Ooi, caros amigos leitores dessa coisa aqui!!
Nos últimos textos, nós já fizemos uma viagem pela história das gravações e também passeamos pela trajetória de grandes artistas e gravadoras que ajudaram a construir a música como a conhecemos.
Mas ficou faltando uma parte importante dessa história: olhar para o nosso próprio quintal.
E quando eu digo “quintal”, estou falando deste pedaço de terra que começa lá pelas Missões, atravessa a Campanha, passa pela Serra, encontra o Litoral, entra nos estúdios de Porto Alegre, toma um café em Pelotas, uma breja em algum bar da Cidade Baixa e termina sabe-se lá onde, porque música gaúcha nunca respeitou muito bem cercas, porteiras, fronteiras ou classificações.
Portanto, pegue o churrasco — não precisa trazer a churrasqueira inteira, pelo amor de Deus —, ajeite a cadeira, cuide para não derrubar a cuia em cima do teclado e vamos seguir o baile,aaa…
Antes de qualquer coisa: o que é música gaúcha?
Quando alguém fala em “música gaúcha”, muita gente pensa imediatamente em gaita, bombacha, galpão, cavalo e um sujeito declamando alguma coisa sobre o minuano.
E isso tudo faz parte, claro. Mas a música produzida no Rio Grande do Sul é muito maior do que apenas a música tradicionalista ou nativista.
Temos milonga, vaneira, chamamé, bugio, rancheira e chamarra, mas também temos samba, MPB, rock, punk, metal, música erudita, pop, reggae, hip-hop, soul, jazz, música eletrônica e algumas misturas tão malucas que nem o próprio compositor deve saber exatamente em qual prateleira colocar.
Aliás, essa vontade de misturar coisas talvez seja uma das principais características da música feita por aqui. O Rio Grande do Sul sempre esteve culturalmente muito próximo do Uruguai e da Argentina, ao mesmo tempo em que recebia discos, rádios, músicos e influências vindas do Rio de Janeiro, de São Paulo, da Europa e dos Estados Unidos.
O resultado foi uma espécie de entrevero musical: um pouco de pampa, um pouco de cidade, um pouco de fronteira, guitarra elétrica, gaita, tambor, violão, sopapo e aquilo que mais aparecesse pelo caminho.
Porto Alegre já fabricava discos quando essa coisa ainda era novidade
A nossa história começa muito antes de Elis Regina, Teixeirinha, Lupicínio Rodrigues ou dos roqueiros dos anos 1980.
No início do século XX, enquanto a indústria fonográfica brasileira ainda tentava descobrir como transformar música em negócio, Porto Alegre entrou na história com uma empresa chamada Casa A Elétrica.
O empreendimento foi criado pelo imigrante italiano Savério Leonetti. Ele começou com uma loja que vendia artigos importados, instrumentos musicais, gramofones e discos. Mas Leonetti resolveu ir além: viajou à Europa, comprou equipamentos e trouxe para Porto Alegre a tecnologia necessária para gravar e fabricar discos.
A empresa começou a realizar gravações por volta de 1913 e inaugurou sua fábrica em 1914. Portanto, quando muita gente ainda olhava para um gramofone imaginando que havia um cantor minúsculo escondido dentro da caixa, Porto Alegre já tinha uma fábrica “imprimindo??” discos.
A história da empresa é contada em detalhes no artigo Casa A Elétrica: samba, tango e pirataria em 78 rpm e também foi objeto de uma pesquisa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul sobre as primeiras gravações fonográficas no Sul do Brasil.
A loja ficava na Rua dos Andradas, enquanto a fábrica funcionava na antiga Rua Sergipe, atual Avenida Sergipe, em Porto Alegre.
Seus discos foram lançados por selos como Disco Gaúcho, Apollo, Phoenix e Tele-Phone. A empresa gravava repertório regional, mas também fabricava sambas, valsas, polcas, fados, tangos e outros gêneros populares daquele período.
Entre 1913 e 1915, a Casa A Elétrica lançou algumas gravações já classificadas nos rótulos como “samba” ou “samba carnavalesco”. Também prensou discos destinados aos mercados argentino e uruguaio, mostrando que a indústria fonográfica gaúcha já nasceu olhando para os dois lados da fronteira.
E, como não poderia faltar numa boa história empresarial brasileira, também houve briga comercial, acusação de pirataria e processo judicial.
A Casa A Elétrica entrou em conflito com a poderosa Casa Edison, do Rio de Janeiro, depois de gravar e comercializar uma composição cujos direitos estavam ligados à concorrente. A disputa ajudou a levar a empresa de Leonetti ao fechamento, em 1924.
Ou seja: antes mesmo de termos streaming, compartilhamento de MP3, torrent e advogado mandando tirar vídeo do ar, a indústria da música já discutia cópia, matriz, gravação e direito autoral. A tecnologia muda, mas a confusão segue firme e forte,aaa…
O rádio entra em cena
Depois dos primeiros discos, o rádio passou a ser o principal palco para quem queria cantar, tocar e ser ouvido.
Nas décadas de 1930, 1940 e 1950, emissoras como as rádios Gaúcha e Farroupilha mantinham orquestras, conjuntos, cantores, programas de auditório e atrações infantis. Não era apenas colocar um disco para tocar: a rádio produzia boa parte de sua própria programação musical ao vivo.
Para os artistas, conseguir um espaço numa emissora significava entrar na casa de milhares de pessoas. O ouvinte talvez nunca tivesse assistido ao cantor pessoalmente, mas conhecia sua voz, esperava seu programa e, quando aparecia um disco, já sabia exatamente quem estava cantando.
Foi dentro desse ambiente que surgiram ou ganharam força vários nomes fundamentais da música do estado.
Lupicínio Rodrigues: a dor de cotovelo sai de Porto Alegre
Nascido em Porto Alegre em 1914, Lupicínio Rodrigues transformou amores perdidos, traições, abandonos e sofrimentos em algumas das canções mais importantes da música brasileira.
Lupi não precisava inventar um castelo, uma batalha ou uma viagem até a Lua. Bastavam um bar, uma mesa, uma lembrança e alguém que tivesse ido embora sem deixar manual de recuperação.
Canções como Se acaso você chegasse, Nervos de aço, Vingança, Felicidade, Nunca e Ela disse-me assim atravessaram gerações e foram gravadas por intérpretes de estilos completamente diferentes.
Jamelão tornou-se um de seus grandes intérpretes, mas a obra de Lupicínio também passou pelas vozes de Francisco Alves, Orlando Silva, Elza Soares, Paulinho da Viola, Gal Costa, Caetano Veloso e muitos outros.
A expressão “dor de cotovelo”, embora não tenha sido inventada por ele, ficou definitivamente associada às suas composições. E não era uma dor discreta, dessas que se resolvem com gelo e anti-inflamatório. Era uma dor com introdução, duas estrofes, refrão, orquestra e alguém bebendo no fundo do bar.
O Instituto Moreira Salles reuniu parte dessa trajetória no especial Lupicínio: e assim nós vamos vivendo de amor.
Lupicínio também demonstrou uma coisa importante: um compositor não precisava abandonar completamente Porto Alegre para participar da música nacional. Suas canções viajavam por meio das editoras, das partituras, do rádio e, principalmente, das gravações realizadas por grandes intérpretes.
O Conjunto Farroupilha leva o Rio Grande para o mundo
Em 1948, surgiu na Rádio Farroupilha o Conjunto Farroupilha, idealizado pela cantora Inah d’Ávila.
O grupo trabalhava com arranjos vocais elaborados e um repertório que misturava música regional, canção popular brasileira e influências de conjuntos vocais internacionais.
O Conjunto Farroupilha gravou discos, participou de programas de rádio e televisão e realizou apresentações fora do Brasil. Em vez de tratar a música regional apenas como uma curiosidade local, o grupo apresentou aquele repertório com arranjos sofisticados e qualidade profissional.
Durante décadas, seus integrantes funcionaram como verdadeiros embaixadores musicais do Rio Grande do Sul. Uma pesquisa sobre essa circulação pode ser encontrada no artigo Nas asas da Varig e da Panair: o Conjunto Farroupilha.
Foi uma demonstração de que a música gaúcha podia viajar sem perder o sotaque. Ela apenas precisava de bons arranjos, boas vozes, bons microfones e, de preferência, alguém que não extraviasse os instrumentos no aeroporto.
Teixeirinha e o fenômeno do disco regional
Se Lupicínio levou a boemia de Porto Alegre para o Brasil, Teixeirinha levou a narrativa do interior gaúcho para milhões de ouvintes.
Vítor Mateus Teixeira nasceu em Rolante, em 1927, teve uma infância difícil e trabalhou em várias atividades antes de se firmar como cantor.
Em 1960, gravou pela Chantecler a música Coração de luto, na qual narrava a morte da mãe em um incêndio. A gravação tornou-se um fenômeno popular e projetou definitivamente sua carreira.
É difícil encontrar números confiáveis sobre a quantidade exata de discos vendidos — cada fonte parece acrescentar mais alguns milhões ao churrasco —, mas não há dúvida de que Teixeirinha foi um dos artistas mais populares e comercialmente bem-sucedidos de sua época.
Ele gravou dezenas de discos, escreveu centenas de músicas, participou de filmes e criou uma ligação direta com o público. Suas canções contavam histórias completas, com personagens, tragédia, saudade, família, estrada, trabalho e identidade regional.
Uma análise bastante detalhada de sua trajetória está disponível no estudo Canta meu povo: uma interpretação histórica sobre a produção musical de Teixeirinha.
Teixeirinha provou que havia um enorme mercado para a música regional. O público não queria apenas ouvir o que vinha do Rio de Janeiro ou de São Paulo: queria se reconhecer nas histórias, na linguagem e na paisagem das gravações.
Gildo de Freitas, José Mendes e a voz do campo
Ao lado de Teixeirinha, outros artistas ajudaram a consolidar a música regional gravada.
Gildo de Freitas levou para o disco a tradição do trovador, do improviso e da provocação bem-humorada. Suas canções preservavam a sensação de conversa e desafio que existia nas apresentações ao vivo.
José Mendes, por sua vez, alcançou enorme popularidade com músicas como Pára Pedro, além de participar de filmes e programas de rádio e televisão.
Também ganharam espaço grupos e artistas como Os Bertussi, Os Mirins, Os 3 Xirus, Pedro Ortaça, Noel Guarany, Cenair Maicá, Luiz Carlos Borges, Os Serranos e Os Monarcas.
Cada um deles ajudou a registrar uma parte diferente do estado: a Serra, a fronteira, as Missões, os bailes, o trabalho no campo, a imigração, o humor, os conflitos e as transformações da vida rural.
Esses discos fizeram algo que a tradição oral sozinha não conseguiria fazer: conservaram vozes, modos de tocar, sotaques, histórias e repertórios que poderiam ter desaparecido.
Elis Regina: da Rádio Gaúcha para a história da música brasileira
Em 1957, uma menina de 12 anos chamada Elis Regina Carvalho Costa conseguiu finalmente cantar no programa Clube do Guri, da Rádio Farroupilha. Ela já havia tentado participar antes, mas o nervosismo falou mais alto e a apresentação não aconteceu.
Desta vez aconteceu. E ainda bem, porque seria um certo desperdício deixar Elis Regina voltar para casa sem cantar,aaa…
Aos 13 anos, ela iniciou a carreira profissional na Rádio Gaúcha. Em 1961, lançou pela Continental seu primeiro LP, Viva a Brotolândia.
Os primeiros discos tentavam enquadrá-la nos estilos comerciais do momento, passando por rocks, calypsos, boleros e versões. A voz já estava ali, mas ainda faltava encontrar o repertório capaz de mostrar tudo aquilo que ela podia fazer.
Elis mudou-se para o Rio de Janeiro e, em 1965, venceu o Festival de Música Popular Brasileira interpretando Arrastão, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes.
A partir dali, tornou-se uma das maiores intérpretes da música brasileira. Gravou compositores novos, recuperou artistas que estavam esquecidos, apresentou canções que se tornariam clássicas e deixou discos fundamentais, como Elis & Tom, Falso Brilhante e Transversal do Tempo.
A trajetória entre o rádio gaúcho e a consagração nacional é analisada no artigo acadêmico Nasce uma estrela: os primeiros anos da trajetória musical de Elis Regina.
Elis saiu do Rio Grande do Sul, mas nunca deixou de ser uma cantora formada pelo rádio, pelos conjuntos e pelos palcos de Porto Alegre. Antes de existir concurso musical na televisão com jurado girando cadeira, ela já enfrentava auditório, orquestra, microfone e transmissão ao vivo.
Os festivais nativistas transformam música em movimento
Em 1971, Uruguaiana realizou a primeira Califórnia da Canção Nativa.
O festival abriu espaço para uma nova geração de compositores, intérpretes e instrumentistas. A música regional passou a discutir não apenas tradição, mas também identidade, política, desigualdade, preservação ambiental, vida na fronteira e as mudanças que estavam ocorrendo no campo.
A Califórnia tornou-se referência para muitos outros festivais realizados em cidades gaúchas. Vieram a Tertúlia Musical Nativista, a Coxilha Nativista, a Vigília do Canto Gaúcho, a Moenda da Canção, o Musicanto Sul-Americano e muitos outros.
Esses festivais produziam seus próprios discos. Para muita gente, o LP anual era a única oportunidade de levar aquelas canções para casa e ouvi-las novamente.
Foi por esse circuito que ganharam projeção nomes como César Passarinho, Telmo de Lima Freitas, Leopoldo Rassier, José Cláudio Machado, João Chagas Leite, Luiz Marenco, Jari Terres, Elton Saldanha, Shana Müller e tantos outros.
A história e a importância do festival podem ser conhecidas no site da Califórnia da Canção Nativa do Rio Grande do Sul.
Os festivais funcionavam ao mesmo tempo como palco, rádio, gravadora e vitrine. Uma música podia ser apresentada numa noite, vencer o festival, entrar no disco oficial e começar a tocar nas emissoras na semana seguinte.
Era praticamente um algoritmo de recomendação, só que usava jurados, músicos e uma Calhandra de Ouro em vez de servidores instalados sabe-se lá onde.
Paralelo 30 e a música urbana gaúcha
No final dos anos 1970, os músicos urbanos do Rio Grande do Sul enfrentavam um velho problema: quase toda a grande indústria fonográfica brasileira estava concentrada no eixo Rio–São Paulo.
Gravar um LP exigia dinheiro, estúdio, técnicos, fabricação, distribuição e uma gravadora disposta a apostar no artista. Não bastava ter boas músicas. Era preciso convencer uma empresa de que havia mercado para elas.
Em 1978, o estúdio ISAEC, de Porto Alegre, lançou a coletânea Paralelo 30, produzida pelo jornalista e crítico musical Juarez Fonseca.
O disco reuniu Bebeto Alves, Carlinhos Hartlieb, Raul Ellwanger, Cláudio Vera Cruz, Nando d’Ávila e Nelson Coelho de Castro. Cada compositor participou com duas músicas.
A coletânea tornou-se um marco da chamada Música Popular Gaúcha, ou MPG — uma denominação ampla que acabou reunindo artistas de MPB, música regional, pop e outros estilos.
A ISAEC teve vida curta como gravadora, mas o estúdio continuou funcionando. Parte dessa história é recuperada numa pesquisa da UFRGS sobre música popular e produção fonográfica em Porto Alegre.
Em 1981, Nelson Coelho de Castro lançou Juntos, conhecido como o primeiro disco independente do Rio Grande do Sul. Para financiar a produção, utilizou um sistema de venda antecipada.
Sim: antes de existir financiamento coletivo pela internet, o músico já pedia ao público que comprasse o disco antes de ele ficar pronto. O crowdfunding estava inventado; só faltavam o site, o cartão de crédito, a barrinha de progresso e alguém prometendo uma camiseta para quem contribuísse mais,aaa…
A história do álbum está documentada no estudo Juntos, o primeiro disco gaúcho independente.
Almôndegas, Kleiton & Kledir, Bebeto Alves, Nei Lisboa e Vitor Ramil
Dentro dessa música urbana surgiram artistas que misturavam tradição gaúcha, MPB, rock, música latino-americana e poesia.
O grupo Almôndegas, formado em Pelotas, revelou nomes como Kleiton Ramil, Kledir Ramil e Vitor Ramil. Seus discos mostravam que era possível usar elementos regionais sem transformar cada apresentação num desfile tradicionalista.
Depois do fim do grupo, Kleiton & Kledir construíram uma carreira nacional, levando para suas canções um humor e uma linguagem imediatamente reconhecíveis para quem conhece o Rio Grande do Sul.
Bebeto Alves aproximou o pampa do rock, da MPB e da música latino-americana. Nei Lisboa transformou cenas urbanas, relacionamentos e observações do cotidiano em canções sofisticadas e muitas vezes irônicas.
Vitor Ramil desenvolveu uma obra própria, ligada à milonga, à literatura e ao conceito de “estética do frio”. Em vez de tentar esconder a posição geográfica e cultural do estado, ele fez justamente o contrário: colocou essa diferença no centro da criação.
Também precisamos lembrar de instrumentistas como Renato Borghetti, que levou a gaita-ponto para palcos nacionais e internacionais, e Yamandu Costa, violonista de técnica quase ilegal, capaz de fazer um violão de sete cordas parecer uma pequena orquestra que tomou energético demais.
A ACIT e a construção de uma indústria fonográfica no Sul
Em 1º de outubro de 1982, o produtor Edison Campagna fundou a ACIT.
A empresa começou trabalhando com distribuição de discos, mas logo passou a produzir e lançar artistas, principalmente ligados à música regional, nativista e de baile.
Seu catálogo reuniu nomes como Os 3 Xirus, Os Farrapos, Os Mirins, Pedro Ortaça, João Chagas Leite, César Passarinho, Luiz Carlos Borges, Os Serranos, Os Monarcas e muitos outros.
Com o tempo, a empresa construiu estúdio próprio, ampliou sua distribuição e passou a trabalhar também com outros gêneros. Por meio do selo Antídoto, lançou artistas e bandas de pop e rock.
A própria gravadora conta sua trajetória na página História da ACIT.
A importância da ACIT não está apenas nos artistas famosos que passaram por seu catálogo. Ela ajudou a criar uma estrutura regional de gravação, produção, fabricação, divulgação e distribuição.
Um artista do Sul já não precisava necessariamente atravessar o país para encontrar uma gravadora. A empresa estava aqui, entendia o público local e sabia que um disco podia vender muito bem mesmo sem tocar o dia inteiro nas grandes emissoras do centro do Brasil.
Outras empresas, como a USA Discos, também participaram desse mercado, especialmente com lançamentos de música regional, sertaneja, bandas de baile e, mais tarde, CDs e DVDs.
A música negra gaúcha e o som do sopapo
Uma história da música do Rio Grande do Sul que fale apenas de CTGs, festivais nativistas e rock fica incompleta.
A população negra teve participação fundamental na formação musical do estado, embora muitas vezes apareça pouco nas narrativas oficiais.
Lupicínio Rodrigues já é um dos maiores exemplos, mas também precisamos lembrar de artistas como Túlio Piva, Bedeu, Luis Vagner, Loma, Zilah Machado e Giba Giba.
Giba Giba foi cantor, compositor, percussionista, pesquisador e divulgador da cultura afro-gaúcha. Teve papel importante na preservação e valorização do sopapo, grande tambor associado à cultura negra do sul do estado.
Sua trajetória é apresentada no programa Giba Giba e a música negra no Sul do Brasil, da TV Brasil.
O samba, o carnaval, os blocos, as escolas de samba, os bailes black e a música dos bairros populares também produziram artistas, compositores e gravações fundamentais.
Sem essa parte da história, ficamos com um retrato pela metade — e fotografia pela metade, seja em imagem ou em “fonografia”, costuma esconder justamente o que deveria mostrar.
O rock gaúcho invade as gravadoras
Na década de 1980, Porto Alegre tinha bares, teatros, festivais, rádios e uma quantidade considerável de jovens dispostos a ligar guitarras em amplificadores e incomodar os vizinhos.
A Rádio Ipanema FM teve papel importantíssimo na divulgação dessa cena, tocando demos, bandas locais e artistas que dificilmente conseguiriam espaço nas emissoras mais comerciais.
Em 1984, a ACIT lançou a coletânea Rock Garagem. Dois anos depois, a RCA lançou Rock Grande do Sul, reunindo DeFalla, Engenheiros do Hawaii, Garotos da Rua, Os Replicantes e TNT.
O disco ajudou a apresentar aquelas bandas ao mercado nacional. Em 1986, os Engenheiros do Hawaii lançaram Longe demais das capitais, enquanto Os Replicantes lançaram O futuro é vórtex.
A própria expressão “longe demais das capitais” resumiu perfeitamente o problema. Porto Alegre era uma capital, claro, mas estava longe das capitais onde as grandes gravadoras, redes de televisão e principais veículos da indústria musical tomavam suas decisões.
A coletânea e sua importância aparecem em uma pesquisa da UFRGS sobre o rock gaúcho.
Depois vieram Nenhum de Nós, Cascavelletes, Graforréia Xilarmônica, Rosa Tattooada e muitas outras bandas. Algumas alcançaram o mercado nacional; outras permaneceram independentes ou se tornaram cultuadas justamente por não caberem muito bem em lugar nenhum.
Nas décadas seguintes, o estado continuou produzindo bandas como Bidê ou Balde, Cachorro Grande, Comunidade Nin-Jitsu, Ultramen, Tequila Baby, Reação em Cadeia e Fresno, além do metal extremo do Krisiun, que construiu uma carreira internacional.
O Rio Grande do Sul conseguia produzir música campeira, MPB sofisticada, punk, reggae, funk, metal e rock de rádio praticamente ao mesmo tempo. Às vezes, provavelmente, na mesma rua.
Do estúdio caro para a gravação no quarto
Durante boa parte dessa história, gravar um disco era um acontecimento caro e complicado.
O músico precisava reservar um estúdio, contratar técnicos, pagar horas de gravação, mixagem e masterização, produzir a capa, fabricar LPs ou CDs e encontrar alguém disposto a distribuir tudo aquilo.
Uma gravação independente podia consumir todas as economias do artista, da família e, dependendo da quantidade de canais utilizada, talvez também as economias de alguns vizinhos.
Com a popularização dos computadores, das interfaces de áudio e das estações de trabalho digitais, esse cenário mudou.
Hoje, um músico gaúcho pode gravar em casa usando REAPER, Pro Tools, Logic, Cubase ou qualquer outro programa, enviar arquivos pela internet para músicos de outras cidades, mixar o projeto num estúdio diferente e lançar o resultado mundialmente sem prensar uma única mídia física.
Isso democratizou a produção. Artistas de cidades pequenas, que antes dificilmente chegariam a um estúdio profissional, passaram a ter condições de registrar e publicar suas músicas.
Por outro lado, o desaparecimento das mídias físicas e a crise das gravadoras reduziram parte da estrutura que financiava gravações, organizava catálogos e trabalhava durante anos na construção de uma carreira.
Hoje é mais fácil gravar e lançar. O difícil é fazer alguém descobrir que a gravação existe no meio de alguns milhões de outras músicas lançadas na mesma semana.
Das bolachas de 78 rotações ao streaming
A Casa A Elétrica gravava o som diretamente em matrizes e fabricava discos pesados e frágeis. Décadas depois, os artistas passaram pelos LPs, compactos, fitas cassete, CDs, DVDs, arquivos digitais e finalmente pelo streaming.
As antigas gravadoras controlavam quase toda a passagem entre o estúdio e o público. Hoje, distribuidoras digitais permitem que praticamente qualquer artista coloque uma música nas plataformas.
Isso parece maravilhoso — e em muitos aspectos realmente é —, mas trouxe um novo problema: a remuneração por reprodução costuma ser muito pequena.
O disco deixou de ser um objeto comprado pelo ouvinte e passou a ser um acesso temporário dentro de uma assinatura. O artista já não vende necessariamente um álbum; ele disputa alguns minutos da atenção do público.
Ao mesmo tempo, os catálogos antigos ganharam uma nova vida. Gravações de Lupicínio, Teixeirinha, Elis, Conjunto Farroupilha e muitos outros artistas voltaram a circular e podem ser encontradas por ouvintes que nunca viram uma vitrola funcionando.
Mas existe um detalhe importante: nem tudo foi digitalizado, nem tudo está disponível e nem tudo que aparece nas plataformas está corretamente identificado.
Há discos gaúchos raros, gravações de festivais, compactos independentes, fitas, programas de rádio e matrizes que continuam guardados em arquivos públicos ou coleções particulares.
Preservar esse material é fundamental. Não basta guardar o disco numa prateleira e torcer para que ele sobreviva por mais cem anos. É preciso catalogar, digitalizar, identificar compositores, músicos, técnicos, datas e locais de gravação.
Uma história grande demais para caber num único texto
É impossível citar todos os grandes artistas do Rio Grande do Sul numa única postagem.
Se tentássemos colocar todo mundo, precisaríamos incluir centenas de intérpretes, compositores, conjuntos, bandas, orquestras, músicos de baile, trovadores, instrumentistas, produtores e técnicos de gravação.
E ainda apareceria alguém, cinco minutos depois da publicação, perguntando:
“Mas e aquele músico que gravou um compacto em 1973, vendeu 217 cópias num baile em Não-Me-Toque e depois abriu uma oficina?”
E provavelmente ele também mereceria estar aqui,aaa…
O importante é perceber que a história fonográfica do Rio Grande do Sul não começou ontem e não dependeu apenas das grandes empresas do eixo Rio–São Paulo.
O estado teve uma fábrica de discos pioneira, grandes emissoras de rádio, compositores que entraram definitivamente para a música brasileira, artistas com milhões de ouvintes, festivais que criaram repertórios, gravadoras regionais, selos independentes e cenas musicais que continuam se renovando.
Da Casa A Elétrica ao estúdio doméstico, do Disco Gaúcho ao arquivo digital, da Rádio Farroupilha ao streaming, cada tecnologia mudou a forma de gravar, distribuir e ouvir.
Mas a finalidade continua praticamente a mesma: fazer o som atravessar o tempo.
Uma pessoa canta ou toca em determinado lugar. Um microfone — ou, nos primeiros tempos, uma corneta — captura aquilo. A gravação é guardada em algum suporte e, anos ou décadas depois, alguém que nunca conheceu aquele artista aperta um botão, baixa uma agulha ou coloca um disco para rodar.
E a voz volta.
Talvez essa seja a parte mais bonita dessa coisa toda: os aparelhos envelhecem, os formatos desaparecem, as gravadoras fecham, os aplicativos mudam de nome e as empresas inventam novas maneiras de cobrar pelo mesmo conteúdo.
Mas, quando a gravação é preservada, o artista continua entrando na sala e cantando outra vez.
Bueno, o churrasco provavelmente já esfriou, a água do chimarrão também e alguém deve ter colocado uma playlist de bandinha no volume máximo. Portanto, acho melhor encerrarmos por aqui antes que a história da música gaúcha vire também a história completa do condomínio,aaa…
Era isso, um abração e até o próximo post nessa coisa aqui, ou melhor, próximos, por que estou preparando dois: Um sobre terceirização de segurança digital (Isso mesmo que escrevi,aaa), e outro sobre mudanças voluntárias e involuntárias, falando um pouco da minha vida, claro, por que esse blog tem que voltar a ter também um pouquinho de coisas pessoais…!
Fernando
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