Olá caros amigos, leitores dessa coisa aqui!
Quem me conhece sabe que gosto de gravadores. Não apenas de apertar o botão vermelho e registrar alguma coisa, mas dos aparelhos em si, das diferenças entre microfones, dos formatos e, principalmente, do que costumo chamar de “fonografias”: fotografias feitas com som.
Uma fotografia congela aquilo que a câmera viu. Uma gravação congela aquilo que o microfone ouviu: uma voz, uma música, o barulho de uma rua, uma conversa, uma festa, um ensaio ou até aquele ruído misterioso que só aparece às três da madrugada e que, depois de devidamente investigado, era o motor da geladeira. Quase sempre, pelo menos.
Hoje basta pegar um gravador do tamanho de um maço de cartas, ou mesmo o celular, apertar um botão e pronto. Mas até chegarmos aqui o som precisou passar por fuligem, folhas de estanho, cilindros de cera, discos quebradiços, vinil, fios de aço, fitas magnéticas, cassetes, discos ópticos, cartões de memória e uma verdadeira arquivaíada de extensões de computador.
Então ajustemos o ganho, verifiquemos se há espaço no cartão e viajemos nessa história.
1860: quando o som foi gravado, mas não podia ser ouvido
A primeira parada dessa viagem parece uma daquelas ideias trazidas diretamente de Setealém: gravar um som sem ter como reproduzi-lo.
Em 1857, o francês Édouard-Léon Scott de Martinville criou o fonoautógrafo. O aparelho usava uma membrana ligada a uma ponta que riscava as vibrações sonoras sobre papel escurecido com fuligem. Sua intenção era fazer o som desenhar a si próprio, permitindo que as ondas fossem estudadas visualmente. Era uma espécie de “osciloscópio movido a manivela”, guardadas todas as diferenças e gambiarras históricas envolvidas.
O fonoautógrafo registrava, mas não reproduzia. O som virava um traço no papel e ali ficava, mudo. Em 9 de abril de 1860, Scott registrou um trecho da canção francesa Au clair de la lune. A gravação durava poucos segundos e ninguém naquela época podia escutá-la.
Ela só ganhou voz em 2008, quando pesquisadores digitalizaram os traços e os converteram em áudio por computador. Ou seja: uma voz de 1860 ficou quase 148 anos esperando que inventassem a reprodução adequada para ela. A história e o áudio podem ser conhecidos no artigo “Phonautograms”, da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos.
Esse episódio também nos obriga a separar duas coisas: a primeira inscrição recuperável de um som e a primeira máquina capaz de gravar e tocar o que havia gravado. Para a segunda, precisamos avançar dezessete anos.
1877: Edison faz o som voltar
Em 1877, Thomas Edison criou o fonógrafo. Uma folha de estanho era enrolada ao redor de um cilindro; a voz fazia uma membrana vibrar, uma agulha marcava o estanho e outra agulha percorria novamente aquelas marcas para reproduzir o som.
Segundo o relato tradicional, Edison recitou Mary had a little lamb. Pela primeira vez, alguém podia falar para uma máquina e, pouco depois, ouvir a própria voz saindo dela. Devia ser uma experiência comparável à de quem ouviu sua voz num gravador pela primeira vez e pensou: “Raios partam isto, eu falo assim?”
O estanho, porém, não era exatamente o formato mais resistente já inventado. Depois de algumas reproduções, rasgava ou perdia as marcas. O Serviço Nacional de Parques dos Estados Unidos explica o funcionamento do primeiro fonógrafo e mostra por que praticamente não sobraram gravações nessas folhas.
Mesmo limitado, o fonógrafo resolveu a parte essencial do problema: o som já não precisava morrer no mesmo instante em que era produzido.
Os cilindros de cera e a primeira guerra dos formatos
Na década de 1880, pesquisadores do laboratório de Alexander Graham Bell trabalharam no graphophone, que cortava o som em uma camada de cera. Edison retomou suas pesquisas e, em 1887, adotou um cilindro sólido de cera. Era bem mais prático que o estanho e, em certos usos, podia até ser raspado para receber uma nova gravação.
O áudio ficava gravado ao redor do cilindro num sulco que subia e descia conforme as vibrações. No começo, fazer cópias era um trabalhão. Às vezes, os artistas precisavam repetir a mesma música diante de vários fonógrafos. Depois vieram processos de moldagem que permitiram fabricar cilindros em quantidade.
Durante algum tempo, parecia perfeitamente normal guardar música em pequenos rolos. Então apareceu Emile Berliner e resolveu achatar o negócio.
Berliner patenteou o gramofone em 1887 e logo substituiu o cilindro por um disco plano, usando um sulco que se movia lateralmente. O disco era mais fácil de guardar, transportar e, principalmente, duplicar. A partir da década de 1890, cilindros e discos iniciaram a primeira guerra de formatos da história das gravações — ancestral direta de muitas outras brigas tecnológicas que ainda viriam.
A linha do tempo da Biblioteca do Congresso dos EUA mostra que essa disputa durou cerca de vinte anos. Como sempre acontece nessas guerras, o consumidor provavelmente só queria ouvir música, enquanto as empresas tentavam convencê-lo de que o formato comprado no ano anterior estava prestes a virar peça de museu.
Dos discos de goma-laca ao vinil
Os primeiros discos comerciais não eram os LPs de vinil que hoje voltaram às lojas. Durante décadas, predominou o disco de 78 rotações por minuto, geralmente feito de goma-laca: duro, pesado e quebradiço. Se caísse, havia boa possibilidade de a música se transformar num quebra-cabeça sem solução.
Também cabiam poucos minutos de cada lado. Isso influenciou a própria duração das músicas populares e obrigava obras longas a serem divididas entre vários discos. Um “álbum” era, literalmente, um álbum com diversos discos guardados em páginas, quase como fotografias.
No início, as gravações eram totalmente acústicas. Os músicos tocavam diante de uma grande corneta, que concentrava o som e movimentava mecanicamente a agulha de corte. Não havia microfone, mesa, cabo XLR, equalizador nem botão de undo. Cantores e instrumentos precisavam ser posicionados pela força sonora: os mais baixos perto da corneta, os mais potentes longe dela. Era a mixagem feita com cadeiras, distância e muita fé.
Na década de 1920, a gravação elétrica trouxe microfones, amplificação e uma faixa de frequências muito maior. A partir daí, o estúdio começou a se parecer mais com aquilo que reconhecemos hoje.
Em junho de 1948, a Columbia apresentou o LP de 12 polegadas, feito de vinil, girando a 33 1/3 rotações por minuto e com microssulcos. Cada lado comportava cerca de vinte e poucos minutos. No ano seguinte, a RCA Victor respondeu com o compacto de 45 rotações. A velha guerra de formatos voltava ao serviço: em 1949 havia discos de 78, 45 e 33 1/3 RPM disputando espaço.
A história desse lançamento pode ser lida em “The First Long-Playing Disc”, da Biblioteca do Congresso dos EUA. Em 1957 surgiram os primeiros LPs estereofônicos comerciais e o vinil consolidou o álbum como obra longa, com lado A, lado B, capa grande e toda uma cerimônia para ouvir.
Antes da fita, um fio de aço
Enquanto agulhas percorriam sulcos, outra família de gravação estava nascendo: a magnética.
Em 1898, o dinamarquês Valdemar Poulsen demonstrou o Telegraphone, que registrava o som magnetizando um fio de aço. A ideia era brilhante, mas a falta de boa amplificação limitou seu sucesso. O Computer History Museum conta a história do aparelho, usado inclusive como uma espécie de ancestral da secretária eletrônica.
Gravadores de fio ganharam algum espaço nas décadas de 1940 e 1950. Funcionavam, mas um fio muito fino e muito comprido tinha uma habilidade especial para virar um novelo infernal. A fita magnética manteria o princípio e melhoraria bastante a convivência com o usuário.
As boas e velhas fitas de rolo
Em 1928, Fritz Pfleumer desenvolveu uma fita com material magnético aplicado sobre papel e, depois, sobre filme. Em 1935, AEG e BASF apresentaram na Alemanha o Magnetophon e uma fita de melhor qualidade. Após a Segunda Guerra Mundial, a tecnologia alemã chegou aos Estados Unidos e foi aperfeiçoada por empresas como a Ampex.
Em 1948, os gravadores de fita de alta qualidade começaram a transformar o rádio e os estúdios. Bing Crosby teve papel importante nessa adoção: queria gravar seu programa antecipadamente em vez de fazê-lo sempre ao vivo. A fita oferecia boa qualidade e uma vantagem quase revolucionária: podia ser editada.
“Editar”, naquele caso, significava localizar o trecho, cortar fisicamente a fita com uma lâmina e colar as pontas. Hoje reclamamos quando precisamos dar dois cliques no REAPER. Naquela época, um corte errado não aceitava Ctrl+Z.
A fita também tornou muito mais viável a gravação em várias pistas. Voz, instrumentos e efeitos podiam ser registrados separadamente, combinados, copiados e processados. O estúdio deixou de ser apenas um local que documentava uma apresentação e virou parte do próprio processo criativo. Há uma boa síntese dessa evolução no texto “Magnetic Tape”, da Engineering and Technology History Wiki.
A fita cassete — sem acento e com duas chances de enroscar
Sim: em português, escreve-se cassete, sem acento. A palavra parece pedir um “casséte”, mas o dicionário e a sílaba tônica não autorizaram a instalação desse plugin.
Em agosto de 1963, a Philips apresentou o Compact Cassette numa feira de eletrônicos em Berlim. A própria Philips guarda o registro do primeiro gravador cassete.
Dois pequenos carretéis e a fita inteira ficavam protegidos dentro de uma caixa plástica. Não era mais necessário tocar diretamente na fita de rolo nem passá-la manualmente pelo caminho das cabeças. Colocava-se o cassete, apertava-se play ou record e pronto — até o dia em que o aparelho decidia almoçar a fita e obrigava o proprietário a realizar uma cirurgia com caneta Bic.
No começo, a qualidade era mais adequada à voz e ao ditado do que à música. Melhorias nas fitas, nas cabeças e nos sistemas de redução de ruído, como o Dolby, tornaram o cassete um formato musical respeitável. Ele invadiu casas, carros, rádios-gravadores, secretárias eletrônicas e gravadores portáteis.
Também democratizou a gravação pessoal. Era possível registrar uma entrevista, uma aula, uma música, um programa de rádio, mandar uma “carta falada” ou montar aquela coletânea caprichada para alguém. Muito antes das playlists compartilhadas, existia a fita gravada com seleção de músicas e, às vezes, locução entre elas.
O Walkman, lançado pela Sony em 1979 e popularizado a partir de 1980, libertou a reprodução da tomada e do aparelho doméstico. Mas os gravadores portáteis fizeram algo talvez ainda mais interessante: libertaram também a memória sonora. A “fonografia” podia ser feita em qualquer lugar.
DAT: uma fita pequena com números dentro
Na década de 1980, o áudio digital já estava chegando ao consumidor pelo CD, mas a gravação doméstica e profissional ainda precisava de um meio regravável. Em 1987, a Sony lançou o DAT, sigla de Digital Audio Tape.
O DAT usava uma fita magnética pequena, parecida com uma miniatura da cassete, mas guardava dados digitais. Em vez de registrar continuamente o formato da onda como magnetização analógica, armazenava números. O sistema oferecia gravação PCM com qualidade muito alta e encontrou lugar em estúdios, emissoras, gravações de campo e produção profissional.
A linha histórica de produtos da Sony registra o gravador DAT doméstico DTC-1000ES em 1987. O formato, porém, nunca dominou a sala de casa como a velha cassete. Equipamentos e fitas eram caros, havia preocupações da indústria com cópias digitais e, pouco depois, outras tecnologias começaram a disputar a mesma função.
Mesmo assim, durante anos, “gravei em DAT” foi quase um carimbo de respeitabilidade sonora.
Afinal, o que muda quando o áudio vira digital?
No áudio analógico, a variação física gravada no sulco ou na fita procura acompanhar continuamente a forma da onda sonora. No digital, essa onda é medida muitas vezes por segundo e cada medida recebe um valor numérico.
A quantidade de medições por segundo é a taxa de amostragem. Um CD usa 44.100 amostras por segundo, ou 44,1 kHz. A quantidade de bits usada para representar cada amostra ajuda a determinar a resolução e a faixa dinâmica. O CD usa 16 bits; gravações profissionais passaram a usar muito 24 bits e, mais recentemente, apareceram gravadores em 32-bit float.
PCM significa Pulse Code Modulation e é a forma básica de representar essas amostras numericamente. É importante notar que “digital” não significa automaticamente “comprimido”. Um WAV PCM pode guardar o áudio sem compressão; um FLAC comprime sem jogar informação fora; um MP3 reduz muito o arquivo descartando informações consideradas menos perceptíveis ao ouvido.
Experimentos com gravação digital de áudio surgiram nas décadas de 1960 e 1970. No Japão, sistemas PCM chegaram às primeiras gravações comerciais no começo dos anos 1970. Nos Estados Unidos, a Soundstream concluiu em 1976 um gravador digital de duas pistas, 16 bits e 37,5 kHz, além de desenvolver um dos primeiros sistemas de edição de áudio por computador. A história está detalhada no artigo “Soundstream: The Introduction of Commercial Digital Recording in the United States”.
Esses primeiros sistemas estavam longe de caber no bolso. Muitas vezes, o áudio PCM era transformado em sinal de vídeo e registrado em grandes gravadores de videotape. Era digital, sim, mas ainda dependia de uma fita e de um equipamento que não seria carregado alegremente para gravar o barulho da chuva na esquina.
CD, MiniDisc, memória interna e cartão
O Compact Disc, desenvolvido em conjunto por Philips e Sony, chegou ao mercado japonês no fim de 1982 e à Europa em 1983. O acervo histórico da Philips registra esse lançamento. O CD não foi o primeiro áudio digital, mas foi o formato que apresentou o digital a milhões de pessoas: acesso direto às faixas, ausência de chiado de fita e nenhuma agulha encostada no disco.
Para gravar, porém, o CD-R ainda demoraria a ficar barato e prático. Em 1992, a Sony lançou o MiniDisc, um pequeno disco magneto-óptico regravável dentro de um cartucho. O primeiro gravador portátil MZ-1 já permitia gravar, apagar, dividir e reorganizar faixas sem cortar fita alguma.
O MiniDisc não substituiu mundialmente a cassete nem o CD, mas conquistou músicos, jornalistas, rádios e gente apaixonada por gravadores. Ele representou muito bem uma fase de transição: ainda havia um objeto físico removível, mas o conteúdo já era digital e editável.
Na década de 1990, surgiram também gravadores de voz com circuitos de memória, os chamados IC recorders. No início, eram voltados principalmente a ditado: pouco espaço, áudio comprimido e qualidade modesta. Com o crescimento da memória flash e dos cartões removíveis, os aparelhos ganharam estéreo, WAV PCM, microfones melhores, USB e taxas de 24 bits por 96 kHz.
A fronteira entre “gravador de voz” e “gravador profissional portátil” começou a desaparecer. Em 2006, o Zoom H4 reuniu microfones estéreo XY, entradas XLR/TRS, gravação em quatro pistas e armazenamento em cartão num aparelho de uma mão. A própria Zoom conta essa história em “The History of Zoom Handy Recorders”.
Depois vieram aparelhos cada vez menores, com baterias mais duradouras, cartões enormes e qualidade que os grandes sistemas antigos nem sonhavam oferecer naquele tamanho. Um gravador como o Olympus DM-720 já une voz, música, WAV, MP3, WMA, memória interna e microSD e ainda fala os menús… E um aparelho atual como o Zoom H1essential grava em WAV 32-bit float e também fala seus menus.
Muitos devem lembrar Desse post aqui, onde demonstro num vídeo, na prática, o Olympus DM-720, e em breve, farei um demonstrando o h1essential.
Essa última parte tem um significado especial para mim. A série Essential da Zoom foi projetada com orientação falada para pessoas cegas ou com baixa visão. Pela primeira vez, não se trata apenas de decorar uma sequência de botões ou depender de alguém para configurar o aparelho: o próprio gravador descreve os menus.
O 32-bit float também oferece uma margem enorme para recuperar depois, na edição, sons muito baixos ou picos muito altos. Não é magia e não salva microfone ruim, vento, manuseio ou pré-amplificador estourado, mas reduz bastante o velho pesadelo de errar o nível. O manual do H1essential explica as vantagens do formato.
Quando o gravador entrou no computador
O computador não apenas recebeu o áudio digital: virou gravador, editor, mesa, processador, arquivo e estúdio inteiro.
Nos primeiros PCs, som digitalizado era luxo. As máquinas faziam bipes e, com placas como AdLib e Sound Blaster, passaram a sintetizar música e tocar amostras. A Sound Blaster também popularizou o formato VOC, da Creative. Arquivos .voc guardavam fala, efeitos e outros sons de muitos jogos e programas do DOS. O guia de programação da Sound Blaster descreve a estrutura do Creative Voice File.
Quem viveu aquela fase talvez se lembre de um arquivo dizendo “Sound Blaster” com uma qualidade que hoje faria qualquer editor procurar desesperadamente o botão de redução de ruído. Mas aquilo era o PC finalmente aprendendo a falar de verdade.
Logo surgiu uma verdadeira fauna de formatos:
- AU ou SND: muito associado a sistemas Sun e NeXT e aos primeiros tempos do áudio na internet;
- AIFF: criado pela Apple no fim da década de 1980, muito usado no ambiente Macintosh e na produção profissional;
- WAV: desenvolvido por Microsoft e IBM sobre o contêiner RIFF e documentado em 1991. Tornou-se o grande formato de áudio do Windows. Normalmente guarda PCM sem perdas, embora o contêiner possa receber outras codificações. A Biblioteca do Congresso dos EUA mantém uma descrição técnica do WAVE;
- RealAudio e RealMedia, ou RA e RM: símbolos da internet discada. Sacrificavam qualidade para transmitir áudio em conexões lentas. Às vezes a voz parecia estar falando de dentro de uma lata localizada noutra dimensão, mas tocava sem baixar o arquivo inteiro, o que na época era quase bruxaria. A Biblioteca do Congresso dos EUA explica a confusão entre as extensões RA, RM e RAM;
- MP3: parte do padrão MPEG de áudio, consolidado no começo da década de 1990. Usa compressão perceptual com perdas e consegue arquivos muito menores que o PCM. Um MP3 de 128 kbps pode ter aproximadamente um onze avos do tamanho de um áudio PCM com parâmetros de CD. Foi decisivo para downloads, música portátil, compartilhamento e streaming. A história e a técnica estão na descrição do MP3 mantida pela Biblioteca do Congresso dos EUA;
- WMA, AAC e outros formatos com perdas: cada um tentou melhorar eficiência, qualidade, integração com aparelhos ou controle de direitos. O AAC acabou muito presente em celulares, vídeo, lojas e serviços de streaming;
- Ogg Vorbis: alternativa aberta para distribuição e transmissão de áudio comprimido. A Biblioteca do Congresso dos EUA descreve o formato Ogg Vorbis;
- FLAC: comprime sem perdas. O arquivo fica menor que o WAV, mas, ao ser decodificado, recupera os mesmos dados de áudio. É ótimo para coleção, distribuição em alta qualidade e arquivamento quando a economia de espaço importa;
- MIDI: merece uma explicação à parte. Na maioria dos casos, MIDI não é uma gravação do som. É uma sequência de instruções: qual nota tocar, quando, com que intensidade e usando qual instrumento. É mais parecido com uma partitura eletrônica do que com uma fita. Por isso o mesmo arquivo podia soar bonito numa placa e como uma orquestra de campainhas quebradas em outra.
Também é importante distinguir formato de trabalho de formato de entrega. Para gravar, editar, mixar e preservar, WAV PCM ou outro formato sem perdas costuma ser a escolha mais segura. Para publicar, enviar ou transmitir, MP3, AAC, Opus e semelhantes economizam espaço e banda. Converter um MP3 para WAV não devolve o que a compressão já descartou; apenas cria um arquivo maior contendo o mesmo áudio já reduzido. É como ampliar uma fotografia pequena: aumenta o papel, não os detalhes originais.
Para preservação, a recomendação histórica é evitar compressão com perdas. A União Europeia de Radiodifusão recomenda PCM para arquivos de áudio, e a Biblioteca do Congresso dos EUA usa Broadcast WAVE como formato preferido em diversos trabalhos de preservação.
Do corte com lâmina ao Ctrl+Z
À medida que discos rígidos ficaram maiores e processadores mais rápidos, o computador assumiu também a edição multipista. A onda passou a aparecer na tela; trechos podiam ser copiados, movidos, processados e desfeitos sem cortar o suporte original.
Nasceram e evoluíram as DAWs, sigla para Digital Audio Workstation. Pro Tools, Cubase, Logic, Sound Forge, Cool Edit — depois Adobe Audition — e muitos outros transformaram o estúdio. Hoje, no REAPER, que é o que uso, posso gravar várias pistas, editar, aplicar efeitos, automatizar, mixar e renderizar o resultado num único computador.
O princípio, porém, continua reconhecível. Há uma entrada, alguma coisa transforma o som em sinal, esse sinal é registrado e depois reproduzido. A grande diferença é que aquilo que já exigiu uma corneta, um cilindro, uma agulha e uma manivela agora pode ser uma interface USB e um arquivo no SSD.
O suporte muda; a vontade de guardar continua
Existe uma ironia nessa história: quase todo novo formato foi anunciado como mais durável, prático ou definitivo, e quase todos acabaram ameaçados pela deterioração ou pela falta de aparelhos.
A cera quebra e mofa. A goma-laca se parte. O vinil risca. A fita perde material magnético, estica ou gruda. O DAT depende de mecanismos delicados. CDs podem degradar. Cartões falham. HDs morrem. Formatos de arquivo ficam sem programas compatíveis. A nuvem também não é um passe livre para Setealém onde os dados vivem eternamente.
Por isso uma gravação importante precisa de mais de uma cópia, em mais de um lugar, e às vezes precisa migrar de suporte. Preservar áudio não é guardar e esquecer; é verificar, copiar e manter a possibilidade de reprodução.
Talvez essa seja a ligação mais bonita entre o fonoautógrafo de 1860 e um gravador digital atual. Scott de Martinville desenhou uma voz que seu próprio século não conseguia ouvir. Nós gravamos em cartões e computadores que um século futuro talvez também não consiga abrir sem algum trabalho arqueológico.
Mas continuamos gravando porque o som carrega uma presença que o texto e a imagem não substituem. Uma voz antiga traz respiração, ritmo, sotaque, hesitação e emoção. O barulho de um lugar reconstrói um ambiente inteiro. Uma música registra não apenas notas, mas uma execução que nunca se repetirá exatamente da mesma forma.
Cada gravação é uma pequena cápsula do tempo. Algumas vêm num cilindro de cera; outras, numa fita cassete; outras, num WAV de 32-bit float perdido no meio de uma arquivaíada. Todas tentam fazer a mesma coisa: impedir que um instante sonoro desapareça para sempre.
É por isso que gosto tanto dessas “fonografias”. Elas não mostram como um momento parecia. Elas deixam o momento falar.
Um abraço e espero que tenham gostado dessa “primeira viagem”, por que em breve virei com outra contando histórias dos “grandes artistas das grandes épocas” de evolução “fonográfica”!…
Fernando
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