-X das principais plataformas de recrutamento que rondam a vida do trabalhador brasileiro. Vamos analisar os prós, os contras, passar por experiências reais (com direito a críticas bem severas a quem merece) e entender por que a hiperfragmentação desse mercado é um dos maiores problemas de quem busca o esperado emprego.

    Ajeite a postura na cadeira, pegue aquele café reforçado e venha comigo nessa jornada pelos labirintos da busca por trabalho!

    Índice de navegação


    1. O robô burro e a pergunta de onde está a “pessoa de verdade”

    Antigamente — lá nos anos 90 ou começo dos 2000 —, procurar emprego envolvia imprimir algumas folhas de papel, andar pela cidade ou mandar um e-mail direto para o RH de uma empresa. Não era exatamente um paraíso, claro, mas havia uma diferença importante: em muitos casos, você sabia que alguém do outro lado abriria o envelope ou o arquivo anexado. Existia um ser humano lendo.

    Hoje, boa parte do processo se transformou em uma maratona de triagem automatizada. Antes que o seu histórico profissional chegue à mesa de uma pessoa de verdade, ele pode passar por filtros, palavras-chave, perguntas eliminatórias, testes e regras configuradas no sistema. O problema é que automatizar não significa necessariamente avaliar bem. Na prática, o candidato muitas vezes esbarra num robô burro — ou, mais precisamente, numa regra automática configurada com sabe-se lá Deus que critérios excludentes.

    E aqui vale separar duas coisas que frequentemente aparecem misturadas: o portal de vagas, onde o candidato procura oportunidades e envia o currículo, e o ATS (Applicant Tracking System), que é o sistema usado pela empresa para organizar candidatos, etapas, filtros e comunicações do processo seletivo. Às vezes os dois vivem no mesmo ecossistema; às vezes você começa num portal e termina num sistema completamente diferente. Para o candidato, porém, o resultado costuma ser o mesmo: mais um cadastro, mais uma senha e mais um formulário para preencher, isso se ainda sobrar ânimo, aaa.

    Palavras-chave ausentes por causa de um sinônimo bobo, respostas a perguntas eliminatórias, pontuações de testes comportamentais discutíveis ou filtros automáticos mal configurados podem limar profissionais qualificados antes mesmo do primeiro contato. O resultado é um abismo de frustração em que o candidato envia dezenas ou centenas de candidaturas e recebe de volta apenas o silêncio — ou aquela mensagem automática fria avisando que “o seu perfil não foi selecionado para esta etapa”,aaa.

    Voltar ao topo


    2. Raio-X das principais plataformas: o bom, o mau e o inacreditável

    Para não dizer que tudo é farinha do mesmo saco, vale a pena olhar como cada uma das principais do mercado se comporta na prática.

    Isso não é um ranking científico nem uma sentença definitiva: parte das observações vem da minha experiência como candidato, enquanto outra parte se baseia nas características divulgadas pelas próprias plataformas. Além disso, em muitos casos, quem configura etapas, perguntas e filtros é a empresa contratante. A tecnologia influencia bastante a experiência, mas, quando algum alzapuertas entra na configuração, também pode colaborar muito para o revertério,aaa.

    LinkedIn

    O LinkedIn foi lançado oficialmente em 5 de maio de 2003, depois de começar a ser desenvolvido na sala de estar de Reid Hoffman no ano anterior. Com o tempo, deixou de ser apenas uma rede de contatos profissionais e virou um ecossistema de recrutamento, conteúdo, vendas e publicidade. Em 2016, foi adquirido pela Microsoft e hoje se apresenta como a maior rede profissional do mundo, com mais de 1 bilhão de membros em mais de 200 países e territórios.

    O LinkedIn virou parada praticamente obrigatória para quem quer manter presença profissional online. O ponto forte é o networking direto, a possibilidade de encontrar recrutadores e empresas e a vitrine pública de experiências, artigos e conquistas. Por outro lado, também existe aquele ambiente saturado de “positividade tóxica”, frases corporativas que parecem ter saído de uma fábrica de canecas motivacionais e uma disputa constante por alcance. Além disso, em vagas muito concorridas — especialmente nas candidaturas simplificadas — o perfil pode rapidamente virar só mais um no meio de uma lista gigantesca.

    Gupy

    A Gupy nasceu em São Paulo, em 2015, com a proposta de transformar os processos seletivos por meio de tecnologia e inteligência artificial. Cresceu rapidamente no mercado brasileiro de RH, expandiu sua atuação para além do recrutamento e seleção e, em 2022, adquiriu a Kenoby, então uma de suas principais concorrentes. A própria empresa se apresenta hoje como líder em tecnologia para RH no Brasil e informa ter alcançado 5 milhões de pessoas contratadas, 4 mil clientes ativos e 36 milhões de usuários registrados.

    Amada por muitas empresas e frequentemente criticada por candidatos, a Gupy se tornou uma presença enorme no recrutamento brasileiro. A meu ver, é uma das melhores plataformas em termos de estrutura, fluxo de etapas e acompanhamento da vaga. A interface é organizada e normalmente permite visualizar em qual fase do processo você está. O ponto fraco? Dependendo da empresa, aparecem testes, perguntas e etapas que dão a famosa sensação de que você está preenchendo a mesma vida profissional pela décima quinta vez no mesmo dia e gastando um tempão que eventualmente pode não ter, isso pra não falar no desgaste psicológico…

    Sólides Vagas

    Com mais de 20 anos de atuação, a Sólides consolidou-se como uma das grandes empresas brasileiras de tecnologia para gestão de pessoas. Seu ecossistema inclui ferramentas de recrutamento e seleção e o Sólides Vagas, portal gratuito para candidatos no qual as empresas parceiras divulgam oportunidades e mantêm suas próprias páginas de carreiras. A empresa informa que o portal é usado por mais de 7 mil organizações e reúne mais de 45 mil vagas exclusivas por mês.

    O ponto forte é concentrar, dentro do mesmo ecossistema, vagas de empresas de diversos tamanhos, permitir o cadastro do currículo e facilitar candidaturas posteriores. O ponto fraco é quase filosófico,aaa: embora a plataforma reduza repetições dentro do universo Sólides, para quem veio de Gupy, Vagas, InfoJobs ou qualquer outra freguesia digital ela continua sendo mais uma conta, mais uma senha e, dependendo da empresa, mais um questionário personalizado. Ou seja, ajuda a organizar um pedaço da floresta, mas também confirma que a floresta existe.

    Catho

    A Catho é uma das veteranas do recrutamento brasileiro. A empresa informa atuar no mercado online desde 1996 e construiu sua marca justamente como ponto de encontro entre candidatos e empresas, tornando-se por muitos anos uma das referências nacionais em classificados de vagas e currículos. Ao longo do tempo, ampliou o modelo para incluir ferramentas gratuitas e soluções de recrutamento para empresas, mantendo também serviços pagos para candidatos.

    Pioneira no modelo pago para candidatos no Brasil, a Catho foi por muitos anos um dos destinos principais de quem procurava recolocação. Hoje o cadastro de currículo, a busca e a candidatura a vagas são gratuitos, enquanto a empresa mantém planos pagos com recursos extras de visibilidade e acompanhamento. Há ainda um ponto positivo importante: segundo a própria Catho, pessoas com deficiência e profissionais reabilitados pelo INSS enquadrados na Lei de Cotas podem, mediante o envio da documentação exigida, ter acesso gratuito às vantagens do Plano Profissional. Ponto forte: um acervo grande de oportunidades e uma marca conhecida há décadas. Ponto fraco: para os demais candidatos, a presença constante de recursos pagos pode passar a sensação de que sempre existe alguma vantagem adicional esperando atrás de uma assinatura.

    Vagas.com.br

    A Vagas surgiu em 1999, criada por Mário Kaphan e Sidney Monreal Martin com a proposta de usar tecnologia para melhorar os processos de recrutamento e seleção. O Vagas.com.br tornou-se uma das plataformas de carreira mais tradicionais do país e continua gratuito para candidatos. Segundo a própria empresa, sua base reúne mais de 22 milhões de currículos, enquanto a solução Vagas For Business atende milhares de empresas.

    É uma das mais tradicionais do mercado nacional, continua gratuita para o candidato e reúne vagas de grandes empresas. O ponto forte é a estabilidade e o fato de não tentar “gourmetizar” excessivamente o cadastro. O ponto fraco é o visual um tanto datado e a demora frequente no retorno das empresas contratantes, que às vezes deixam processos abertos por meses sem nenhuma atualização.

    Indeed

    O Indeed surgiu nos Estados Unidos em 2004 e cresceu apostando em um modelo que reunia vagas publicadas em diversas fontes da internet, além de anúncios feitos diretamente por empresas. Hoje pertence ao grupo japonês Recruit Holdings e opera em mais de 60 países. A empresa se apresenta como o site de empregos número 1 do mundo e combina busca de vagas, currículos, pesquisa sobre empresas e ferramentas de recrutamento.

    O Indeed funciona quase como um Google focado em empregos, reunindo anúncios próprios e oportunidades publicadas em sites de carreiras e outras fontes. Ponto forte: facilidade de envio rápido de currículo e grande volume de vagas. Ponto fraco: como agrega muitas fontes externas, você frequentemente é redirecionado para cadastros terceirizados burocráticos e cansativos.

    Glassdoor

    O Glassdoor foi fundado em 2007 por Robert Hohman, Rich Barton e Tim Besse e abriu sua versão pública em 2008. A ideia era levar ao mercado de trabalho a mesma transparência que outros serviços já ofereciam em áreas como viagens e imóveis, permitindo que funcionários compartilhassem avaliações, salários e informações sobre entrevistas. Com o tempo, tornou-se uma das referências mundiais em pesquisa sobre empresas e hoje trabalha de forma integrada ao Indeed em parte de sua operação de vagas.

    Famoso por revelar os “bastidores” das empresas, o Glassdoor combina busca de empregos com avaliações de funcionários, informações salariais e relatos sobre entrevistas. Ponto forte: oferece contexto sobre o ambiente interno e a remuneração antes de se candidatar. Ponto fraco: muitas vezes funciona mais como fonte de pesquisa do que como gestor do processo seletivo; na prática, o candidato acaba sendo redirecionado para o ATS ou para o site de carreiras da própria empresa.

    Workana

    Criada em 2012, a Workana nasceu voltada ao trabalho freelancer e remoto e se consolidou especialmente na América Latina. A própria empresa se define como a maior plataforma de trabalho freelance e remoto da região e informa conectar milhões de freelancers a centenas de milhares de empresas e empreendedores. Diferentemente das demais desta lista, seu foco principal não é a contratação CLT tradicional, mas projetos e prestação independente de serviços.

    A Workana é voltada para o mercado de freelancers e prestadores de serviço independentes na América Latina. Ponto forte: excelente opção para quem quer pegar projetos pontuais de TI, design, redação e suporte enquanto busca um registro CLT formal. Ponto fraco: concorrência predatória de preços (propostas com valores baixíssimos), taxas sobre o valor do projeto e a obrigatoriedade de disputar clientes a cada proposta enviada.

    Curriculum.com.br

    A Curriculum é outra sobrevivente veterana da internet brasileira. A plataforma informa ter mais de 25 anos de história e mais de 13 milhões de profissionais cadastrados, reunindo vagas, banco de currículos e ferramentas para candidatos e empresas. Em sua apresentação institucional atual, também destaca o uso de inteligência artificial nos processos de seleção e mantém a proposta de funcionar como ponto de encontro digital entre quem procura emprego e quem precisa contratar.

    Outra veterana da internet brasileira. Teve enorme presença nos anos 2000 e continua ativa, com vagas novas e busca de currículos pelas empresas. Ponto forte: longa trajetória e um banco consolidado de candidatos e oportunidades. Ponto fraco, na minha experiência: a interface carrega bastante a cara da internet de outros tempos e alguns recursos adicionais de visibilidade acabam entrando naquela velha categoria do “quer aparecer mais? tem valor extra”, justamente para quem muitas vezes está desempregado e contando moeda, digamos assim…

    Emprega Brasil e SINE

    O Sistema Nacional de Emprego, o SINE, foi criado em 1975 como serviço público e gratuito de intermediação de mão de obra. Hoje, além do atendimento presencial nos postos da rede, o trabalhador pode consultar oportunidades pela internet no Portal Emprega Brasil e pelo aplicativo da Carteira de Trabalho Digital. O sistema cruza as informações do cadastro profissional com as vagas captadas junto aos empregadores.

    É a exceção pública numa lista dominada por empresas privadas. Ponto forte: o serviço é gratuito, tem respaldo oficial e ainda oferece atendimento presencial para quem não consegue resolver tudo pela internet. Ponto fraco: o volume e a variedade das oportunidades dependem muito das vagas captadas em cada município e do cruzamento com os dados informados no cadastro. Se o perfil estiver incompleto ou desatualizado, o robô público também pode fazer sua contribuição à bagunça nacional,aaa.

    Voltar ao topo


    3. O caso Pandapé/InfoJobs: erro de português, resposta insuficiente no Reclame Aqui e a saga na Pulse

    Antes da pancadaria, um pouco de história: o InfoJobs atua no Brasil há mais de 20 anos e hoje integra o Grupo Redarbor. A empresa se apresenta como uma das principais HR Techs da América Latina e oferece uma plataforma gratuita para candidatos, além de soluções para empresas. O Pandapé, por sua vez, é o ATS desenvolvido pelo próprio InfoJobs para automatizar e organizar as etapas de recrutamento e seleção das empresas.

    Chegamos ao capítulo em que a teoria dá lugar à crítica severa baseada na experiência prática. O ecossistema Pandapé/InfoJobs é uma daquelas coisas em que a gente nem sabe direito qual nome usar de tão “boa” que a experiência consegue ser.

    Para contextualizar: o Pandapé é o software de recrutamento (ATS) vendido para as empresas, enquanto o InfoJobs funciona como a vitrine de vagas para os candidatos. Só que a integração entre esse ecossistema e os processos seletivos reais das empresas coleciona momentos bizarros.

    Há algum tempo, a Pulse Client Experts — empresa onde atuei — passou a trabalhar com o ecossistema Pandapé/InfoJobs para gerenciar suas vagas. Foi aí que conheci o sistema, mas só descobri que precisaria usá-lo como candidato depois de ser inexplicavelmente desligado… E foi também aí que o caos se revelou nos detalhes. Além de encontrar situações que considero confusas — como a falta de clareza nos benefícios do plano Premium e a oferta de vagas incompatíveis com o perfil do candidato —, deparei-me com um erro primário de português em mensagens do processo: a pérola de escrever “proceso seletivo” com um “s” só!

    Ao reclamar, recebi a explicação de que esse texto não faria parte de um modelo oficial da plataforma: segundo o InfoJobs, mensagens automáticas desse tipo seriam redigidas ou cadastradas individualmente pelas empresas que usam o sistema. Até aí, poderia ser apenas um erro de uma empresa. O detalhe curioso é que, pouco depois da reclamação, o “proceso” virou “processo”. Coincidência? Pode ser. Mas convenhamos que é daquelas coincidências que entram na sala usando coturno, batendo a porta e pedindo café,aaa.

    E a história não parou por aí. Na reclamação que registrei no Reclame Aqui, em 28 de julho de 2026, questionei também recusas extremamente rápidas depois de dezenas de candidaturas e a utilidade prática do plano Premium. O InfoJobs respondeu que a opção “Deficiência Visual” não estava marcada nos filtros dos meus Alertas de Vagas e informou ter corrigido isso diretamente na minha conta. O problema é que, mesmo depois dessa correção, continuaram aparecendo recomendações incompatíveis com o meu perfil, inclusive vagas exigindo CNH. Isso pra não falar de algumas recomendações simplesmente absurdas. Às vezes chegam mensagens do tipo “Nova vaga no seu setor” e, quando vou conferir, aparece ajudante de pedreiro, padeiro ou alguma outra função que não tem absolutamente nada a ver com meu perfil profissional. Francamente, ridículo é pouco…

    Sobre as recusas em poucos minutos — e, em alguns casos, em tempo que parece caber numa respirada —, a plataforma explicou que as empresas podem usar filtros automáticos configurados pelos próprios recrutadores para eliminar candidaturas imediatamente quando determinados requisitos não são atendidos. Isso esclarece como uma negativa pode chegar tão rápido, mas não resolve a questão que mais incomoda: até que ponto o perfil foi realmente analisado como um conjunto por uma pessoa, em vez de ser descartado por uma regra automática de um robô burro antes de qualquer leitura humana?

    Também foi esclarecido que o plano Premium dá maior destaque ou prioridade ao currículo nas listagens, mas não garante contato, entrevista ou aprovação. Tudo bem: garantia de contratação seria impossível mesmo. O que continua pouco claro, na prática, é o tamanho real dessa vantagem para quem paga e continua vendo candidaturas desaparecerem em minutos ou segundos.

    É aí que minha crítica fica mais forte. Não estou dizendo que toda recusa rápida prova que ninguém leu o currículo — a própria explicação dos filtros automáticos mostra que uma decisão pode ser tomada pelo sistema antes disso. O problema é justamente esse: quando uma plataforma participa da intermediação da vida profissional de tanta gente, deveria existir muito mais transparência sobre o que foi filtro automático, o que foi decisão humana, quais critérios eliminaram a candidatura e o que, concretamente, muda para quem paga por um plano Premium.

    Voltar ao topo


    4. Recrutamento focado em PcD: Egalite, PCD Online e o desafio da inclusão real

    Nem só de tragédia vive o mercado de recrutamento digital. Quando olhamos para inclusão e diversidade, há iniciativas que merecem destaque. Duas delas são a Egalite e a PCD Online, que colocam a inclusão de pessoas com deficiência no centro do negócio, e não como um filtro perdido no meio de um portal generalista.

    Um pouco de história da Egalite: a Egalite é uma empresa brasileira especializada na inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. Sua atuação combina banco de talentos, recrutamento, projetos de acessibilidade e iniciativas de cultura inclusiva para empresas. A própria organização define sua missão como a conexão entre pessoas com deficiência e empregadores, oferecendo cadastro gratuito para candidatos e soluções voltadas à inclusão profissional.

    E a PCD Online? A PCD Online nasceu em 2006 com o nome Deficiente Online. Segundo a própria empresa, foi o primeiro portal de empregos do Brasil dedicado exclusivamente a pessoas com deficiência. Com a evolução da terminologia, a marca passou a adotar o nome PCD Online, mas trata-se da mesma operação, com a mesma equipe, propósito e histórico. A empresa informa reunir atualmente cerca de 167 mil currículos ativos de profissionais com deficiência e ter atendido mais de 2.300 empresas, além de manter serviços ligados a recrutamento, acessibilidade, consultoria e cumprimento da Lei de Cotas.

    O ponto forte de plataformas focadas como a Egalite e a PCD Online é justamente partir da deficiência e da inclusão como parte central do processo, e não como um campo perdido no fim de um formulário. Isso não significa que toda vaga publicada será automaticamente perfeita para toda deficiência — acessibilidade de verdade depende também da empresa, do cargo, das ferramentas e das adaptações oferecidas. Ainda assim, é uma abordagem bem diferente daquela vaga marcada genericamente como “PcD” que, três linhas depois, exige uma condição incompatível com parte do público ao qual supostamente se destina.

    Há também uma diferença interessante entre as duas propostas. A Egalite apresenta sua atuação de forma bastante ligada a projetos de empregabilidade, cultura inclusiva, acessibilidade e seleção especializada. Já a PCD Online carrega uma história mais diretamente associada ao portal de vagas e ao banco de currículos PcD, embora hoje também ofereça soluções para empresas e serviços relacionados à inclusão. No fim das contas, são dois caminhos diferentes tentando resolver um problema que as plataformas generalistas ainda tratam, muitas vezes, com filtros genéricos demais.

    Voltar ao topo


    5. O grande dilema: excesso de plataformas e a pulverização dos currículos

    E aqui chegamos ao X da questão, o verdadeiro “ponto fraco” de todo o sistema atual: a pulverização. Hoje existem dezenas de plataformas de recrutamento. Cada empresa resolve adotar um sistema diferente. A empresa A usa Gupy, a B usa Vagas, a C usa InfoJobs/Pandapé, a D tem um portal próprio de carreiras e a E só aceita candidatura pelo LinkedIn.

    O resultado disso para o candidato a um emprego é catastrófico:

    • Perda de tempo massiva: Você precisa preencher os mesmos dados profissionais (formação, histórico de empregos, cursos, competências) em dez sistemas diferentes (sendo otimista)…
    • Informação desatualizada: Manter um monte de currículos online atualizados exige um esforço surreal. Inevitavelmente, algum perfil vai ficar desatualizado.
    • Incerteza total: Você se cadastra em tudo e fica sem saber onde de fato vale a pena gastar energia para conseguir o esperado emprego.
    • Dados pessoais pulverizados: Currículo, telefone, endereço, histórico profissional e, em alguns casos, informações sobre deficiência acabam espalhados por vários sistemas. Quanto mais cadastros existem, mais lugares precisam ser atualizados, protegidos ou excluídos quando você já não quiser manter a conta.

    Isso pra não falar no desgaste psicológico dos candidatos, que pode ficar cada vez pior conforme o tempo passa. Chega uma hora em que a pessoa simplesmente cansa de preencher formulários, refazer testes e reconstruir o mesmo currículo durante duas ou três horas para, depois, receber uma resposta genérica — às vezes desleixada — em poucos minutos ou até segundos. A tecnologia pode explicar a velocidade, mas não necessariamente torna a experiência menos desumana…

    A promessa da tecnologia era simplificar a conexão entre quem quer trabalhar e quem quer contratar. Mas o excesso de intermediários e a falta de padronização criaram um ecossistema em que o candidato passa mais tempo preenchendo cadastros redundantes do que conversando com recrutadores.

    Voltar ao topo


    6. Considerações finais

    Procurar emprego no Brasil de hoje virou um trabalho por si só, e o pior: não remunerado… Entre robôs burros que travam currículos qualificados, um erro primário de português acompanhado de resposta insuficiente no Reclame Aqui e a obrigação de manter cadastros em trocentas redes, o trabalhador acaba exausto antes mesmo da primeira entrevista.

    Enquanto empresas e plataformas de recrutamento não entenderem que, por trás de cada arquivo enviado, existe uma pessoa de verdade — às vezes cansada, preocupada e simplesmente querendo trabalhar —, continuaremos presos nesse teatro burocrático digital.

    Se você está nessa maratona, talvez a estratégia menos enlouquecedora seja concentrar energia nas plataformas que realmente trazem retorno na sua área, manter os perfis principais atualizados e evitar transformar a busca por emprego numa obrigação de alimentar cinquenta sistemas diferentes todos os dias. O problema da fragmentação não foi criado pelo candidato — e não deveria ser ele a pagar sozinho a conta em tempo, energia e sanidade.

    Voltar ao topo


    Fontes e referências

    Para a parte histórica e institucional das plataformas, consultei principalmente páginas oficiais das próprias empresas. Como alguns números e posições de liderança são divulgados por elas mesmas, devem ser entendidos como informações institucionais ou autodeclaradas.

    Voltar ao topo


    Um abraço e até a próxima!

    Fernando