Dos primeiros pacotes ao 5G e à Starlink: viajando pela história da internet

Tempo de leitura: 16 minutos

Olá, caros amigos e leitores!!

No post anterior, eu disse que o próximo seria sobre internet. E, milagrosamente, cá estamos cumprindo a promessa sem o texto cair em setealém, ser engolido por um portal temporal ou acabar falando sobre outra coisa completamente diferente,aaa.

Hoje vamos viajar desde os primeiros experimentos com redes de computadores até a internet atual: fibra óptica, Wi-Fi, nuvem, redes sociais, streaming, 3G, 4G, 5G e as “internets voadoras” por satélite, como a Starlink. Também faremos uma parada numa espécie de internet que não era internet: os programas de computador transmitidos pelo rádio, gravados em fita cassete e depois carregados em máquinas de 8 bits.

Sim, isso existiu. Não é lenda urbana, memória implantada por uma fita desmagnetizada nem efeito Mandela informático.

Antes de tudo: internet e Web não são a mesma coisa

É muito comum usarmos as palavras internet e Web como se fossem sinônimas. No uso cotidiano isso raramente causa problema, mas historicamente e tecnicamente elas são coisas diferentes.

A internet é a grande rede de redes: a infraestrutura física, os endereços, os roteadores e o conjunto de protocolos que permitem a computadores e outros dispositivos trocarem dados. Já a World Wide Web é um dos serviços que funcionam sobre essa rede, ao lado do correio eletrônico, da transferência de arquivos, das chamadas de voz, do streaming, dos jogos e de muitas outras aplicações.

Em outras palavras: a Web precisa da internet, mas a internet já existia antes da Web. O e-mail, por exemplo, é mais velho que ela. Portanto, se alguém disser que Tim Berners-Lee inventou a internet, podemos mandar a afirmação para o chkdsk: ele inventou a Web, o que já é coisa mais que suficiente para uma pessoa só.

Quando os computadores eram ilhas muito caras

Nas décadas de 1950 e 1960, computadores eram máquinas enormes, caríssimas e geralmente isoladas. Uma universidade podia ter um equipamento poderoso enquanto outra possuía um modelo completamente diferente, com seus próprios programas e sua própria forma de trabalhar. Compartilhar tempo de processamento, arquivos ou resultados de pesquisas à distância era uma ideia muito atraente.

O problema é que a rede telefônica havia sido construída para outra finalidade. Numa ligação tradicional, estabelece-se um circuito entre duas pontas e aquele caminho fica reservado durante a conversa. Isso funciona muito bem para voz, mas é um desperdício quando computadores enviam dados em rajadas, ficam alguns instantes em silêncio e depois voltam a transmitir.

A solução foi a comutação de pacotes. Em vez de reservar um circuito inteiro, a informação é dividida em pequenos blocos identificados. Esses pacotes podem compartilhar os enlaces com dados de outros usuários, seguir caminhos diferentes e ser reorganizados no destino. Se algum se perder, pode ser retransmitido.

É como desmontar uma grande mudança em caixas numeradas — só que, neste caso, todas chegam ao destino, são colocadas na ordem certa e nenhuma delas aparece misteriosamente em setealém. Pelo menos essa é a ideia,aaa.

Pesquisas de Leonard Kleinrock no MIT, de Paul Baran na RAND e de Donald Davies e sua equipe no National Physical Laboratory britânico ajudaram a formar esse conceito. Os trabalhos aconteceram em paralelo e, segundo a história publicada pela Internet Society, o próprio termo packet veio do grupo de Davies.

A ARPANET e o primeiro “LO”

No fim dos anos 1960, a ARPA, agência de pesquisas avançadas do Departamento de Defesa dos Estados Unidos, financiou a construção da ARPANET. O contexto era o da Guerra Fria, mas resumir o projeto dizendo apenas que ele foi criado para sobreviver a uma guerra nuclear é um atalho ruim. A finalidade prática da ARPANET era interligar centros de pesquisa, permitir o compartilhamento de recursos computacionais e experimentar uma nova forma de comunicação entre máquinas diferentes.

Em 29 de outubro de 1969, um computador da Universidade da Califórnia em Los Angeles, a UCLA, tentou enviar a palavra LOGIN para outro no Stanford Research Institute. O sistema recebeu o “L”, recebeu o “O” e então caiu.

Portanto, a primeira mensagem daquela rede foi simplesmente “LO”. Pouco depois, o problema foi corrigido e a palavra inteira conseguiu atravessar o enlace. A DARPA preserva o registro do primeiro envio, e a UCLA conta a história da queda.

Começar com duas letras e um travamento foi, convenhamos, uma estreia muito coerente para a informática.

Ao fim de 1969, a ARPANET possuía quatro nós: UCLA, Stanford Research Institute, Universidade da Califórnia em Santa Bárbara e Universidade de Utah. Era muito pouco perto da rede atual, mas o princípio estava demonstrado: computadores diferentes e distantes podiam conversar por meio de uma rede de pacotes.

O e-mail virou a primeira grande atração

Nos primeiros anos, a rede era principalmente uma ferramenta para pesquisadores acessarem computadores remotos. Logo, porém, aconteceu algo que voltaria a se repetir muitas vezes na história da tecnologia: as pessoas descobriram que uma máquina criada para trabalhar também servia para conversar.

Em 1971, Ray Tomlinson desenvolveu um sistema para enviar mensagens entre computadores da ARPANET e escolheu o sinal @ para separar o nome do usuário do computador de destino. Em 1972, o correio eletrônico foi apresentado publicamente junto com a rede e cresceu depressa. De acordo com a Internet Society, o e-mail se tornou a maior aplicação da rede por mais de uma década.

Antes de existirem páginas, navegadores, redes sociais ou botões de “curtir”, a comunicação entre pessoas já era a parte mais atraente da rede. Mudaram as telas, os nomes e a quantidade de propaganda, mas certas coisas permanecem.

TCP/IP: a língua comum das redes

A ARPANET não era a única rede experimental. Surgiram redes por rádio, satélite, linhas acadêmicas e outras tecnologias, cada uma com características próprias. O novo problema passou a ser fazer redes diferentes conversarem entre si.

Robert Kahn e Vinton Cerf trabalharam numa arquitetura aberta em que cada rede poderia continuar funcionando internamente à sua maneira, desde que todas usassem uma linguagem comum para trocar dados. Dessa ideia nasceram os protocolos que formariam o TCP/IP.

De forma bastante resumida, o IP cuida do endereçamento e do encaminhamento dos pacotes. O TCP estabelece uma comunicação confiável, controla a ordem dos dados e solicita novamente o que se perdeu. Há muitos outros protocolos no conjunto, mas esses dois acabaram emprestando o nome à família inteira.

Em 1º de janeiro de 1983, a ARPANET abandonou seu protocolo anterior, o NCP, e passou oficialmente para o TCP/IP. A mudança foi marcada para uma data única: quem não tivesse convertido seu sistema deixaria de conversar normalmente com o restante da rede. Esse dia é frequentemente tratado como o nascimento da internet moderna.

Portanto, a internet tem várias datas de aniversário possíveis. Podemos comemorar 1969 pela ARPANET, 1983 pelo TCP/IP ou 1989 pela invenção da Web. Se alguém quiser bolo nas três datas, a história oferece uma justificativa tecnicamente aceitável.

DNS: porque ninguém merece decorar IP

Uma rede pequena ainda podia manter uma lista central relacionando os nomes das máquinas a seus endereços numéricos. Conforme o número de computadores cresceu, atualizar e distribuir essa lista virou uma confusão.

Em 1983, Paul Mockapetris apresentou nas RFCs 882 e 883 os conceitos e a implementação inicial do Domain Name System, o DNS. Ele criou uma base distribuída e hierárquica capaz de traduzir nomes compreensíveis, como fernandozamboni.com, em endereços utilizados pelas máquinas.

Chamam o DNS de “lista telefônica da internet”. A comparação é boa, desde que imaginemos uma lista mundial, distribuída entre muitos responsáveis, atualizada o tempo todo e que às vezes guarda um endereço antigo em cache só para nos fazer perguntar por que raios o site funciona num computador e no outro não.

A internet que não era internet: programas transmitidos pelo rádio

Enquanto universidades e centros de pesquisa montavam redes, os microcomputadores domésticos das décadas de 1970 e 1980 enfrentavam outro problema: como guardar e distribuir programas de maneira barata?

Muitos desses computadores usavam o gravador de fita cassete como unidade de armazenamento. Os bits eram transformados em tons de áudio — aqueles bipes e chiados que fariam qualquer pessoa desavisada pensar que o aparelho estava tentando chamar extraterrestres. Para salvar um programa, o computador gerava o som e o gravador o registrava. Para carregar, fazia-se o caminho inverso.

Então alguém percebeu o óbvio genial: se o programa já era som, uma emissora de rádio poderia transmiti-lo.

O apresentador anunciava o que seria enviado, o ouvinte preparava o gravador, apertava REC, registrava a sequência de tons numa fita e depois carregava aquela gravação no computador. Era um download pelo rádio, ou um broadcast digital disfarçado de barulho analógico.

Não era internet porque não havia uma rede bidirecional, endereçamento entre os ouvintes, roteamento de pacotes ou possibilidade de solicitar novamente um trecho corrompido. A emissora transmitia para todos e cada pessoa tentava capturar o sinal. Se houvesse chiado, interferência, volume errado ou um gravador mal regulado, o programa podia chegar do outro lado já necessitando de um chkdsk espiritual.

Na Holanda, o programa de rádio Hobbyscoop, da NOS, criou em 1982 o BASICODE. Como os computadores domésticos usavam formatos e versões de BASIC incompatíveis, o projeto definiu um formato comum. Cada modelo precisava de um programa tradutor, chamado Bascoder, capaz de ler o sinal padronizado e adaptá-lo à máquina. O arquivo histórico do próprio Hobbyscoop explica que o sinal usava modulação FSK e trabalhava a 1.200 bits por segundo.

No Brasil também houve experiências. No projeto conhecido como Computador FM, a Rádio USP FM, por meio do programa Clip Informática, transmitiu dados que os ouvintes podiam gravar e carregar em computadores MSX. Um dos canais da transmissão estereofônica podia levar o áudio digital enquanto o outro mantinha a apresentação do programa.

Para quem viveu a época, a ideia não parece tão absurda: a fita já era o “disco” do computador; a rádio apenas fazia entrega em domicílio.

E havia uma vantagem que os serviços atuais adorariam ter: dez ou dez mil pessoas podiam gravar o programa ao mesmo tempo sem aumentar a carga sobre a emissora. Nada de servidor saturado, fila de download ou DDoS via cassete,aaa.

Os BBS: vizinhos eletrônicos antes da Web

Outra experiência “on-line” que muitas vezes é confundida com a internet eram os Bulletin Board Systems, ou BBS. O usuário ligava o modem a uma linha telefônica e discava diretamente para o computador do operador. Ali podia ler mensagens, participar de fóruns, baixar arquivos e conversar com outros usuários.

Era como telefonar para entrar num prédio digital específico. Ao desligar daquele BBS e ligar para outro, entrava-se em outro sistema. Redes como a FidoNet permitiram a troca de mensagens entre BBS, mas aquilo ainda não era a internet global de TCP/IP que conhecemos hoje.

Mesmo assim, os BBS criaram comunidades, regras de convivência, fóruns, mensagens privadas e distribuição de software. Boa parte da vida social que depois migraria para a Web já estava sendo ensaiada ali — só que com muito menos imagens, muito mais texto e uma conta telefônica capaz de provocar conflitos familiares.

A Web colocou páginas e links sobre a internet

Em 1989, o cientista britânico Tim Berners-Lee trabalhava no CERN, na Suíça, e procurava uma maneira melhor de organizar e compartilhar informações entre pesquisadores que usavam computadores incompatíveis e estavam espalhados por vários países.

Sua proposta combinou três ideias fundamentais: documentos escritos em HTML, identificados por endereços que chamamos de URLs e transferidos pelo protocolo HTTP. Os documentos poderiam apontar uns para os outros por meio de hiperlinks, formando uma teia mundial de informação.

No fim de 1990, Berners-Lee já tinha o primeiro navegador e o primeiro servidor funcionando num computador NeXT. A máquina recebeu um aviso escrito à mão para que ninguém a desligasse. O endereço info.cern.ch hospedou o primeiro site do mundo.

Em 1991, o software da Web começou a ser distribuído fora do CERN. Em 1993, a instituição colocou a tecnologia em domínio público e o navegador Mosaic apresentou uma interface gráfica amigável em várias plataformas. A combinação entre padrões abertos, páginas com links e navegadores relativamente fáceis de usar fez a Web se espalhar numa velocidade impressionante. A história completa pode ser lida no próprio CERN.

A internet, que até então parecia um ambiente para pesquisadores, especialistas e entusiastas muito determinados, ganhou uma porta de entrada para o público comum.

A internet chega ao Brasil

No Brasil, as primeiras conexões surgiram no meio acadêmico. Em 1988, a FAPESP e o Laboratório Nacional de Computação Científica, o LNCC, conectaram-se à Bitnet, uma rede universitária anterior à popularização da internet por aqui.

Em setembro de 1989 foi criada a Rede Nacional de Pesquisa, a RNP, com a missão de implantar uma infraestrutura acadêmica e disseminar o uso de redes no país. Em 1992 entrou em operação a primeira rede brasileira baseada em TCP/IP, alcançando dez estados e o Distrito Federal.

A abertura comercial aconteceu em 1995. Foi também naquele ano que surgiu o Comitê Gestor da Internet no Brasil, o CGI.br, e o cidadão comum começou a ter acesso à internet IP discada. A RNP preserva uma ótima história desse período.

Começavam a aparecer provedores, revistas distribuíam CDs de instalação, programas ofereciam algumas horas grátis e uma geração inteira descobria que era possível conversar com alguém do outro lado do mundo — desde que ninguém em casa precisasse usar o telefone.

A grande sinfonia da internet discada

O modem discado transformava os dados digitais em sinais capazes de viajar pela linha telefônica analógica e depois fazia a conversão inversa. Seu próprio nome vem de modulador-demodulador.

Ao estabelecer a conexão, os dois modems negociavam velocidade e condições da linha por meio daquela inesquecível sequência de apitos, chiados e estalos. Para quem conhecia, era quase possível perceber pelo som se a conexão vinha boa ou se começaria o dia a 14.400 bits por segundo com vontade de voltar para a cama.

As velocidades passaram por 9.600, 14.400, 28.800, 33.600 e chegaram aos famosos 56 Kbps teóricos. Na prática, a linha podia discordar da embalagem. Enquanto o computador estava conectado, o telefone geralmente ficava ocupado, e a cobrança por pulsos incentivava muita gente a entrar depois da meia-noite ou nos fins de semana.

As páginas eram mais leves, as imagens apareciam em parcelas e baixar alguns megabytes exigia planejamento, esperança e, às vezes, um gerenciador capaz de continuar de onde havia parado. Vídeo era artigo de luxo. Áudio em RealAudio ou WMA precisava ser fortemente comprimido, e uma rádio on-line de 32 Kbps já fazia uma conexão respeitável trabalhar.

Eu comecei na informática em 1996, com MS-DOS e DOSVOX, “caí” na internet em 1999 e acompanhei boa parte dessas mudanças. Naquele período conheci o Virtual Vision e o bom e velho JAWS, que já ajudavam a tornar o Windows acessível. Em 2006 surgiram o NVDA e o Orca, facilitando e “democratizando” ainda mais o acesso; outras ferramentas vieram depois. Para uma pessoa cega, a rede abriu um acesso extraordinário a jornais, livros, fóruns, programas, documentação, comunicação e serviços que antes dependiam muito mais da ajuda de terceiros.

As telas eram simples e quase sempre baseadas em texto. Isso não significa que tudo fosse acessível, mas muitas páginas antigas tinham uma vantagem acidental: havia menos botões sem nome, menos janelas surgindo do nada e menos interfaces decididas a adivinhar o que o usuário queria antes que ele conseguisse terminar de dizer,aaa.

A banda larga deixou a internet permanentemente ligada

A partir do fim dos anos 1990 e principalmente durante os anos 2000, conexões por cabo e ADSL começaram a substituir o acesso discado. A linha deixou de precisar estabelecer uma chamada a cada uso, o telefone pôde funcionar ao mesmo tempo e a internet passou a ficar continuamente disponível.

Depois vieram enlaces cada vez mais rápidos e a fibra óptica chegou mais perto das casas — em muitos casos, até dentro delas. Em vez de dezenas de kilobits, passamos a falar em megabits e depois em centenas de megabits ou gigabits por segundo.

Essa mudança não serviu apenas para abrir as mesmas páginas mais depressa. Ela alterou o tipo de serviço possível. Fotografias cresceram, surgiram chamadas de vídeo, cópias de segurança remotas, jogos on-line mais complexos, vídeo sob demanda, transmissões ao vivo e armazenamento em nuvem.

Se a internet discada obrigava o usuário a decidir quando entraria na rede, a banda larga fez a rede permanecer ao redor dele.

Wi-Fi não é internet — mas ajudou a soltá-la dos cabos

O padrão IEEE 802.11, base das redes que chamamos de Wi-Fi, apareceu em 1997 e evoluiu por várias gerações. Ele permite criar uma rede local sem fio e conectar computadores, celulares, televisores e outras geringonças ao roteador.

Mas convém fazer outra distinção: Wi-Fi também não é sinônimo de internet. É possível ter Wi-Fi funcionando perfeitamente dentro de casa e nenhuma conexão com o provedor. Nesse caso, os aparelhos conversam com o roteador e talvez entre si, mas o roteador não consegue alcançar o restante do mundo.

O Wi-Fi resolveu os últimos metros. O sinal atravessa o ar entre o aparelho e o ponto de acesso; dali em diante, normalmente encontra cabos, fibras, roteadores e uma quantidade de infraestrutura física que permanece muito bem presa ao chão.

A Web deixou de ser uma coleção de páginas

No início, a maioria dos sites publicava conteúdo e o visitante lia. Com linguagens de programação no servidor, bancos de dados e JavaScript no navegador, as páginas se transformaram em aplicações. O usuário deixou de ser apenas leitor e passou a publicar, comentar, editar, vender, comprar, conversar e produzir conteúdo.

Fóruns, wikis, blogs, redes sociais, plataformas de vídeo e serviços colaborativos formaram aquilo que se convencionou chamar de Web 2.0. Não foi uma nova versão técnica da internet, mas uma mudança na maneira de usar a Web.

Essa coisa aqui é parte dessa história. Meu blog entrou no ar em 28 de junho de 2006, quando blogs, Orkut, MSN, YouTube e Twitter ajudavam a transformar a internet num espaço de publicação pessoal e conversa permanente. Como contei no artigo sobre os vinte anos do blog, ele atravessou várias dessas fases e, por alguma razão provavelmente teimosística, continua aqui.

A banda larga também transformou o áudio e o vídeo. O arquivo que antes precisava ser baixado inteiro passou a tocar enquanto os dados chegavam. As rádios ganharam alcance mundial, a televisão migrou para plataformas de streaming e qualquer pessoa com equipamento relativamente simples pôde transmitir ao vivo.

Nos anos 1980, o rádio transmitia um programa de computador. Hoje, o computador transmite a rádio inteira. A volta foi grande, mas o parentesco entre som e dados continuou lá.

As “internets voadoras”: 2G, 3G, 4G e 5G

Os telefones celulares de primeira geração, ou 1G, eram analógicos e voltados à voz. A segunda geração, 2G, digitalizou a comunicação, popularizou as mensagens de texto e começou a oferecer dados móveis. Tecnologias como GPRS e EDGE permitiam e-mail, mensageiros e páginas adaptadas, mas não exatamente com uma velocidade capaz de provocar vertigem.

O 3G fez a internet móvel se tornar realmente prática para o público. Navegação comum, redes sociais, mapas, chamadas e mídia passaram a caber no telefone com menos sofrimento.

O 4G, associado principalmente ao LTE e às suas evoluções, transformou o celular num terminal de banda larga. Vídeo em alta definição, transmissões ao vivo, serviços de transporte, pagamentos, trabalho remoto e uma infinidade de aplicativos passaram a funcionar em movimento.

O 5G aumentou velocidade e capacidade, reduziu latência em cenários adequados e foi projetado para atender não só telefones, mas uma quantidade muito maior de dispositivos e aplicações. Isso não significa que qualquer celular 5G, em qualquer lugar, receberá automaticamente uma conexão interplanetária. Frequência, distância da antena, obstáculos, quantidade de usuários, largura de banda disponível e infraestrutura da operadora continuam participando da conversa.

A União Internacional de Telecomunicações relaciona essas gerações às famílias IMT-2000, IMT-Advanced e IMT-2020. A futura 6G, ou IMT-2030, ainda está em fase de especificação e desenvolvimento. Portanto, se alguém aparecer vendendo um “roteador 6G” agora, convém verificar se está falando da geração celular ou apenas usando um número mais bonito na caixa.

E há um detalhe que costuma ficar escondido: a parte “voadora” geralmente é só o trecho entre o celular e a antena. A torre precisa escoar os dados por enlaces de alta capacidade, quase sempre conectados a redes terrestres e fibras. Até a internet sem fio depende de muito fio.

Satélites: a internet voou mais alto

A internet por satélite não começou com a Starlink. Serviços anteriores utilizavam principalmente satélites geoestacionários, posicionados a aproximadamente 35.786 quilômetros de altitude. Como acompanham a rotação da Terra, parecem permanecer no mesmo ponto do céu e conseguem cobrir áreas enormes.

A distância, porém, cobra seu preço. Só o trajeto do sinal entre o solo, o satélite e novamente o solo acrescenta cerca de 240 milissegundos. Uma comunicação completa exige mais percursos e processamento, por isso a latência percebida pode passar facilmente de meio segundo. Para baixar arquivos isso pode ser tolerável; para conversa, jogos ou controle remoto em tempo real, incomoda bastante.

Constelações de órbita baixa mudaram esse cenário. A Starlink utiliza milhares de satélites muito mais próximos da Terra, muitos deles em torno de 550 quilômetros. Como cada satélite cobre uma área menor e se move rapidamente no céu, é necessária uma constelação inteira e a antena do usuário troca de satélite ao longo do tempo.

O resultado é uma conexão por satélite com latência bem menor e velocidade suficiente para usos que eram difíceis nos sistemas geoestacionários. Ela é especialmente importante em áreas rurais, embarcações, locais isolados ou regiões onde levar fibra e torres terrestres é caro ou demorado.

Isso não quer dizer que a internet inteira esteja migrando para o espaço. Segundo a União Internacional de Telecomunicações, os cabos submarinos transportam aproximadamente 99% do tráfego internacional de dados. Satélites ampliam cobertura e oferecem caminhos valiosos; fibras terrestres e submarinas continuam formando a grande espinha dorsal.

Também não existe magia. A antena conversa com o satélite; dali os dados seguem para uma estação terrestre ou por enlaces entre satélites até algum ponto capaz de entrar na internet convencional. Depois atravessam roteadores, fibras, datacenters e redes de outras empresas até chegar ao serviço desejado.

A “internet que vem do céu” continua precisando encontrar a internet que mora no chão.

A nuvem também mora em algum lugar

Outro nome que faz a infraestrutura parecer mais etérea do que realmente é nuvem. Arquivos na nuvem não ficam flutuando num algodão digital. Eles estão gravados em servidores físicos instalados em datacenters, consumindo energia, ocupando discos, produzindo calor e dependendo de rede.

Serviços modernos distribuem cópias por várias regiões e usam redes de entrega de conteúdo, as CDNs, para colocar dados próximos dos usuários. Quando abrimos um vídeo ou site popular, é comum recebê-lo de um servidor localizado muito mais perto do que a sede da empresa. Isso reduz demora e evita que todo o planeta bata na mesma porta.

A internet atual também precisa conviver com uma decisão tomada quando sua escala era muito menor: os endereços IPv4 possuem 32 bits, pouco mais de 4,29 bilhões de combinações. Parecia uma enormidade; deixou de parecer. O NAT passou a permitir que vários aparelhos compartilhassem um endereço público, enquanto o IPv6 foi criado com um espaço de endereçamento praticamente inconcebível para uso humano comum.

Assim, por trás do gesto simples de abrir um aplicativo há DNS, roteamento, criptografia, redes móveis ou Wi-Fi, fibras, cabos submarinos, datacenters, caches e servidores. A maior vitória de toda essa engenharia é justamente o usuário não precisar pensar nela — até alguma parte cair e todo mundo descobrir, de repente, quantas coisas dependiam daquele “detalhezinho”.

A internet ficou mais rica — e nem sempre mais acessível

Em 1999, o W3C publicou a primeira versão das Diretrizes de Acessibilidade para Conteúdo Web, as WCAG. Desde então, os padrões evoluíram e hoje sabemos muito mais sobre estrutura semântica, navegação por teclado, contraste, descrição de imagens, legendas e compatibilidade com tecnologias assistivas.

Mas conhecer as regras e aplicá-las são coisas diferentes.

Para quem usa leitor de telas, a evolução da Web não foi uma linha sempre ascendente. Sites antigos podiam ser visualmente pobres e tecnicamente rudimentares, mas às vezes ofereciam texto e links numa ordem simples. Aplicações modernas conseguem ser excelentes e plenamente acessíveis; também conseguem esconder funções em botões não rotulados, alterar o foco sem aviso, construir controles que só funcionam com o mouse e colocar uma camada de JavaScript entre o usuário e uma informação que antes estava logo ali.

A tecnologia avançou muito. A acessibilidade avança quando alguém se lembra de incluí-la no projeto, testa de verdade e corrige o que não funciona. Caso contrário, ganhamos uma página capaz de reconhecer o rosto, recomendar um vídeo, resumir a busca e conversar com inteligência artificial — mas que chama o botão principal simplesmente de “botão”. Aí não há sistema que salve,aaa.

Da rede descentralizada às grandes plataformas

A internet foi construída sobre protocolos abertos e uma arquitetura distribuída. Em princípio, qualquer pessoa ou organização pode operar um servidor, publicar conteúdo e conectar uma rede usando os mesmos padrões.

Com o tempo, porém, grande parte da vida digital se concentrou em poucas plataformas. Redes sociais, lojas de aplicativos, provedores de nuvem, mecanismos de busca e sistemas de publicidade passaram a intermediar boa parte do que fazemos. A infraestrutura permanece distribuída, mas nossa atenção, nossos dados e nossos contatos muitas vezes ficam presos em alguns grandes condomínios digitais.

Essa concentração trouxe conveniência, escala e serviços fantásticos. Também criou dependência, coleta massiva de dados, bolhas algorítmicas, moderação difícil, desinformação e pontos de falha capazes de afetar milhões de pessoas de uma vez.

A rede cresceu junto com seus problemas de segurança. Spam, phishing, worms, botnets, ransomware, roubo de credenciais e ataques DDoS aproveitaram a mesma capacidade de alcançar o mundo inteiro. No artigo Do vírus de disquete ao muro alugado, já contei parte dessa outra história.

Hoje acrescentamos à rede a inteligência artificial, capaz de gerar texto, imagem, áudio, vídeo e código, além de procurar, resumir e reorganizar informação. É mais uma transformação enorme — e, como todas as anteriores, vem acompanhada de possibilidades reais, promessas exageradas, problemas novos e empresas dispostas a colocar “com IA” até naquilo que ontem funcionava perfeitamente sem ela.

De dois caracteres a um planeta conectado

A internet não nasceu pronta, não foi inventada inteira por uma única pessoa e não cabe numa única data. Ela surgiu da soma de muitas ideias: comutação de pacotes, redes acadêmicas, protocolos abertos, endereçamento, DNS, correio eletrônico, Web, navegadores, cabos, fibras, rádio, telefonia móvel, satélites e milhões de pessoas criando serviços sobre tudo isso.

Em 1969, uma rede com dois computadores tentou enviar LOGIN e conseguiu apenas “LO” antes de cair. Nos anos 1980, ouvintes gravavam bipes do rádio numa fita cassete para carregar um programa. Nos anos 1990, esperávamos o modem terminar sua sinfonia e torcíamos para a ligação não cair. Hoje, um telefone no bolso troca dados com uma antena, um satélite a centenas de quilômetros de altura ou um roteador ligado a uma fibra que pode atravessar oceanos.

O mais curioso é que todas essas fases continuam aparentadas. Em cada uma delas, estamos fazendo a mesma coisa fundamental: transformando informação em sinais, enviando esses sinais por algum meio e tentando reconstruir a informação do outro lado.

Mudaram a velocidade, a distância, os equipamentos e o tamanho do revertério quando alguma coisa dá errado.

E talvez essa seja a melhor definição da internet: uma gigantesca obra coletiva que passou mais de meio século encontrando novos caminhos para ligar máquinas e, principalmente, pessoas.

Um abração e até a próxima viagem nessa coisa aqui!

Fernando

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